6.7.12


O Hospital Psiquiátrico- O cemitério das conexões e da ressureição



Embora o título possa parecer fúnebre , não é bem esta idéia que me anima .

O que me instiga, é a possibilidade de pensar um certa idéia de campo onde um conjunto amplo de pessoas , têm as suas vidas ou o que resta delas se compartilhando habitualmente, sem que antes tenha havido entre elas qualquer familiaridade.

Se pra nós a familia é a matriz do convívio e se os amigos pertencem às escolhas que fizemos , o que se passa quando temos que conviver sem familiaridade ou sem escolhas?

Me parece que todas as tentativas feitas de mudanças na dinâmica ou de transformação do hospital psiquiátrico , obedeceram a duas pretensões : ou de favorecer vínculos e dinâmicas mais vivas na dimensão interna ou de tentar buscar espaços novos de inclusão do lado de fora.

Ou caímos nas propostas psicodinâmicas ou em lutas políticas relativas aos direitos de cidadania do doente .Em algum momento todas foram válidas , embora passem e fica a conta do que restou.

Agora mesmo temos aí a Reforma , que buscando um impacto de ruptura , chegou ao extremo de propor o fim dos hospitais psiquiátricos . Assim como Baságlia em Trieste , que num contexto próprio e amparado pelo partido comunista italiano sugeriu então que o paciente fosse de responsabilidade comunitária .Apêlo , diga-se , de teor fortemente humanitário , mas que só teve força de sustentação com o próprio Baságlia , já que após sua morte houve um reaparecimento ainda maior do hospital psiquiátrico.A doença mental parece pertencer a um universo próprio, um campo complexo de forças entrelaçadas , que mesmo que num momento histórico queiramos destacar uma, logo o campo se recompõe , desafiando os alcances de nossos saberes.

A apoteose em Kingsley Hall com Laing e Cooper, com a proposta de uma anti-psiquiatria , aproveitando os tempos de novas buscas para o estabelecido , em quase todas as áreas , assim como, a tentativa de Maxwel Jones, de dar ao hospital psiquiátrico um caráter comunitário , preservando a rede de convívio e de produção social , onde o cotidiano pudesse manter os rituais do fazer e da participação do mundo lá fora. Propunha uma certa concepção mais horizontal , menos hierárquica do tratamento psiquiátrico , uma comunidade que produzia seus viveres e relações.

Possivelmente foram experiências que ajudaram a modernizar o Hospital e marcar alguns valores, que foram incluídos no modo como o lugar do doente mental foi sendo des-demonizado ,e o hospital menos temido .

 Mas se tudo isto fez com que novas matérias trouxessem novas exigências estudiosas e alimentassem o debate , por outro , o avanço das medicações ,também possibilitou , um perfil mais ágil do tratamento em relação ao tempo e consequentemente um menor período de exclusão social.

Mas nosso estudo não visa exatamente um exame histórico dessas ações , embora de extremo interesse .

O que gostaria de recortar aqui se refere a um tipo de vazio, com feições de nada, que a meu ver tangencia um pouco o foco dessas iniciativas .

É um vazio que chamarei de vazio na alma que parece impreenchível , um tipo de esvaziamento das consistências , que configura uma aura de exílio , que chega a contagiar os que precisam de foco para trabalhar.

Acostumados a um modo de apreensão , um certo perfil do tempo e do espaço onde o olhar mais analítico busca conectar para poder ver , algo lábil que não se deixa pegar, comparece, e ao mesmo tempo , por parecer tão visível faz com que as estratégias do pensamento comecem a pontilhar . É como ver e não poder pegar , algo como um sopro que se desvencilha a revelia do desejo .

É um fenômeno incrível que têm registro energético no campo sensível , como se largar ou se afastar trouxesse certo alívio e ao mesmo tempo um tipo de frustração dos nexos do sentido, embotasse a significação .

Este tema embora teoricamente presente , mesmo que de forma oblíqua está presente na Psicanálise . Em Freud quase como desistência pois" o psicótico não sustenta relação transferencial ". Em Lacan com a questão do "Nome do Pai que não se inscreveu" , caminho teórico longo e de poucos efeitos clínicos e talvez no questionamento das condições de sentido em Wittegeisten .

O que se sustenta aqui, é o acesso ao simbólico como condição da palavra a que o psicótico não teve acesso , logo não pôde se inscrever na ordem da cultura , lugar conferido aos sócios , aqueles que se tornaram sujeitos sociais.

Mas nada disso satisfaz . O surpreendente é que algo vem e vai com mesma rapidez , um jogo sem regras de presença- ausência tão instantâneo , como se fosse um labirinto no éter, que a quase todo tempo , é difícil não se ter a impressão de universos paralelos.

Não se sustenta a conexão. Cai a conexão que parece tão frágil , cai a rede de sustentação da comunicação usual. Lá se vai , lá se foi.

Por isto que quando um pouco mais é possível os profissionais se alegram , pois têm a impressão que conseguiram desta vez pegar algo. É um trabalho árduo de paciência e humildade que não justifica vaidades , pois aqui nenhum diploma é mais hábil.

Sempre desconfio que os auxiliares de enfermagem têm formas de penetração neste labirinto que profissionais mais graduados, pode não ter .Justo por estarem mais expostos , mais ali junto , e nunca se sabe a hora que algo consiste. Não é algo que pode ser combinado previamente , talvez por isto muitas consultas pouco consigam.

Uma consulta não funciona como senha para consistência , embora sirva para se verificar o estado geral do paciente , seu desenvolvimento clínico , enfim , sua melhora ou piora.

Estas manifestações da consistência ou mesmo o momento da inconsistência só podem ser apreendidas de forma espontânea no habitat onde o paciente está .

Aqui sugiro uma ação mais de campo onde a vida está mais a vontade do que o modo artificial de gabinete . Prender o paciente no gabinete para escritas artificiais não permite chegar na sua alma e nem trazê-la.

Mas afinal o que é isto ?

O que é o sofrimento relativo às conexões?

Minha hipotése é que o paciente foi excluído das conexões que sustentam o mundo enquanto sentido, lesões nas proposições lógicas que regem e ordenam nosso sentido dominante da realidade e os torna seres dotados de um aquém ou um além, em que nossas teorias buscam penetrar , mas que talvez errem na premissa inicial.

Suponho que criaturas que habitam os limiares requisitam outras pontes de acesso e não ordenações que lhe domestiquem pura e simplesmente.

 Começando pela família ou antes ou depois de seu adoecer , foi se inscrevendo numa rede de exclusões que seu mundo pra cá ,seu mundo comum , foi-se estilhaçando ou não teve forças de estruturação.

A alma nossa de cada dia que precisa de reconhecimento e valorização , vai se fragilizando de tal forma , que seus modos de participação não consistem , e sem o calor que faz viver vão ficando frios e distantes. Com isto duas coisas acontecem:

Uma regressão aos modos infantis onde a demanda não permite novas simbolizações , pois o simbólico ficou cheio de fissuras e rasgos na expressão , possivelmente por distâncias e depreciações no convívio . Neste caso , a ligação só pode se dar numa esfera psíquica empobrecida , em geral , repetitiva e cansativa para quem se oferece.

Ou então , um exílio quase impenetrável que mais parece um des-lugar do que um lugar de qualquer coisa propriamente dito. Que difícil é ( e aqui abro estes parênteses para sugerir aos amigos trabalhadores da saúde que compartilhem mais as dificuldades que sentem , pois sem dúvida, esta seria uma linguagem comum e fácil de se entender, ao mesmo tempo que nos tornaria mais parceiros nesta empreitada enigmática).

É algo como tocar uma criatura humana e ao mesmo tempo não conseguir pegá-la , embora ela mesma possa se oferecer para tal.

No nível da regressão temos a impressão de algo deixou a desejar , não foi adiante .

O projeto humano foi abortado em algum nível . Tem -se a impressão que não era só isto.

Em alguns exercícios clínicos imagino como poderia ser tal paciente, se as condições fossem outras, que vivacidade teria , que homem ou mulher ali estaria .

Mas também penso no eterno retorno de Nietszche , onde tudo que passou , ali de novo passará . Como me faz bem pensar assim. Parece que estamos assistindo a um ensaio da própria vida consigo mesmo em níveis mais espetaculares do que supomos .

Entrar em contato verdadeiro em níveis mais profundos nos faria tremer , já que se há uma ordem subjacente na vida como dizia David Bohm , o que rege estes determinismos que escolhe uns e poupa outros?

Se pertencemos a uma alma coletiva inconsciente que nos é comum , como alega Bert Hellinger o criador das Constelações familiares em seus estudos renovadores , as anomalias nos pertencem , pois pertencemos ao mesmo tecido conjuntivo.

Pensar assim é intrigante , pois sem dúvida, embora possamos nos defender e nos defendemos claro , o sofrimento ou a dor do doente mental nos parece tão próxima que criamos de imediato uma fantasia de distância.

Propor, dinamizar , criar propostas de trabalho é bom e nos conforta , pois nos oferece a satisfação de estarmos fazendo nossa parte e isto é bom.

A doença mental é uma doença no tempo que requer muito amor e dedicação para pouco retorno, o que já é muito. Boas medicações , trabalhos de grupo , escutas individuais , oficinas de trabalhos manuais , comemorações que empuxam alegrias , música , dança , fazem parte dos jogos de animações da vida , enquanto prescrustamos o estranho labirinto da alma humana. Se lá está o Minotauro , que descubramos seu segredo para libertá-lo e nos libertarmos também. Caso haja, o que Hellinger chama de alma coletiva , então algo da nossa alma anima a chama do viver dos pacientes e vice-versa.Mas aí, o nível é mais profundo, pois a alma é profunda e sutil e aí não há dívidas . Muitas das nossas alegrias parecem estar em algum tipo de restituição que sentimos fazer, quando o tornarmos mais satisfeitos mesmo que momentaneamente . Já foram muito tomados , a vida já levou muito deles. E nós temos muito perante eles, inclusive uma vida própria .

É incrível a sensação que dá quando por trás dos escombros encontramos vida. Um gesto anímico qualquer de um vestígio humano , naqueles pacientes mais comprometidos .

Parece que somos caçadores de vida , embora a morte também faça parte.Mas é tão diferente incorporar a morte em vida através de determinadas serenidades espirituais que não temos , do que a morte enquanto um anonimato do perfil humano.E aí vem o cemitério.

Digo, cemitério, pois desconfio que haja muitas conexões enterradas ou por asfixia, ou anemia ou mesmo por violência . Talvez um pouco de cada.

Há um gosto de morte na doença mental , vejo pelo modo como os pacientes morrem e poucos se importam . Em algum nível suspeito que já eram "mortos' , pois só se vive por amor ,sem amor não há vida. Ocupam esses lugares anônimos a espera de que possamos chegar mais próximo.Mas acredito também que aonde for possível restabelecer ou recriar algumas conexões não tão enterradas , ficamos felizes e como ter uma família afim, faz diferença .Pelo menos que o Hospital seja uma casa de ressureição do possível , um lugar no universo onde os loucos possam se transmutar e re-encontrar sua integridade humana, por mais que demore.

A utopia não pode ser descartável , ao risco embotarmos nossas disposições amorosas e em se tratando do doente mental , o paciente de prazo longo , ou de prazos entrecortados , nada podemos garantir , pois como trabalhadores já vibramos muito em tirar o paciente de seus horrores enigmáticos . Talvez e suspeito disso , sejamos o espelho que o mantém enquanto uma identidade que luta para não naufragar no que tem de humano.

ACEITARIA DE BOM GRADO COMENTÁRIOS DOS AMIGOS.












19.6.12

A primeira atenção ; o sentido do dever



“Isso não é exatamente certo ; retorquiu D.Juan .- A primeira atenção trabalha muito bem com o desconhecido. Ela o bloqueia; ela nega-o tão ferozmente que, no final, o desconhecido não existe para primeira atenção. D Juan in” O fogo interior” de Carlos Castanheda .

Desde um suposto início, o modo estabelecido pela consciência parece colocar a ênfase no como é viver nesse mundo, ou seja, estamos imantados a um tipo de ordenação que nos exige aprender e praticar , algo como , a vida é um exercício constante de funções e capacidades.

Embora, nosso determinismo biológico siga seu próprio roteiro, levando em conta também nossa  ambientação , somos uma criatura de múltiplas dimensões que se conjugam de uma forma espetacular, para tornar o viver possível.

E mesmo que não saibamos , o tempo todo, somos expressão de nossas capacidades de viver aqui , e digo aqui , como um modo de consciência polarizada, aquela consciência que mantém o foco , um modo perceptivo particularizado, onde as transações  se processam nos diferentes níveis .

Esses níveis, nos ajudam a reconhecer que, respondemos à vida no seu modo mais imediato, uma condição básica que desenvolvemos como garantia de continuidade , isto é, se não tivéssemos o sentido próximo dos alertas , estaríamos desguarnecidos , uma porta para que fossemos radicalmente atingidos.

Nossa primeira atenção, parece expressar nossa forma de preservação da vida , embora nos induzindo aí, a um modo de posicionamento, que ao ser regulado pelo imediato, exige uma prontidão da consciência que trabalha para tornar tudo conhecido , o mais rápido possível.

Parece haver nessa operação um sentido de preservação da vida em relação à morte, não só exatamente como nosso fim , mas também o desembocar no desconhecido de forma tão intensa , que embarreiramos o que nos tira do imediato e consideramos esse desconhecido como uma ameaça frontal e o repelimos .

Essa primeira atenção é o nosso dever , é o modo como devemos estar nesse primeiro nível , um ato contínuo e constante de processamento que nos absorve e que compactuamos , mesmo desconfiando que nem tudo cabe aí.

Se, por um lado, isso se faz imprescindível para viver , por outro nos asfixia, ao lhe tomarmos como o único nível possível para nossas capacidades, já que ao atentarmos para nossa forma de constituição , somos confrontados por tudo que vive além de nós ,e, no entanto, em nós.

É como se ao mesmo tempo coubéssemos e não coubéssemos , um estranho além ou aquém de si , que nos aponta claramente , que em todas as épocas fomos marcados por essas divisões, nomeadas de acordo com as nomenclaturas de época.

Mesmo a noção de inconsciente, que a Psicanálise brindou a modernidade , acabou por se tornar um lugar de exploração simbólica , uma palavra por dizer , muito mais do que um pertencimento dimensional , a angústia indecifrável do próprio mistério que nos sonda diariamente e que nos faz lembrar antipaticamente , que pra nós, a morte não é tão natural.

A angústia do desamparo que Freud apontava , parece o lugar do limiar , onde a primeira atenção começa a ficar descoberta , só que, mais por força de sua limitação de conter a vida no plano conhecido do que como ponte de idas e vindas .

O desconhecido é uma outra dimensão da consciência , que rasga seus limites com relação ao imediato –conhecido e empurra para outro nível , “é o campo  mais vasto que se pode imaginar, tão vasto que , na verdade, parece não ter limites...- Não gostaria de perder-me nela por nada deste mundo- diria Dom Juan à Castanheda.

No entanto , é nosso outro lado , o lado que ao associarmos com a morte, passamos a renegá-lo, já que a morte , tal como o ego , é auto-referente , e o medo é do que virá, e do que vamos perder. O sentido operacional dessa primeira atenção é manter essa divisão de lados de forma restrita , justo para que essa auto-referência  se mantenha intacta.

A questão é que para manter-se se faz necessário certa obstinação no conhecido , já que é o lugar onde as identificações funcionam como faróis na escuridão , enquanto no desconhecido as identificações não servem pra nada , por reduzirem-se a um mero fenômeno psicológico .

O desconhecido aqui, é o além que nos revela como pequenos e arrogantes , pois o tamanho de si é inútil ,e D Juan alerta para o perigo da vaidade , lugar fixo que ordena a percepção de forma habitual, e que rouba a integridade do guerreiro pela ilusão da importância pessoal.

Matar a importância é crucial nesse processo , pois para entrar no desconhecido é melhor fazê-lo estando com o mínimo possível , com uma disposição impecável da energia , o que no caso da importância pessoal é impossível , pois toda importância é pegajosa e aderente.

O anonimato requerido não é um desprezo ao mundo propriamente dito , mas uma condição do guerreiro para suas agilidades em outro mundo , invisível aos olhos comuns , mas mortal para os que se recusam a compreender e aceitar . Uma submissão consciente e atuante , uma liberação das energias contidas que produz comoções , e leva a consciência para longe , tão longe quanto cada um suporte se deixar.

A primeira atenção regula então os modos de percepção ordinária e reiterativa , que faz do mundo o mundo , uma hábito valente e compartilhado , que nos torna iguais por força de padrões comuns e nos promete uma segurança falsificada de uma grupalidade covarde.

Para avançar é preciso a solidão , lugar onde o silêncio nos ajuda a calar o excesso de sonoridades inócuas e oriundas de nossos inventários obsessivos , cheios de culpas e tormentos orgulhosos , ecos do fracasso narcísico, que tombou no limite de sua impotência de cobrir com verniz  os rituais que a angústia desenha perante o desconhecido.

O desconhecido visto assim, é um desprendimento , uma ruptura , que nos exige se despregar,  único modo de ter a energia disponível, uma energia não vinculada em modos restritos , ou um vínculo voltado para um Absoluto , cuja invisibilidade parece procurar em nós nosso lado não-material , o que de nós parece viver além , muito além, dos limites do corpo.

Mas também é verdade que nossa consciência , tal como nos determina nos mostra o tempo todo  os efeitos de nossas vinculações, pois ela mesma os toma como patamar de referência , ou seja, sem esses efeitos nos sentimos fantasmas incorpóreos, sem saber ao que se referir.

Para entrar no desconhecido então se faz necessário suportar as quebras que libertam a consciência mas trazem o medo ,e enfrentar o medo é condição básica para tal empreitada,a empreitada que se assemelha a morte , motivo pela qual nos recusamos a mexer com isso, daí que, tornar o desconhecido esquecido é o nosso grande truque de salvar nosso modo de consciência.

Mas se a consciência assim colocada rege a percepção , isso significa que , embora queiramos que tudo seja diferente para nos sentirmos vivos e diferenciados , temos um sinistra vocação para ficar no mesmo lugar , mesmo à custa de ser feliz.

Talvez ficar no lugar de sempre , nos preserve de nos sentirmos infelizes agudos , optamos por uma infelicidade mais crônica , na vã esperança que com o tempo, estejamos mais habituados a ela , já que nosso truque é transformar os hábitos em guardiões da segurança , uma forma de prender o mundo na primeira atenção .

Na medida em que a energia se vincula como hábito , toda percepção se regula como um padrão familiar, onde a linguagem trata de domesticá-la  na conta de uma nomeação conhecida , ou seja , o novo se torna velho ao receber nomes que impedem de ser visto como desconhecido ,mas como analogias do que já existe.

Evita-se assim rupturas de fato , que poderiam levar ao inusitado , ao que não se conforma, ao que não cabe , ao preço de ficarmos cheios de anseios e angústias pela compulsão de repetir sem conseguir diferenciar , como se aos poucos fossemos nos entregando a uma mesmice desgostosa que ao renegar o mistério perdeu seu encanto, e aí só lhe resta dar a morte a esperança de um término libertador.

Nesse caso a morte é sonhada como as terras distantes que pertencem ao outro lado, lado assustador e desejado ; para muitos fim de um fardo , para outros libertação da asfixia de um conhecido que se tornou monótono por falta do que mais oferecer.


7.6.12

A burrice relacional"

A burrice é uma cicatriz" (Adorno-Horkheimer)

" O ato repressor cria uma espécie de cicatriz - burrice. Quem é repreendido e reprimido , repete o último gesto que assistiu antes da repressão . Toda vez que é posto para pensar , ou que é acionado de alguma maneira para agir , ele repete o gesto de violência que o emburreceu. Ele empaca na gesticulação estereotipada. Assim, o burro , nesse caso, não é violento por ser ignorante,mas é violento por conter a cicatriz da burrice." (Guiraldelli Jr in ""A dialética do Iluminismo")

Sem contraposição a Goleman " A inteligência emocional " , nem a Gardner com sua teoria das "Inteligências múltiplas", gostaria de recortar um tema do cotidiano , bem onipresente e campo de muitos desentendimentos e sofrimentos diversos, ou seja , a burrice relacional.

Se a epígrafe é correta , logo o burro além de " empacar ", sofre de recorrência , pois volta ao mesmo lugar , toda vez que desafiado a pensar ou a agir , no sentido de senhor de si , retoma ao lugar de escravo , ou seja , o que não esquece e não perdoa , pois tem uma dívida impagável que o atormenta e por isso , não pode ser livre , a não ser para lembrar .

Mas lembrar o que ?

O gesto que o emburreceu . Como?

Há aí, um entrelaçar entre o que emburrece e o que é emburrecido , pois se não se pode pensar, menos ainda falar , pois só se fala para viver e ser feliz, o resto são mímicas , um jogo especular de mágoas e lesões de reconhecimento , em que a burrice é aquela de manter a única opção possível , ou seja , não ter opções.

O burro empaca em sua falta de opções e em seu estreitamento negativo , pois tem razão que ninguém vê , só ele . Essa é sua arma mortal , fazer desconhecer suas razões ou dogmatizá-las de tal forma , que ao mesmo tempo que é um incompreendido, é também autor de um texto que escapa às palavras , e consequentemente à fala .

Quem fala se desdiz , quem não fala tem sempre razão intocável , lugar que ninguém sabe aonde é , logo , não se chega lá . A burrice, nesse caso, não pode prescindir de seu esconderijo, lugar de suas inúmeras razões inomináveis , arma poderosa , pois se mata sem dizer o porque, jogo perverso que faz do outro, alguém que não entende ... o que jamais foi dito.

Não se questiona aí o absurdo do paradoxo , pois para o burro ele não existe , blindagem demais para reconhecer o valor do limite.

Não se escolhe as palavras, nem o momento , nem a ternura que as tornaria melhor recebidas , pois no fundo tem medo de ser compreendido e ter que vir a luz do dia mostrar seu rosto, que não vê faz muito.

Ser burro é também ser bruto , pois a brutalidade é a intimidação que tenta negar o que precisa ser dito , mata-se, mas não se confessa.

Pois senão vejamos :

O que se quer?

Amor e prestígio , duas demandas poderosas de qualquer ego humano .

Como se faz?

Escolhe-se alguém, ou se é escolhido por alguém ,que deixará de ser alguém e se tornará um foco , um foco constante de apêlos variados , pedidos de amor e sexo , de importância , de lugar exclusivo , de companhia que fará um recorte no mundo, com ela(e), o mundo é outro , justo porque é um outro .

A partir daí uma inter-penetração irá tecer o convívio , um estranha vivência de se deixar ir e de ficar , um pêndulo, que nesse lá e cá , expressa o desafio do ganho que nos obriga a se arriscar e o medo danado de perder e sofrer , a doce vertigem de que não há garantias .

Mas é verdade também, que a partir daí , este outro que passa a nos fazer parte , também desafia nossas habilidades de cativar , de atrair , enfim, de se valer a pena , eis um desafio que uma vez iniciado segue até o fim , pois no mundo dos investimentos diz um autor " o inconsciente é capitalista ", como a ressaltar que por mais que não queiramos " não há lugar assegurado" .

É como assumissemos a tarefa de nos fazer interessantes , uma qualidade da atração e da intensidade , que nos mantém o valor enquanto uma aposta que vale a pena, um esforço de aprimoramento constante que esculpe nosso mundo de dentro , à começar por nossos modos pelo lado de fora.

A fala por exemplo , o mal da boca , aquelas palavras sem consequências , a ignorância deliberada dos efeitos , fala-se e pronto , talvez algo que dito em outra hora, ou de outro modo provocaria menos estragos .

O cuidado com o não-ofender , a não-violência em níveis sutis , o ter em conta que da mesma forma o outro sente e reage , o aprender que nem tudo é tão grave assim , e que deixar pra lá , em muitas ocasiões não é vergonha nem derrota, pois não se trata de uma disputa ou de uma arena .

É incrível que ao mudar nossos modos , mudamos também a forma de ver as coisas , como se aos poucos tirassemos delas a severidade , a acidez crítica que contamina tudo , e ao mesmo tempo ganhamos em sinceridade não-ofensiva , a expressão que consagra nosso ser, o poder dizer sem matar , a palavra que celebra a vida e chama o profundo com ternura e delicadeza.

Todo analista sabe que as projeções são imperiosas e cheias de razões particulares, e que enquanto isso não quebra , a pessoa não é tocada a nível de uma reversão , um modo de reconhecimento do que lhe cabe , do que é seu e só seu , única maneira de começar a sair dessas pequenas e custosas prisões emocionais que nos infernizam a vida.

Quando um casal, por exemplo, começa a perceber o convívio , não mais como um conjunto de projeções autorizadas sómente pela neurose de cada um, mas como um modo desafiador de aprender e de se curar , começa a surgir ,o que em geral ,começa a faltar nessa ocasião, ou seja , a gratidão pelo presença companheira , o valor do lado-a-lado , que o tempo ensina aos que conseguem afrouxar o cinto de suas onipotências.

Se por um lado ninguém é de ninguém , mais uma razão para nos agradecermos ,pois sustentamos um pertencimento por amor e só , reiterando assim que estamos aonde estamos porque assim queremos , e não como vítimas do que não foi possível .

A burrice relacional começa quando esses preceitos tão nobres ,e não se vive sem nobreza, começam a serem tratados como óbvios , crime grave que arrolará muitos processos desagradáveis e sentenças serão aplicadas , ou como culpa ou como castigo , lugar onde os fracassos, ao invés de ensinarem se tornam desgraças, cujas dores nos farão chorar , um prognóstico sinistro quanto a nossa capacidade de amar de verdade e onde o orgulho foi péssimo professor .


15.5.12

Sobre o dois : o lá e cá do Mistério



“Com efeito ,esse é o mistério da consciência. Os seres humanos afastam-se desse mistério; nós nos afastamos da escuridão , das coisas que são inexplicáveis. Encarar a nós mesmos em outros termos é loucura. Portanto, não despreze o mistério do homem em você sentindo pena de si mesmo ou tentando racionalizá-lo .Despreze a estupidez do homem em você, compreendendo-a. Mas não se desculpe por nenhum dos dois ; ambos são necessários.”
D Juan in “ O fogo interior”

Parece que somos fadados e enfadados a se virar no dois , essa nossa eterna divisão que vive a sonhar com o Um , nosso grande amor impossível , nossa busca agoniada de reconciliação , o sonho de juntar as margens e cessar a busca , o Nirvana que fez Freud apontar para morte como sendo o “gran finalle” , enfim, o zero do apagamento. Não há nada mais a se querer;

Desde sempre ouvimos que a vida depende de nossa afirmação , um tipo de doutrina que procura validar o que existe como sendo o que há de melhor, somos obrigados a nos tornar adeptos dessa religião que nos torna participantes sem opção .

Validar o mundo , eis nossa grande premissa pedagógica , pois essa é a nossa casa , o único mundo possível , portanto, tratemos de entrar em cena como atores que protagonizam o enredo sem saber ao certo do que se trata .

Nascidos em família , entramos no jogo já em curso e com lugar designado “ Nascemos no desejo do Outro “ diz Lacan, somos objetos sensíveis da forma como somos investidos , do modo como nos tratam , da importância que tem o que vivemos , e nos cala fundo como acolhem o que expressamos .

Se não há alguém do outro lado que nos permita poder dizer o que quer que seja , aos poucos vamos aprendendo a mentir , uma inverdade compactuada como senha de participação , já que percebemos rápido , o quão incômodo somos nós aos olhos dos outros .

Em que lugar então nos é dado ser ?

Eis a angústia intraduzível , porque só somos no dois , ou seja , somos na própria divisão que nos estrutura , o ladrão que nos tira como bilhete para nos dar passagem.
O tempo todo somos e não somos , não há nenhuma afirmação que não tenha ao lado uma negação ,” Quem não tiver pecado que se apresente” diz a máxima espiritual , apontando que no campo do Pathos , das afecções sensíveis, sofremos das mesmas coisas e nosso repertório de respostas não parece tão variado .

Mas o que queremos parecer então?

Parecemos o que convém ao mundo , enquanto atores que buscam prestígio nos seus desempenhos , um tipo de teatro onde nossas mazelas e virtudes se revezam a todo tempo, onde a vida finge ser regida pelo bem-estar, ilusão que tem nos custado caro demais , para passar incólume.

Mas não há como não fazer assim, já que a força do mundo é a que melhor representa o campo dos nossos desejos , o campo das nossas perdições para que depois , e diga-se , só depois , possamos nos haver a questão dos acertos , o modo impecável do guerreiro que se prepara para morrer , quando descobre que os limites herdados reprimem o mistério das dimensões.

Talvez o que o tempo nos traga como dádiva, seja a forma como nos re-consideramos , já que a idéia de fim nos confronta com o vigor do mistério que passou embotado ao longo de várias racionalizações e ateísmos cheios de medo , um descuido terrível que nos obriga a tratar o desconhecido como inimigo .

Sendo parte de nossa natureza essencial ,o mistério parece se recusar a qualquer molde estabelecido e sua força desafia os padrões que buscam lhe domesticar , ou seja, nossas reduções não garantem o fim dos sustos , e nem dos impactos de tudo que corta nossa forma retilínea de viver.

Vivemos no dois , sendo um o lado que nos familiarizamos e é o representante de todo sistema do que se conhece, o lado da consciência dita normal ,e do outro o desconhecido , o não representado , o temido , o que pode vir do fundo e trazer agitos incontroláveis .

Citando novamente D.Juan “ Uma das grandes manobras dos espreitadores é contrapor o mistério à estupidez que há em cada um de nós.”

Mas ao mesmo tempo que estamos cercados por um cinturão que parece nos sondar a todo tempo , quase que nos ameaçando e por isso vivemos com medo , por outro insistimos que nossa vida seja apenas a medida do nosso controle .

É como se ao olharmos o que não tem fundo , nos apavorássemos de tal forma , que recorremos de pronto a qualquer medida mais substantiva , um ponto de concretude, que nos devolva nosso senso de identidade familiar .

Isso tem sido um vitória de Pirro , pois ao renegarmos a força do próprio Mistério , nos tornamos reféns do próprio controle , que por sua vez se estica o que pode , para nos forjar uma segurança que só existe em nossa fantasia.

Hoje, nos orgulhamos de sermos adeptos da razão , que tem nos trazido muita coisa boa , muito conforto e facilidades que nos fascinam , e nos acomodam . É como quiséssemos fazer da vida a continuidade de todos nossos confortos e acomodações .Uma premissa enganosa , que em contra-partida nos deixa absolutamente vulneráveis aos encontrões da vida , uma contrariedade que nos tem levado à desistência , o portal das depressões.

No entanto , as raízes do desconhecido não estão no que se conhece e ao se perderem na dimensão do mistério , dependem do alcance da razão para ter algum sentido e aqui está armadilha , pois ao exercitar determinadas decifrações em modos racionais , tomamos a razão como instrumento único e assoberbado.

Não é atoa que de tempos em tempos assistimos suicídios de belos pensadores que foram tomados pelo sinistro da razão e sentiram a impotência profunda perante o Mistério que não se submete , apenas concede e lembra que a ordem é de lá pra cá , ou seja, somos desbravadores do que já existe .

Nossa soberba é fatal , uma requintada vaidade cheia de intelectualismos elaborados e sedutores , como se fossemos nós os donos e pronto , não se discute mais.

São essas vaidades que recheiam nossas vidas e lhe conferem afirmação e poder , como se nossas identidades fossem o ponto de compactuação de nosso prestígio , nosso perigoso jogo auto-importância , nossa ficção egóica que nos martiriza como escravos e faz com que sempre estejamos inseguros e tirânicos.

Ao abrirmos nossa vocação par o Mistério que entregamos lamentavelmente as religiões , somos tocados fundos pela noção deque não é pela importância que se anda no desconhecido, pelo contrário , eis o que diz D.Juan , o grande xamã de Castanheda “ A primeira verdade é que o mundo é como parece , e entretanto não é . Não é tão sólido e real como nossa percepção foi levada a crer , mas também não é uma miragem . O mundo é uma ilusão, como tem sido dito; ele é real por uma lado ,e irreal por outro.”

Talvez como nós , que somos então obrigados a correr a trilha das ilusões para saciar nossos sentidos e paixões, e descobrir que nossa materialidade pode ser nosso maior engano .
Frente ao Mistério , só nos resta vivê-lo , algo que batalhamos por aprender como , já que o óbvio nos é oferecido a preços de pexinxa , enquanto que o extra-ordinário , que nos perturba e nos instiga , é muito mais difícil , talvez para raros como dizia Herman Hesse .

Mas enquanto houver vida , vivamos ...

29.4.12

O limiar e a transição ; sobre o mudar

“É por isso que homens e mulheres perdem a razão com tanta facilidade , especialmente aqueles cujo diálogo interno é repetitivo , aborrecido e sem qualquer profundidade”


Os novos videntes dizem que os seres humanos mais joviais são aqueles, cujo diálogo interno é mais fluido e variado.” In O fogo interior” Castanheda


 Um limiar é um tipo de limite ,uma fronteira entre duas áreas , uma demarcação talvez, e ao mesmo tempo , uma contenção, que de certa forma garante ou busca garantir algum modo de identidade ou territorialidade .

A partir de um limiar algo se contém , se demarca e nos deixa uma indicação de algo a mais ou diferente , como por exemplo , um limiar histórico já nos oferece indícios de acontecimentos diferentes e que irão trazer mudanças que não serão contidas por esse limiar .

Ao ser ultrapassado um limiar permite registros de datas , idéias diferentes , jogo de forças políticas e etc ,e principalmente o reconhecimento de um momento suposto, onde algo se rompeu e não teve mais volta .

Caracteriza-se um avanço em relação ao que era, e onde a tensão foi suficiente para provocar algum tipo de movimento para adiante , uma nova instauração, onde novos enlaces e desenlaces se farão , uma nova combinatória que fará mudar os modos estabelecidos e exigirá novos exercícios aos protagonistas , tanto no plano coletivo como individual .

No entanto, vamos tratar de um limiar específico , aquele que é posto em cena , quando as mudanças de vida se impõem e que no plano psíquico abrem uma verdadeira batalha , em que as forças se enfrentam mobilizando cada uma o seu arsenal , ou seja, a ativação da contabilidade psíquica, onde as figurações do que se busca ganhar são assediadas pelos fantasmas do que se pode perder .

É muito difícil , em se tratando do psiquismo , cujos protocolos são muito mais guardiões do que já se tem do que incentivos ao devir , que a mudança ao se impor seja recebida com festas e celebrações . As operações postas em jogo refletem mais um processo de ir e vir do que uma linearidade , em que se veja com certeza , que o que virá será muito melhor .

Nada , a não ser um certo afã de otimismos superficiais , pode garantir que uma mudança ao ser ativada , levará a um endereço mais confortável . É importante lembrar que a maioria das mudanças requerem planejamento , e nesse caso, são guiadas par-e-passo , e que mobilizam recursos para não causarem maiores transtornos.

Mas essas mudanças são de acordo, e em geral, referem-se à mudanças de ordem material ou aquelas cujos passos são considerados necessários a um melhor bem-estar , como por exemplo , alguém casar .

Embora de acordo , mesmo essas, por muitas vezes não deixam de ter um certo temor como pano de fundo , pois sabemos que nossas certezas são relativas e que muita coisa pode acontecer .

Mas nosso foco são aquelas mudanças não pedidas , aquelas que por princípio não encomendamos, e que bate em nossa porta nos procurando, e que a partir da primeira batida , já compassa nossa angústia num tipo de sincronia sinistra entre os chamados e as opressões que sentimos, por desconfiar que chegou nossa vez.

A grosso modo passamos a vida negociando a vez , dependendo naturalmente do risco que nossa avaliação nos diz e das fantasias de ganho que visualizamos , mas que numa avaliação  atenta não é difícil perceber que, ou passamos a vez a outro , ou assumimos mais ou menos . (vide um artigo aqui mesmo no blog , chamado “ nas coxas”) 

É uma reação típica de se ver no limiar de ter que se expor , um momento crucial para que nossas fraquezas nos traiam e nos revele inferioridades  e temores regredidos que nunca confessamos, algo da ordem de encurtamentos por medo ou a covardia de por a prova grandezas que na verdade não conquistamos.

Aprendemos que fraquezas devem ser escondidas e inclusive de si mesmo , incluindo-se aí nossas dependências e apelos que trazemos de uma infância que nos protegeu ou nos expôs , que nos exigiu , que nos fez ver o valor do prestígio e a dor da rejeição , e principalmente como nos ensinou o Dr Freud “ a maior angústia do ser humano é o desamparo”.

Então o que é o limiar , indo por este caminho?

É a natureza do nosso sofrimento ao não permitir que possamos fugir da divisão que nos acomete. “Sou o que não penso” diz Lacan , contrariando a idéia cartesiana oposta .

Ora, uma mudança é o que me compromete com o que não sei , e se “saber é o que faz furo na verdade” , como saber se o ir adiante, é o não o caminho de ser mais feliz?

Se como diz o filósofo “ não basta viver é preciso ser feliz “ como dar o próximo passo e pedir garantia de certeza?

Não há essa garantia . E o horror aqui , talvez o maior e único , é a constatação que a minha vida pertence a mim e só eu posso realizá-la . O ditado espanhol diz isso de outra forma  “Porque justo a mim me coube ser eu?”

Podemos pensar se quando um limiar é alcançado e a tensão fica inarredável , se não é assim que a vida nos denuncia , ou seja, o quanto de adiamento , de faz-de-conta , de pouca ou nenhuma inserção em questões maiores que nós recusamos à guisa de não no atormentarmos desnecessariamente .
Lembro de um homem destroçado por ter sido deixado pela mulher , e que após longos apelos para ser ouvida, arranjou um outro na internet, e que aos prantos dizia “ eu não acreditei que ela fosse capaz”.

Muda-se porque se quer ou por imposição da vida?

A maioria das mudanças se dão a partir de certo ponto , o desconforto , o mal-estar , vai numa escala crescente e o retorno ao padrão usual vai ficando cada vez mais difícil , há um jogo entre o aqui e ali , que por vezes é insuportável ou vai ficando cada vez mais a cada dia.

A pessoa vai cada vez mais se sentindo atemorizada com o que pode acontecer , um mexida incisiva em seus níveis de controle , a suspensão de suas certezas, e a entrada no mundo das vertigens , um momento alado mas não de voo propriamente , mas de falta de chão , algo mais próximo do buraco do que da alturas.

O desconhecido, até então o grande renegado, cobra seu preço por não ter lugar no altar das certezas , e abre-se ou aos poucos ou aos muitos mesmo ,e invade o psiquismo tanto pela manhã como nos sonhos da noite , tornando difícil tanto dormir como acordar .

O que será de mim?  Indagação vinda das entranhas do medo e da fantasia de destruição que de pronto se instala , fazendo com que muitos recuem e desesperadamente tentem refazer os velhos esconderijos , um ato humano antes de se constatar que somos quase nada ,onde nossos requintes pouco valem nesse momento tão soturno.

O duplo de mim aparece e me apavora , me oferecendo um acre sabor de fracasso , já que não se muda de verdade sem se fracassar, lição clínica nobre na Psicanálise ,trazendo tudo que não admiti , ou por orgulho na insolvência de minhas razões ou pela incrível fantasia de que se eu for quem sou , quem há de me querer?

O que se vive é um surto da Verdade , que ao se espraiar empurra tudo , tudo o que foi negado e recalcado , parece retornar com toda força , deixando impotente a consciência , que por sua vez põe em jogo operações salvacionistas , que pouco proveito oferecem , seja em rituais obsessivos , seja em depressões impotentes ou em manias histéricas.

O núcleo do tornado na proporção que aumenta e provoca os redemoinhos vai tirando muita coisa do lugar , de formas que toca numa questão crucial , que trataremos no próximo artigo , ou seja , ‘ A perda das identificações” , a crise de quem já não se identifica consigo mesmo e não sabe disso e projeta nos outros sua falta de atualização.

Tinha parado de escrever porque perdi todos meus artigos a serem postados , em função de um problema no computador . Confesso que baquiei , e fiquei meio broxa e com pouca inspiração . Depois descobri  que ninguém deu falta de minhas postagens , o que abalou minha importância para o mundo , um doublê de escritor que não faz falta. Me consolei com mamãe e ela disse pra eu continuar , então eis-me de volta , espero que gostem e sintam minha falta.

VALEU  AMIGOS E MAIS UMA VEZ OBRIGADO E COMENTEM , AJUDA MUITO O RETORNO

 

22.3.12

sortilégios do bem-viver : a criança, o velho e o dinheiro



Num desses domingos límpidos de outuno , onde a vida parece que foi polida e tudo ficou fácil de ver , pois a luminosidade foi regulada para não ferir a sensibilidade , me preparei para um encontro com pessoas notáveis .
Aniversário de minha ex-mulher , com direito à velhos amigos , lá fui eu.
De pronto, uma casa enorme , construída pós-separação que me faz pensar que se sentia oprimida comigo , e no alto , com uma escadaria substituta da igreja da Penha para os pagadores de promessas que resolveram fazer por menos.
Em lá chegando, todo passado logo se fez , mas com feições e afeições renovadas , companheiros de geração , caminhantes com tempo de estrada , era notório que os rostos são fiéis e permitem ver , que o tempo além de belo professor , também é exigente com seus alunos .Envelhecemos todos , mesmo guardando as proporções ,não há como negar.
Misturados então com as novas gerações , o contraste é pura denúncia . Apolos que buscam sua vez , fazem relembrar o início , o como tudo começou . Toda vez que penso nisso , vejo o quanto a morte é sábia . A morte consagra o tempo do realizado e do que ficou por realizar , pois há um compasso apropriado para essas realizações , pois depois, já não interessam tanto. Luta-se pelo que se acha que vale a pena , mas descobre-se depois que nem tudo vale o esforço.
A arena já não comove tanto e os gladiadores se tornam entediantes , prima-se pelo bom-gosto .É o grande salto , o bom -gosto. E só os amigos que entenderam isso permaneceram .
Um éter de qualidade paira no ar, uma tolerância dos que conheceram a desilusão , dos que menos aprisionados pelas expectativas podem achar graça de tudo , pois nada é tão grave quando os limites são mais naturais.
Depois de tantos encontros gostosos e cumprimentos encontro na fila do crepe saboroso , feito com amor e carinho , meu amigo bonitão , Luiz Fernando, a quem dedico estes escritos.
Como confissão particular , gosto de ir para esses encontros sempre com humor apurado e com boa atenção , pois, em geral, tudo me diverte.
De repente, não me lembro exatamente porque, Luiz diz o seguinte , que me impressionou:
" Tenho um amigo que diz, que existem 3 ítens para se conhecer uma pessoa :
1- Sua relação com as crianças
2- Sua relação com os idosos
3- Sua relação com o dinheiro
Achei muito interessante , pois não havia pensado tão sistematicamente nisso.
Redobrei minha atenção e Luiz então desdobra os argumentos " As crianças são o início de tudo , o por onde tudo começa e já passamos.
Os idosos são dependentes e já nos deram, é hora de nós darmos a eles . ´É uma doação de si  mas sem recíprocas e sem palco, pois é uma doação tipo anônima , sem estardalhaços e discreta.
E quanto ao dinheiro , quando chega, muda as relações , aparece o que antes não havia , a desconfiança.
Daí pra lá o tema me segurou e ficou me ladeando.
Resolvi então aceitar o desafio de desdobrá-lo , e agradeço a meu amigo à inspiração.

O que são crianças ?
Se por um lado todos nos sentimos com algum direito a opinar por termos passado por lá , criança é uma criatura a quem estamos devendo novas elocubrações.
Momento fundamental e originário da construção psíquica , se constitui num universo tão extraordinário, que a cada dia nos surpreendemos com novos dados.
Em alguns trabalhos de pesquisas sobre a vida peri-natal descobre-se que a interação criança-mãe é viva e de mensagens recíprocas no plano mental-emocional.
Os estados da mãe são altamente influentes no feto , que por sua vez configura muitos estímulos de forma precoce, como se antecipando ao porvir. Um modo como a vida se defende , defendendo seus protagonistas .
Toda criança é uma criatura cósmica e representante de toda beleza universal da vida , pois independente de nações, ou cidades , inspiram admirações e respeitos pela origem da vida.
Momento único de visão giroscópica e de inocência desinteressada e por isso tudo interessa, é a mente viva do início , que depois se enquadrará.
Convém lembrar que em geral é consagração do amor e representa o fluxo da própria vida , em seu sentido mais misterioso , e a nossa fragilidade , onde nossa dependência é mais exposta e ratifica o quanto precisamos uns dos outros.
Mas e os que espancam crianças?
É difícil não supor que o espancamento , que é a falta de limite do adulto , não seja de certa forma o modo como aquele se revive , em velhos traumas de violência , onde o limite é uma exigência feita mais ao que não é, do que ao que é.
Em cada ato violento é como se a criança fosse agredida pelo que não é , pelo que não nasceu, às vezes o ódio ao que não tem.
Não é como o irmão, não é como deveria ser ,nasceu no momento errado, trouxe novas incubências, enfim, é o próprio fracasso narcísico de quem espanca , que trás consigo a mesma dor mascarada pelo orgulho e pelo ódio.
Óbvio , não se deve confundir violência com limites necessários ao bem comum. Ensina-se a viver em sociedade , a respeitar o  direito dos outros , a se reconhecer o próprio valor , enfim uma construção complexa de amor e paciência , o que anda cada vez mais raros.
Estamos gerando filhos da impaciência e da intransigência que virão pra nossa conta , a um preço alto , pois serão mais rápidos e tornarão nossas flexibilidades verdadeiras carroças do atraso.
Freud dizia que a criança é o pai do homem . Imaginem , como teremos dificuldades para nos livrar dela com suas tiranias e exigências , base da vida amorosa e social.
Estaremos fabricando homens e mulheres sado-masoquistas , com requintes de vinganças que farão do amor um campo do medo e da impotência.
Tudo começa em casa.
E os idosos ?
Em seu livro sobre velhice Simone de Beauvoir diz que quando Buda saiu do palácio de seu pai pela primeira vez numa carruagem , se deparou com uma figura desdentada , curvado e numa bengala e ao perguntar o que era , recebeu como resposta do seu cocheiro, que era um velho . Espantado o nobre princípe , que viria a se tornar uma das figuras mais importantes na história espiritual da humanidade , diz " Que tristeza que os seres fracos e ignorantes , embriagados pelo orgulho próprio da juventude , não vejam a velhice! Voltemos rápido para casa .De que servem os jogos e as alegrias , se sou a morada da futura velhice?"

Na outra ponta da escala linear , lá estão eles, nossos queridos velhinhos , pedindo respeito, amor e paciência também. Já nos deram e a hora é de reconhecimento , o guerreiro depois da luta , as feridas , os desencantos , as perdas, as melancolias , as realizações também, a família, os filhos criados , os netos e a morte na frente , na consciência do tempo que resta.
São nossos ascendentes , vieram primeiro , representam segundo Hellinger a precedência , e desrespeitar isso , é uma agressão a vida .
Já demos vários golpes que mostram isso, sendo o primeiro o torná-los inúteis , sem função social reconhecida , um tipo de anonimato forçado e perigoso que muitas mortes precipitam.
Uma quase total falta de planejamento social, já indica que a velhice é um tipo de demônio mal -visto e renegado. Tendo a queda da matéria como visibilidade, e a morte como pano de fundo , tememos o futuro que se nos afigura , ainda mais numa cultura cheia de mentira jovial , como se fossemos ficar eternamente juvenis e não fossemos morrer.
Obviamente , não envelhecemos de pronto e sim um pouco a cada dia , um estranho movimento oculto que só revela seus efeitos sem se deixar ver diretamente , mas que por ser irreversível , tem a força de um destino comum.
A consideração então com esses companheiros do tempo , é sem dúvida , um modo revelador,  pois aí, talvez esteja o que não aceitemos facilmente , ou recusa à algum tipo de identificação que possa nos comprometer , à diferença de Buda.
A força do tempo com sua flecha que segue , é algo profundamente instigador e temido , pois é verdade , que por não sabermos o que nos espera , projetamos todos os medos possíveis e imaginários , principalmente quando nos ocorre ficarmos dependentes de alguém, por nos faltar a capacidade de cuidar de si mesmo .
Pensar que vamos interferir na vida de alguém , por terem que nos cuidar, é algo que apavora grande parte da população , principalmente porque é uma fase da vida , em que as doenças nos espreitam e podem nos comprometer.
Há idéia de que possamos ser um peso pra quem seja , é dolorosa.
A morte começa a ser pensada, em muitos casos , como alternativa salvadora.
Cheios de saudades do que se foi , e melancolias de futuros incertos , o idoso segue com profundo sentimento de solidão , com insatisfações nem sempre confessáveis , pois já se sente dando trabalho.
Quando tem independência financeira , o que ajuda muito , tem o dinheiro como compensação e por muitas vezes é este seu trunfo .
Num mundo rápido de velocidades desconcertantes , ser velho é penoso.
Falta paciência e as irritabilidades são imediatas , pois velho é símbolo de atraso .
Lembrando que temos que estar sempre adiantados , temos que chegar nesses mal-ditos endereços que ninguém sabe aonde é. A modernidade líquida é assim , esfumaçante , e impegável. O idoso precisa pegar, aproximar , conferir ,pois seu sistema sensorial ficou mais precário , e com isso desacelera , para poder precisar. Mas , a grosso modo isso é uma heresia à pressa da vida moderna , pois temos que chegar.
É incrível como essa fase parece trazer , uma necessidade de explorar o mundo da sensibilidade , justo porque a diminuição do ritmo , trás o quanto se andou sem ver ou sem sentir . Há um tipo de reparação de si , um aprofundamento que o coração consagra , pois já não se tem que dizer como é , nem impor regras , nem muito vigor do como deve ser.
É um convite à um tipo de observação , um modo de perceber sem rigor , um tipo de descontração, que ajuda a se reconectar com o início , num exercício do como tudo poderia ter sido , caso fosse .
Tem-se aí a impressão que a vida tem mais opções viáveis do que se pôde ver e oferecer , é o que os avós numa grande generosidade da vida , pode então oferecer à seus netos queridos.
Muitos, procuram opções em grupos, que hoje ficaram consagrados , lugar onde se dança, conversa ,e se encontra o espelho que busca solidariedades por identificação.
Enfim, se carrega uma vida , uma história de si e de todos que nos frequentaram , todos que vivem em nós , todos que morreram em nós.
Diria então que a velhice é um lugar , que talvez estabeleça solilóquios onde o diálogo já não se faça tanto .
Aprender a arte profunda do Vivo , é a forma mais eficaz de passar por esta etapa , pois o segredo da vida começa a ser visto como modéstia , um lugar que permite se escutar os silêncios , as pausas , e as figurações que o inusitado vai desenhando em formas variadas.
Uma estética marginal , mas de larga sabedoria .
O velho é um doar sem fama , sem holofotes , pois requerem doações numa ordem diferente da que nos acostumamos , não há o que pedir de volta, pois já recebemos ou não.

Talvez os que acham que não receberam , se sintam lesados de ter que darem e em muitas relações este é um inferno particular , sem soluções rápidas, de dívidas e culpas , que nem a morte libera.
E o dinheiro ?
O dinheiro é a paranóia , diz Félix guatarri , o psiquiatra italiano , amigo de Deleuze.
E é mesmo . Aonde entra o dinheiro as contabilidades se assanham e o medo de ser lesado floresce . Como não temos um passado de transparências , e sabemos das falcatruas do mundo em sua voracidade pelo dinheiro , é fácil desconfiar.
O mundo é uma grande desconfiança , e o dinheiro só faz aumentá-la.
O dinheiro é a posse. Tudo de possessivo lá vem . Se perdermos a ordem de grandeza que nos confere generosidade , dinheiro é tormento . E tome de gente atormentada , cheias de medo de serem lesadas e passadas pra trás, gente para quem o outro é suspeito de início e sem absolvição íntegra.
Todas as formas de associação no convívio , podem ter o destino que a dimensão mal-dita do dinheiro induz. Seja o casal que pede ressarcimento ao outro pelo dinheiro , seja a familia que após a morte de alguém importante , imediatamente vai aos finalmentes, e cada um quer o seu rápido , ou mesmo tragédias que mediante dores intensas só têm como opção serem traduzidas em dinheiro.
Diz um autor que não me lembro bem" o dinheiro conseguiu o que Deus não conseguiu", apontando que a nível do dinheiro , até inimigos convergem interesses e a humanidade encontra um elo em comum.
É no dinheiro que vivemos nossas mesquinharias inconfessadas e grandezas pretendidas , nem sempre efetivas . Típico portador de uma lógica atrasada de uma suposta sobrevivência , é um lugar farto de desculpas e justificativas , pois amparado por um sistema que consagra os vencedores e desmerece os menos favorecidos , é o fetiche destacado da injustiça e da inveja .
Uma ordem social com estas premissas não deixa de ir ou de produzir ,mas põe a  descoberto setores tão importantes da alma , que se por um lado ficamos mais ricos , por outro nossa miséria espiritual é imensa.
Já tentamos tudo , para descobrir que se o dinheiro não for expressão daquilo que a alma tem de humana , uma ordem humana sem restrições universais , utopia descartada que a tal globalização tenta resgatar por outro lugar materialista, e com promessas de bens tecnológicos compartilhados,  teremos dificuldades de construir um elo que suporte , ou nos ajude a suportar o preço de um civilidade manca e excludente.
O dinheiro é um meio poderoso , mas um meio , não exatamente um fim , é restritivo demais, traiçoeiro demais , para nos garantir o vôo delicado do amor que a alma busca em sua realização divina .
Que seja então no possível , um meio que nos traduza em nossas possessividades sintomáticas , que levou Freud a associá-lo com a retentividade anal , onde o grande e o escatológico se encontram para se prenderem ou se diferenciarem.
Tomado como grandeza é capaz de coisas incríveis e de gozo material compartilhado , bem como, uma ordenação qualificada da vida em termos de ofertas . Imagino um bom hospital , uma boa casa , boas estradas, belos parques, uma civilidade ética e estética com o brilho que a matéria possibilita quando bem polida.
Mas o dinheiro pede justiça o tempo todo , pois mostra o contraste que nenhuma ordem econômica, por melhor que seja pode explicar.
O dinheiro é o modo como Deus deixa o mundo aos homens para se exercitarem em suas capacidades , e na difícil tarefa de unir dinheiro e amor.
Luiz , um belo enólogo,ao citar seu outro amigo, a quem agradeço, me deu este presente.
Gostaria então de erguer uma bela taça de vinho , um vinho cheio de segredos da natureza ,e que sempre possibilitou aos homens celebrarem e fazerem brindes ao que a vida tem refinamento : os amigos.
Pois acrescentaria modestamente a lista dos ítens, o modo como cada um brinda e agradece, o que a vida nos oferece a cada dia .






















3.3.12

Estados d´alma .



Ah! que lástima não falarmos mais em estados d`alma , aqueles estados imprecisos , sem origem imediata , um gosto enorme de saudade e ausência , estados que os poetas tem como matéria prima da poesia . A "ausência" é a razão da poesia , diz Rubens Alves , e é , não só da poesia , mas do momento místico , onde todos nós quando distraídos , a vivemos num tipo de solilóquio tão sincero, que a mente , que mente, se assusta e foge.
Foge como?
Voltando rapidamente ao de sempre , ao usual , velho objeto conhecido do medo , aonde havia lacuna no encadeamento , fecha-se de imediato e retoma-se à familiriaridade , que nos garante uma identidade compacta , sólida , uma excrecência resistente ao tempo e às acuidades , onde moram e nos espreitam,às questões maiores da vida.
Um vácuo que se abre entre eu e mim , uma estranha sensação que não sou exatamente quem me digo , e o que digo , não, não pode dar conta do que sou.
Um tipo de divisão não-analítica , um gosto de estranho no ser , como um antigo enderêço  longíquo , mas não esquecido , onde algo muito importante de mim parece morar , mas não há meio de transporte possível para me levar , quando quero .
Só vou lá , distraído e sem pretensões , uma desconfiança que faz brotar em mim , que todos meus preenchimentos são relativos , que toda a ritualística que me compõe é um tipo de atração de ilusão opaca , já que nesses momentos me pareço mais, com algo que se esvai, do que com que fica.
E não adianta o esforço de prender , pois se esvai, é como um éter , um misto de lugar híbrido entre a vida e a morte .A consciência não é a mesma , e alguma coisa indescritível se aproxima , suspeito, que seja, o que se chama de alma e há uma estranha amplitude , como se meu pertencimento, se ampliasse quase todo, e eu fosse uma convergência de focos variados , muito além do que meu usual pode conceber.
Algo profundo ,que roça as angústias , como se eu estivesse por aqui para alguma coisa importante , que não reconheço em detalhes e pouco soubesse falar , mas sinto com profundidade que meu foco nesse momento sou eu mesmo.
Como se fosse um velho acerto de contas de mim para mim, não há o outro nesse momento, uma velha conta, uma velha chaga , as raízes encrustadas na noite dos tempos, em que nunca me soube . Nasci há 10000 anos atrás , minha mãe é a eternidade e meu pai o universo , vivo por aqui na esperança de um dia poder ir , ir sem medo , recuperação lúcida de um enderêço original, de um gozo sem objeto , de uma plenitude sem conteúdo , um se deixar levar unicamente pela reverência , a dimensão mais plena do sagrado.
Há um exílio e digo porque sei , porque vivo , o passar relativo de tudo , como se tudo não fosse para agarrar , mas apenas tocar , sentir e deixar ir , nada fica , a sensação de tudo que esteve aqui e se foi .
Mas é estranho viver assim, angústias que chegam e assumem as feições do desamparo e do desafio, que mexem com todos os medos, com todas identificações que não cansam de se queixar,ora se vitimando , ora pedindo arrego, e ora cobrando preços pelo trabalho que tiveram.
Não tenho de pronto nenhuma identidade com o vale desconhecido , vejo assombro e imensidão demais , o sofrimento das grandezas , do ínfimo ao infinito exuberante , um gosto de quero mãe e da morte me levando sei lá pra onde, uma mutação indescritível, um laboratório de solidão, os fios que me puxam pra lá de mim.
Quero ficar , quero ir , um pêndulo que me oscila , um jogo bi-polar sem a organicidade neurológica , um fino tecido metafísico , uma inter-polação entre a origem e o fim , entre o que se abre e o que se fecha , entre o contorno da forma e a expansão sem limites , um tremendo gosto de aventura e de anormalidade além dos modelos.
Aqui só solilóquios , as vezes excessivos , peço para se calarem sem ser obedecido , mas a única forma pelo qual me situo , a conversa anexa e desconexa que me faz companhia.
Pergunto tudo e ouço tudo , mas tudo vem aos poucos ou instantâneo , não escolho , apenas recolho , vou procurando ser obediente , pois sinto a liberdade bem perto , sinto à loucura, dos loucos e dos santos , breve diferença de sintonia profunda .

O caminho é longo e por vezes inalcançável , um duro ter que caminhar na cumplicidade dos dias, no afago ou nas tormentas das noites , e um pouco de infância no crepúsculo , o júbilo familiar dos interpares assimétricos .
"O que me move é o que me comove" , diz um amigo culto, lhe agradeço , pois é um belo aforisma. Mas me comovo também com o modo como busco me mover , torço por mim, sei que me preciso , narcíso , não posso permitir o desencanto , pois gosto tanto de cantar , mesmo que mal.
Mas o que me comove mesmo é olhar para o lado , sinto a presença de todos , o humano em mim,  a controvérsia cósmica entre o máximo e o minímo , entre a luz e as trevas , entre o amor que ilumina e abençoa e o ódio que fulmina e imperdoa , a "poesis" do que se esculpe.
Niestzche nos pensa como "obra de arte" , cada um com a tarefa de se esculpir , um ato corajoso e forte , uma ética ou uma estética para almas destacadas . Aprecio o Super-Homem , acho incrível pensar em super , como acho a mesma coisa em relação ao infra , em tudo há vida .
Mas meu sentido de pertencer me compromete tanto , me comove a dor , a pobreza, o conflito , os desalmados , os despossuídos , que só me resta trabalhar , a escultura do coração cristão , pois sou a favor do Cristo que liberta , pois fora desse, também sou o Anti-Cristo .
Ao mesmo tempo que alcanço os píncaros da solidão ímpar , sou puro exercício nos interpares , a oferta do dois , a modéstia consentida e reconhecida para o movimento do convívio . A forma é um meio abençoado de se estar junto no que ainda não se emancipou.
Reconheço meus parceiros , no aqui e no ali de qualquer situação , querem o que eu quero , mas sei que se dizem de outra forma , talvez as matizes da escultura ditada pela evolução espiritual , o Deus que Nietzche não viu aonde estava e que a Igreja escondeu.
Estar vivo é estar só e participar se incluíndo , o balanço do um e do dois simultaneamente , o fazer evoluir evoluindo , o amar amando , o gozar gozando , o ser sendo , a presença estando presente .
Somos todos iguais nesta noite , diz a música , somos todos diferentes diz a Psicanálise , que bom que seja assim , iguais e diferentes , o colo do igual e a diferença do desejo , essa "multifrenia" como diz o autor .
O radical, a raiz, é este imperativo único, que lembra o ditado espanhol" Porque justo a mim me coube ser eu ?" . Sou a vida , sou a morte , sou a dor e a alegria , sou o que pareço e o que não compareço , sou a angústia plena de um mistério que me possue todos os dias , a misericórdia que perdoa e o ódio que acusa , o amor que dá e exige , talvez eu seja o lugar aonde a vida brinca consigo mesma.
A mim , me resta então perguntar com Jung do alto de seu solilóquio de vidente " O que a vida quer de nós?"
Valeu , comentem , ajuda muito os comentários.




























Há ou não inveja do pênis?