21.8.11
A BURRICE RELACIONAL II
A figuração do burro enquanto algo retrógrado , algo que empaca , como caracterização da falta de inteligência , é um tipo de licença que não faz jus ao animal, que diga-se , é inteligente .A questão é que mediante algum perigo ou reminicência o danado empaca que não anda de jeito nenhum.
Para o observador não há perigo algum , para o burro sim , que por sua vez não cede de maneira alguma , em geral , causando irritações em seus donos, que sabem que bater não adianta . Com isso qualquer ato de menor prestígio ou considerado de pequeno alcance é considerado " burro ", o antônimo de inteligência , do brilho , do fulgor ,da assimilação rápida, enfim , um mal-dizer que se tornou uma arma de depreciação .
Mas em nosso caso consideraremos um detalhe interessante , nessa situação do burro, ou seja , é que o burro não passa pelo mesmo lugar que algo aconteceu e o impressionou , como se revivesse o que passou de forma tão atual que é como se estivesse acontecendo agora. É difícil convencê-lo que a situação é outra e já passou , pra ele por um estranho condicionamento, o resultado será sempre o mesmo.
Nada mudou , pois prisioneiro do tempo, não enxerga o que já não é o mesmo ,seu sentido lhe trás uma ameaça , cujo perigo está mais dentro do que fora , uma cisma que acabou lhe consagrando , como símbolo da burrrice .
O que seria então uma burrice relacional?
Começaremos então pela palavra consciência , ou seja , sua dupla vertente :
A primeira pela ciência ,a expressão do desejo de conhecer , a construção do saber , uma modalidade de cognição fundamental que ilumina a vida , corta a ignorância e permite aquisições importantes na transformação da vida .
A outra é o com : o estar-com, o exercício do convívio como produção de consciência, o outro como amor e como ódio , este esbarrão constante que me serve como aconchego e ao mesmo tempo como repulsa , essa intimidade e invasão perene , o eterno desafio da habilidade para se com-viver.
Daí a ver que o convívio é aonde a chama da consciência acende ou apaga não é difícil , difícil é aceitar que na raiz dessa convivência a vida aprimora seus modos , uma ascese do grotesco ao sublime , na qual todos nós, querendo ou não estamos submetidos .
Relação é uma denúncia constante do que é bruto e do que se aprimora , do que se pede e do que se oferece , um eterno jogo de reconhecimento , onde cada ato se inscreve numa significação amorosa para ser celebrado ou frustrado , o que nos cura ou nos fere , uma estranha sensibilidade que parece nos tornar débeis e dependentes.
Ora, mas a virtude do amor é o poder de mostrar aonde somos frágeis e sensíveis , uma senha da espécie que poderia servir como alerta, pois a dor do reconhecimento é comum, e que partindo daí , deveríamos ter em conta que ao mesmo tempo que sofremos , fazemos sofrer .
Nesse ponto algo se impõe , a saber :
Que somos criaturas do verbo e que o verbo é o início , e que o início era o verbo .
Isso nos ensina que o verbo é o que dá partida , ou seja, tanto inicia como parte .
Ao dar a partida chama pra junto ou afasta , exclue , um tipo fica pra lá, que tem o poder mortal de ofender e abrir feridas.
O tempo todo informamos uns aos outros que somos sensíveis ao trato e que no trato, muitos protocolos do convívio existem , já que se referem aos modos primários , aquela película de sensibilidade que subjaz ao ato humano e lhe confere o que o poder de afetar.
Como desde sempre nascemos no campo do Outro , inscritos no desejo que nos trouxe ou que nos recusou , não temos como forçar emancipações ou independências que busquem renegar essa ordem humana , ao risco de graves distúrbios esquizóides e psicopatológicos.
Dessa forma então , se tudo começa no verbo e se somos sujeitos-objetos do trato, então porque não prestamos uma atenção mais específica a esses dois ítens tão fundamentais?
Por exemplo , a palavra uma vez dita , não tem jeito , já é , como se diz.
Logo , seria interessante :
Observar o momento de dizê-la , e o modo como é pronunciada , já que o outro é sensível às intenções nem sempre explícitas que contém.
A palavra será tão mais íntegra e respeitável , quanto menos acusativa seja , já que acusações de certa forma , sempre trazem algum nível projetivo não reconhecido em quem fala.
Pra isso é necessário que possamos ir além dos 5 minutos iniciais , como dito no artigo anterior, o nível reflexo onde as ofensas encontram as dores primárias ainda em estado bruto, pois blindadas , em geral, pelo orgulho , não permitem fácil acesso à consciência a não ser pelas projeções , onde o que não reconheço em mim aparece como acusação ao outro .
A ponderação , ajuda o compasso do tempo e ao modo de falar , embora , seja importante também identificar o quanto as intenções falsificam as justificativas , já que o que se diz num nível , não se justifica no outro .É como se a palavra apontasse pra um lugar e a expressão facial ou gestual não corroborasse o endereço .
Esse fenômeno dissociativo que a teoria da comunicação trouxe para o estudo das familias e que tem sido de grande valia no estudo clínico em geral , pois , é a negação do que nos escapa, e que retorna como tensão aumentada , impossiv el de ser contida numa conversa , por exemplo .
É mais fácil brigar do que conversar , diz um autor . Casais se separam melhor quando estão bem , neuroses conjugais são vícios reiterativos , o que ameaça e não se cumpre , diz outro estudioso.
Mas tudo é relativo a capacidade de conter sem agir , um tipo de exercício quase yogue , um suportar à energia que ofende sem ofender , uma troca desigual que só o amor referenda , uma alternativa , onde a opção é buscar abrangência onde tudo se estreitou , um oferecer algo maior a si mesmo , evitando-se assim o sinistro emocional que se segue de imediato à ofensa.
Quando uma pessoa tem lesões primárias graves , talvez isso seja ainda mais difícil , mas parece ser esse o caminho de nossa cura , senão , nossa alternativa é repetir , e repetir sem poder elaborar , ou seja , sofremos de forma incompreendida sem aprender nada , razão obscura de nossa revolta e de nosso confinamento incandescente no fogo do ódio que nos subjuga.
Não é atoa que Lacan , já se referia ao amor e ao ódio , como amódio , apontando o quanto sofremos de ambos , quase sempre no mesmo lugar .
Talvez devessemos aprender o momento de se calar e esperar , o momento mais oportuno de falar , buscando com isso algo que ultrapasse , que não fique no jogo pequeno de quem tem razão , algo que se imponha por sua maioridade , por sua clareza , por sua maior dignidade .
Me parece um exercício tão profundo quanto raso , mas um exercício onipresente , uma busca de um ponto acima , uma elegância um pouco acima da grosseria , uma inteligência um pouco além de uma burrice que estanca em si mesma , um amor a mais do que a espada , uma grandeza mais atraente do que minímos auto-referentes, que obliteram o outro por nos imputar uma dor especular de grande custo narcísico , principalmente ali onde Narciso empacou no fascínio de sua imagem estanque.
7.8.11
OS CINCO , DEZ, QUINZE PRIMEIROS MINUTOS DE MIM MESMO
(REFLEXÕES SOBRE A CONTRARIEDADE)
Coisa incrível é se observar . Não aquela observação defunta , obssessiva , que nos incrimina pelos pecados que fez de Adão, homem e Eva, mulher . Digo aquela observação mais afim de surpresa do que de certeza, a desconfiança positiva de que há em nós , muitos.
Descobri, por exemplo, que somos constituídos de níveis e que em cada nível a vida se decide de uma forma diferente, de tal forma , que se esperarmos um pouco que seja , algo muda . Essa idéia já é antiga , como " conte até dez" antes de agir , lembrando que algo muda enquanto contamos , algo se faz ou desfaz .
Em cada situação somo testados nessas variações de níveis ,e um mesmo assunto que num nível é aterrador ,em outro pode ser engraçado, como depois de um susto , segue-se as gargalhadas .
No primeiro nível temos uma camada reflexa , uma ordem simétrica e pouco flexível , a ordem do toma lá , dá cá ou bateu levou ,ou olho por olho, dente por dente, que deu origem a famosa Lei de Talião .
Nesse nível a auto-referência é exacerbada , um substrato rígido e cheio de emocionalidade reativa , um modo de figuração catártica que é justificada como " se eu não colocar pra fora, morro ". Aqui tudo é perigoso e pode explodir a qualquer momento , basta tocar num limiar em que se toma algo como ofensivo e pronto .......os dados estão lançados.
Aí, muitas palavras se arvoram e magoam , muitos relações se contraem e por vezes se destroem, muitos ditos se registram e chegam aos nervos da memória , lugar onde esquecer, só com perdão .
O que acontece aí é digno de se estudar , não consta nos livros , mas é uma batalha ferrenha , esse momento inicial onde a contrariedade nos mordeu , é uma condensação tão espetacular do primitivo , do animalesco , das absurdidades , dos pequenos assassinatos na fantasia , dos pescocinhos que a gente aperta , dos cabelos que se arrancam, enfim , um arsenal tão próprio e tão atávico , que em poucos minutos estamos exaustos de tanto atacar.
O curioso é que não passa de pronto , apesar de toda ação bélica , o treco volta e já de novo estamos pensando , amaldiçoando , dizendo todas as formas de impropérios ( pra não falar outra coisa), tudo no plano mental, que a esta altura já virou um ringue, em que só nós batemos .
A impressão que temos destes 5 minutos iniciais é que não passam e tiram até o sono , pois é o lugar onde nos sentimos lesados de forma não merecida , embora não tenhamos examinado nada das razões do outro .
Nesse momento não interessa as razões de quem quer que seja , e se alguém insiste em nos contar , pronto, mais um para mirar e puuuuuuuum atirar , pois já que estamos em guerra não custa mais um .
Esse estado é um horror , pois além de nos atormentar, temos dúvida sobre as razões que afirmamos ter , ou mesmo, se nossa reação não está sendo um pouco excessiva para ocasião, um exagero que nos amplifica e ao mesmo tempo nos prende , pois podemos ter reações tão brutas e intensas , que o estrago também pode ser muito.
Tudo tem que ser proporcional ao grau como fomos atingidos , um misto de dor e ódio nos afeta e nos aprisiona , como se quizessemos vingança e ao mesmo tempo, lamentamos ser tão vulneráveis.
Nunca sabemos ao certo quanto dura esses 5 minutos , até que num certo limiar impreciso , algo começa a mudar e o relógio , vai prosseguindo para o próximos 5 minutos.
O que acontece nessa sequência também é espetácular , pois é como algo começasse a amolecer , mesmo que por dentro , já que por fora o orgulho não deixa mostrar de pronto.
Começa aos poucos um misto de culpa , meio ao longe, que vai se aproximando devagar e a estabelecer uma certa idéia de que pode não ter sido bem assim . Que coisa dificil , pois, depois de tanta certeza retubante e assertivas inegociáveis é como se recuássemos e ficassemos mais modestos e com chance de estarmos errados ,com a difícil tarefa de reconhecer o erro e pedirmos desculpas por tamanha hipérbole emocional .
Cruz credo , o que se vê aí é a expressão do quanto é difícil a humildade sincera, de olhando nos olhos pedirmos o perdão , pois por um lado a culpa nos acusa e de outro o orgulho continua nos fustigando , tal como leão ferido , cheio de dor mas pronto para o ataque.
A famosa divisão entre o anjinho que pede para desculpar e diminue a importância do acontecido , e o diabinho que nos manda ficar firmes no orgulho e justifica nossos ataques, lembrando o que passou como prejuízo.
Chega a ser engraçado o catálogo de expressões desse momento , gestos que vão desde " aí foi mal ... hem " uma frase rápida que não diz o que , ou um tapinha meio sem vergonha , meio mudo ou superficial demais para o que aconteceu , e sempre fico com a impressão que se fomos olhar de perto, podemos descobrir que já estamos fazendo muito em pedir desculpas ,então , não me venha com detalhes.
Mas algo mudou , pois recuamos e houve uma flexibilização da retórica de mão única que vigia até então. O outro volta a existir , descobrimos que ele não é tão demônio assim, e inclusive , por muitas vezes já nos ajudou muito , reflexão essa, nem sempre feita de boa-vontade , mas trazida pelo inconsciente numa forma de retaliação que a luz faz ao escuro , quando se fecha em ingratidão .
É uma situação típica por exemplo de casal , que se ataca até o máximo e depois recuam , tentando devolver o valor que foi tirado indevidamente , um jogo de reaproximação todo ritualizado , que vai desde da descontração do rosto até os agrados , que mesmo não sendo ditos, servem como meia paga ao que se ofendeu.
É uma jantinha aqui , um presentinho ali , um súbito interesse por detalhes a que nunca se prestou atenção , uma saída a um lugar diferente , enfim , uma série de compensações que visam recolocar no lugar, o que foi violado.
Esses 10 minutos , também não sabemos quanto tempo dura , embora fique a impressão que não há uma superação de todo ,e tudo pode voltar de repente , é preciso cuidado , aquela constatação de que tudo estava voltando a ficar bem e .... pronto , que merda ! tudo de novo.
Os 5 minutos finais que não acabam nunca , já entram em outra esfera , pois se trata de uma reflexão do que tem de mim em mim ? O que em mim é tão provocativo , às vezes sádico , às vezes masoquista , um gosto pervertido pela instabilidade ou brigas , uma renegação da paz enquanto sujeição , enquanto entrega que ninguém parece merecer.
Uma sequência do relógio que nos insere, enquanto, responsáveis pelo que vivemos , o denunciar da vítima que há em nós e também do algoz severo , pronto a castigar , em formas estúpidas ou por hostilidades silenciosas que se eternizam em mágoas pegajosas, que ignoram à passagem do tempo , sente-se como se fosse ontem, o ocorrido.
Mas nosso horror parece estar aí , ou seja, descobrir-se como um sujeito cujo desafio é assumir seu desejo e seu preço , o ver que a vida não nos deve, e reinterpretá-la é uma condição para sair do prejuízo.
Parece que só podemos ser feliz quando tudo nos for restituído , embora não saibamos exatamente o que , a ruptura narcísica que nos arremesa para o desconhecido , e nos denuncia em nossas exigências e controles viciados, o Outro que não me deixa ser , como diz Lacan , fala do neurótico cujo gozo é gozar de não-gozar.
Se houver, como diz Helling, uma Lei da compensação , então , é como para ter de volta, precisamos restituir o que foi tirado , e nesse caso o valor do outro , o que por sua vez também subtrai o nosso. É como devolver algo , para recuperar o que é nosso .
Penso que isso funciona como um círculo que se retroalimenta , em que , os 5 minutos finais voltam a cada etapa à se reinserir sobre os 5 iniciais , o como as curas num nível,tornam o reçomeço mais elástico , mais flexível e talvez não durem tanto. Isso nos alivia muito desses estados sinistros , que se por uma lado revela tudo de autoritário que há em nós , por outro é um tormento que sabota a vida em várias ocasiões , estragos que poderiam ser evitados, se a mordida não fosse levada tão pra dentro .
Mas temos dores sinistras, não visíveis , recorrentes, que fazem com que por um estranho processo, sempre caiamos no mesmo lugar , que já conhecemos e que parece nos conhecer desde há muito, uma ressonância cujas extensões nos fecham , roubam-nos as palavras, transfigura-nos às feições e escurece nossa alma.
Ao examinarmos mais de perto, parece que há feridas antigas em tecidos primários, cujas artérias emocionais irrigam velhos rancores , lesões profundas e atávicas onde um inimigo se estabeleceu e parece morar ali ,e está, sempre pronto a nos cutucar e ofender.
Nossa cura primordial depende disso , o acesso a um lugar aonde a consciência só vai a contra-gosto , ou porque não quer ou não pode , por isso é sempre atingida na contra-mão , o que faz parecer que os 5 minutos iniciais são sempre uma afronta ,algo que não aconteceria se não fossemos provocados.
Mas o velho retorno indica ao contrário , ou seja, sofremos de nós mesmos , a esperança esforçada e desejada , de que um dia saibamos retribuir às ofensas , senão com um sorriso , pelo menos com alguma emancipação que não estanque tanto, o fluxo do amor e da vida.
Sem dúvida, nesse dia, iremos nos agradecer muito o esforço, pois será nossa carta de alforria dos grilhões, que por nos mal-dizer , também nos invoca tudo que parece mal-dito nos outros.
Viva nós , viva o ajuste que buscamos fazer em nossos relógios até o tempo ser livre , como nós gostaríamos de ser.
De bom grado os comentáios
14.7.11
OS ENCALHADOS
A imagem do vivo que encalha é impressionante , uma angústia do que foi interrompido , um movimento que sabe-se lá porque, empacou e nos desperta o desejo imediato de recomeçá-lo ou recolocar através de algum ato nobre à condição que possibilite retomá-lo .
Uma baleia , um golfinho , imagens comuns que nos frequentam têm um poder aglutinador espetacular , surge gente de todo lugar pra ajudar , um esforço comum pra que a criatura recupere seus movimentos e volte pro seu habitat , dando a nós o sentido de recuperação do fluxo, algo como a vida continua.
Uma alegria e um alívio que nem sabemos explicar exatamente , como que em algum nível do inconsciente nos identificássemos com cada etapa do processo , desde de seu sucumbir provisório, caso seja, até a liberação dos gestos , o vigor do estilo , a beleza das nadadeiras indo com disposição em direção ao mar .
É como se estivéssemos indo e soubéssemos aonde chegar e de repente , pronto , encalha-se, nem pra lá nem pra cá , um misto de impotência e aflição , uma imposição por falta de posição , que nos submete ao estranho , o que não foi convidado, e nos rouba o movimento, trazendo a angústia da incerteza , a imprecisão de nosso destino.
Encalha-se em qualquer praia , ou seja, na do amor , no dinheiro , nos propósitos , nos sonhos, enfim, aonde se quer chegar corre-se o risco de encalhar.
Mas se por um lado há o encalhe , por outro há o encalhado , à condição e a criatura , um misto alternado de limites e desafios , uma imprevisibilidade dos resultados, um interjogo onde busca-se remover o que impede e por outro sonha-se com a soltura do que estancou.
A questão maior é quando numa visada mais ampla nos damos conta que os encalhados são muitos , gente que nadou com esforço , gente que sonhou com o prometido , gente que quer pertencer , gente que quer amar , que quer casar , que quer trabalhar, gente que quer o seu lugar, gente que quer ser gente .
Num livro recém lançado sobre Bombaim , a cidade mais populosa do mundo, o autor mostra a revolta de uma juventude traída em seus ideais , que depois de receber toda educação formal com vistas ao mercado descobre que não há emprego pra todos , corroborando a tese de Jeremy Rifkin sobre uma sociedade sem empregos.
Por outro lado Boman em seus diversos livros sobre a modernidade líquida traduz de forma sensível,todas variações no campo do amor , principalmente, quando se trata das implicações que o amor suscita nos protagonistas quando se trata de se comprometer , o que trás a idéia de algo perene . Se não podemos descartá-lo, é melhor não se comprometer , um mecanismo que tem deixado na praia dos encalhes um monte de sonhos de casamento , um imenso desejo de pertencer à ordem de reprodução da vida.
Chora-se e angustia-se muito com a amarga impressão que o tempo passa e nada acontece de forma mais profunda , a vida presa histericamente no raso , a falta de identidade da dor que espera o acontecer e as ofertas esteréis que buscam disfarçá-la , sofre-se sem poder dizer porque , já que dores da alma são invisíveis.
E são invisíveis não porque não tenham nome, não , não é isso , e sim porque hoje é vergonhoso chorar pela alma , o lugar onde as permanências vivem e reinvidicam a dimensão do profundo,pois uma vez passado o pacto das histerias coletivas, busca-se o que é singular , o modo como as realizações fazem a vida valer a pena .
Mas diz uma cliente “ pra que falar de sentimentos , se isso pode ser uma arma contra você ?” , e isso tem se tornado um lugar tão comum num mundo violento e cheio de distâncias , que embora os sentimentos sejam o alimento de qualquer vínculo , foram relegados a uma categoria menor, inclusive, na Psicanálise.
Não há propostas no amor que possam prescindir do que se sente, o modo não elaborado e espontâneo que fazem que o convívio seja um lugar de espantos e descobertas mútuas , um alegrar-se juntos , a inocência que mesmo relegada , é a única forma que nos permite não fazer dele,do convívio, uma grande paranóia.
Não temos planejamentos sociais que nos de o alcance do que virá , gerações que chegam, renovam , pois trazem o novo , os ímpetos e o imenso desejo de aprender e conquistar, um sangue novo , o entusiasmo juvenil a ser trabalhado e esculpido em seus próprios termos, a renovação da própria vida.
Não, insistimos em ser velhos e viscosos , o osso é nosso e pronto . Típico raciocínio debilitado, pois ao perdermos o espiríto comunitário, deixamos de ver o futuro em quem nos sucede , a visão tosca e burra dos que não querem morrer em nada.
“O poder não se passa , toma-se” dizia Foulcalt, indicando que tudo nos fará guerrear , pois não se vive sem poder . Passar o poder para quem se prepara sempre foi o modo das sabedorias antigas , um ritual sábio e cheio de amor , pois os que recebiam se comprometiam a usá-lo em prol da comunidade , sua gente , sua tradição seu povo querido .
E sabia-se a hora de fazê-lo , pois tudo amadurece e não convém perder o tempo , senão estraga,algo como a fabricação do vinho , tempo da colheita , sumo propício a próxima etapa.
O que fazemos hoje? Um tipo” Deus dará” que só faz nos atormentar , um falange de gente encalhada em todos os níveis da vida , um povo orfão de oportunidades e de propósitos que tem custado alto aos governos e as políticas públicas , pois parados, custam muito mais,e uma enormidade de corações sedentos , buscando acasalamentos para serem fecundados e engravidados de amor sincero.
A vida é amor e trabalho dizia Freud , dois pilares imprecindíveis da dignidade da criatura humana, e manter essas condições, é possibilitar que a vida ofereça seu sentido maior, sua ordem de grandeza ,que se refaz a cada passo conquistado. É como se a cada avanço , novos desafios se apresentassem, nos dando o gosto pelas conquistas , “Eu sou minhas conquistas” dizia um amigo querido . Mas quando os desafios não apresentam suas relevâncias , e se pasteurizam ou se tornam desesperos , uma ameaça começa pairar , ou seja, ou paralizamos ou se atiramos de qualquer jeito, a figuração bipolar que marca o psiquismo moderno.
Queremos ser feliz , sem essa ficção ontológica, começamos a não saber o pra que, se não trabalhamos , se não amamos, o sentimento ontológico de mutilação começa a nos corroer , uma estranha carência de si e do outro , a falta do gosto de ser importante para alguma coisa que seja.
Deprimimos, o valor próprio é barateado como auto-estima de livro de auto-ajuda, sofremos da acidez de precisar e não conseguir pedir , uma tristeza profunda que nos abate a alma, como se nossos sonhos primordiais de realização, ficassem tão distantes e pálidos que temos medo de confessá-los.
Trabalhamos para construir e nos construímos pelo trabalho dizia Marx , e “uma vida sem amor é uma vida morta” ensinava Osho , ora uma visão que não tenha isto em conta é obsoleta e engendra um tipo de violência niilista, a violência do nada , do coisa nenhuma , o pertencer a inconsistência , uma falta de crédito no que se quer , um esvair-se do que se acredita.
Todo poder é uma direção para luz ou para sombra , um gesto que tem custado caro e muito arrependimentos, quando chega à consciência do que se poderia fazer para que tudo fosse maior e mais bonito, e se ficou preso num nível menor , o que não foi bom nem pra si, nem para os outros.
Os encalhados fazem apêlo e têm força , pedem chances e oportunidades para se incluírem, participarem e realizarem , denunciam um tipo de perversão coletiva , um sistema com critérios obsoletos com conceitos ultrapassados , que busca manter seu modo estabelecido , às custas dos que querem e precisam chegar.
A questão dos imigrantes , a xenofobia sacial , as supremacias étnicas , tem trazido tanta violência e tantas perdas , com dores tão indescritíveis , inclusive os genocídios , que talvez já estamos imersos num tipo de loucura assassina e auto-destrutiva , cujas medicações só estejam num tempo futuro da consciência .
É preciso abrir e oferecer com justiça e com amor , pois só assim teremos argumentos para contrapor a ordem sintomática, que tem produzindo sujeitos que tangenciam os vínculos sociais, por não se sentirem comprometidos com o cinismo que se tornou uma epidemia , a vida subjugada ao modo de desempenho , uma fábrica de artistas , cuja arte maior é mentir como se fosse verdade , a máscara como se fosse identidade.
O poder , em geral, tende a ser anacrônico e repetitivo, uma rede elaborada de acomodações e prestígios particulares , e se for protagonizado por gente coisinha fica crônico, e só produz atrasos,a condição para ignorância apaixonante , o sintoma como deslocamento da verdade, a cegueira que nos permite tornar indiferente o que é maior.
2.7.11
O PRIMEIRO FILHO
Filho
> “é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como
> amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos
> para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
> Isso mesmo!
> Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é
> se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar
> agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
> Perder? Como?
> Não é nosso, recordam-se?
> Foi apenas um empréstimo!"
>
> José Saramago
> “é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como
> amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos
> para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
> Isso mesmo!
> Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é
> se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar
> agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
> Perder? Como?
> Não é nosso, recordam-se?
> Foi apenas um empréstimo!"
>
> José Saramago
Em geral , após passar algum tempo na ante-sala , tão providencial ao sentir e o conhecer, como aquele período em que o acasalamento mostra os sims e os nãos de cada um , e ao mesmo tempo usufrui-se de uma liberdade sui generis, pois agora a casa é nossa, a vida é nossa , sem mamãe e papai e vamos curtir que a hora também é nossa , vem o desejo de ter filho.
Aqui seguimos a rota usual , sabendo que outras rotas existem e todas abençoadas , onde o primeiro filho chega sem ter esse compasso ou esse consentimento gradual , pois descobre-se que se está grávida e pronto , o filho primeiro e o acasalamento depois.
Há primeiros filhos que são programados , outros não e de uma forma ou de outra segue-se a vida, e daí muitos casais se formam ou não .
As dinâmicas históricas não vem bem ao caso , já que cada situação é singular e levando-se em conta a natureza dos tempos modernos , diríamos que as modalidades de recepção são amplas e variadas , e a idéia de reprodução hoje, não obedece aos padrões regulares estabelecidos e como tudo nos confronta com aberturas que nos obrigam à buscar outros modos de concepção.
O casal chegado à um têrmo relacional ou a um tempo de nova inclusão decide então ter um filho, o primeiro , o que inaugura o núcleo familiar , o herdeiro , aquele que uma vez aqui, instaura o pertencimento num nível diferente , pois por princípio, filho é a própria figuração do para sempre.
É, sem que conscientemente vejamos assim , nossa inserção no grande mistério da vida , nossa "entrance" na ordem de reprodução , que tantas alegrias trarão e sofrimentos também,nossa iniciação nos níveis profundos , o elo inquebrável de vidas que se espelham e que terão que se diferenciar , um certo destino comum que muitos irão bem dizer ou amaldiçoar de acôrdo com seus alcances e limitações.
O casal, oferece então à vida, e não só biologicamente , mas um espaço a ser ocupado por alguém, que uma vez chegado nada mais será o mesmo, uma inclusão de prazo indeterminado.
O útero , este orgão espiritual abençoado ,a casa de todos nós, se prepara então para o grande processo alquímico de transformação , impelido pelo grande desejo da vida em se perpetuar e se aprimorar junto com todos seus seres , abre seus elásticos, se aquece para fornecer o calor tão necessário aos metabolismos incontáveis, que num sistema de trocas e estimulações mútuas consagram o substrato físico da beleza cósmica da Criação .
A matéria sabe de cór suas etapas , do embrião ao recém-nascido , uma bela cadência e encaixes tão impressionantes que não há como não se curvar à inteligência superior e cuidadosa , tão precisa nos detalhes e tão delicada na arte biológica , que ao assistir à formação dos que chegam , nos regojizamos num tipo de prece profunda e de gratidão , um reconhecimento de nossa sujeição ao Absoluto .
É incrível observar como ao se reproduzir , além de todo espetáculo extraordinário que nenhuma ação humana parece capaz , somos convocados em níveis comoventes a relacionar que a mesma ordem que coordena suas fases e nos oferece o bebê como sua parte mais externa e como um belíssimo presente , é a mesma que nos construiu e nos trouxe, para sermos o que somos hoje.
Amparados pela força magnética do desejo dos pais , amparo amoroso a qualque processo biológico , nutriente fundamental que uma cultura materialista tem dificuldade de perceber,nascemos desde sempre no desejo da mãe , segundo a Psicanálise , desejo propulsor de recepção e de imantação calorosa , matriz de uma recepção que segundo alguns ,irá nos marcar para sempre.
Há quem afirme que somos uma expressão ao nascimento, ao como fomos concebidos no desejo e celebrados no chegar , o entusiasmo da festa de chegada , o sentir em planos ainda não resolvidos conceitualmente , que somos importantes para alguém , que todo esforço feito para vir, valeu a pena.
Amor , ódio ou indiferença ,e embora não queiramos, é assim, nem todo filho nasce com festa e nem todo filho é fruto de amor . Pertencem à legião de criaturas que acrescidos de outros fatores serão refratários à ordenação social e às políticas de inclusão não poderão ser apenas mandatos de boas intenções.
O casal então prepara-se para o grande fenômeno , cujo símbolo é a paciência de quem vai aprender a esperar , como diz Osho " a gravidez é o símbolo da paciência" ,e sem dúvida , uma paciência grávida , cheia de alteridade , um rosto imaginado , um encontro sentido energéticamente , mas um corpo por vir , uma forma encarnada que conjugará o sentido do dois no um.
Pai e mãe , uma dupla , uma união cheia de projetos e dúvidas , um aprender juntos , um pouco a cada dia , que começa no nome até devaneios particulares de como será o amanhã, será saudável? bonito? feio? enfim, interrogações ditas e não ditas , mas perfeitamente humanas , nosso posicionamento perante o que não podemos antecipar.
Já muitas coisas costumam acontecer durante essa espera e que funcionam como ajustes para o casal grávido , muda o corpo da mulher , alterações metabólicas podem ser bem sentidas ou não , provocando desejos e vômitos , sensibilidades se afinam ,enfim, um teste que promove exercícios conjugais , e vai revelando os modos de cada um .
O casal se conhece e se desconhece , se reapresentam um ao outro , pois até então o cenário era um , agora mudou, há o terceiro , arquétipo do ciúme , da possessividade , da exclusão e também da entrega , do ir além de si , uma profunda contribuição à ordem humana.
Ao nascer o bebê já encontra seus pais em outro nível , a mãe principalmente , pois após 9 meses muito já se ambientou e muita intimidade foi construída , desde a ultra-sonografia até os chutes e movimentos que emocionam, por se ter a certeza de que há alguém especial ali , tão esperado e desejado .
O casal já não é mais o mesmo , avançou e começam a ter uma noção mais intensa de que se precisam , pois a tarefa assumida é profunda e árdua , prazerosa e desgastante , revezamentos são bem vindos e se sabem perante alguém que veio para ficar e quer viver.
Acho indescritível esse segmento do tempo na vida do casal , muitas coisas que ali acontecem podem se sedimentar e vivificar muito as disposições para o viver juntos, mas podem também mostrar o quão difícil tudo poderá se tornar.
A princípio toda criatura humana é filho da mãe, é ela é que é, toda disponível arranja forças sabe-se lá aonde, em geral para lidar com um filho que pede tradução quase sempre , uma gramática que vai descobrindo aos poucos , uma sinalética a dois , onde o pai fica fora esperando ou para entrar ou pra sair rápido, à inclusão negociada que exaspera as mulheres.
O filho,esse primogênito , o herdeiro que recebe todos os motes e a virgindade dos pais, é o centro , tudo é engraçadinho , ah! as marcas que ficarão como lembranças e possíveis exigências posteriores, um lugar perdido e sempre reinvidicado , sua majestade , o primeiro.
Mas também é verdade que o primeiro é o desbravador , o que encontra aflições e medos a flor da pele , porque só se relaxa depois , em geral,no terceiro. É também chamado ao lugar do exemplo, quando nascem os outros, e não raramente pode ser convocado a se tornar adulto precoce , o que oferece à infância como dispensa do trabalho dos pais .
Logo após a vinda dos irmãos , é o que será um tanto esquecido , ocupará um lugar do meio- sem –graça , será olhado pelos estudos , pela boa conduta , mas não mais pela graça , patrimônio que será passado ao caçula , aquele que saberá apelar para sua minoridade quando lhe convier.
A essa altura os pais já são completamente outros , felizes ou arrependidos , juntos ou separados, lá estão eles com sua troupe , a tarefa cósmica de educar , a escuta particular de quem é cada um, seu jeito , seu estilo, e o aprender o exercício de amar diferenciando à singularidade, a abertura da generosidade do coração para o que é ímpar em cada um.
Amor investido , nem sempre reconhecido, sombreado pelas dúvidas de quem tem o outro como responsabilidade, questões de dívidas e culpas onipresentes , mas uma convicção especial que com tudo e apesar de tudo , valeu a pena , pois também pode se ver o quanto se amadureceu , e o quanto sem isso,corre-se o risco de algo ficar mutilado na realização.
Lamentamos não ter mais o espírito da comunidade que nos ensinava a festejar coletivamente o nascimento de seus descendentes , pois eram parte do todo , e representavam toda tradição daquela comunidade . Cabia recebê-los e bem , seriam bem vindos para honrar o patrimônio comum e assumirem perante o futuro os valores consagrados daquela sabedoria ancestral.
Alguém muito importante nasceu , e isso importa a todos nós , pois o modo como cada um saiba ou não disso , decide parte de nosso destino comunitário. Se alguém nasce e não recebe importância, sente-se descomprometido e sem laços vinculativos , um fosso no encadeamento das pontes sociais.
Nascer é um ato profundo como morrer, nossa tarefa cósmica de amor, ajudar um ser a se construir, um substrato para lidar com todas as variações da vida , aquele mesmo filho que um dia esteve ali, bem ali dependente e solícito, vai se transformando de forma espetacular , rumo à emancipação , enfrentando o curso de seu destino e se tornando um protagonista da ordem humana , e é justo aí , que celebramos nossos investimentos.
Tudo que se quer é o Bem , mães e pais lutam por isso , que seus filhos devolvam o que receberam, qualificando os investimentos e se tornando um “ Homem de Bem”, uma pessoa digna, cheia de erros e disposta a acertar , alguém que hoje não precisa ser “doutor”, mas que não viva de lesar os outros .
Talvez, devessemos lembrar a muitos, que o que fazem hoje não foi o que aprenderam de seus pais, principalmente enganar o povo em benefício próprio.
PARABÉNS AOS PAIS E MÃES QUE TIVERAM AMOR E CORAGEM PARA COLOCAR FILHOS NESSE MUNDO , AONDE SE DIZ, EM MAIS ALTO TOM FILOSÓFICO, QUE “DEUS ESTÁ MORTO”.
19.6.11
O FEIJÃO COM ARROZ : UM CASO DE AMOR
Crônica de uma dupla bem-sucedida
"A elite cultural distanciou-se do resto de nós pelo gosto artístico seletivo e por critérios estritamente definidos-em clara oposição ao nosso gosto sem discernimento e caracterizado por flagrante oposição de critérios. Foi essa oposição que sustentou a divisão entre a "alta cultura" e a" baixa cultura" (popular ou de massas ) Pierre Bourdieu citado Boman em " 44 cartas do mundo líquido moderno".
Eis uma reflexão sobre como os símbolos da baixa cultura ( feijão com arroz) promovem uma militância subversiva e alça às mesas nobres , num tipo de socialismo generoso e com armas do requinte e do paladar.
O FEIJÃO COM ARROZ :
Na verdade não é uma mistura , não , de forma alguma .É dessas combinatórias onde a vida resolve se juntar e mostrar que dá certo,uma assertiva da atração .
Em geral , o feijão por baixo e o arroz por cima , sem dúvida mais elegante do que o feijão esparramado por cima , meio lambuzando o cenário .
O arroz sendo branco realça bem a superfície enquanto o feijão dá um tipo de vinil irregular ao fundo , ao mesmo tempo que assanha velhas reminiscências transgeracional e diga-se , tendo como senha do tempo, especialmente o tempêro .
O tempêro , a velha magia que sempre moveu o mundo, talvez porque em contraste com o de sempre, chamava à diferença e o aguçamento dos sentidos,o prazer oral , para muitos o único prazer dos Deuses , o prazer por excelência , já que começamos por ele e nunca mais saímos.
Ao serem colocados no prato garantem o substantivo , garantia do básico como alicerce , como se a arquitetura dos detalhes , só pudesse ter seu realce no depois , o requinte do a mais , sempre bem vindo , mas um tipo de agregado mais superficial , que abre a brecha para uma nova combinação.
Os agregados , saladas, proteínas como carnes em geral , as massas , ao mesmo tempo que representam uma identidade histórica , sofrem um tipo de sujeição particular quando há o feijão com arroz , que compassam o fundo , o gosto primário, onde o Brasil é terra.
Saboreia-se a terra de uma forma única , derivações do coito brasilis, onde o dois é a consagração da soma, pois , a idéia de ambos , eleva a um terceiro que só a boca entende , pois eis ali a passagem consolidada do líquido para o sólido , uma entrance na magia familiar.
Compete-se pelo melhor feijão , aquele que de fato é o falo , aquele que faz falar ," ah! que delícia" , a plenitude do preto em geral , aonde o branco numa inversão dos pré-conceitos faz a figuração coadjuvante , mas primordial , uma submissão consentida e humilde dos que servem para que outros brilhem.
O arroz é assim , embora tenha sua magia própria e um cardápio de requintes , aqui em nosso caso , é aquele que se empresta para ser consumado , o servo nem sempre citado , mas indispensável , a noiva deflorada a cada prato , onde os méritos são reconhecidos não pela sua oferta , mas pela performance do noivo.
Mas a combinação , que não é uma mistura , como parece a primeira vista , produz um encanto que passa a a ter com a fome uma relação diferente pois chega antes , ou seja, se constitue num tipo de figuração onde a fome é induzida apenas como acesso ao gozo.
Se come sem se comer , um ato sem determinação sólida , uma liçença virtual que o imaginário permite e concede a quem merece , e o feijão com arroz é assim , o um com outro, uma alteridade emancipada , um coito silencioso e com cheiro doméstico de família.
O feijão serve como marca emblemática de talento inesquecível , pois, saber-fazer feijão com tempêro e cheiroso , ah! leva o título campeão , e se inscreve no livro das façanhas culinárias.
Ah ! este é bom ! mas não é igual ao da minha mãe , ou da minha vó, ou da empregada, ou seja lá quem merecer o título , mas será esse feijão campeão que se estabelecerá como medida para os demais , num tipo diploma permanente e ao mesmo tempo de possíveis saudades acalentadas com recordações de cuidados e carinhos .
Lembro-me por exemplo , e esta parece ser uma questão para os fazedores de feijão , que o louro em folha de repente aparecia , como um tipo de intruso , bem vindo para uns, não para outros.Depois veio o em pó , o louro em pó, que alguns é uma heresia ,e também os têmperos industrializados que equalizaram a cozinha moderna com suas próprias fórmulas genéricas , já sem a alma dos segredos que sempre marcaram a arte culinária.
Essas mudanças aparentementes úteis , acompanham a transformação do tempo considerado hoje do ponto de vista prático , ou seja,não há tempo a perder , come-se o prático e dispensa-se as liturgias e ritualistícas das dedicações , uma perda que os restaurantes tentam aproveitar cobrando alto o preço do resgaste .
Os chamados acompanhamentos também entram numa certa relação de afinidades populares , e no nosso caso , por exemplo, o bife com batatas fritas , uma outra dobradinha muito apreciada que compõe um quarteto extremamente apreciado por muitos.
Feijão com arroz e bife com batatas fritas, minha nossa , aprende-se lá na infância e confirma-se o conceito de fixação , tão cara a Psicanálise , um prato duplamente cheio , tanto para os psi , como cheio para o desejo de que não acabe , que o prato esteja cheio mesmo.
O arremate final também é espetacular , pois guarda-se aquele pedaço final do bife com algumas batatas, caso de morte caso alguém chegue perto , é o fragmento final , guardado como símbolo do que falta para a completude , a satisfação do uno , a dimensão mítica de que não se precisa de mais nada , a experiência de satisfação revivida momentaneamente , o retorno do seio pleno.
Por outro lado não há comida que não passe pela energia dos que fazem , e mesmo em restaurantes observa-se o zelo de quem faz , pois parece que o alimento tem uma dimensão que só abre para além dele mesmo quando recebe algo do coração do feitor.
Está em jogo o alimentar, enquanto um gesto materno , um feminino cuidador , uma reverência solene que nos sugere em muitas ocasiões comer calados , como se a boca naquele momento fosse tomada de uma recepção única e concentrada , onde as palavras se recolhem para apreciar , um tipo de coro grego que sublinha o mais importante.
O jabá com girimun , também é uma outra dupla famosa , embora menos cotada, mas de grande prestígio , a carne seca com abóbora , uma combinação também de beleza , pois os secos se combinam com úmidos, assim como os queijos se combinam com goiabadas, numa conjugação que colorem à neutralidade da saliva e testificam que o desejo também é fruto do olhar.
Essas composições harmoniosas também nos levam aqueles lugares onde podemos sonhar com encaixes , suposições relacionais que quando se juntam tornam ainda melhor o depois, talvez mostrando que esse junto têm seus méritos aonde acrescentam e se destacam como unidade assimétrica.
E embora sejam básico e por muitas vezes sinônimo de povão , essas dobradinhas figuram o imaginário alimentício como despojamento , como simplicidade , como delícias, onde as classes sociais se encontram , talvez preconizando uma possibilidade dos cardápios, além do dinheiro, serem também uma mesa comum.
O feijão é o feijão , bem como o arroz , mas juntos destacam um momento que sózinhos não poderiam , e ao proporcionarem tamanho prazer se tornam inesquecíveis , um apêlo da boca quando se sente só.
Valeu.
Homenagem ao meu amigo Dr Wilson Soares Câmara, bom gourmet e apreciador de feijão com macarrão.
"A elite cultural distanciou-se do resto de nós pelo gosto artístico seletivo e por critérios estritamente definidos-em clara oposição ao nosso gosto sem discernimento e caracterizado por flagrante oposição de critérios. Foi essa oposição que sustentou a divisão entre a "alta cultura" e a" baixa cultura" (popular ou de massas ) Pierre Bourdieu citado Boman em " 44 cartas do mundo líquido moderno".
Eis uma reflexão sobre como os símbolos da baixa cultura ( feijão com arroz) promovem uma militância subversiva e alça às mesas nobres , num tipo de socialismo generoso e com armas do requinte e do paladar.
O FEIJÃO COM ARROZ :
Na verdade não é uma mistura , não , de forma alguma .É dessas combinatórias onde a vida resolve se juntar e mostrar que dá certo,uma assertiva da atração .
Em geral , o feijão por baixo e o arroz por cima , sem dúvida mais elegante do que o feijão esparramado por cima , meio lambuzando o cenário .
O arroz sendo branco realça bem a superfície enquanto o feijão dá um tipo de vinil irregular ao fundo , ao mesmo tempo que assanha velhas reminiscências transgeracional e diga-se , tendo como senha do tempo, especialmente o tempêro .
O tempêro , a velha magia que sempre moveu o mundo, talvez porque em contraste com o de sempre, chamava à diferença e o aguçamento dos sentidos,o prazer oral , para muitos o único prazer dos Deuses , o prazer por excelência , já que começamos por ele e nunca mais saímos.
Ao serem colocados no prato garantem o substantivo , garantia do básico como alicerce , como se a arquitetura dos detalhes , só pudesse ter seu realce no depois , o requinte do a mais , sempre bem vindo , mas um tipo de agregado mais superficial , que abre a brecha para uma nova combinação.
Os agregados , saladas, proteínas como carnes em geral , as massas , ao mesmo tempo que representam uma identidade histórica , sofrem um tipo de sujeição particular quando há o feijão com arroz , que compassam o fundo , o gosto primário, onde o Brasil é terra.
Saboreia-se a terra de uma forma única , derivações do coito brasilis, onde o dois é a consagração da soma, pois , a idéia de ambos , eleva a um terceiro que só a boca entende , pois eis ali a passagem consolidada do líquido para o sólido , uma entrance na magia familiar.
Compete-se pelo melhor feijão , aquele que de fato é o falo , aquele que faz falar ," ah! que delícia" , a plenitude do preto em geral , aonde o branco numa inversão dos pré-conceitos faz a figuração coadjuvante , mas primordial , uma submissão consentida e humilde dos que servem para que outros brilhem.
O arroz é assim , embora tenha sua magia própria e um cardápio de requintes , aqui em nosso caso , é aquele que se empresta para ser consumado , o servo nem sempre citado , mas indispensável , a noiva deflorada a cada prato , onde os méritos são reconhecidos não pela sua oferta , mas pela performance do noivo.
Mas a combinação , que não é uma mistura , como parece a primeira vista , produz um encanto que passa a a ter com a fome uma relação diferente pois chega antes , ou seja, se constitue num tipo de figuração onde a fome é induzida apenas como acesso ao gozo.
Se come sem se comer , um ato sem determinação sólida , uma liçença virtual que o imaginário permite e concede a quem merece , e o feijão com arroz é assim , o um com outro, uma alteridade emancipada , um coito silencioso e com cheiro doméstico de família.
O feijão serve como marca emblemática de talento inesquecível , pois, saber-fazer feijão com tempêro e cheiroso , ah! leva o título campeão , e se inscreve no livro das façanhas culinárias.
Ah ! este é bom ! mas não é igual ao da minha mãe , ou da minha vó, ou da empregada, ou seja lá quem merecer o título , mas será esse feijão campeão que se estabelecerá como medida para os demais , num tipo diploma permanente e ao mesmo tempo de possíveis saudades acalentadas com recordações de cuidados e carinhos .
Lembro-me por exemplo , e esta parece ser uma questão para os fazedores de feijão , que o louro em folha de repente aparecia , como um tipo de intruso , bem vindo para uns, não para outros.Depois veio o em pó , o louro em pó, que alguns é uma heresia ,e também os têmperos industrializados que equalizaram a cozinha moderna com suas próprias fórmulas genéricas , já sem a alma dos segredos que sempre marcaram a arte culinária.
Essas mudanças aparentementes úteis , acompanham a transformação do tempo considerado hoje do ponto de vista prático , ou seja,não há tempo a perder , come-se o prático e dispensa-se as liturgias e ritualistícas das dedicações , uma perda que os restaurantes tentam aproveitar cobrando alto o preço do resgaste .
Os chamados acompanhamentos também entram numa certa relação de afinidades populares , e no nosso caso , por exemplo, o bife com batatas fritas , uma outra dobradinha muito apreciada que compõe um quarteto extremamente apreciado por muitos.
Feijão com arroz e bife com batatas fritas, minha nossa , aprende-se lá na infância e confirma-se o conceito de fixação , tão cara a Psicanálise , um prato duplamente cheio , tanto para os psi , como cheio para o desejo de que não acabe , que o prato esteja cheio mesmo.
O arremate final também é espetacular , pois guarda-se aquele pedaço final do bife com algumas batatas, caso de morte caso alguém chegue perto , é o fragmento final , guardado como símbolo do que falta para a completude , a satisfação do uno , a dimensão mítica de que não se precisa de mais nada , a experiência de satisfação revivida momentaneamente , o retorno do seio pleno.
Por outro lado não há comida que não passe pela energia dos que fazem , e mesmo em restaurantes observa-se o zelo de quem faz , pois parece que o alimento tem uma dimensão que só abre para além dele mesmo quando recebe algo do coração do feitor.
Está em jogo o alimentar, enquanto um gesto materno , um feminino cuidador , uma reverência solene que nos sugere em muitas ocasiões comer calados , como se a boca naquele momento fosse tomada de uma recepção única e concentrada , onde as palavras se recolhem para apreciar , um tipo de coro grego que sublinha o mais importante.
O jabá com girimun , também é uma outra dupla famosa , embora menos cotada, mas de grande prestígio , a carne seca com abóbora , uma combinação também de beleza , pois os secos se combinam com úmidos, assim como os queijos se combinam com goiabadas, numa conjugação que colorem à neutralidade da saliva e testificam que o desejo também é fruto do olhar.
Essas composições harmoniosas também nos levam aqueles lugares onde podemos sonhar com encaixes , suposições relacionais que quando se juntam tornam ainda melhor o depois, talvez mostrando que esse junto têm seus méritos aonde acrescentam e se destacam como unidade assimétrica.
E embora sejam básico e por muitas vezes sinônimo de povão , essas dobradinhas figuram o imaginário alimentício como despojamento , como simplicidade , como delícias, onde as classes sociais se encontram , talvez preconizando uma possibilidade dos cardápios, além do dinheiro, serem também uma mesa comum.
O feijão é o feijão , bem como o arroz , mas juntos destacam um momento que sózinhos não poderiam , e ao proporcionarem tamanho prazer se tornam inesquecíveis , um apêlo da boca quando se sente só.
Valeu.
Homenagem ao meu amigo Dr Wilson Soares Câmara, bom gourmet e apreciador de feijão com macarrão.
5.6.11
O REINO DAS ÁGUAS
Grande mistério da vida e elemento constitutivo de tudo na matéria, ou quase tudo, a água é impressionante , pois seu valor é tanto, que ao leve indício de que vai faltar, a vida muda.
No nível literal é um acasalamento entre 2 moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio , um H2O, cuja força é tão intimidadora por dentro como por fora.
Por dentro, sustenta a umidade necessária ao movimento e se compõe com o sangue como catalizador de trocas e penetração, representando uma parcela ampla de constituição do corpo em formas variadas .
Por fora, é o encanto da vida , desde a calma do lago até as ondas gigantes que arrasam o que encontram pelo caminho . Sustenta primariamente a higiene da vida e tem a representação do modo como o sujo se transforma em limpo , sendo um tipo de parceira muda mas efetiva em grande parte das ações cotidianas.
Símbolo primordial do que há de flexível , pois é aquela que sabe se moldar , diz Lao tsé , o sábio anônimo do Tao te King , a água não impõe a forma , é o servo que acata o que é oferecido , e sabe como preencher .
Tem a força alquímica da transformação do sujo no limpo e, por isso, é tida como a que tem o poder de purificar , a passagem de nível, onde a clareza se consagra como esforço e merecimento .
Compõe de forma substancial tanto o corpo humano , como o do planeta , e faz repousar as fábulas de seu descanso de forma suspeita , ou seja, sua calma contém também o seu perigo .
Há sempre um monstro , um ser abissal , um estranho qualquer a habitá-la , como se suspeitássemos , que em sua imensidão há mistérios e seres inomináveis , a desafiar o imaginário de nosso destino e também de nossa origem.
É tanto um elemento íntimo e indispensável do cotidiano , como um lugar de pavor quando suas medidas e movimentos crescem demais , fazendo com que qualquer construção humana sólida , pareça um brinquedo descartável .
Na forma de onda,serve para beleza das dobras , um compasso preciso , onde a cadência exuberante do movimento, fascina o olhar , tanto pela grandeza, como pela estética irretocável, do como num jogo de segundos, o despejar , faz com que o seu ápice se transforme em espumas , um branco associado ao que o sorriso tem de melhor e refrescante.
Um surfista tem na onda seu templo , sua religiosidade precisa , sua reverência profunda e atenta , a força toda de um alerta total , uma interação por dentro , uma diferença no limiar, pois, enquanto uma conjunção, é como um coito uterino , uma inter-penetração que reverencia os limites, e extrapola qualquer contorno .
Nos dá o sentido do boiar , a entrega ao Todo , um modo de relaxamento de ossos e músculos , de matéria e espiríto , um gozo pleno e momentâneo do Ser , puro e simplesmente . Um gozo ,da sensação plena de que tudo está aqui , nada lá e nada a ser procurado , um encontro que dispensa a falta , eterna lembrança do que não se tem.
Momento mágico, que nos dispensa da obrigação do eu , do tu , ou de todos , e nos lança no lugar vazio de uma mente sem pretensões e sem ter aonde chegar , pois não se trata de nenhum endereço prévio.
A água nos convida a não prender , sua natureza é de chegar , ocupar e de ir , num fluxo constante de permutas e configurações caleidoscópicas , que desafia nosso modo estabelecido de estancar, para ver melhor.
Nos convoca também a um outro exercício de sensitivizar , de permitir sincronicidades sem causalidades , onde o eu se recolhe e se admira , como testemunha especial de uma obra, cuja arte , somos nós mesmos.
Bachelard , faz seu estudo sobre o fogo da vela , momento íntimo de recolhimento , uma luz tendo a penumbra como fundo, já a água parece não pertencer ao particular exatamente , sua figuração nos leva ao que só se contém provisoriamente , ao que é livre de dogmas , modelos, nos convidando ao fluxo .
E pensar a vida em fluxo é extraordinário . Dispensa-se, como condição do conhecer, o prender para ver ,e aprende-se a ver estando junto , a penetração na alma do que existe , sem invadir , o âmago que o sutil só revela aos que respeitam esta condição.
A limpeza , esse capítulo especial , é uma ato místico de reverência , um reconhecimento do que é sujo e precisa mudar , por ferir a higiene comum. Quem suja , vai limpar, diz o provérbio .É também o modo referido de uma ascese , o que dá o brilho , o brilho da compleição , estampada no rosto e reflexo direto do coração .
Numa cultura onde a mentira é lugar comum , o sujo ao prevalecer , torna a limpeza um trabalho de sempre e uma paranóia mental e jurídica , pois se teme, o que o limpo pode mostrar . Viver limpo, não tem a conotação de se viver de acordo com a lei , mas de acordo com a Verdade , mesmo que não- Toda, como diz Lacan.
Por outro lado , a Água da Vida é maravilhosa e muitos Mestres ensinam isto , principalmente Jesus , o chamado Mestre dos Vivos , nos evangelhos gnósticos , abolidos pela Igreja de Roma, é a ressurreição , a segunda vez passada a limpo .
É a água que rega a vida espiritual , que faz brotar o bem no coração dos homens , o desejo de suas virtudes , o amolecer da animalidade , do grotesco , do que se mostra duro e precisa amolecer . A água , em sua paciência não teme a pedra dura, pois aprende a dar sua importância e agradece a possibilidade de exercitar seus poderes discretos ,sem alardes .
A soberania é dos que têm flexibilidade , são os que podem esperar , mesmo sem fazer concessões , como observava Freud.
Lubrificações favorecem às articulações , e saber articular é sabedoria , é o elo fora da cadeia , pois não repete, e arremete à novas sucessões de uma ordem que ainda não vige no senso comum.
Quando o homem chega e conceitua, percebe que a água já esteve lá , uma vanguarda serviçal de quem ajuda abrir caminhos e indica possibilidades.
Mas nem sempre é assim e não convém desafiá-la , pois pode enfurecer-se, e aí nada pior.
Humilde como serva, pode se tornar assassina impiedosa e cruel , é seu outro lado , nós é que decidimos com qual deles queremos conviver. Provocada , é imbatível .
Os mitos falam de destruições pela água desde a Lemúria , populações inteiras dizimadas , é seu furor incontido , que já vimos em ação nas Tsunamis . O quanto isso tem haver com as ações do homem é o que se estuda .Embora, as visões mais atuais tendem a nos pensar, enquanto campo de níveis escalonados de complexidades, mas de forma interpenetrável.
Isso quer dizer que nesta teia da vida tudo tem haver com tudo , uma forma bela de nos inserir no Todo e nos convidar à participar de tudo , um pleno exercício de abertura para novas inclusões , já que a àgua reconhece o terreno correndo e interagindo com ele.
Há um ponto curioso, pois mesmo com toda globalidade , com tudo sendo mostrado , a vida cotidiana ainda se prende aos mesmos referenciais , uma vida um tanto umbilical que nos torna dormente ou desesperados . É como nos faltasse o gosto pelas questões maiores , o gosto que faz a diferença de figuração da água operacional na torneira da pia , e o oceano vivo, casa de muitos seres e de deslizamento do olhar pela imensidão , o gozo do desafio do desconhecido , pontuado pela linha do horizonte.
A água está aqui , está ali, está lá e acolá , uma onipresença líquida de um líquido que representa a seiva da vida , a divindade dócil e mortal submetida aos sentidos do corpo,e ao mesmo tempo, a expansão desafiadora de qualquer conceito , de qualquer representação,pois em sua essência, afirma a liberdade , o que se move , o que adoece quando estagna , o Real que nos lembra o pertencimento à força superior da vida.
A água vem do Céu e corre na Terra , penetra e retorna como vida e sobe novamente , tendo em si, o espírito da conexão interdimensional , o passado que registra em suas memórias , o presente em tudo que brota e o futuro enquanto potência pura do "devir deleuziano", enquanto doação do Maior ao menor , para que viva o gozo do triunfo da vida em sua expansão.
Lugar de origem , encarna o dom do início , mas é o alfa e o ômega , o princípio e o fim , o Orubórus das serpentes que se entrelaçam , se olham e não se tocam , nem nas caudas e nem nas cabeças , o extâse do que há para se viver e descobrir.
Que a água possa ser a cada dia nossa prece de amor e flexiblidade , nossa reverência ao fluxo , nossa inserção consciente e móvel , nosso estreitamento consentido quando for o caso , e nossa expansão corajosa , enquanto filhos da liberdade e do eterno, com o coração bem limpinho e cheio de virgindades não -vinculadas.
Valeu amigos.
No nível literal é um acasalamento entre 2 moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio , um H2O, cuja força é tão intimidadora por dentro como por fora.
Por dentro, sustenta a umidade necessária ao movimento e se compõe com o sangue como catalizador de trocas e penetração, representando uma parcela ampla de constituição do corpo em formas variadas .
Por fora, é o encanto da vida , desde a calma do lago até as ondas gigantes que arrasam o que encontram pelo caminho . Sustenta primariamente a higiene da vida e tem a representação do modo como o sujo se transforma em limpo , sendo um tipo de parceira muda mas efetiva em grande parte das ações cotidianas.
Símbolo primordial do que há de flexível , pois é aquela que sabe se moldar , diz Lao tsé , o sábio anônimo do Tao te King , a água não impõe a forma , é o servo que acata o que é oferecido , e sabe como preencher .
Tem a força alquímica da transformação do sujo no limpo e, por isso, é tida como a que tem o poder de purificar , a passagem de nível, onde a clareza se consagra como esforço e merecimento .
Compõe de forma substancial tanto o corpo humano , como o do planeta , e faz repousar as fábulas de seu descanso de forma suspeita , ou seja, sua calma contém também o seu perigo .
Há sempre um monstro , um ser abissal , um estranho qualquer a habitá-la , como se suspeitássemos , que em sua imensidão há mistérios e seres inomináveis , a desafiar o imaginário de nosso destino e também de nossa origem.
É tanto um elemento íntimo e indispensável do cotidiano , como um lugar de pavor quando suas medidas e movimentos crescem demais , fazendo com que qualquer construção humana sólida , pareça um brinquedo descartável .
Na forma de onda,serve para beleza das dobras , um compasso preciso , onde a cadência exuberante do movimento, fascina o olhar , tanto pela grandeza, como pela estética irretocável, do como num jogo de segundos, o despejar , faz com que o seu ápice se transforme em espumas , um branco associado ao que o sorriso tem de melhor e refrescante.
Um surfista tem na onda seu templo , sua religiosidade precisa , sua reverência profunda e atenta , a força toda de um alerta total , uma interação por dentro , uma diferença no limiar, pois, enquanto uma conjunção, é como um coito uterino , uma inter-penetração que reverencia os limites, e extrapola qualquer contorno .
Nos dá o sentido do boiar , a entrega ao Todo , um modo de relaxamento de ossos e músculos , de matéria e espiríto , um gozo pleno e momentâneo do Ser , puro e simplesmente . Um gozo ,da sensação plena de que tudo está aqui , nada lá e nada a ser procurado , um encontro que dispensa a falta , eterna lembrança do que não se tem.
Momento mágico, que nos dispensa da obrigação do eu , do tu , ou de todos , e nos lança no lugar vazio de uma mente sem pretensões e sem ter aonde chegar , pois não se trata de nenhum endereço prévio.
A água nos convida a não prender , sua natureza é de chegar , ocupar e de ir , num fluxo constante de permutas e configurações caleidoscópicas , que desafia nosso modo estabelecido de estancar, para ver melhor.
Nos convoca também a um outro exercício de sensitivizar , de permitir sincronicidades sem causalidades , onde o eu se recolhe e se admira , como testemunha especial de uma obra, cuja arte , somos nós mesmos.
Bachelard , faz seu estudo sobre o fogo da vela , momento íntimo de recolhimento , uma luz tendo a penumbra como fundo, já a água parece não pertencer ao particular exatamente , sua figuração nos leva ao que só se contém provisoriamente , ao que é livre de dogmas , modelos, nos convidando ao fluxo .
E pensar a vida em fluxo é extraordinário . Dispensa-se, como condição do conhecer, o prender para ver ,e aprende-se a ver estando junto , a penetração na alma do que existe , sem invadir , o âmago que o sutil só revela aos que respeitam esta condição.
A limpeza , esse capítulo especial , é uma ato místico de reverência , um reconhecimento do que é sujo e precisa mudar , por ferir a higiene comum. Quem suja , vai limpar, diz o provérbio .É também o modo referido de uma ascese , o que dá o brilho , o brilho da compleição , estampada no rosto e reflexo direto do coração .
Numa cultura onde a mentira é lugar comum , o sujo ao prevalecer , torna a limpeza um trabalho de sempre e uma paranóia mental e jurídica , pois se teme, o que o limpo pode mostrar . Viver limpo, não tem a conotação de se viver de acordo com a lei , mas de acordo com a Verdade , mesmo que não- Toda, como diz Lacan.
Por outro lado , a Água da Vida é maravilhosa e muitos Mestres ensinam isto , principalmente Jesus , o chamado Mestre dos Vivos , nos evangelhos gnósticos , abolidos pela Igreja de Roma, é a ressurreição , a segunda vez passada a limpo .
É a água que rega a vida espiritual , que faz brotar o bem no coração dos homens , o desejo de suas virtudes , o amolecer da animalidade , do grotesco , do que se mostra duro e precisa amolecer . A água , em sua paciência não teme a pedra dura, pois aprende a dar sua importância e agradece a possibilidade de exercitar seus poderes discretos ,sem alardes .
A soberania é dos que têm flexibilidade , são os que podem esperar , mesmo sem fazer concessões , como observava Freud.
Lubrificações favorecem às articulações , e saber articular é sabedoria , é o elo fora da cadeia , pois não repete, e arremete à novas sucessões de uma ordem que ainda não vige no senso comum.
Quando o homem chega e conceitua, percebe que a água já esteve lá , uma vanguarda serviçal de quem ajuda abrir caminhos e indica possibilidades.
Mas nem sempre é assim e não convém desafiá-la , pois pode enfurecer-se, e aí nada pior.
Humilde como serva, pode se tornar assassina impiedosa e cruel , é seu outro lado , nós é que decidimos com qual deles queremos conviver. Provocada , é imbatível .
Os mitos falam de destruições pela água desde a Lemúria , populações inteiras dizimadas , é seu furor incontido , que já vimos em ação nas Tsunamis . O quanto isso tem haver com as ações do homem é o que se estuda .Embora, as visões mais atuais tendem a nos pensar, enquanto campo de níveis escalonados de complexidades, mas de forma interpenetrável.
Isso quer dizer que nesta teia da vida tudo tem haver com tudo , uma forma bela de nos inserir no Todo e nos convidar à participar de tudo , um pleno exercício de abertura para novas inclusões , já que a àgua reconhece o terreno correndo e interagindo com ele.
Há um ponto curioso, pois mesmo com toda globalidade , com tudo sendo mostrado , a vida cotidiana ainda se prende aos mesmos referenciais , uma vida um tanto umbilical que nos torna dormente ou desesperados . É como nos faltasse o gosto pelas questões maiores , o gosto que faz a diferença de figuração da água operacional na torneira da pia , e o oceano vivo, casa de muitos seres e de deslizamento do olhar pela imensidão , o gozo do desafio do desconhecido , pontuado pela linha do horizonte.
A água está aqui , está ali, está lá e acolá , uma onipresença líquida de um líquido que representa a seiva da vida , a divindade dócil e mortal submetida aos sentidos do corpo,e ao mesmo tempo, a expansão desafiadora de qualquer conceito , de qualquer representação,pois em sua essência, afirma a liberdade , o que se move , o que adoece quando estagna , o Real que nos lembra o pertencimento à força superior da vida.
A água vem do Céu e corre na Terra , penetra e retorna como vida e sobe novamente , tendo em si, o espírito da conexão interdimensional , o passado que registra em suas memórias , o presente em tudo que brota e o futuro enquanto potência pura do "devir deleuziano", enquanto doação do Maior ao menor , para que viva o gozo do triunfo da vida em sua expansão.
Lugar de origem , encarna o dom do início , mas é o alfa e o ômega , o princípio e o fim , o Orubórus das serpentes que se entrelaçam , se olham e não se tocam , nem nas caudas e nem nas cabeças , o extâse do que há para se viver e descobrir.
Que a água possa ser a cada dia nossa prece de amor e flexiblidade , nossa reverência ao fluxo , nossa inserção consciente e móvel , nosso estreitamento consentido quando for o caso , e nossa expansão corajosa , enquanto filhos da liberdade e do eterno, com o coração bem limpinho e cheio de virgindades não -vinculadas.
Valeu amigos.
26.5.11
GENTE COISINHA
Já ouviram falar de gente coisinha?
Mas de pronto, arrisco que gente coisinha, tem tendência para o menor.
Embora mais popular, do que reconhecida ou nomeada ,o sucesso das tipologias é que com pouco , você identifica.
O chato, por exemplo , mal você vê e imediatamente teu metabolismo muda e você se esquiva , às vezes de forma sutil ,e às vezes afrontosamente.
O pernóstico , aquele pentelho que se acha , sempre a procura de palco e platéia , um saco e você já entra numa de competir mesmo não querendo , ou querendo, e é mexido nas inferioridades e superioridades narcísicas.
Estes são apenas dois exemplos , mas vamos falar de gente coisinha .
O que é gente coisinha?
Como o próprio nome indica é aquela gente que tudo diminui , que tudo tem defeito , que tudo nunca tá bom, é aquela criatura menor e que não saca isto , e que fica tentando te convencer à entrar na dela .
Entram nas situações pela porta dos fundos e de imediato buscam o defeito , o que criticar , o que mal-dizer . Por vezes, parecem ter o que dizer ,e quando em geral têm um pouco de cultura, de certa forma um tanto anã , ficam tentando enfiar o mundo ali de qualquer jeito, o que lhes obriga à criar opiniões intocáveis e de arrogâncias particulares.
Adoram cumplicidades e às amizades se referem a um tipo de conluio por aprovação, onde a regra é concordar, o que torna estas criaturas pobres no convívio, pois impõem uma suspensão da crítica , no intuito de não serem criticados pelos seus modos mesquinhos.
Parecem sensitivos dos defeitos alheios e completamente cegos em relação aos próprios e independentemente de raça, credo, cultura habitam o mundo mental em todos os níveis sociais , não havendo desigualdes hierárquicas.
A grandeza da vida parece invejada e os outros também , pois se sentem denunciados facilmente por qualquer coisa , ato ou situação que mostrem o quanto lhes falta identidade com o maior, por isso vivem oprimidos pela insegurança de seu próprio valor.
Não perdem a oportunidade de faturar em cima de quem quer que seja , não importando aqui o constrangimento do outro , sempre coadjuvante para uma boa cena.
Mas o que talvez caracteriza mais o coisinha, é que sem escuta mais apurada ,e sem comprometimento pessoal , se autoriza a blefar sem grandes escrúpulos , pois a verdade só é importante como versão de suas razões , enfim, uma subversão das máscaras , a caricatura do que nunca foi e nem poderá ser.
Eis aqui o sofrimento irrecusável, pois como não há conquista que possa ser mostrada, o coisinha se transforma num personagem de seus próprios enredos fantasiosos , em que por uma lado lhe induz ao temor de ser denunciado e por outro lhe seduz um brilho que não tem pois não conquistou.
É ôco e de difícil penetração , pois, se deixar ver, poderia ser um golpe fatal, ou seja, à admissão da inconsistência dissimulada numa teatralidade de ocasião. A sempre sensação de algo que simula estar, com certo estrondo ou de forma emudecida , mas não está , uma presença por dever.
O que parece também interessante é que o coisinha não tem noção do que suscita nos outros, já que seu sistema de crença o faz acima do " simancol", isto é, não se manca, o que torna sua presença a marca de seu estereótipo , já que a dialética do te ver -se vendo fica prejudicada.
Há aqui um certo círculo neurótico que se volta contra si , pois na medida em que não há essa dialética e o outro vira uma projeção maciça de pouco retorno , o sentimento de rejeição passa a ser constante , pois dessa forma perde-se o que o contato tem de abertura e renovação , onde o outro é uma alternativa credenciada à mim mesmo, uma opção que só a sinceridade permite.
Ser sincero é uma arte de elite , digo, na alma , pois é a expressão do modo como cada um se tem em conta, como é seu narcisimo de vida , seu gosto de ser quem é , sua celebração por ter nascido .Quem é coisinha não se celebra , pois não tem o seu nascer na conta de um momento de grande com-sideração da vida, não vivifica à diferença que se impôs no ato de ter nascido. Em outras palavras , o coisinha não se tem na conta da diferença , o que é uma condição básica para singularidade por vir , o estilo único de uma consagração cósmica.
Este registro é o que o faz ficar prisioneiro da busca de atenção do outro , sem a segurança de estar sendo aceito e querido , é o seu tormento de afirmação, a prisão de ter que fazer malabarismo para impressionar , o seu a mais que o nascer não reconheceu.
O exibicionismo , um tanto alardeante, ou o apagamento ressentido , se interpolam num mundo pouco compartilhado e com fantasmas rudes de solidão , um estar só , na fantasia onde o outro lhe deixou, levando consigo uma parte que faz falta , e deixando o que é a marca de sua reprovação estrutural.
É o drama da rejeição um tanto incurável , pois a princípio já acha que não tem e não pode ser dado , só tomado. E o cruel, é que isto é tão verdade no plano psíquico , que por mais que se garanta não ser assim, não funciona. São os que não se sentem amado , pois o amor é a falta do que foi tirado , e deixou a estranha marca da falta de merecimento.
O coisinha é um desmerecido que se desmerece , desmerecendo o que acha não poder ter ou ser.Um tipo de inveja , que dependendo do grau leva à violência, um se apoderar do outro , em muitos casos pela humilhação e pela exposição pública onde o diminuir do outro é sua ascensão imaginária nos aplausos que acha que lhe tiraram, ou por sacanagem ou porque deram para outro .
Essa lógica rancorosa é de difícil conversa , uma inacessibilidade pela falta de uma explicação que não permite o encaixe do sentido , pois a significação não é capaz de conter elementos , por vezes de um destino estranho .
Pessoas desmerecidas são perigosas , pois recusam a ordenação da ordem social, na conta de que essa ordem , além de injusta, é o depósito do que lhe foi roubado e que dependendo do que esteja em jogo , há de ser devolvido .
Isso perpassa desde crimes hediondos , na conta de devoluções absurdas onde a vida dos outros entra como moeda corrente , até em bullings , inexplicáveis do aonde pode estar o gozo de se humilhar o outro.
Especialistas se vêm em dificuldades para explicarem isso na conta de conceitos mais convencionais , pois há aí uma enorme vigência de acerto de contas , principalmente , porque nenhuma ordem social pode prescindir das ordens do amor.
O vínculo social há de ser antes de tudo amoroso e interessado , uma ordem coletiva humana e com um olhar mais dedicado , não só ao coletivo conceitual , mas a cada membro em particular , pois os efeitos dissociativos , aqueles que muitos conseguem se esquivar ou transformar em outra coisa , para outros é a senha de uma lesão irrecuparável que o diminuem na ordem do valor pessoal , e que por isso se sentem autorizados a cobrarem ressarcimentos , que só podemos ter acesso depois.
No laboratório íntimo as forças da vida interagem , combinam e descombinam , o coisinha que há em cada um de nós , sofre pela falta de alcance e de confissão ,e que no orgulho particular refletem os brios feridos de tudo que nos obriga a ser o que não somos , inclusive ser chamados de "coisinha".
Valeu
Mas de pronto, arrisco que gente coisinha, tem tendência para o menor.
Embora mais popular, do que reconhecida ou nomeada ,o sucesso das tipologias é que com pouco , você identifica.
O chato, por exemplo , mal você vê e imediatamente teu metabolismo muda e você se esquiva , às vezes de forma sutil ,e às vezes afrontosamente.
O pernóstico , aquele pentelho que se acha , sempre a procura de palco e platéia , um saco e você já entra numa de competir mesmo não querendo , ou querendo, e é mexido nas inferioridades e superioridades narcísicas.
Estes são apenas dois exemplos , mas vamos falar de gente coisinha .
O que é gente coisinha?
Como o próprio nome indica é aquela gente que tudo diminui , que tudo tem defeito , que tudo nunca tá bom, é aquela criatura menor e que não saca isto , e que fica tentando te convencer à entrar na dela .
Entram nas situações pela porta dos fundos e de imediato buscam o defeito , o que criticar , o que mal-dizer . Por vezes, parecem ter o que dizer ,e quando em geral têm um pouco de cultura, de certa forma um tanto anã , ficam tentando enfiar o mundo ali de qualquer jeito, o que lhes obriga à criar opiniões intocáveis e de arrogâncias particulares.
Adoram cumplicidades e às amizades se referem a um tipo de conluio por aprovação, onde a regra é concordar, o que torna estas criaturas pobres no convívio, pois impõem uma suspensão da crítica , no intuito de não serem criticados pelos seus modos mesquinhos.
Parecem sensitivos dos defeitos alheios e completamente cegos em relação aos próprios e independentemente de raça, credo, cultura habitam o mundo mental em todos os níveis sociais , não havendo desigualdes hierárquicas.
A grandeza da vida parece invejada e os outros também , pois se sentem denunciados facilmente por qualquer coisa , ato ou situação que mostrem o quanto lhes falta identidade com o maior, por isso vivem oprimidos pela insegurança de seu próprio valor.
Não perdem a oportunidade de faturar em cima de quem quer que seja , não importando aqui o constrangimento do outro , sempre coadjuvante para uma boa cena.
Mas o que talvez caracteriza mais o coisinha, é que sem escuta mais apurada ,e sem comprometimento pessoal , se autoriza a blefar sem grandes escrúpulos , pois a verdade só é importante como versão de suas razões , enfim, uma subversão das máscaras , a caricatura do que nunca foi e nem poderá ser.
Eis aqui o sofrimento irrecusável, pois como não há conquista que possa ser mostrada, o coisinha se transforma num personagem de seus próprios enredos fantasiosos , em que por uma lado lhe induz ao temor de ser denunciado e por outro lhe seduz um brilho que não tem pois não conquistou.
É ôco e de difícil penetração , pois, se deixar ver, poderia ser um golpe fatal, ou seja, à admissão da inconsistência dissimulada numa teatralidade de ocasião. A sempre sensação de algo que simula estar, com certo estrondo ou de forma emudecida , mas não está , uma presença por dever.
O que parece também interessante é que o coisinha não tem noção do que suscita nos outros, já que seu sistema de crença o faz acima do " simancol", isto é, não se manca, o que torna sua presença a marca de seu estereótipo , já que a dialética do te ver -se vendo fica prejudicada.
Há aqui um certo círculo neurótico que se volta contra si , pois na medida em que não há essa dialética e o outro vira uma projeção maciça de pouco retorno , o sentimento de rejeição passa a ser constante , pois dessa forma perde-se o que o contato tem de abertura e renovação , onde o outro é uma alternativa credenciada à mim mesmo, uma opção que só a sinceridade permite.
Ser sincero é uma arte de elite , digo, na alma , pois é a expressão do modo como cada um se tem em conta, como é seu narcisimo de vida , seu gosto de ser quem é , sua celebração por ter nascido .Quem é coisinha não se celebra , pois não tem o seu nascer na conta de um momento de grande com-sideração da vida, não vivifica à diferença que se impôs no ato de ter nascido. Em outras palavras , o coisinha não se tem na conta da diferença , o que é uma condição básica para singularidade por vir , o estilo único de uma consagração cósmica.
Este registro é o que o faz ficar prisioneiro da busca de atenção do outro , sem a segurança de estar sendo aceito e querido , é o seu tormento de afirmação, a prisão de ter que fazer malabarismo para impressionar , o seu a mais que o nascer não reconheceu.
O exibicionismo , um tanto alardeante, ou o apagamento ressentido , se interpolam num mundo pouco compartilhado e com fantasmas rudes de solidão , um estar só , na fantasia onde o outro lhe deixou, levando consigo uma parte que faz falta , e deixando o que é a marca de sua reprovação estrutural.
É o drama da rejeição um tanto incurável , pois a princípio já acha que não tem e não pode ser dado , só tomado. E o cruel, é que isto é tão verdade no plano psíquico , que por mais que se garanta não ser assim, não funciona. São os que não se sentem amado , pois o amor é a falta do que foi tirado , e deixou a estranha marca da falta de merecimento.
O coisinha é um desmerecido que se desmerece , desmerecendo o que acha não poder ter ou ser.Um tipo de inveja , que dependendo do grau leva à violência, um se apoderar do outro , em muitos casos pela humilhação e pela exposição pública onde o diminuir do outro é sua ascensão imaginária nos aplausos que acha que lhe tiraram, ou por sacanagem ou porque deram para outro .
Essa lógica rancorosa é de difícil conversa , uma inacessibilidade pela falta de uma explicação que não permite o encaixe do sentido , pois a significação não é capaz de conter elementos , por vezes de um destino estranho .
Pessoas desmerecidas são perigosas , pois recusam a ordenação da ordem social, na conta de que essa ordem , além de injusta, é o depósito do que lhe foi roubado e que dependendo do que esteja em jogo , há de ser devolvido .
Isso perpassa desde crimes hediondos , na conta de devoluções absurdas onde a vida dos outros entra como moeda corrente , até em bullings , inexplicáveis do aonde pode estar o gozo de se humilhar o outro.
Especialistas se vêm em dificuldades para explicarem isso na conta de conceitos mais convencionais , pois há aí uma enorme vigência de acerto de contas , principalmente , porque nenhuma ordem social pode prescindir das ordens do amor.
O vínculo social há de ser antes de tudo amoroso e interessado , uma ordem coletiva humana e com um olhar mais dedicado , não só ao coletivo conceitual , mas a cada membro em particular , pois os efeitos dissociativos , aqueles que muitos conseguem se esquivar ou transformar em outra coisa , para outros é a senha de uma lesão irrecuparável que o diminuem na ordem do valor pessoal , e que por isso se sentem autorizados a cobrarem ressarcimentos , que só podemos ter acesso depois.
No laboratório íntimo as forças da vida interagem , combinam e descombinam , o coisinha que há em cada um de nós , sofre pela falta de alcance e de confissão ,e que no orgulho particular refletem os brios feridos de tudo que nos obriga a ser o que não somos , inclusive ser chamados de "coisinha".
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