15.1.12

HYBRIS e METRUM- as dimensões do bem viver




Jung dizia, que o grande mito contemporâneo é o modo como a vida busca se tornar consciente de si mesma, e que estamos num momento onde Psychê se expande pelo desenvolvimento da consciência.

Desde sempre, viver parece ser um exercício de consciência , embora , se pensarmos usando a idéia de complexidade atual , à força do inconsciente e a ordem dos acontecimentos , sempre a  colocaram numa faixa estreita de alcance , em se tratando claro, de um tipo de consciência mais reflexa e com pouca emancipação do mundo.

Poderíamos dizer, que o estar consciente que brota da faixa correlata de consciência , tem a função , enquanto instrumento de poder do Ego , de assegurar dentre tantas vertentes , a da segurança , o sentido da preservação da vida , nosso patrimônio mais prestigiado.

Mas, se a vida porventura, tem algum sentido de desenvolvimento  além de sua preservação, sabemos também que somos criaturas, cuja constituição possue forças que nos impelem desde dentro , e que nos faz buscar no mundo o que nos convém .

Hybris e metrum falam disso , dois tempos do desejo , onde por um lado pagamos o preço de o colocarmos acima do moderado ,e por outro , onde a moderação pode fazer subsumir às intensidades , principalmente das paixões.

Movidos pelo desejo e, logo, o gozo do seu objeto , como levar em conta o jogo de coordenadas que sinalizavam o perigo das exaltações ?

Vejam a definição de Hybris  : "húbris ou hybris (em grego ὕϐρις, "hýbris") é um conceito grego que pode ser traduzido como "tudo que passa da medida; descomedimento" e que atualmente alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou insolência (originalmente contra os deuses), que com frequência termina sendo punida. Na Antiga Grécia, aludia a um desprezo temerário pelo espaço pessoal alheio, unido à falta de controle sobre os próprios impulsos, sendo um sentimento violento inspirado pelas paixões exageradas, consideradas doenças pelo seu caráter irracional e desequilibrado, e concretamente por Até (a fúria ou o orgulho). Opõe-se à sofrósina, a virtude da prudência, do bom senso e do comedimento.

Aqui vemos que o sentido de algo que se exalta contrariando algum tipo de norma , ou de  regra invisível , ou mesmo uma não consideração pelo que não se deve ultrapassar, às custas de algum tipo de punição , que segundo os gregos era o modo como os deuses, agiam com os exaltados ou desequilibrados .

O compasso , a marcação era dado por metrum , ou seja, " A concepção da húbris como infração determina a moral grega como uma moral da mesura, a moderação e a sobriedade, obedecendo o provérbio pan metron, que significa literalmente 'à medida de todas as coisas', ou melhor ainda 'nunca demais' ou 'sempre bem'.

Podemos então ver aqui, que as polaridades , tal como para os chineses de outrora, clamam por certo equilíbrio , tal como na Lei relativa ao interconsumo o Yin e do Yang, que em caso de exarcebação de um , consome o outro , causando prejuízo .

Notório observar, que a exaltação da polaridade é o efeito da paixão , considerada uma desmesura , uma intensificação arrogante onde o metrum é ultrajado , um tipo de não querer saber , um ir e pronto , uma desrazão em nome do desejo , uma renegação de qualquer medida que estabeleça algum tipo de alfândega territorial .

Contudo, se por um lado, isso pode nos induzir a leitura da moral , por outro , parece uma deontologia , a saber " : \l

Deontologia (do grego δέον, translit. deon "dever, obrigação" + λόγος, logos, "ciência"), na filosofia moral contemporânea, é uma das teorias normativas segundo as quais as escolhas são moralmente necessárias, proibidas ou permitidas. Portanto inclui-se entre as teorias morais que orientam nossas escolhas sobre o que deve ser feito..

A deontologia em Kant fundamenta-se em dois conceitos que lhe dão sustentação: a razão prática e a liberdade. Agir por dever é o modo de conferir à ação o valor moral; por sua vez, a perfeição moral só pode ser atingida por uma vontade livre. O imperativo categórico no domínio da moralidade é a forma racional do "dever-ser", determinando a vontade submetida à obrigação. O predicado "obrigatório" da perspectiva deontológica, designa na visão moral o "respeito de si".

Observamos então que estamos submetidos a uma ordem moral que estabelece os valores do como-deve-ser , um fundamento imperativo racional, que visa estabelecer uma primazia , ou um tipo de soberania da razão , para nos garantir um metrum , uma medida , que nos eleve ao estatuto moral  dessa ordem.

Mas por outro lado , se na filosofia chinesa ancestral, o Yin e o Yang não podem existir um sem o outro , o metrum , enquanto medida da moderação ou do equilíbrio , poderia correr o risco de se tornar uma masmorra repetitiva sem a hybris , nosso direito de ir e vir , nossa condição primordial de aprendizagem , daí a liberdade Kantiana .

Coloca-se aqui que as moderações são correlatas também ao nível da consciência , principalmente , onde o movimento pulsional das energias da vida, atiçam os desejos e devolvem os prazeres no nível imediato , equação cuja civilidade com todo seu esforço, ainda peca por resolver .

O homem grego, a grosso modo, era um homem culto , em cuja cultura residiam propostas que equacionavam a relação com os deuses e lhe davam precedência , de tal forma que o destino enquanto " moira " era intocável , não só pelos homens , como também pelo próprios deuses .

Se não tinham o mito do pecado , nem por isso dispensavam a "admoestação" no campo do viver , e só se interessavam pelos heróis , os dotados de coragem e valentia das virtudes , tendo figuração de seus ideais no homem virtuoso , não no homem comum , ignorante demais para o campo das nobrezas do espírito.

Acontece que no contexto de uma massa crítica culta e nobre , o prazer pode ascender ao nível das matérias transcedentais e dispensar seus rigores imediatos , já que nesse caso , o Logos , o Saber é o próprio deleite .

Mas e o homem comum ?

Quando a histeria dispontou em na Europa no final do século XIX , o aparato médico foi acionado por estar em jogo protagonistas de classes nobres , classes que supostamente deveria ter com o metrum , uma relação mais estabelecida , já que a ordem social parece encontrar aí seus triunfos principais, tanto do ponto de vista cultural , como financeiro .

No entanto , o que se viu é que com toda gama de fetiches oferecidas pelo poder , a ascese das moderações é uma questão que não se contém por fronteiras do social , o que poderia nos oferecer um novo olhar sobre a condição do humano .

A hybris ao nos mostrar o mundo dos excessos e das exaltações, nos fala do perigo do muito, mas também não nos propõe o pouco , já que a vida moderada , enquanto a vida do sábio , é uma vida de quem já andou e muito , que já caiu e aprendeu a se levantar , de quem já morreu e aprendeu a renascer , é a vida de alguém que já avista a síntese depois do luto, como quem já não precisa estar tanto .

Corre-se o risco, de por medo, confundirmos a moderação com os modos repressivos e nos acovardarmos , levando Nietzsche a nos considerar como"fracos e ressentidos", e ao mesmo tempo perdermos o direito de errar , condição sine-qua-non , para um aprendizado com verdade .

A pasteurização da vida não interessava aos gregos , uma vidinha sem brilho e sem esplendor, sequer é digna de cogitação filosófica , o que nos leva a ter que convir que o metrum é algo forte e vivo e não uma medida blasê, opressiva e chata , embora para Freud toda questão do mal-estar esteja justamente aí.

Da mesma forma como a coletividade é um axioma do metrum , o desejo é da hybris , e esta tensão entre a singularidade e a normatização comum , é para Freud um lugar dissimétrico e irreconciliável , já que para o desejo a vida é muito e diferente , enquanto para o metrum é o como- deve- ser , o altar da consagração dos valores exponenciais onde o humano se legitima como tal .

Ao se tornar consciente de si , a vida nos obriga também a praticá-la no mesmo nível , como se o véu caísse aos poucos nos dando outras visibilidades e na medida em que avançamos tudo se reconfigura , talvez por isso , poderíamos perguntar qual seria a hybris do metrum , ou qual é o metrum da hybris , já que na filosofia chinesa , no símbolo do Tao , o Yin e o Yang já estão dentro um do outro , talvez da mesma forma como a loucura esteja na doença e vice -versa , um bom início para novas considerações.

Nietsche nos convidava a ir , a pagarmos o preço , mas morreu sózinho , não conseguimos tal nível de desprendimento , Zaratrusta é uma superação que pra nós parece demasiada , para nosso pouco humano .

Mas por outro lado não arriscar, não celebrar a vida é assinar o óbito da literalidade, onde o erótico se fez carne (Lacan), e nos cobra um preço amargo, de nos fazer ver na vida nada mais do que deveres e obrigações que não sabemos exatamente se queremos.

Os fetiches do mundo apenas distraem , mas são rápidos demais , a roda não , ela continua girando sempre e a cada dia , nos fazendo ter a estranha sensação de que tudo é o de sempre e se bobearmos , sempre o mesmo .

Podemos nos deprimir , uma hybris avessa , o entusiasmo ao contrário , a paixão pelo escuro opressor , uma recusa da vida pelo desencanto da celebração , ou podemos ficar frenéticos , hipertímicos, maníacos e também ter a sensação que rodamos em torno do vapor, fumaças de nada .

No entanto , como não celebrar a beleza , a alegria , a amizade , tão apreciada pelos gregos , a reprodução da vida , o gosto pelos filhos , pelos familiares ,enfim , um universo tão cheio de coisas boas e simples , que poderíamos convidar Zaratrusta a descer da montanha e tomar um bom café conosco , um papo informal e cheio de graça , o profundo com descontração , o que talvez tenha faltado  Nietzsche , sózinho demais , para um café a dois, lócus das belas amizades.

 Eta reflexão difícil , desculpem aí , mas não esmoreçam , leiam e comentem

Valeu mais uma vez
























Há ou não inveja do pênis?