14.7.11

OS ENCALHADOS



A imagem do vivo que encalha é impressionante , uma angústia do que foi interrompido , um movimento que sabe-se lá porque, empacou e nos desperta o desejo imediato de recomeçá-lo ou recolocar através de algum ato nobre à condição que possibilite retomá-lo .

Uma baleia , um golfinho , imagens comuns que nos frequentam têm um poder aglutinador espetacular , surge gente de todo lugar pra ajudar , um esforço comum pra que a criatura recupere seus movimentos e volte pro seu habitat , dando a nós o sentido de recuperação do fluxo, algo como a vida continua.

Uma alegria e um alívio que nem sabemos explicar exatamente , como que em algum nível do inconsciente nos identificássemos com cada etapa do processo , desde de seu sucumbir provisório, caso seja, até a liberação dos gestos , o vigor do estilo , a beleza das nadadeiras indo com disposição em direção ao mar .

É como se estivéssemos indo e soubéssemos aonde chegar e de repente , pronto , encalha-se, nem pra lá nem pra cá , um misto de impotência e aflição , uma imposição por falta de posição , que nos submete ao estranho , o que não foi convidado, e nos rouba o movimento, trazendo a angústia da incerteza , a imprecisão de nosso destino.

Encalha-se em qualquer praia , ou seja, na do amor , no dinheiro , nos propósitos , nos sonhos, enfim, aonde se quer chegar corre-se o risco de encalhar.

Mas se por um lado há o encalhe , por outro há o encalhado , à condição e a criatura , um misto alternado de limites e desafios , uma imprevisibilidade dos resultados, um interjogo onde busca-se remover o que impede e por outro sonha-se com a soltura do que estancou.

A questão maior é quando numa visada mais ampla nos damos conta que os encalhados são muitos , gente que nadou com esforço , gente que sonhou com o prometido , gente que quer pertencer , gente que quer amar , que quer casar , que quer trabalhar, gente que quer o seu lugar, gente que quer ser gente .

Num livro recém lançado sobre Bombaim , a cidade mais populosa do mundo, o autor mostra a revolta de uma juventude traída em seus ideais , que depois de receber toda educação formal com vistas ao mercado descobre que não há emprego pra todos , corroborando a tese de Jeremy Rifkin sobre uma sociedade sem empregos.

Por outro lado Boman em seus diversos livros sobre a modernidade líquida traduz de forma sensível,todas variações no campo do amor , principalmente, quando se trata das implicações que o amor suscita nos protagonistas quando se trata de se comprometer , o que trás a idéia de algo perene . Se não podemos descartá-lo, é melhor não se comprometer , um mecanismo que tem deixado na praia dos encalhes um monte de sonhos de casamento , um imenso desejo de pertencer à ordem de reprodução da vida.

Chora-se e angustia-se muito com a amarga impressão que o tempo passa e nada acontece de forma mais profunda , a vida presa histericamente no raso , a falta de identidade da dor que espera o acontecer e as ofertas esteréis que buscam disfarçá-la , sofre-se sem poder dizer porque , já que dores da alma são invisíveis.

E são invisíveis não porque não tenham nome, não , não é isso , e sim porque hoje é vergonhoso chorar pela alma , o lugar onde as permanências vivem e reinvidicam a dimensão do profundo,pois uma vez passado o pacto das histerias coletivas, busca-se o que é singular , o modo como as realizações fazem a vida valer a pena .

Mas diz uma cliente “ pra que falar de sentimentos , se isso pode ser uma arma contra você ?” , e isso tem se tornado um lugar tão comum num mundo violento e cheio de distâncias , que embora os sentimentos sejam o alimento de qualquer vínculo , foram relegados a uma categoria menor, inclusive, na Psicanálise.

Não há propostas no amor que possam prescindir do que se sente, o modo não elaborado e espontâneo que fazem que o convívio seja um lugar de espantos e descobertas mútuas , um alegrar-se juntos , a inocência que mesmo relegada , é a única forma que nos permite não fazer dele,do convívio, uma grande paranóia.

Não temos planejamentos sociais que nos de o alcance do que virá , gerações que chegam, renovam , pois trazem o novo , os ímpetos e o imenso desejo de aprender e conquistar, um sangue novo , o entusiasmo juvenil a ser trabalhado e esculpido em seus próprios termos, a renovação da própria vida.

Não, insistimos em ser velhos e viscosos , o osso é nosso e pronto . Típico raciocínio debilitado, pois ao perdermos o espiríto comunitário, deixamos de ver o futuro em quem nos sucede , a visão tosca e burra dos que não querem morrer em nada.

“O poder não se passa , toma-se” dizia Foulcalt, indicando que tudo nos fará guerrear , pois não se vive sem poder . Passar o poder para quem se prepara sempre foi o modo das sabedorias antigas , um ritual sábio e cheio de amor , pois os que recebiam se comprometiam a usá-lo em prol da comunidade , sua gente , sua tradição seu povo querido .

E sabia-se a hora de fazê-lo , pois tudo amadurece e não convém perder o tempo , senão estraga,algo como a fabricação do vinho , tempo da colheita , sumo propício a próxima etapa.

O que fazemos hoje? Um tipo” Deus dará” que só faz nos atormentar , um falange de gente encalhada em todos os níveis da vida , um povo orfão de oportunidades e de propósitos que tem custado alto aos governos e as políticas públicas , pois parados, custam muito mais,e uma enormidade de corações sedentos , buscando acasalamentos para serem fecundados e engravidados de amor sincero.

A vida é amor e trabalho dizia Freud , dois pilares imprecindíveis da dignidade da criatura humana, e manter essas condições, é possibilitar que a vida ofereça seu sentido maior, sua ordem de grandeza ,que se refaz a cada passo conquistado. É como se a cada avanço , novos desafios se apresentassem, nos dando o gosto pelas conquistas , “Eu sou minhas conquistas” dizia um amigo querido . Mas quando os desafios não apresentam suas relevâncias , e se pasteurizam ou se tornam desesperos , uma ameaça começa pairar , ou seja, ou paralizamos ou se atiramos de qualquer jeito, a figuração bipolar que marca o psiquismo moderno.

Queremos ser feliz , sem essa ficção ontológica, começamos a não saber o pra que, se não trabalhamos , se não amamos, o sentimento ontológico de mutilação começa a nos corroer , uma estranha carência de si e do outro , a falta do gosto de ser importante para alguma coisa que seja.

Deprimimos, o valor próprio é barateado como auto-estima de livro de auto-ajuda, sofremos da acidez de precisar e não conseguir pedir , uma tristeza profunda que nos abate a alma, como se nossos sonhos primordiais de realização, ficassem tão distantes e pálidos que temos medo de confessá-los.

Trabalhamos para construir e nos construímos pelo trabalho dizia Marx , e “uma vida sem amor é uma vida morta” ensinava Osho , ora uma visão que não tenha isto em conta é obsoleta e engendra um tipo de violência niilista, a violência do nada , do coisa nenhuma , o pertencer a inconsistência , uma falta de crédito no que se quer , um esvair-se do que se acredita.

Todo poder é uma direção para luz ou para sombra , um gesto que tem custado caro e muito arrependimentos, quando chega à consciência do que se poderia fazer para que tudo fosse maior e mais bonito, e se ficou preso num nível menor , o que não foi bom nem pra si, nem para os outros.

Os encalhados fazem apêlo e têm força , pedem chances e oportunidades para se incluírem, participarem e realizarem , denunciam um tipo de perversão coletiva , um sistema com critérios obsoletos com conceitos ultrapassados , que busca manter seu modo estabelecido , às custas dos que querem e precisam chegar.

A questão dos imigrantes , a xenofobia sacial , as supremacias étnicas , tem trazido tanta violência e tantas perdas , com dores tão indescritíveis , inclusive os genocídios , que talvez já estamos imersos num tipo de loucura assassina e auto-destrutiva , cujas medicações só estejam num tempo futuro da consciência .

É preciso abrir e oferecer com justiça e com amor , pois só assim teremos argumentos para contrapor a ordem sintomática, que tem produzindo sujeitos que tangenciam os vínculos sociais, por não se sentirem comprometidos com o cinismo que se tornou uma epidemia , a vida subjugada ao modo de desempenho , uma fábrica de artistas , cuja arte maior é mentir como se fosse verdade , a máscara como se fosse identidade.

O poder , em geral, tende a ser anacrônico e repetitivo, uma rede elaborada de acomodações e prestígios particulares , e se for protagonizado por gente coisinha fica crônico, e só produz atrasos,a condição para ignorância apaixonante , o sintoma como deslocamento da verdade,       a cegueira que nos permite tornar indiferente o que é maior.




















2.7.11

O PRIMEIRO FILHO

Filho
> “é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como
> amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos
> para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
>  Isso mesmo!
>  Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é
> se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar
> agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
>  Perder? Como?
>  Não é nosso, recordam-se?
>  Foi apenas um empréstimo!"
>
>                                                  José Saramago



Em geral , após passar algum tempo na ante-sala , tão providencial ao sentir e o conhecer, como aquele período em que o acasalamento mostra os sims e os nãos de cada um , e ao mesmo tempo usufrui-se de uma liberdade sui generis, pois agora a casa é nossa, a vida é nossa , sem mamãe e papai e vamos curtir que a hora também é nossa , vem o desejo de ter filho.
Aqui seguimos a rota usual , sabendo que outras rotas existem e todas abençoadas , onde o primeiro filho chega sem ter esse compasso ou esse consentimento gradual , pois descobre-se que se está grávida e pronto , o filho primeiro e o acasalamento depois.
Há primeiros filhos que são programados , outros não e de uma forma ou de outra segue-se a vida, e daí muitos casais se formam ou não .
As dinâmicas históricas não vem bem ao caso , já que cada situação é singular e levando-se em conta a natureza dos tempos modernos , diríamos que as modalidades de recepção são amplas e variadas , e a idéia de reprodução hoje, não obedece aos padrões regulares estabelecidos e como tudo nos confronta com aberturas que nos obrigam à buscar outros modos de concepção.
O casal chegado à um têrmo relacional ou a um tempo de nova inclusão decide então ter um filho, o primeiro , o que inaugura o núcleo familiar , o herdeiro , aquele que uma vez aqui, instaura o pertencimento num nível diferente , pois por princípio, filho é a própria figuração do para sempre.
É, sem que conscientemente vejamos assim , nossa inserção no grande mistério da vida , nossa "entrance" na ordem de reprodução , que tantas alegrias trarão e sofrimentos também,nossa iniciação nos níveis profundos , o elo inquebrável de vidas que se espelham e que terão que se diferenciar , um certo destino comum que muitos irão bem dizer ou amaldiçoar de acôrdo com seus alcances e limitações.
O casal, oferece então à vida, e não só biologicamente , mas um espaço a ser ocupado por alguém, que uma vez chegado nada mais será o mesmo, uma inclusão de prazo indeterminado.
O útero , este orgão espiritual abençoado ,a casa de todos nós, se prepara então para o grande processo alquímico de transformação , impelido pelo grande desejo da vida em se perpetuar e se aprimorar junto com todos seus seres , abre seus elásticos, se aquece para fornecer o calor tão necessário aos metabolismos incontáveis, que num sistema de trocas e estimulações mútuas consagram o substrato físico da beleza cósmica da Criação .
A matéria sabe de cór suas etapas , do embrião ao recém-nascido , uma bela cadência e encaixes tão impressionantes que não há como não se curvar à inteligência superior e cuidadosa , tão precisa nos detalhes e tão delicada na arte  biológica , que ao assistir à formação dos que chegam , nos regojizamos num tipo de prece profunda e de gratidão , um reconhecimento de nossa sujeição ao Absoluto .
É incrível observar como ao se reproduzir , além de todo espetáculo extraordinário que nenhuma ação humana parece capaz , somos convocados em níveis comoventes a relacionar que a mesma ordem que coordena suas fases e nos oferece o bebê como sua parte mais externa e como um belíssimo presente , é a mesma que nos construiu e nos trouxe, para sermos o que somos hoje.
Amparados pela força magnética do desejo dos pais , amparo amoroso a qualque processo biológico , nutriente fundamental que uma cultura materialista tem dificuldade de perceber,nascemos desde sempre no desejo da mãe , segundo a Psicanálise , desejo propulsor de recepção e de imantação calorosa , matriz de uma recepção que segundo alguns ,irá nos marcar para sempre. 
Há quem afirme que somos uma expressão ao nascimento, ao como fomos concebidos no desejo e celebrados no chegar , o entusiasmo da festa de chegada , o sentir em planos ainda não resolvidos conceitualmente , que somos importantes para alguém , que todo esforço feito para vir, valeu a pena.
Amor , ódio ou indiferença ,e embora não queiramos, é assim, nem todo filho nasce com festa e nem todo filho é fruto de amor . Pertencem à legião de criaturas que acrescidos de outros fatores serão refratários à ordenação social e às políticas de inclusão não poderão ser apenas mandatos de boas intenções.
 O casal então prepara-se para o grande fenômeno , cujo símbolo é a paciência de quem vai aprender a esperar , como diz Osho " a gravidez é o símbolo da paciência" ,e sem dúvida , uma paciência grávida , cheia de alteridade , um rosto imaginado , um encontro sentido energéticamente , mas um corpo por vir , uma forma encarnada que conjugará o sentido do dois no um.
Pai e mãe , uma dupla , uma união cheia de projetos e dúvidas , um aprender juntos , um pouco a cada dia , que começa no nome até devaneios particulares de como será o amanhã, será saudável? bonito? feio? enfim, interrogações ditas e não ditas , mas perfeitamente humanas , nosso posicionamento perante o que não podemos antecipar.
Já muitas coisas costumam acontecer durante essa espera e que funcionam como ajustes para o casal grávido , muda o corpo da mulher , alterações metabólicas podem ser bem sentidas ou não , provocando desejos e vômitos , sensibilidades se afinam ,enfim, um teste que promove exercícios conjugais , e vai revelando os modos de cada um .
O casal se conhece e se desconhece , se reapresentam um ao outro , pois até então o cenário era um , agora mudou, há o terceiro , arquétipo do ciúme , da possessividade , da exclusão e também da entrega , do ir além de si , uma profunda contribuição à ordem humana.
Ao nascer o bebê já encontra seus pais em outro nível , a mãe principalmente , pois após 9 meses muito já se ambientou e muita intimidade foi construída , desde a ultra-sonografia até os chutes e movimentos que emocionam, por se ter a certeza de que há alguém especial ali , tão esperado e desejado .
O casal já não é mais o mesmo , avançou e começam a ter uma noção mais intensa de que se precisam , pois a tarefa assumida é profunda e árdua , prazerosa e desgastante , revezamentos são bem vindos e se sabem perante alguém que veio para ficar e quer viver.
Acho indescritível esse segmento do tempo na vida do casal , muitas coisas que ali acontecem podem se sedimentar e vivificar muito as disposições para o viver juntos, mas podem também mostrar o quão difícil tudo poderá se tornar.
A princípio toda criatura humana é filho da mãe, é ela é que é, toda disponível arranja forças sabe-se lá aonde, em geral para lidar com um filho que pede tradução quase sempre , uma gramática que vai descobrindo aos poucos , uma sinalética a dois , onde o pai fica fora esperando ou para entrar ou pra sair rápido, à inclusão negociada que exaspera as mulheres.
O filho,esse primogênito , o herdeiro que recebe todos os motes e a virgindade dos pais, é o centro , tudo é engraçadinho , ah! as marcas que ficarão como lembranças e possíveis exigências posteriores, um lugar perdido e sempre reinvidicado , sua majestade , o primeiro.
Mas também é verdade que o primeiro é o desbravador , o que encontra aflições e medos a flor da pele , porque só se relaxa depois , em geral,no terceiro. É também chamado ao lugar do  exemplo, quando nascem os outros, e não raramente pode ser convocado a se tornar adulto precoce , o que oferece à infância como dispensa do trabalho dos pais .
Logo após a vinda dos irmãos , é o que será um tanto esquecido , ocupará um lugar do meio- sem –graça , será olhado pelos estudos , pela boa conduta , mas não mais pela graça , patrimônio que será passado ao caçula , aquele que saberá apelar para sua minoridade quando lhe convier.
A essa altura os pais já são completamente outros , felizes ou arrependidos , juntos ou separados, lá estão eles com sua troupe , a tarefa cósmica de educar , a escuta particular de quem é cada um, seu jeito , seu estilo, e o aprender o exercício de amar diferenciando à singularidade, a abertura da generosidade do coração para o que é ímpar em cada um.
Amor investido , nem sempre reconhecido, sombreado pelas dúvidas de quem tem o outro como responsabilidade, questões de dívidas e culpas onipresentes , mas uma convicção especial que com tudo e apesar de tudo , valeu a pena , pois também pode se ver o quanto se amadureceu , e o quanto sem isso,corre-se o risco de algo ficar mutilado na realização.
Lamentamos não ter mais o espírito da comunidade que nos ensinava a festejar coletivamente o nascimento de seus descendentes , pois eram parte do todo , e representavam toda tradição daquela comunidade . Cabia recebê-los e bem , seriam bem vindos para honrar o patrimônio comum e assumirem perante o futuro os valores consagrados daquela sabedoria ancestral.
Alguém muito importante nasceu , e isso importa a todos nós , pois o modo como cada um saiba ou não disso , decide parte de nosso destino comunitário. Se alguém nasce e não recebe importância, sente-se descomprometido e sem laços vinculativos , um fosso no encadeamento das pontes sociais.
Nascer é um ato profundo como morrer, nossa tarefa cósmica de amor, ajudar um ser a se construir, um substrato para lidar com todas as variações da vida , aquele mesmo filho que um dia esteve ali, bem ali dependente e solícito, vai se transformando de forma espetacular , rumo à emancipação , enfrentando o curso de seu destino e se tornando um protagonista da ordem humana , e é justo aí , que celebramos nossos investimentos.
Tudo que se quer é o Bem , mães e pais lutam por isso , que seus filhos devolvam o que receberam, qualificando os investimentos e se tornando um “ Homem de Bem”, uma pessoa digna, cheia de erros e disposta a acertar , alguém que hoje não precisa ser “doutor”, mas que não viva de lesar os outros .
Talvez, devessemos lembrar a muitos, que o que fazem hoje não foi o que aprenderam de seus pais, principalmente enganar o povo em benefício próprio.
PARABÉNS AOS PAIS E MÃES QUE TIVERAM AMOR E CORAGEM PARA COLOCAR FILHOS NESSE MUNDO , AONDE SE DIZ, EM MAIS ALTO TOM FILOSÓFICO, QUE “DEUS ESTÁ MORTO”.





19.6.11

O FEIJÃO COM ARROZ : UM CASO DE AMOR

Crônica de uma dupla bem-sucedida

"A elite cultural distanciou-se do resto de nós pelo gosto artístico seletivo e por critérios estritamente definidos-em clara oposição ao nosso gosto sem discernimento e caracterizado por flagrante oposição de critérios. Foi essa oposição que sustentou a divisão entre a "alta cultura" e a" baixa cultura" (popular ou de massas ) Pierre Bourdieu citado Boman em " 44 cartas do mundo líquido moderno".
Eis uma reflexão sobre como os símbolos da baixa cultura ( feijão com arroz) promovem uma militância subversiva e alça às mesas nobres , num tipo de socialismo generoso e com armas do requinte e do paladar.

O FEIJÃO COM ARROZ :
Na verdade não é uma mistura , não , de forma alguma .É dessas combinatórias onde a vida resolve se juntar e mostrar que dá certo,uma assertiva da atração .
Em geral , o feijão por baixo e o arroz por cima , sem dúvida mais elegante do que o feijão esparramado por cima , meio lambuzando o cenário .
O arroz sendo branco realça bem a superfície enquanto o feijão dá um tipo de vinil irregular ao fundo , ao mesmo tempo que assanha velhas reminiscências transgeracional e diga-se , tendo como senha do tempo, especialmente o tempêro .
O tempêro , a velha magia que sempre moveu o mundo, talvez porque em contraste com o de sempre, chamava à diferença e o aguçamento dos sentidos,o prazer oral , para muitos o único prazer dos Deuses , o prazer por excelência , já que começamos por ele e nunca mais saímos.
Ao serem colocados no prato garantem o substantivo , garantia do básico como alicerce , como se a arquitetura dos detalhes , só pudesse ter seu realce no depois , o requinte do a mais , sempre bem vindo , mas um tipo de agregado mais superficial , que abre a brecha para uma nova combinação.
Os agregados , saladas, proteínas como carnes em geral , as massas , ao mesmo tempo que representam uma identidade histórica , sofrem um tipo de sujeição particular quando há o feijão com arroz , que compassam o fundo , o gosto primário, onde o Brasil é terra.
Saboreia-se a terra de uma forma única , derivações do coito brasilis, onde o dois é a consagração da soma, pois , a idéia de ambos , eleva a um terceiro que só a boca entende , pois eis ali a passagem consolidada do líquido para o sólido , uma entrance na magia familiar.
Compete-se pelo melhor feijão , aquele que de fato é o falo , aquele que faz falar ," ah! que delícia" , a plenitude do preto em geral , aonde o branco numa inversão dos pré-conceitos faz a figuração coadjuvante , mas primordial , uma submissão consentida e humilde dos que servem para que outros brilhem.
O arroz é assim , embora tenha sua magia própria e um cardápio de requintes , aqui em nosso caso , é aquele que se empresta para ser consumado , o servo nem sempre citado , mas indispensável , a noiva deflorada a cada prato , onde os méritos são reconhecidos não pela sua oferta , mas pela performance do noivo.
Mas a combinação , que não é uma mistura , como parece a primeira vista , produz um encanto que passa a a ter com a fome uma relação diferente pois chega antes , ou seja, se constitue num tipo de figuração onde a fome é induzida apenas como acesso ao gozo.
Se come sem se comer , um ato sem determinação sólida , uma liçença virtual que o imaginário permite e concede a quem merece , e o feijão com arroz é assim , o um com outro, uma alteridade emancipada , um coito silencioso e com cheiro doméstico de família.
O feijão serve como marca emblemática de talento inesquecível , pois, saber-fazer feijão com tempêro e cheiroso , ah! leva o título campeão , e se inscreve no livro das façanhas culinárias.
Ah ! este é bom ! mas não é igual ao da minha mãe , ou da minha vó, ou da empregada, ou seja lá quem merecer o título , mas será esse feijão campeão que se estabelecerá como medida para os demais , num tipo diploma permanente e ao mesmo tempo de possíveis saudades acalentadas com recordações de cuidados e carinhos .
Lembro-me por exemplo , e esta parece ser uma questão para os fazedores de feijão , que o louro em folha de repente aparecia , como um tipo de intruso , bem vindo para uns, não para outros.Depois veio o em pó , o louro em pó, que alguns é uma heresia ,e também os têmperos industrializados que equalizaram a cozinha moderna com suas próprias fórmulas genéricas , já sem a alma dos segredos que sempre marcaram a arte culinária.
Essas mudanças aparentementes úteis , acompanham a transformação do tempo considerado hoje do ponto de vista prático , ou seja,não há tempo a perder , come-se o prático e dispensa-se as liturgias e ritualistícas das dedicações , uma perda que os restaurantes tentam aproveitar cobrando alto o preço do resgaste .
Os chamados acompanhamentos também entram numa certa relação de afinidades populares , e no nosso caso , por exemplo, o bife com batatas fritas , uma outra dobradinha muito apreciada que compõe um quarteto extremamente apreciado por muitos.
Feijão com arroz e bife com batatas fritas, minha nossa , aprende-se lá na infância e confirma-se o conceito de fixação , tão cara a Psicanálise , um prato duplamente cheio , tanto para os psi , como cheio para o desejo de que não acabe , que o prato esteja cheio mesmo.
O arremate final também é espetacular , pois guarda-se aquele pedaço final do bife com algumas batatas, caso de morte caso alguém chegue perto , é o fragmento final , guardado como símbolo do que falta para a completude , a satisfação do uno , a dimensão mítica de que não se precisa de mais nada , a experiência de satisfação revivida momentaneamente , o retorno do seio pleno.
Por outro lado não há comida que não passe pela energia dos que fazem , e mesmo em restaurantes observa-se o zelo de quem faz , pois parece que o alimento tem uma dimensão que só abre para além dele mesmo quando recebe algo do coração do feitor.
Está em jogo o alimentar, enquanto um gesto materno , um feminino cuidador , uma reverência solene que nos sugere em muitas ocasiões comer calados , como se a boca naquele momento fosse tomada de uma recepção única e concentrada , onde as palavras se recolhem para apreciar , um tipo de coro grego que sublinha o mais importante.
O jabá com girimun , também é uma outra dupla famosa , embora menos cotada, mas de grande prestígio , a carne seca com abóbora , uma combinação também de beleza , pois os secos se combinam com úmidos, assim como os queijos se combinam com goiabadas, numa conjugação que colorem à neutralidade da saliva e testificam que o desejo também é fruto do olhar.
Essas composições harmoniosas também nos levam aqueles lugares onde podemos sonhar com encaixes , suposições relacionais que quando se juntam tornam ainda melhor o depois, talvez mostrando que esse junto têm seus méritos aonde acrescentam e se destacam como unidade assimétrica.
E embora sejam básico e por muitas vezes sinônimo de povão , essas dobradinhas figuram o imaginário alimentício como despojamento , como simplicidade , como delícias, onde as classes sociais se encontram , talvez preconizando uma possibilidade dos cardápios, além do dinheiro, serem também uma mesa comum.
O feijão é o feijão , bem como o arroz , mas juntos destacam um momento que sózinhos não poderiam , e ao proporcionarem tamanho prazer se tornam inesquecíveis , um apêlo da boca quando se sente só.
Valeu.
Homenagem ao meu amigo Dr Wilson Soares Câmara, bom gourmet e apreciador de feijão com macarrão.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

5.6.11

O REINO DAS ÁGUAS

Grande mistério da vida e elemento constitutivo de tudo na matéria, ou quase tudo, a água é impressionante , pois seu valor é tanto, que ao leve indício de que vai faltar, a vida muda.
No nível literal é um acasalamento entre 2 moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio , um H2O, cuja força é tão intimidadora por dentro como por fora.
Por dentro, sustenta a umidade necessária ao movimento e se compõe com o sangue como catalizador de trocas e penetração, representando uma parcela ampla de constituição do corpo em formas variadas .
Por fora, é o encanto da vida , desde a calma do lago até as ondas gigantes que arrasam o que encontram pelo caminho . Sustenta primariamente a higiene da vida e tem a representação do modo como o sujo se transforma em limpo , sendo um tipo de parceira muda mas efetiva em grande parte das ações cotidianas.
Símbolo primordial do que há de flexível , pois é aquela que sabe se moldar , diz Lao tsé , o sábio anônimo do Tao te King , a água não impõe a forma , é o servo que acata o que é oferecido , e sabe como preencher .
Tem a força alquímica da transformação do sujo no limpo e, por isso, é tida como a que tem o poder de purificar , a passagem de nível, onde a clareza se consagra como esforço e merecimento .
Compõe de forma substancial tanto o corpo humano , como o do planeta , e faz repousar as fábulas de seu descanso de forma suspeita , ou seja, sua calma contém também o seu perigo .
Há sempre um monstro , um ser abissal , um estranho qualquer a habitá-la , como se suspeitássemos , que em sua imensidão há mistérios e seres inomináveis , a desafiar o imaginário de nosso destino e também de nossa origem.
É tanto um elemento íntimo e indispensável do cotidiano , como um lugar de pavor quando suas medidas e movimentos crescem demais , fazendo com que qualquer construção humana sólida , pareça um brinquedo descartável .
Na forma de onda,serve para beleza das dobras , um compasso preciso , onde a cadência exuberante do movimento, fascina o olhar , tanto pela grandeza, como pela estética irretocável, do como num jogo de segundos, o despejar , faz com que o seu ápice se transforme em espumas , um branco associado ao que o sorriso tem de melhor e refrescante.
Um surfista tem na onda seu templo , sua religiosidade precisa , sua reverência profunda e atenta , a força toda de um alerta total , uma interação por dentro , uma diferença no limiar, pois, enquanto uma conjunção, é como um coito uterino , uma inter-penetração que reverencia os limites, e extrapola qualquer contorno .
Nos dá o sentido do boiar , a entrega ao Todo , um modo de relaxamento de ossos e músculos , de matéria e espiríto , um gozo pleno e momentâneo do Ser , puro e simplesmente . Um gozo ,da sensação plena de que tudo está aqui , nada lá e nada a ser procurado , um encontro que dispensa a falta , eterna lembrança do que não se tem.
Momento mágico, que nos dispensa da obrigação do eu , do tu , ou de todos , e nos lança no lugar vazio de uma mente sem pretensões e sem ter aonde chegar , pois não se trata de nenhum endereço prévio.
A água nos convida a não prender , sua natureza é de chegar , ocupar e de ir , num fluxo constante de permutas e configurações caleidoscópicas , que desafia nosso modo estabelecido de estancar, para ver melhor.
Nos convoca também a um outro exercício de sensitivizar , de permitir sincronicidades sem causalidades , onde o eu se recolhe e se admira , como testemunha especial de uma obra, cuja arte , somos nós mesmos.
Bachelard , faz seu estudo sobre o fogo da vela , momento íntimo de recolhimento , uma luz tendo a penumbra como fundo, já a água parece não pertencer ao particular exatamente , sua figuração nos leva ao que só se contém provisoriamente , ao que é livre de dogmas , modelos, nos convidando ao fluxo .
E pensar a vida em fluxo é extraordinário . Dispensa-se, como condição do conhecer, o prender para ver ,e aprende-se a ver estando junto , a penetração na alma do que existe , sem invadir , o âmago que o sutil só revela aos que respeitam esta condição.
A limpeza , esse capítulo especial , é uma ato místico de reverência , um reconhecimento do que é sujo e precisa mudar , por ferir a higiene comum. Quem suja , vai limpar, diz o provérbio .É também o modo referido de uma ascese , o que dá o brilho , o brilho da compleição , estampada no rosto e reflexo direto do coração .
Numa cultura onde a mentira é lugar comum , o sujo ao prevalecer , torna a limpeza um trabalho de sempre e uma paranóia mental e jurídica , pois se teme, o que o limpo pode mostrar . Viver limpo, não tem a conotação de se viver de acordo com a lei , mas de acordo com a Verdade , mesmo que não- Toda, como diz Lacan.
Por outro lado , a Água da Vida é maravilhosa e muitos Mestres ensinam isto , principalmente Jesus , o chamado Mestre dos Vivos , nos evangelhos gnósticos , abolidos pela Igreja de Roma, é a ressurreição , a segunda vez passada a limpo .
É a água que rega a vida espiritual , que faz brotar o bem no coração dos homens , o desejo de suas virtudes , o amolecer da animalidade , do grotesco , do que se mostra duro e precisa amolecer . A água , em sua paciência não teme a pedra dura, pois aprende a dar sua importância e agradece a possibilidade de exercitar seus poderes discretos ,sem alardes .
A soberania é dos que têm flexibilidade , são os que podem esperar , mesmo sem fazer concessões , como observava Freud.
Lubrificações favorecem às articulações , e saber articular é sabedoria , é o elo fora da cadeia , pois não repete, e arremete à novas sucessões de uma ordem que ainda não vige no senso comum.
Quando o homem chega e conceitua, percebe que a água já esteve lá , uma vanguarda serviçal de quem ajuda abrir caminhos e indica possibilidades.
Mas nem sempre é assim e não convém desafiá-la , pois pode enfurecer-se, e aí nada pior.
Humilde como serva, pode se tornar assassina impiedosa e cruel , é seu outro lado , nós é que decidimos com qual deles queremos conviver. Provocada , é imbatível .
Os mitos falam de destruições pela água desde a Lemúria , populações inteiras dizimadas , é seu furor incontido , que já vimos em ação nas Tsunamis . O quanto isso tem haver com as ações do homem é o que se estuda .Embora, as visões mais atuais tendem a nos pensar, enquanto campo de níveis escalonados de complexidades, mas de forma interpenetrável.
Isso quer dizer que nesta teia da vida tudo tem haver com tudo , uma forma bela de nos inserir no Todo e nos convidar à participar de tudo , um pleno exercício de abertura para novas inclusões , já que a àgua reconhece o terreno correndo e interagindo com ele.
Há um ponto curioso, pois mesmo com toda globalidade , com tudo sendo mostrado , a vida cotidiana ainda se prende aos mesmos referenciais , uma vida um tanto umbilical que nos torna dormente ou desesperados . É como nos faltasse o gosto pelas questões maiores , o gosto que faz a diferença de figuração da água operacional na torneira da pia , e o oceano vivo, casa de muitos seres e de deslizamento do olhar pela imensidão , o gozo do desafio do desconhecido , pontuado pela linha do horizonte.
A água está aqui , está ali, está lá e acolá , uma onipresença líquida de um líquido que representa a seiva da vida , a divindade dócil e mortal submetida aos sentidos do corpo,e ao mesmo tempo, a expansão desafiadora de qualquer conceito , de qualquer representação,pois em sua essência, afirma a liberdade , o que se move , o que adoece quando estagna , o Real que nos lembra o pertencimento à força superior da vida.
A água vem do Céu e corre na Terra , penetra e retorna como vida e sobe novamente , tendo em si, o espírito da conexão interdimensional , o passado que registra em suas memórias , o presente em tudo que brota e o futuro enquanto potência pura do "devir deleuziano", enquanto doação do Maior ao menor , para que viva o gozo do triunfo da vida em sua expansão.
Lugar de origem , encarna o dom do início , mas é o alfa e o ômega , o princípio e o fim , o Orubórus das serpentes que se entrelaçam , se olham e não se tocam , nem nas caudas e nem nas cabeças , o extâse do que há para se viver e descobrir.
Que a água possa ser a cada dia nossa prece de amor e flexiblidade , nossa reverência ao fluxo , nossa inserção consciente e móvel , nosso estreitamento consentido quando for o caso , e nossa expansão corajosa , enquanto filhos da liberdade e do eterno, com o coração bem limpinho e cheio de virgindades não -vinculadas.
Valeu amigos.
 
 
 
 
 
 
 
 

26.5.11

GENTE COISINHA

Já ouviram falar de gente coisinha?
Mas de pronto, arrisco que gente coisinha, tem tendência para o menor.
Embora mais popular, do que reconhecida ou nomeada ,o sucesso das tipologias é que com pouco , você identifica.
O chato, por exemplo , mal você vê e imediatamente teu metabolismo muda e você se esquiva , às vezes de forma sutil ,e às vezes afrontosamente.
O pernóstico , aquele pentelho que se acha , sempre a procura de palco e platéia , um saco e você já entra numa de competir mesmo não querendo , ou querendo, e é mexido nas inferioridades e superioridades narcísicas.
Estes são apenas dois exemplos , mas vamos falar de gente coisinha .
O que é gente coisinha?
Como o próprio nome indica é aquela gente que tudo diminui , que tudo tem defeito , que tudo nunca tá bom, é aquela criatura menor e que não saca isto , e que fica tentando te convencer à entrar na dela .
Entram nas situações pela porta dos fundos e de imediato buscam o defeito , o que criticar , o que mal-dizer . Por vezes, parecem ter o que dizer ,e quando em geral têm um pouco de cultura, de certa forma um tanto anã , ficam tentando enfiar o mundo ali de qualquer jeito, o que lhes obriga à criar opiniões intocáveis e de arrogâncias particulares.
Adoram cumplicidades e às amizades se referem a um tipo de conluio por aprovação, onde a regra é concordar, o que torna estas criaturas pobres no convívio, pois impõem uma suspensão da crítica , no intuito de não serem criticados pelos seus modos mesquinhos.
Parecem sensitivos dos defeitos alheios e completamente cegos em relação aos próprios e independentemente de raça, credo, cultura habitam o mundo mental em todos os níveis sociais , não havendo desigualdes hierárquicas.
A grandeza da vida parece invejada e os outros também , pois se sentem denunciados facilmente por qualquer coisa , ato ou situação que mostrem o quanto lhes falta identidade com o maior, por isso vivem oprimidos pela insegurança de seu próprio valor.
Não perdem a oportunidade de faturar em cima de quem quer que seja , não importando aqui o constrangimento do outro , sempre coadjuvante para uma boa cena.
Mas o que talvez caracteriza mais o coisinha, é que sem escuta mais apurada ,e sem comprometimento pessoal , se autoriza a blefar sem grandes escrúpulos , pois a verdade só é importante como versão de suas razões , enfim, uma subversão das máscaras , a caricatura do que nunca foi e nem poderá ser.
Eis aqui o sofrimento irrecusável, pois como não há conquista que possa ser mostrada, o coisinha se transforma num personagem de seus próprios enredos fantasiosos , em que por uma lado lhe induz ao temor de ser denunciado e por outro lhe seduz um brilho que não tem pois não conquistou.
É ôco e de difícil penetração , pois, se deixar ver, poderia ser um golpe fatal, ou seja, à admissão da inconsistência dissimulada numa teatralidade de ocasião. A sempre sensação de algo que simula estar, com certo estrondo ou de forma emudecida , mas não está , uma presença por dever.
O que parece também interessante é que o coisinha não tem noção do que suscita nos outros, já que seu sistema de crença o faz acima do " simancol", isto é, não se manca, o que torna sua presença a marca de seu estereótipo , já que a dialética do te ver -se vendo fica prejudicada.
Há aqui um certo círculo neurótico que se volta contra si , pois na medida em que não há essa dialética e o outro vira uma projeção maciça de pouco retorno , o sentimento de rejeição passa a ser constante , pois dessa forma perde-se o que o contato tem de abertura e renovação , onde o outro é uma alternativa credenciada à mim mesmo, uma opção que só a sinceridade permite.
Ser sincero é uma arte de elite , digo, na alma , pois é a expressão do modo como cada um se tem em conta, como é seu narcisimo de vida , seu gosto de ser quem é , sua celebração por ter nascido .Quem é coisinha não se celebra , pois não tem o seu nascer na conta de um momento de grande com-sideração da vida, não vivifica à diferença que se impôs no ato de ter nascido. Em outras palavras , o coisinha não se tem na conta da diferença , o que é uma condição básica para singularidade por vir , o estilo único de uma consagração cósmica.
Este registro é o que o faz ficar prisioneiro da busca de atenção do outro , sem a segurança de estar sendo aceito e querido , é o seu tormento de afirmação, a prisão de ter que fazer malabarismo para impressionar , o seu a mais que o nascer não reconheceu.
O exibicionismo , um tanto alardeante, ou o apagamento ressentido , se interpolam num mundo pouco compartilhado e com fantasmas rudes de solidão , um estar só , na fantasia onde o outro lhe deixou, levando consigo uma parte que faz falta , e deixando o que é a marca de sua reprovação estrutural.
É o drama da rejeição um tanto incurável , pois a princípio já acha que não tem e não pode ser dado , só tomado. E o cruel, é que isto é tão verdade no plano psíquico , que por mais que se garanta não ser assim, não funciona. São os que não se sentem amado , pois o amor é a falta do que foi tirado , e deixou a estranha marca da falta de merecimento.
O coisinha é um desmerecido que se desmerece , desmerecendo o que acha não poder ter ou ser.Um tipo de inveja , que dependendo do grau leva à violência, um se apoderar do outro , em muitos casos pela humilhação e pela exposição pública onde o diminuir do outro é sua ascensão imaginária nos aplausos que acha que lhe tiraram, ou por sacanagem ou porque deram para outro .
Essa lógica rancorosa é de difícil conversa , uma inacessibilidade pela falta de uma explicação que não permite o encaixe do sentido , pois a significação não é capaz de conter elementos , por vezes de um destino estranho .
Pessoas desmerecidas são perigosas , pois recusam a ordenação da ordem social, na conta de que essa ordem , além de injusta, é o depósito do que lhe foi roubado e que dependendo do que esteja em jogo , há de ser devolvido .
Isso perpassa desde crimes hediondos , na conta de devoluções absurdas onde a vida dos outros entra como moeda corrente , até em bullings , inexplicáveis do aonde pode estar o gozo de se humilhar o outro.
Especialistas se vêm em dificuldades para explicarem isso na conta de conceitos mais convencionais , pois há aí uma enorme vigência de acerto de contas , principalmente , porque nenhuma ordem social pode prescindir das ordens do amor.
O vínculo social há de ser antes de tudo amoroso e interessado , uma ordem coletiva humana e com um olhar mais dedicado , não só ao coletivo conceitual , mas a cada membro em particular , pois os efeitos dissociativos , aqueles que muitos conseguem se esquivar ou transformar em outra coisa , para outros é a senha de uma lesão irrecuparável que o diminuem na ordem do valor pessoal , e que por isso se sentem autorizados a cobrarem ressarcimentos , que só podemos ter acesso depois.
No laboratório íntimo as forças da vida interagem , combinam e descombinam , o coisinha que há em cada um de nós , sofre pela falta de alcance e de confissão ,e que no orgulho particular refletem os brios feridos de tudo que nos obriga a ser o que não somos , inclusive ser chamados de "coisinha".
Valeu
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

15.5.11

O dia que vi a cara da morte e ela me dispensou

Tudo pronto para as férias .
Tínhamos decidido retornar a Floripa, pois ficamos impressionados com sua beleza .
Conhecíamos um casal lá , donos de uma pousada e ela carioca tinha o maior prazer em receber-nos. Acertamos tudo pelo telefone, fizemos os depósitos e partimos .
Aliás , convém dizer que fujo do carnaval e em Floripa tudo é tranquilo , de formas, que atendia o meu desejo ,de minha mulher e minha filha , além de uma sobrinha que sempre nos acompanhava.
Eis uma festa que me sinto pouco a vontade . Já era freudiano, antes de conhecer Freud, e me espantava o comportamento da turba. Atitudes, que jamais seriam tomadas em outro momento, parecem sentir-se a vontade, nesta época .
Na fenomenologia do carnaval destaco dois aspectos que me parecem determinantes:
primeiro o consentimento , é preciso consentir e ter a fantasia de que o carnaval é a senha do consentimento , em geral, pra tudo .Na fantasia parece que não há o que não possa , tudo pode.Uma des-repressão súbita de tudo que faz força para se conter , provavelmente.
Talvez , uma forma de testar a relação custo-benefício da civilidade e neste lugar , realmente parece que é a repressão o pilar da vida social , como queria Marcuse , o filosófo da contra-cultura.
O outro ítem, é o esquecimento , algo como esquecer quem sou , ou mostrar o que não sou , ou mesmo um protesto de ter que ser quem sou ou mágoa do que não sou.Muitos acertos simultâneos na ordem libidinal, parecem ser feitos aí.
Sem estes dois aspectos o carnaval , principalmente em cidades mais carnavalescas não se sustenta. Liberação é a palavra de ordem e junto , o que é bestial .Libera-se a chatice bêbada, o mau gosto das palavras, as mãos rápidas e invasoras , um certo sacrifício estético que abre passagem para o vulgo , já que não há nenhum problema em ser vulgar, afinal hoje é carnaval, pode.
Os intelectuais, que em geral ,pouco participam do carnaval , festa do povo , costumam dizer que o carnaval é um brado de guerra contra opressão .Sinceramente , que saco de brado . Não me parece que nenhuma ordem mudará desta forma , pelo contrário.
Mas é uma festa , que curiosamente permite uma certa alteração do estabelecido e sendo uma festa do imaginário , contém elementos interessantes , como a possibilidade de ser outro .
Homens adoram virar mulher , um exercício misto de curiosidade e zombaria , ou então gay.
Se o carnaval não acabasse , o mundo que segundo minha amiga já é, seria gay, talvez um alerta contra uma certa masculinidade decadente, onde a afirmação viril sem gosto estético, é a prova de que o imaginário também tem seus requintes para sustentar o gozo.
A festa do arco-íris , uma homenagem ao meu amigo Juão , autor do livro “ Mutações do arco-íris”, que me contestou quando coloquei no início do blog, que era”machu paca”, sem observar o sic?, na sequência ..
Em o “Sexo dos Anjos” ,M.D.MAGNO, nos convida à suas incursões sobre o terceiro sexo, uma aposta que me parece mais para um terceiro lugar , um neutralidade entre o que chama de alelos , ou seja , mais uma suspensão da linguagem do que uma questão anatômica.
Às vezes, me atrevo a supor que o determinismo da forma , enquanto anatomia , é repressivo,e não fosse a ordem cultural, reificar, como dizia Marx, e sei lá como seria.
Mas para não ficar só no lado crítico, acho o humor um ponto alto no carnaval . Coisas criativas, fantasias inimagináveis , ídolos ficando bem pertinho , políticos des-mascarados embora com máscaras , uma folia de combinações sem compromisso lógico, e talvez , um exercício de non-sense coletivamente aprovado. Sem dúvida , alguma sátira inteligente no ar.
O pulsional libidinal , a baixaria , o tô nem aí , talvez tenham sido incorporados ao carnaval depois , seguindo as tensões de uma civilização ,que cada vez mais parece decadente ou líquida como quer Bauman ou uma transição para algo melhor , segundo alguns. Façam suas apostas.
OBS : Dois dias depois de escrever este relato , Jabour na sua crônica no jornal Globo , diz , numa espécie de reconciliação com o carnaval, depois de condená-lo muito tempo "Sem comparações esquemáticas (relativo as reações na África do Norte) sente-se o renascimento de um desejo gregário , até de contato físico entre as pessoas , uma explosão de liberdade e de encontro que nos leva a concluir que houve uma democratização da convivência , um irresistível desejo de  existir em comunidade". Quanta coisa viu Jabour , minha questão é porque reduzir tão nobres manifestações, então, ao carnaval? Porque não operar uma ocupação pacífica das ruas no sentido de expandir a concepção de nosso viver , incluíndo aí o cuidado, a estética, o gozo coletivo, a preservação do patrimônio, as estratégias políticas pra quem vive na rua , enfim, aproveitaríamos esta expansão gregária e utilizaríamos estas forças a nosso favor.Pena que quarta -feira de cinza , tudo pareça tão egocêntricamente normal.
Este furor que se tornará melancólico logo, poderia ser uma constante manifestação criativa, uma folia permanente de vida e criatividade, uma ação não só catártica mas a consecução de novos laços e alegrias de se celebrar a vida, celebrando o outro no que tem de melhor.
Evitaríamos assim , um tipo de escrotização do amor enquanto objeto anônimo , sem sujeitos nomeados que desaparecem como aparecem.
Fico me perguntando se não é esta fugacidade o que tomamos como gozo, um gozo de objeto rápido sem que os sujeitos tenham que apresentar suas feições?
Este tipo de cogitação em mim lá estava sem palavras desde sempre.
Viver é aprender a falar ou a se dizer. Que difícil , diga-se.
Escutem minha mãe :
"É a última vez que trago você , faço fantasia e você parece desanimado, carnaval não é a tua.
O que minha mãe não via e que eu também não , é que não conseguia achar graça naquela roda pra lá e pra cá ,esquizoidia que me custaria anos de análise .Nem desconfiava que ali meus níveis de adaptação a vida já estavam sendo questionados.
Nascido na capital suburbana do samba , Madureira, costumo brincar com meus amigos que nasci no Leblon de frente para o mar, e que no Leblon, sim, tinha tudo . Tudo , obviamente que Madureira não tinha.
Mas não consegui fazer o carnaval entrar nas minhas veias a ponto de me tornar um folião e hoje tenho mais dificuldade ainda . Gosto do carnaval com os pacientes onde vejo o quanto se alegram,   cantam, dançam e se divertem , uma festa cheia de intenções humanas .
Ou então aquele carnaval de marchinhas que levava a um tipo de confraternização quase  inocente , mesmo que os desejos espreitassem , mas os modos são tudo.
Como o erótico depende disso , de um certo não poder , do exercício de burlar , de tornar mais difícil o objeto do desejo, sem isto dizia Lacan " o corpo vira carne" e que triste assim.
O que sustenta o desejo é a Lei , e se há a Lei do desejo ,há também o desejo da Lei , diz Lacan.
Corpos engordam , despencam, arrotam, peidam , roncam e ficam disfórmicos ,haja tratamento , negar o escatológico é se precipitar nele.
O Marques de Sade que passou de forma tão vulgar a história era um libertino culto, dos prazeres , a magia da sensualidade , e diga-se de forma refinada .
Nada haver com o grosseiro que lhe foi atribuído .( Em algum momento escreverei sobre a alma libertina" , por razões próprias provavelmente e para fazer jus a almas de amigos queridos, e estudar estas almas me possibilitaram um clarão clínico espetacular )
Talvez, tenha sido esta a motivação de Lopez -Ibor ao escrever sobre loucos egréjios, embora a meu ver , sem deixar de subtrair à loucura seu aspecto questionador da vida neste mundo , contentou-se em explicá-la por conta de doença.
Há um desconforto em viver aqui e Freud sabia disso . Seus estudos finais não falam de outra coisa  senão do mal-estar.Obrigar determinadas almas a este mundo chato, é matá-las aos poucos ou de súbito. Artaud escreveu suas peças dentro do hospital psquiátrico , Niynjisk surtou na hora da apresentação e não voltou mais , Ernesto Nazaré foi encontrado morto na Colônia Juliano Moreira dentro do lago , Artur Bispo do Rosário teve seus momentos mais lúcidos e criativos também na Colônia ,enfim, almas especiais que merecem muitos estudos para serem compreendidas de forma ampla. A vida burguesa aí, não tinha vez. Parece entediante e me lembro de Don Juan de Marco , onde o paciente é o revirão que faltava à vida entediante do Psiquiatra.
O carnaval tem um quê de libertino , mas vulgar e também criativo .
Fico torcendo para invertermos a ordem e o criativo dite a alma do carnaval.
Embora possamos achar estranho , talvez haja uma pedagogia não didática do erótico.
Pelo menos como forma de consagrar sua alma. Os libertinos que compunham a cultura literária da Europa em torno do século XVII, sabiam disso, e Lacan , outro companheiro libertino  foi buscar o amor cortês como inspiração para o erótico que contorna, mas não adere.
Diz Milan Kundera " é preciso livrar o amor da tolice da sexualidade" . Obviamente se referindo como Lacan, que é degradante quando o corpo vira carne . Esta qualidade da vida anímica que sustenta o erótico requer cultivo e dedicação prazerosa , pois aí mora as fantasias e as figurações que nos livram do concreto .
Mas se livrar do concreto não pode ser um ato histérico bruto e compulsivo.
Lá vai eu rumo a Floripa , tá custando a chegar né? haahahahahah
O carnaval parece palavra de ordem , como símbolo de uma cidadania normótica . Não gostar de carnaval é suspeito, pois ou você é religioso e pré-conceituoso , ou é um bundão esquisito que está na contra-mão da história. A falta de contágio requer melhores explicações do que simplesmente não gostar.
Achava que Floripa funcionava como um tipo de solução de compromisso que Freud , lugar onde o desejo e o sintoma combinam algum tipo de encontro e satisfazendo um pouco a cada um . Floripa era então nossa solução de compromisso .
Espiríto de férias , 15 dias , pois como liberal sofro daquela exigência, onde sem mim , não ganho, e férias familiares , onde o nível de permissividade aumenta bastante ,pois não se pode limitar tanto o desejo , ao preço de não se sentir de férias, é cara.
Lá vamos nós de carro , bom, confortável , eu e Ana, minha mulher ,na frente , minha filha Luana com minha sobrinha Bianca no banco de trás . Ambas púberes, algo em torno de 15 anos.
Pernoitamos logo após passarmos por S.Paulo e de manhã seguimos , pegando a famosa rodovia chamada de rodovia da morte que liga S.Paulo a Curitiba . Muitos caminhões e pouco cuidado do poder público, sem dúvida , bastante perigosa e difícil de ultrapassar .
Até aí , tudo bem. Chegamos a Curitiba e após algum descanso seguimos, na estrada que nos levaria a Floripa. Sol gostoso , música e risos , festa das férias e um clima de alegria e tranquilidade no carro. Partimos bem e cheios de desejo de chegar, pois cansa dirigir demais.
Esta estrada é boa e perigosa, pois de três vias, logo passa a duas e às vezes uma.
Subíamos , e conversávamos, quando de repente, o anúncio de 3 vias que todos aproveitam para fazer as ultrapassagens, principalmente de caminhões.
Peguei a pista da esquerda e seguia tranquilo numa velocidade razoável , que nos salvou.
Pois, ao fazermos a curva para esquerda e continuávamos deste lado, a pista virou duas , sendo que , justo a que estávamos desembocava num retorno com uma forte mureta de concreto, e que já não nos permitia parar . É impossível descrever com precisão o que aconteceu , pois vi perfeitamente que só me restava duas opções terríveis , um tipo de decisão relâmpago , pois a mureta era uma questão de segundos . Ou eu jogava o carro na mureta e arrebentava o carro , nos arrebentando ou entrava na mesma velocidade no retorno passando para pista contrária , ou seja, eu contra todos , pois ficaria na contra-mão numa estrada de alta velocidade. Para se ter uma idéia é como se alguém decidisse andar na pista contrária ao fluxo na Avenida Brasil.
O cérebro humano é extraordinário , pois em milisegundos pensei o que me daria chance ou o que faria menor estrago, se é que é possível pensar nisso, numa hora dessas.Me pareceu como se estivesse entrado em algum estado alterado de consciência, que conheço bem, mas de forma diferente. Sofri um tipo de suspensão de mim mesmo .Um estranho silêncio me pareceu chegar , que tive a impressão de ser o da própria morte.
Sinceramente, a mureta de concreto me pareceu dura demais .Me arrebentar ali me parecia fatal ou trágico demais , me ocorreu rapidamente que poderíamos nos mutilar e decidi passar a pista contrária , enfrentando carros , ônibus e caminhões que vinham em alta velocidade.
Achei, sei lá porque, que poderia haver alguma brecha, algum intervalo mágico entre os carros , algum lugar mágico que ninguém via, nem eu, que nos acolhesse por alguns instantes .
Até então minha filha dormia e me pareceu que Ana ou não se deu conta de pronto ou foi tomada dessas lerdices que nos acomete em situações de perigo, pois gritava " tá na contra-mão , tá na contra-mão " e eu já achando que estavámos não na contra-mão , mas no outro mundo  , confirmando que se morre sózinho, talvez como se viva.
 Minha filha acordou e gritava . Biba , minha sobrinha mais calada, e eu de repente escuto uma voz, vinda não sei de onde " calma , calma" busque o acostamento .Os motoristas  se apavoravam quando me viam, pois não podiam acreditar que alguém pudesse estar ali ao contrário , 500 contra um .Buzinas, derrapagens , desvios rápidos , pois na verdade, também estavam em perigo . A voz me tranquilizava e me orientava , ao que prontamente obedeci .
Uma senhora que assistiu a tudo, desde o início, rezava .
Consegui encostar e embora sem sair de todo da zona de risco , fui dando marcha ré torcendo para ninguém me bater. O mundo pareceu parar pra assistir a tragédia anunciada e o carro que ia entrar no retorno, parou para que eu pudesse virar meu carro ainda de ré para outra pista , na direção certa.
Quando consegui sair a senhora agradeceu a Deus e vibrou muito .
Eu em estado de choque e Ana também , as meninas tensas e vibrando .
Orei em agradecimento ,pois sempre oro agradecendo os presentes que recebo ,acho que fui poupado de algo e minha família também , mas fiquei deslumbrado com a voz que me conduziu, um tipo de alucinação sem formato psiquiátrico.
Até hoje, não entendo racionalmente como foi possível sair dali , mas a voz , aquela voz viria a ouvi-la de novo em muitas ocasiões, desta vez me conduzindo para outras direções, principalmente, para ajudar aos que precisam, pois me apareceu, justo, quando eu mais precisava e nenhum mortal poderia nos salvar .
Me pareceu que fui poupado para fazer da minha vida um grande gesto de amor , uma celebração positiva , uma alegria de um carnaval cheio de amizades , e uma escuta dos que sofrem e me ensinam e me ajudam apurar minha escuta do humano, compreendendo modelos e indo além deles. E tenho buscado assim fazer.
Desenvolvi , junto com amigos queridos , um trabalho com pessoas menos favorecidas , pobres , são famílias que oferecemos cestas básicas e com diversos trabalhos de solidariedade e conscientização , já há 15 anos.
E recebo toda quarta -feira gente com todos os tipos de sofrimento que busco confortar , como posso .Não tenho nenhuma religião e ao mesmo tempo, cada vez mais, sinto o sagrado da vida em tudo .Não acredito na morte , e respeito quem assim quer . Grandeza demais, para ficar num cemitério .Mas foi com esta voz que Sócrates chamava de" Daimon", dizendo escutem o seu Daimon , e que lhe disse para não evitar a sicuta , que fiquei por aqui mesmo , sinal que ainda tenho muito o que fazer e farei, mesmo não me sentindo a vontade no carnaval, pois tive uma experiência-culminante , aquela que Maslow dizia que tinha o poder de alterar os valores de um homem.

RETOMAREI POSTERIORMENTE O ESTUDO DESTA VOZ QUE LONGE DE SER EXTEMPORÂNEA, PARECE ESTAR PRESENTE NO OUVIDO DA HUMANIDADE DESDE SEMPRE.
CABO FRIO DIA 7 DE MARÇO

2.5.11

sacrilégio do amor . Ah! que pena

Tempos líquidos, amores líquidos , modernidade líquida , Bauman quase nos
mata afogados , o que quer dizer o grande sociólogo afinal?
Que optamos pela inconsistência em nosso modo de viver , como se a força do consumo em sua voracidade tivesse autorizado que o conceito de mercadoria pudesse perpassar inclusive, os requintes de nossa alma.
Aos poucos ou aos muitos, fomos sendo tomados por transações no convívio que regidas pela idéia de consumo , ou seja , pelo modo como tudo é consumido chegou ao campo da alma , fazendo um tipo de subversão tão espetacular quanto perniciosa .
É como se críassemos um tipo de percepção onde as raízes de tudo, pudessem ser ignoradas, às custas ou com a promessa de uma soltura , em que nada é tão merecedor de dedicações que não seja por um curto período de tempo .
Subverte-se assim dois deuses perigosos , Éros e Cronos , tanto o amor enquanto ligação perene , quanto inventa-se um conceito de tempo fugídio demais , um ataque frontal a idéia de compromisso.
A inconsistência passa ser um território onde muitos estratagemas definem suas potências enquanto compensações , não exatamente para o que se ganha ,mas para o que se deixa de perder. É a face temida do amor , seu lado sombrio , onde o medo da entrega é tanto, que impõe o se contentar com resultados pífios , com a falsa promessa de que assim se sofre menos.
Parece que as dores do amor não são para serem vivídas , como se houvesse um meio de se livrar delas , e ficar sómente com aquele lado saboroso do bolo , numa recusa da dialética espiritual , onde a dor e seus efeitos também nos capacitam a desmistificar a vida e nos enseja a beleza , mesmo que sofrida de recomeçar.
Parece que nos tornamos débeis , criaturas que nos medicamos antes da dor , na vã esperança, que assim ela não venha. Entregamos o que temos de mais valoroso , que é justo, a nossa capacidade de enfrentar e de se afirmar , o valor do guerreiro que ao lutar por algo , sabe que luta por si.
Explodimos o mundo em novidades , fizemos avançar muitas idéias que por muito esperavam suas chances , e criamos um sentido de liberdade tão incrível , que acabamos nos confundindo , pois o mundo de ligações , a liga que o amor requer para funcionar e alcançar seu modo alado, foi atingido . E foi atingido ao gerar simulações que , longe de permitir vôos para lugares desconhecidos e empolgantes para o currículum do espírito viajante, pelo contrário, enverniza a mesmice na conta de liberdades medrosas que não podem prescindir das fantasias para suas animações.
O outro deixa de ser alguém em se tenta o exercício da adição , modo mais afim com a reprodução e alegria da vida e passa ser um estrangeiro em que se deseja intimidade , pelo amor de Deus, e ao mesmo tempo , alguém sob eterna suspeita de não ser merecedor do mundo íntimo , pois nunca se está certo de suas credenciais .
A demanda de amor , essa que a Psicanálise conhece tão bem , sofre do imperativo de querer, da forma mais barata possível . É assim uma questão econômica , aonde o Real obriga a separações das simbioses maternas , pois o pequeno "enfant" , precisa chegar e se afirmar , enquanto um alguém que ocupa um lugar , a princípio concedido pela ordem familiar , depois a ser conquistado na ordem social.
Essa construção imperiosa e inarredável é de um esplendor irretocável quando se pensa o que virá depois.Pode -se sofrer para alcançar esse patamar , pois exige-se o luto da completude triunfal do bebê , e se nos coloca de frente para luta.
A construção mental, é sem dúvida , trabalhosa , mas essa entrada no socius, é a base da vida de pertencimento, além das paredes familiares. Não fazer isso , trás implicações sérias no campo da psicopatologia, e para muitos é aí ,o próprio núcleo da psicose.
Mas convém observar que esse trabalho de construção é a condição para uma exogamia , o além que é induzido pelo tabú do incesto , ou seja , tem que se ir mais longe para encontrar, nada de desfalecimentos que geram acomodação ,e o despertar da alma do amor enquanto um caminho a percorrer , na esperança de um encontrar sem garantia . Arrisca-se ,e arriscar é o modo como Éros parece gostar de ser cultuado , pois é a liga entre dois seres que não se conhecem. Logo , nada mais perigoso , afinal, quem é este outro que me atrae e ao mesmo tempo assanha o que tenho de mais íntimo e sigiloso?
Os rituais de preservação e também de minimização das suspeitas, de certa forma perderam a força , pois numa sociedade que prima pela liberdade determinados rituais acabaram por parecer prisões temidas e passaram a ser evitados.
Noivados , por exemplo, que era o espaço gradual de aproximação onde o vínculo era referendado pela família , principalmente da noiva e uma certa ambientação dos modos, antes do casamento propriamente dito, hoje é tido na conta de quase uma invasão da privacidade e como ofensa do lema vigente de que " a vida é nossa e ninguém tem nada a ver com isso".
Os espaços se afastaram e geraram mais "independência"e insegurança , pois o que vale agora é no campo estritamente pessoal , ou seja , cada um que saiba de si. O curioso nisso é que os consultórios passaram a ocupar então , o lugar das confissões aonde cada um pode regredir e chorar sem ser visto ou julgado , por não estar tão certo, e não saber o que quer.
Emancipações sociais que não se fizeram acompanhar no plano psíquico , mais exigente e menos tapeado do que o social . Discute-se inclusive o que mudou mesmo e se tudo não é o mesmo às custas de novas expressões . Um dilema interessante , pois a criança em sua demanda de amor e segurança , pode inscrever seus modos em novas expressões , mas não pode subtrair as exigências feitas ao humano para se estruturar como humano , já que o humano pertence a ordem humana e não basta nascer para sê-lo.
Em outras palavras somos criaturas do amor , falamos porque vivemos a falta diz Lacan , uma falta estruturante , que nos leva a ter que pedir . Mas esse pedido , encontra-se mais circunscrito ao solilóquio , aquela fala consigo mesmo , do que um arremesso ao outro , já que é o que temos de mais sensível e vulnerável .Precisamos de amor para tudo , " uma vida sem amor é morta" diz Osho , a ofensa nos agride , o carinho nos comove, somos sensíveis ao modo como somos tratados , enfim , temos um pertencimento à ação do outro sobre nós .
E no entanto, parece que temos uma estranha necessidade de mentir , como se não quizessemos mostrar , o que nos faz humanos , afetações comuns que comove a todos.
A máscara , se por um lado é o próprio jogo , por outro , é des-dizer , o que não se diz ou que se diz sem dizer.Mas convém lembrar, que por mais que possamos re-interpretar o nível estrutural da linguagem , dependemos dos códigos de comunicação .
Ora , isso quer dizer que para o que não se diz ou se mal-diz , o outro , essa criatura tão comum quanto nós fica encarregado de traduzir textos que mais se escondem do que se revelam. Na prática dos jovens , se tenta resolver as aflições da aproximação inicial , pedindo à um amigo(a) para fazer a sondagem primeira , qual a chance , qual a garantia , para com isso se evitar recusas que podem envergonhar.
Descontos a parte , o medo de ser recusado fica como pano de fundo , pois se tudo é rápido e só serve ao imediato , porque se oferecer ouros e tesouros se nada vai ficar?
Ah ! Que pena . Pois o amor na alma é também uma grande capacidade , uma capacidade que nos dá o gosto do viver , a afirmação de que a experiência é a moeda irrecusável desse viver e aprender , a matéria que os psicanalistas conhecem como sendo o móbile da elaboração , o trabalho da singularidade , a individuação Junguiana , o longo caminho alquímico da salvação coletiva .
Subtrair o pagar pra ver tem um preço , pois aos poucos vamos nos acorvardando , em nome de uma dor imaginária que se torna onipresente e que nos subtrai justamente as aquisições que só as conquistas podem fazer.
Por outro lado o brilho de Afrodite ,a grande deusa do Amor , ao se retrair leva junto o vigor da expressão, o que justamente é a força do encantamento , pois a expressão é única , o portal da singularidade misteriosa , o que nos leva a admirar profundamente , quando nos damos conta que cada um é impar , uma estrela única , um brilho no todo mas um momento íntimo da Criação.
Daí que a intimidade seja também nossa força cósmica , nosso êxtase , nosso gozo sideral , que os modelos insistem em desacreditar , tentando nos fazer crer que para Afrodite as figurações banais se ajustam à sua natureza , sem nada tão grave.
Encerrados num tipo de hipnose geral , em que o mundo é visto como conjunção de movimentos variados , sem nenhum compromisso a mais, a não ser animar a vida , principalmente , a vida de consumo, não nos damos conta que a melancolia do futuro avança , pois retiramos do cenário mental a idéia de que a vida seja pra nós uma prospecção.
Apenas regredimos , uma entrega ao passado que já não pode ser , mas que parece abrigar os acertos que ainda queremos , ou as devoluções que ainda achamos que a vida nos deve,e que com isso permitimos que as exigências que daí resultam , se tornem verdadeiros arsenais no registro dos afetos , que sedentos de futuro só fazem apresentar contas impagáveis do que o passado já não pode realizar.
O amor em nenhuma hipótese pode prescindir do desafio , é Éros que nos desafia e nos movimenta , uma pulsão irredutível que nos faz desejar sempre , e querer mais , pois temos ânsia de ir além , de horizontes , de explorações que se inscrevem na memória da vida como momentos diferenciais aonde costumamos nos agradecer pela ousadia, como se sentíssemos que ficar no mesmo, nada oferece para contar.
A Presença , essa composição de brilho e intensidade, se para muitos é gozo do Ser , é também o do Estar , é bom estar e estar com tudo , uma entrega desejante, cujo maior gozo é a própria Presença , a intensidade do Vivo , o despertar das dormências hipnóticas e das concordâncias ralas e acomodadas . O Vivo é polêmico , é rebelde , é que não interessa ao hipnólogos, pois , diminue a possibilidade das sugestões e dá a cada um o trabalho de descobrir , mesmo que seja um pouco a cada dia.
A virtualidade é um campo de possibilidades onde as distâncias além de minimizarem, também aclimatam melhor as aproximações , embora haja aí, o perigo dos ensimesmamentos que buscam subverter às regras da alteridade , ou seja, simulações que buscam substituir o exercício ao vivo , o contracenar dos olhos nos olhos , única forma em que a alteridade , mesmo que depois de seduzida pode oferecer o coração na vibração do olhar e da carne. O outro corporificado , momento do reconhecimento e da identificação , o exame do que tem ou não haver , o cheiro que aquece os sentidos e o tesão , a liga que se excita no modo de falar, a voz como atrator , já que voz chata e ansiosa não convida à escuta acolhedora.
Vemos então que o amor é uma ciência e uma poesia , é uma cons-ciência , um estar-com, que rege o aprimoramento da raça , que depois de passar por tantos períodos no tempo antropológico , chega agora as disposições mais sutis , os orgãos mais sutis , o refinamento de uma anatomia por conhecer ,o tempo lógico da regência da alma , onde os inimigos que tanta importância tiveram no desenvolvimento de nossas habilidades físico e mentais, agora mudam de identidade e enderêço para serem reconhecidos , enquanto o que nos estreita e retratam o modo como funcionamos enquanto adeptos de coragem ou de medo no campo do amor.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Há ou não inveja do pênis?