22.10.12

Quando bate a hora , ultrapassagem e morte na estrada de si


 
Continuando então a reflexão postada no artigo anterior (que diga-se , não sei qual) partimos então do bater da hora , o momento intenso, profundo, que se instala como uma névoa , um tipo de embaçamento que vai se manifestando sem que possamos controlar .

Algo se altera à revelia, como um marco , um momento em que a ruptura se estabelece, e a partir dali , a corda se rompe e o barco desliza, sem que o dono possa imediatamente trazê-lo de volta , algo como “os dados estão lançados” , há de se viver os resultados.

A idéia de que nossa vida possa ser regida por algo adiante , não nos é tão familiar , já que nossas determinações parecem vir todas do passado , ou seja , do que temos registro , o que se inscreve na memória , nos dando um senso de continuidade , que para muitos estudiosos , é a nossa maior ilusão .

Com o passado temos um tipo de intimidade mnêmica , um tipo” juro que foi assim” , ou um grau de certeza , já que afirmamos que em tudo que já nos passou , estivemos lá.

Estivemos mesmo?

Eis uma estranha indagação, inconcebível para uma padrão mental que alicerçado em categorias de certezas, recusa enfaticamente à possibilidade de ações no plano psíquico que não tenham sido induzidas por um sujeito , mesmo que esse sujeito seja partido , ou inconsciente , como diz a Psicanálise .

No entanto , também seria equivocado , dizer que nossa vida seja apenas  a expressão dos nossos quereres, pois nem sempre se muda por que se quer , e sim porque já não temos como conter o que saiu do lugar , já que depois de tanto in-decidir , a corda ao se romper , já não nos deixa outra alternativa, senão largar para seguir.

A figuração de seguir  nos comove , seja na literatura ou no cinema , ficamos impressionados com os personagens errantes , aqueles que parecem nunca ter endereços definidos , ou mesmo de morarem em lugar nenhum.

É como se encontrássemos o que temos de fluido , um contra-ponto dos modos pesados que nossa solidez nos impõe , a vida que materializa suas regulações como ordens inconteste , nos dando a impressão que nosso script , é um tipo decoreba , uma cartilha de sinalizações que tem o mérito de nos levar aos mesmos lugares de forma mais econômica.

Mudar é suportar o atrito com o que se tem de mais rígido .

E nossa rigidez é a forma mais arcaica, do quanto nossa identidade primitiva ainda é indiferenciada , o quanto qualquer vivência nos faz sofrer em termos simbióticos , como se fossemos protagonistas de uma constante ameaça de destruição , ou seja, tudo que tenha o poder de nos desautorizar, tudo que torne nossa autoridade impotente em nos salvar.

Em nosso nível primário o que nos interessa é manter pra nos assegurar da continuidade , da perspectiva de que as sequências não nos decepcionarão , e de que nosso viver é o modo manifesto de nossa ilusão sequencial .

A neurose é uma ficção sequencial , um apelo tão forte às figurações lineares , que a milênios sofremos desse modo de doutrinação , postulados que ao mesmo tempo que nos oferece abrigo , nos deixa à deriva , quando temos viver rupturas atéias , aquelas que não se importam com as liturgias de nossas crendices particulares.

Uma vez que a hora bate , sacrifica-se as sequências habituais , e vive-se o medo do escuro , a opacidade do que chega , já que nos instiga e nos atemoriza , uma paranóia com gosto de que algo acabou, e que nos é extremamente doloroso te que largar.

Ir adiante, ao mesmo tempo, que parece o clamor de nossa liberdade , é também um tipo de sentença de morte,  em que sentimos o presságio de nosso fim , um certo desespero do que será de nós ,já que despossuídos de certezas e cheios de dúvidas por todos os cantos de nosso ser, tentamos nos agarrar a qualquer fiapo de certeza , lugar onde nos tornamos sensíveis a qualquer profeta que nos diga o que fazer.

No que a corda se rompe e o barco começa a se afastar , somos tomados pela re-visão feita pelas culpas e dívidas que carregamos com relação as nossas competências , isto é, onde nossa presença pode estar e se dizer , ou onde nos escondemos em nosso-faz-de-conta habitual e buscamos o emudecimento como refúgio .

Nossa simbiose implica em rever contratos de convívio , lugares onde depositamos omissões e cultivamos a surdez  como meio de não se inserir , único meio pelo qual a vida pode nos perdoar , já que mudar é buscar uma outra forma de inserção , uma redenção do que é restrito e exigente , e tomada das grandezas como “entrance” no que é maior e generoso .

Toda crise é um confronto com que é mesquinho e particular demais , um empuxo para um devir de maior abrangência e com-sideração , um aprender que não está nos livros e cujo professor é o valor da própria questão.

Aqui tudo precisa ser visceral , algo mais próximo das entranhas , lugar de onde se veio , a melhor forma de saber pra onde se vai , já que o fim e o início estão sempre , um término é também um recomeço .

A morte de si é um funeral narcísico , uma ruptura com todas as fantasias sobre si construídas ao longo da vida , um sistema de compensações e de exigências que fazem do amor o lugar de aberrações e de renegações de limites.

No que sou destituído , não há como não encolher , uma redução de tamanho que pode causar regressões literais , um sentimento de incapacidade de continuar , que nos faz questionar o quanto crescer é uma exigência , mais do que um desenvolvimento compassado de fases psíquicas.

18.9.12


A REVOLUÇÃO DO MÍNIMO

Habituados aos anseios pelo maior , seja lá o que isso queira dizer , esperamos por algo que venha a mais , que nos traga sensação de ganho , essa economia que o capitalismo só faz reificar e se valer , esse preenchimento quase compulsivo ... do nada.

Vida moldada por essa troca perene , entre o que sai e o que entra , vivemos aí, os ganhos e os prejuízos , que validamos por algum critério particular , que sequer conseguimos explicar pra gente mesmo , por exemplo , uma sensação de perda é o suficiente para comermos a mais , ou gastar não importa muito com o que , ensaio de uma reposição simbólica do que se foi .

Essa economia que nos torna contábil a todo tempo , rege nossas transações e dependendo, dão uma concretude desmesurada ao que buscamos , de tal forma que nos arvoramos nessa busca , dando a ela um estatuto quase vital.

Dependendo do valor que esteja em jogo , a própria vida entra na roleta , e pode ser a última moeda a se apostar , como se, ao não suportarmos perder , entregamos o perdedor , única alternativa de uma pretensiosa  fantasia de acabar com o jogo, acabando com quem joga.

Lacan diz do mais –gozar , ou seja , sempre queremos mais , pois o inconsciente é da ordem do capital , que sempre quer mais , por isso é capitalista . Esse a mais é o moto-perpétuo do desejo , esse insaciável que rege a economia de todo movimento .

Mas, inseridos nesse sistema somos consumidores de todo tipo de fetiche , seja na roupa , seja no sexo , no cigarro , enfim , no que for , lá estamos numa oralidade quase acrítica , que põe pra dentro tudo que é sugerido , sem nunca perguntar o quanto custa sair.

Diria mesmo, que criamos uma oralidade própria aos tempos modernos , tempo de consumo, dos insumos rápidos de pouca digestão , que afetam profundamente o aparelho gastro-intestinal , considerado o segundo cérebro do corpo .

Sem entrar em reflexões psicossomáticas , o fato é que , ou sofremos de desarranjos, ou de constirpações retentivas , expressão de distorções energéticas de nossos apegos ao impegável, ou de nossas expulsões rápidas , talvez traídos pelo que entrou sem merecer.

Sempre me pergunto se o quanto o ganho , ao se tornar elemento chave , pode nos fechar ao invés de nos abrir , o quanto nos tornamos sujeitos a velha fórmula de ganhar e não levar , agonia constante para nossas aflições possessivas.

Penso que a sensação de ganhar pode ser fictícia se não nos leva adiante , um passo a mais , uma amplitude diferenciada para melhores opções, pois afinal , o que significa ganhar e estar sempre no mesmo lugar?

Precisamos nos sentir melhor , uma justificativa para nossos investimentos , por vezes tão caros e sofridos que não deveríamos nos contentar com pouco , um a mais , mas com qualidade , uma estética mais apaixonante e desafiadora e não meros fetiches inúteis que só fazem nos engordar, e se sentir vazios depois de dois minutos.

Se o ganho for a palavra de ordem ,a celebração se sacrifica já que é contemplativa , pois nos dá um ganho que não pode se contabilizar nos registros usuais , é um ganho como a arte , um ganho de um sublime a ser deslumbrado e não possuído e guardado.

Esse ganho da celebração quando se abre na alma , nos coloca frente ao extra-ordinário , onde se ganha com o menos e não com o mais , um des-possuir-se  ao invés de possuir e conter, um largar para permanecer mais vazio ao invés de entupir-se e querer mais para se preencher.

É justo aí , que descobrimos todo valor do mínimo , o valor do que se tem e não só do que se quer , um louvor de gratidão aos invés dos protestos insaciáveis , a beleza nas mínimas manifestações que , em geral são despercebidas .

Num vídeo recente feito por um canal de televisão se não me engano , filmou-se a vida desde os embriões até seus corpos adultos , um trabalho de rara beleza e de silêncio fecundo onde nada atropelava nada , como se cada etapa soubesse seu lugar e hora , sem brigas desnecessárias , numa interdependência compassada de mesmo sentido e direção.

A filosofia moderna nos ensina que não temos natureza , que não temos essência , logo somos nada e podemos ser tudo , um laborioso trabalho de decisões e escolhas , embora curiosamente , algo me faça acreditar que estamos fadados ao Bem.

Se não temos a harmonia a nosso favor , podemos então , apreciar o valor do Bem em comum, esse gosto ético-estético e espiritual de estabelecer direções para nossa energia onde a vida se faça melhor pra todos.

Se há aí, algum tipo de queixa de ter sido deixados a sós pela natureza , que não nos dotou de instintos que nos dirija e nos mostre o caminho, por outro , nos deu o espírito da aventura , da graça de arriscar e descobrir , de ter o poder de discriminar o quanto o Bem nos eleva para uma plataforma de maior visada, onde o ganho mesmo , é o que pode ser um patrimônio comum.

A vida nos dá a cada dia e recebemos cheios de reconhecimento , algo que relegamos a uma religiosidade das religiões, mas que só nos coloca em mais-erro , ou seja, quanto mais aderidos, mais pegados e pesados , a vida como uma carroça para os sonhos , estranho contraste com a velocidade dos fetiches.

Nossa religiosidade é a celebração do que existe e nos é oferecido sempre ,uma metáfora de grandezas livres e desimpedidas  e por isso livres de medidas estabelecidas, sem pertencerem a um sistema específico de valor e reconhecimento.

É um patrimônio de todos, sem preço estipulado pelo homem , é o gozo não-material dos sensíveis, que vêm a beleza que desabrocha sem alarde, sem cobrar nada a quem quer que seja, a não ser que vivamos com olhos de ver , já que o homem morto é o que mais interessa, pois é uma presa mais fácil .

É o homem que não vê o aqui , pois é lá que o objeto está... mas lá onde?

Na sua fantasia de apropriação , no seu querer ser dono e mandar sempre , na mera revolta de não se deixar capturar pois é livre ... para ser escravo , o gozo que Nietsche abominava , pois era dos fracos e ressentidos.

O homem morto pede a sugestão pela recusa de ter que descobrir e decidir , e enquanto in-decide , pisa nas flores pelo caminho , não se emociona com as estrelas e não vê poesia ao seu redor , menos ainda quem lhe precisa.

 A revolução do mínimo é para poucos , os que buscam o gozo da qualidade sensível , cheios de recheios naturais , numa postura de quem vive a favor e que mesmo sofrendo do querer mais , que seja o melhor para todos.

Para isso revê suas medidas para o que lhe convém , um direito de ser-feliz , sabendo que não é o muito sua senha, e que seu pouco é sua leveza , já que seu desprendimento é o seu maior gesto de amor para consigo , não como uma indiferença , mas como uma paixão .

O mínimo nos dá intimidade , está nos cantos , nos prazeres intensos e gratuitos , seja no café , no banho, no papo , nos sortilégios do imprevisto , sempre na forma de uma gratuidade que provoca o espanto do custo dos prazeres vendidos.

 

19.8.12

Sem tristeza não se chega no fundo , no pró-fundo .




Escrito ao som de Adele , a triste que encanta o mundo


É curioso como nossas dores maiores parecem penetrar no mundo , tudo dói em tudo , a memória parece fazer uma cumplicidade com todos os ínfimos detalhes , até mesmo aqueles que nunca sequer nos importaram ,e agora tudo é ,uma opacidade, onde as paredes, por não conseguirem conter o clamor, o faz deslizar.

Deslize onde tudo se repassa sem piedade , como se merecessemos passar pelo que estamos passando , não exatamente por castigo , mas como abertura para outros estados, onde a alma enfrenta o profundo , uma tarefa que parece pertencer à sua vocação .

A principio , uma vocação maldita , que arrasa o bem-estar costumeiro , esse nirvana sintomático do cotidiano , onde descansamos nossas vidas e temos um senso de continuidade consigo mesmo, sem grandes saculejos ou empurrões desnecessários .

Nossas ficções de amor são caprichosamente trabalhada nesses lugares , pois não pensamos no amor como um furacão , mas como um vento-a-favor , uma reiteração melhorada do que já temos ou do que podemos acrescentar , mas sem grandes saculejos ou empurrões desnecessários.

Eis que numa conjunção ou disjunção cósmica qualquer algo se rompe , e sem nos consultar nos faz viver dores que não pedimos , nos dando o gosto terrível da impotência , o apagamento de todos objetos e fetiches da magia , onde o encanto acabou , simples assim .

Acostumados a sermos o centro do universo não-Copernicano , que veio nos chatear , fomos des-centrados , jogados para laterais ou para os barrancos que nos fazem rolar , machucados que ardem no ato e no tratamento .

Uma impressão profunda que perdemos , que não teremos mais , que misturada a idéia que talvez não tenhamos aproveitado tudo , só agrava nosso rasgo , um sulco no centro da alma que se parte, uma viagem ao fundo , que curiosamente nos arrasa , nos tira o raso.

Vazados , somos despossuídos , uma contra-mão de quem se preparou e foi preparado para possuir,a mão que mesmo contra, se abre para deixar de fato o que já não pode manter, uma sentença feita à fantasia de tentar salvar o que já não é possível.

Ah ! que dor , eis o nosso brado emudecido , de pouco alcance às palavras , somos empurrados com saculejos de todos afetos envolvidos , parece que nosso valor foi o maior blefe vivido , uma mentira que não resistiu aos ataques do que se foi .

O que se foi , foi levando em nós o que nos era mais caro , o que tinhamos de mais caprichado , e ele sim tem valor , o valor de nos fazer sentir uma merda , a vitória escatológica que nos arrebata como um guerreiro que lutou , lutou , mas não resistiu à dor do que lhe foi tirado.

Toda nossa rotina de si foi alterada , pois a vida já não acompanha nossas intenções, que mal sabemos quais são , até pensar em morrer faz parte, nosso senso de preservação se altera, pois , já não sabemos se queremos se manter , pois vem a cruel pergunta; se manter pra que?

Nossa alma parece ter ido embora , nos largou sózinhos e sem nenhuma inspiração maior , um corpo sem metafísica , um pensamento sem corpo , um monismo apagado e um dualismo sem ligação , ah! quanta tristeza!

Tudo parece se dirigir para o fundo , que tal como nos sonhos não tem base, e nos faz tremer com a idéia de continuar caindo sem parar , ou mesmo de ter que se agarrar aquele galhozinho magro na lateral e passarmos ali a vida inteira com medo de despencar.

Nesse momento, constatamos que nossa vida pertence à uma certa altura , que já galgamos muitas coisas e subimos vários degraus ,e cair ou despencar é contrário a tudo isso , somos anti-gravitacionais , não queremos ficar presos , sentimos falta radical de nossa cidadania nas alturas.

O tempo e nossa força de aceitação e elaboração vem a nosso favor , precisamos voltar a existir , desconfiamos que somos uma peça que fará falta no tabuleiro , que precisamos continuar , nos recuperar do golpe duro e dificil , juntar o que nos restou e aos poucos levantar .

Somos seres de desafios e mesmo combalidos , em algum nível , voltamos timidamente a nos querer de novo , reequacionamos o valor do que se foi , estimando se foi um ato do destino ou uma decisão pessoal , ou seja , se o que perdemos foi pela parte do destino ou se foi por decisão de alguém.

Esse modo de compreender tem fortes influencias em nossa forma de re-considerar e é decisivo na ordenação de nossas forças, e sem ter em conta casos mais graves , nos ajuda muito em transformar dor em aprendizado .

Mas para isso é preciso deixar a tristeza viver , entrar em seus estados d`alma , seus cenários e labirintos , até que aos poucos como uma bela mestra até então escondida , começamos a perceber o quanto estamos mudando e pensando o que tinhamos medo até de chegar perto.

Um novo fluxo vai se desvelando e atualizando nossa energia , nos dando uma nova consciencia das recusas , da surdez, das carencias , das submissões forçadas por medo de deixar ir, do nosso "eu" pequeno e arrogante , especializado em estratégias desde cedo e que com isso nos dificultou poder se ver , um pouco mais nú , um pouco mais crú.

Descobrimos que somos filhos das polaridades e negar isso é forçar uma filiação que não se mantém , somos dialéticos , um tanto assim como assado , tanto direitos como tortos , ternos e agressivos , nobres e plebeus , e descobrir isso sem mal-dizer, é uma experiência que nos deixa felizes, pois percebemos que lutamos muito para sermos aceitos.

Mudamos a relação com a alteridade , pois o outro não é mais dono , e eu não vou mais brincar de acordos que não ratifico , um surto de sinceridade que convoca toda coragem que jamais tive.

Vejo o quanto minhas tristezas me são necessárias como antídoto contra o superficialismo sem alma , essa cumplicidade coletiva que me obriga a ser personagem de textos que não me reconheço , ah " minha alma o quanto te preciso , o quanto é você o meu mistério , o eterno devir dos meus altos e baixos , a grande companheira de uma jornada dificil e longa, é com você que sigo , pois sei que eu e você , você e eu , nos precisamos .

Mesmo que eu caia , sei que você luta pra me levantar , que eu erre e você luta pra eu acertar , que eu sinta o fim e você me propõe o recomeço , que me soergue dos vales escuros e me conforta com um pouco de luz , que me salvaguarda das ilusões de superficie me dando a dor que me aprofunda , pois tenho aprendido que é lá que você mora.

Como não tenho imunidade , passarei pelas dores do mundo e espero com a maior dignidade possível , já que ouço os choros ao redor e me comove o coração apertado, mas vivo porque sei que só quem está vivo pode sofrer e levantar, afinal , estamos numa escola, dizem os sábios , e como aluno me resta aprender e bem o que me ensinam e por isso , não me recuso à tristeza , pois sei o valor de suas matérias.

6.7.12


O Hospital Psiquiátrico- O cemitério das conexões e da ressureição



Embora o título possa parecer fúnebre , não é bem esta idéia que me anima .

O que me instiga, é a possibilidade de pensar um certa idéia de campo onde um conjunto amplo de pessoas , têm as suas vidas ou o que resta delas se compartilhando habitualmente, sem que antes tenha havido entre elas qualquer familiaridade.

Se pra nós a familia é a matriz do convívio e se os amigos pertencem às escolhas que fizemos , o que se passa quando temos que conviver sem familiaridade ou sem escolhas?

Me parece que todas as tentativas feitas de mudanças na dinâmica ou de transformação do hospital psiquiátrico , obedeceram a duas pretensões : ou de favorecer vínculos e dinâmicas mais vivas na dimensão interna ou de tentar buscar espaços novos de inclusão do lado de fora.

Ou caímos nas propostas psicodinâmicas ou em lutas políticas relativas aos direitos de cidadania do doente .Em algum momento todas foram válidas , embora passem e fica a conta do que restou.

Agora mesmo temos aí a Reforma , que buscando um impacto de ruptura , chegou ao extremo de propor o fim dos hospitais psiquiátricos . Assim como Baságlia em Trieste , que num contexto próprio e amparado pelo partido comunista italiano sugeriu então que o paciente fosse de responsabilidade comunitária .Apêlo , diga-se , de teor fortemente humanitário , mas que só teve força de sustentação com o próprio Baságlia , já que após sua morte houve um reaparecimento ainda maior do hospital psiquiátrico.A doença mental parece pertencer a um universo próprio, um campo complexo de forças entrelaçadas , que mesmo que num momento histórico queiramos destacar uma, logo o campo se recompõe , desafiando os alcances de nossos saberes.

A apoteose em Kingsley Hall com Laing e Cooper, com a proposta de uma anti-psiquiatria , aproveitando os tempos de novas buscas para o estabelecido , em quase todas as áreas , assim como, a tentativa de Maxwel Jones, de dar ao hospital psiquiátrico um caráter comunitário , preservando a rede de convívio e de produção social , onde o cotidiano pudesse manter os rituais do fazer e da participação do mundo lá fora. Propunha uma certa concepção mais horizontal , menos hierárquica do tratamento psiquiátrico , uma comunidade que produzia seus viveres e relações.

Possivelmente foram experiências que ajudaram a modernizar o Hospital e marcar alguns valores, que foram incluídos no modo como o lugar do doente mental foi sendo des-demonizado ,e o hospital menos temido .

 Mas se tudo isto fez com que novas matérias trouxessem novas exigências estudiosas e alimentassem o debate , por outro , o avanço das medicações ,também possibilitou , um perfil mais ágil do tratamento em relação ao tempo e consequentemente um menor período de exclusão social.

Mas nosso estudo não visa exatamente um exame histórico dessas ações , embora de extremo interesse .

O que gostaria de recortar aqui se refere a um tipo de vazio, com feições de nada, que a meu ver tangencia um pouco o foco dessas iniciativas .

É um vazio que chamarei de vazio na alma que parece impreenchível , um tipo de esvaziamento das consistências , que configura uma aura de exílio , que chega a contagiar os que precisam de foco para trabalhar.

Acostumados a um modo de apreensão , um certo perfil do tempo e do espaço onde o olhar mais analítico busca conectar para poder ver , algo lábil que não se deixa pegar, comparece, e ao mesmo tempo , por parecer tão visível faz com que as estratégias do pensamento comecem a pontilhar . É como ver e não poder pegar , algo como um sopro que se desvencilha a revelia do desejo .

É um fenômeno incrível que têm registro energético no campo sensível , como se largar ou se afastar trouxesse certo alívio e ao mesmo tempo um tipo de frustração dos nexos do sentido, embotasse a significação .

Este tema embora teoricamente presente , mesmo que de forma oblíqua está presente na Psicanálise . Em Freud quase como desistência pois" o psicótico não sustenta relação transferencial ". Em Lacan com a questão do "Nome do Pai que não se inscreveu" , caminho teórico longo e de poucos efeitos clínicos e talvez no questionamento das condições de sentido em Wittegeisten .

O que se sustenta aqui, é o acesso ao simbólico como condição da palavra a que o psicótico não teve acesso , logo não pôde se inscrever na ordem da cultura , lugar conferido aos sócios , aqueles que se tornaram sujeitos sociais.

Mas nada disso satisfaz . O surpreendente é que algo vem e vai com mesma rapidez , um jogo sem regras de presença- ausência tão instantâneo , como se fosse um labirinto no éter, que a quase todo tempo , é difícil não se ter a impressão de universos paralelos.

Não se sustenta a conexão. Cai a conexão que parece tão frágil , cai a rede de sustentação da comunicação usual. Lá se vai , lá se foi.

Por isto que quando um pouco mais é possível os profissionais se alegram , pois têm a impressão que conseguiram desta vez pegar algo. É um trabalho árduo de paciência e humildade que não justifica vaidades , pois aqui nenhum diploma é mais hábil.

Sempre desconfio que os auxiliares de enfermagem têm formas de penetração neste labirinto que profissionais mais graduados, pode não ter .Justo por estarem mais expostos , mais ali junto , e nunca se sabe a hora que algo consiste. Não é algo que pode ser combinado previamente , talvez por isto muitas consultas pouco consigam.

Uma consulta não funciona como senha para consistência , embora sirva para se verificar o estado geral do paciente , seu desenvolvimento clínico , enfim , sua melhora ou piora.

Estas manifestações da consistência ou mesmo o momento da inconsistência só podem ser apreendidas de forma espontânea no habitat onde o paciente está .

Aqui sugiro uma ação mais de campo onde a vida está mais a vontade do que o modo artificial de gabinete . Prender o paciente no gabinete para escritas artificiais não permite chegar na sua alma e nem trazê-la.

Mas afinal o que é isto ?

O que é o sofrimento relativo às conexões?

Minha hipotése é que o paciente foi excluído das conexões que sustentam o mundo enquanto sentido, lesões nas proposições lógicas que regem e ordenam nosso sentido dominante da realidade e os torna seres dotados de um aquém ou um além, em que nossas teorias buscam penetrar , mas que talvez errem na premissa inicial.

Suponho que criaturas que habitam os limiares requisitam outras pontes de acesso e não ordenações que lhe domestiquem pura e simplesmente.

 Começando pela família ou antes ou depois de seu adoecer , foi se inscrevendo numa rede de exclusões que seu mundo pra cá ,seu mundo comum , foi-se estilhaçando ou não teve forças de estruturação.

A alma nossa de cada dia que precisa de reconhecimento e valorização , vai se fragilizando de tal forma , que seus modos de participação não consistem , e sem o calor que faz viver vão ficando frios e distantes. Com isto duas coisas acontecem:

Uma regressão aos modos infantis onde a demanda não permite novas simbolizações , pois o simbólico ficou cheio de fissuras e rasgos na expressão , possivelmente por distâncias e depreciações no convívio . Neste caso , a ligação só pode se dar numa esfera psíquica empobrecida , em geral , repetitiva e cansativa para quem se oferece.

Ou então , um exílio quase impenetrável que mais parece um des-lugar do que um lugar de qualquer coisa propriamente dito. Que difícil é ( e aqui abro estes parênteses para sugerir aos amigos trabalhadores da saúde que compartilhem mais as dificuldades que sentem , pois sem dúvida, esta seria uma linguagem comum e fácil de se entender, ao mesmo tempo que nos tornaria mais parceiros nesta empreitada enigmática).

É algo como tocar uma criatura humana e ao mesmo tempo não conseguir pegá-la , embora ela mesma possa se oferecer para tal.

No nível da regressão temos a impressão de algo deixou a desejar , não foi adiante .

O projeto humano foi abortado em algum nível . Tem -se a impressão que não era só isto.

Em alguns exercícios clínicos imagino como poderia ser tal paciente, se as condições fossem outras, que vivacidade teria , que homem ou mulher ali estaria .

Mas também penso no eterno retorno de Nietszche , onde tudo que passou , ali de novo passará . Como me faz bem pensar assim. Parece que estamos assistindo a um ensaio da própria vida consigo mesmo em níveis mais espetaculares do que supomos .

Entrar em contato verdadeiro em níveis mais profundos nos faria tremer , já que se há uma ordem subjacente na vida como dizia David Bohm , o que rege estes determinismos que escolhe uns e poupa outros?

Se pertencemos a uma alma coletiva inconsciente que nos é comum , como alega Bert Hellinger o criador das Constelações familiares em seus estudos renovadores , as anomalias nos pertencem , pois pertencemos ao mesmo tecido conjuntivo.

Pensar assim é intrigante , pois sem dúvida, embora possamos nos defender e nos defendemos claro , o sofrimento ou a dor do doente mental nos parece tão próxima que criamos de imediato uma fantasia de distância.

Propor, dinamizar , criar propostas de trabalho é bom e nos conforta , pois nos oferece a satisfação de estarmos fazendo nossa parte e isto é bom.

A doença mental é uma doença no tempo que requer muito amor e dedicação para pouco retorno, o que já é muito. Boas medicações , trabalhos de grupo , escutas individuais , oficinas de trabalhos manuais , comemorações que empuxam alegrias , música , dança , fazem parte dos jogos de animações da vida , enquanto prescrustamos o estranho labirinto da alma humana. Se lá está o Minotauro , que descubramos seu segredo para libertá-lo e nos libertarmos também. Caso haja, o que Hellinger chama de alma coletiva , então algo da nossa alma anima a chama do viver dos pacientes e vice-versa.Mas aí, o nível é mais profundo, pois a alma é profunda e sutil e aí não há dívidas . Muitas das nossas alegrias parecem estar em algum tipo de restituição que sentimos fazer, quando o tornarmos mais satisfeitos mesmo que momentaneamente . Já foram muito tomados , a vida já levou muito deles. E nós temos muito perante eles, inclusive uma vida própria .

É incrível a sensação que dá quando por trás dos escombros encontramos vida. Um gesto anímico qualquer de um vestígio humano , naqueles pacientes mais comprometidos .

Parece que somos caçadores de vida , embora a morte também faça parte.Mas é tão diferente incorporar a morte em vida através de determinadas serenidades espirituais que não temos , do que a morte enquanto um anonimato do perfil humano.E aí vem o cemitério.

Digo, cemitério, pois desconfio que haja muitas conexões enterradas ou por asfixia, ou anemia ou mesmo por violência . Talvez um pouco de cada.

Há um gosto de morte na doença mental , vejo pelo modo como os pacientes morrem e poucos se importam . Em algum nível suspeito que já eram "mortos' , pois só se vive por amor ,sem amor não há vida. Ocupam esses lugares anônimos a espera de que possamos chegar mais próximo.Mas acredito também que aonde for possível restabelecer ou recriar algumas conexões não tão enterradas , ficamos felizes e como ter uma família afim, faz diferença .Pelo menos que o Hospital seja uma casa de ressureição do possível , um lugar no universo onde os loucos possam se transmutar e re-encontrar sua integridade humana, por mais que demore.

A utopia não pode ser descartável , ao risco embotarmos nossas disposições amorosas e em se tratando do doente mental , o paciente de prazo longo , ou de prazos entrecortados , nada podemos garantir , pois como trabalhadores já vibramos muito em tirar o paciente de seus horrores enigmáticos . Talvez e suspeito disso , sejamos o espelho que o mantém enquanto uma identidade que luta para não naufragar no que tem de humano.

ACEITARIA DE BOM GRADO COMENTÁRIOS DOS AMIGOS.












19.6.12

A primeira atenção ; o sentido do dever



“Isso não é exatamente certo ; retorquiu D.Juan .- A primeira atenção trabalha muito bem com o desconhecido. Ela o bloqueia; ela nega-o tão ferozmente que, no final, o desconhecido não existe para primeira atenção. D Juan in” O fogo interior” de Carlos Castanheda .

Desde um suposto início, o modo estabelecido pela consciência parece colocar a ênfase no como é viver nesse mundo, ou seja, estamos imantados a um tipo de ordenação que nos exige aprender e praticar , algo como , a vida é um exercício constante de funções e capacidades.

Embora, nosso determinismo biológico siga seu próprio roteiro, levando em conta também nossa  ambientação , somos uma criatura de múltiplas dimensões que se conjugam de uma forma espetacular, para tornar o viver possível.

E mesmo que não saibamos , o tempo todo, somos expressão de nossas capacidades de viver aqui , e digo aqui , como um modo de consciência polarizada, aquela consciência que mantém o foco , um modo perceptivo particularizado, onde as transações  se processam nos diferentes níveis .

Esses níveis, nos ajudam a reconhecer que, respondemos à vida no seu modo mais imediato, uma condição básica que desenvolvemos como garantia de continuidade , isto é, se não tivéssemos o sentido próximo dos alertas , estaríamos desguarnecidos , uma porta para que fossemos radicalmente atingidos.

Nossa primeira atenção, parece expressar nossa forma de preservação da vida , embora nos induzindo aí, a um modo de posicionamento, que ao ser regulado pelo imediato, exige uma prontidão da consciência que trabalha para tornar tudo conhecido , o mais rápido possível.

Parece haver nessa operação um sentido de preservação da vida em relação à morte, não só exatamente como nosso fim , mas também o desembocar no desconhecido de forma tão intensa , que embarreiramos o que nos tira do imediato e consideramos esse desconhecido como uma ameaça frontal e o repelimos .

Essa primeira atenção é o nosso dever , é o modo como devemos estar nesse primeiro nível , um ato contínuo e constante de processamento que nos absorve e que compactuamos , mesmo desconfiando que nem tudo cabe aí.

Se, por um lado, isso se faz imprescindível para viver , por outro nos asfixia, ao lhe tomarmos como o único nível possível para nossas capacidades, já que ao atentarmos para nossa forma de constituição , somos confrontados por tudo que vive além de nós ,e, no entanto, em nós.

É como se ao mesmo tempo coubéssemos e não coubéssemos , um estranho além ou aquém de si , que nos aponta claramente , que em todas as épocas fomos marcados por essas divisões, nomeadas de acordo com as nomenclaturas de época.

Mesmo a noção de inconsciente, que a Psicanálise brindou a modernidade , acabou por se tornar um lugar de exploração simbólica , uma palavra por dizer , muito mais do que um pertencimento dimensional , a angústia indecifrável do próprio mistério que nos sonda diariamente e que nos faz lembrar antipaticamente , que pra nós, a morte não é tão natural.

A angústia do desamparo que Freud apontava , parece o lugar do limiar , onde a primeira atenção começa a ficar descoberta , só que, mais por força de sua limitação de conter a vida no plano conhecido do que como ponte de idas e vindas .

O desconhecido é uma outra dimensão da consciência , que rasga seus limites com relação ao imediato –conhecido e empurra para outro nível , “é o campo  mais vasto que se pode imaginar, tão vasto que , na verdade, parece não ter limites...- Não gostaria de perder-me nela por nada deste mundo- diria Dom Juan à Castanheda.

No entanto , é nosso outro lado , o lado que ao associarmos com a morte, passamos a renegá-lo, já que a morte , tal como o ego , é auto-referente , e o medo é do que virá, e do que vamos perder. O sentido operacional dessa primeira atenção é manter essa divisão de lados de forma restrita , justo para que essa auto-referência  se mantenha intacta.

A questão é que para manter-se se faz necessário certa obstinação no conhecido , já que é o lugar onde as identificações funcionam como faróis na escuridão , enquanto no desconhecido as identificações não servem pra nada , por reduzirem-se a um mero fenômeno psicológico .

O desconhecido aqui, é o além que nos revela como pequenos e arrogantes , pois o tamanho de si é inútil ,e D Juan alerta para o perigo da vaidade , lugar fixo que ordena a percepção de forma habitual, e que rouba a integridade do guerreiro pela ilusão da importância pessoal.

Matar a importância é crucial nesse processo , pois para entrar no desconhecido é melhor fazê-lo estando com o mínimo possível , com uma disposição impecável da energia , o que no caso da importância pessoal é impossível , pois toda importância é pegajosa e aderente.

O anonimato requerido não é um desprezo ao mundo propriamente dito , mas uma condição do guerreiro para suas agilidades em outro mundo , invisível aos olhos comuns , mas mortal para os que se recusam a compreender e aceitar . Uma submissão consciente e atuante , uma liberação das energias contidas que produz comoções , e leva a consciência para longe , tão longe quanto cada um suporte se deixar.

A primeira atenção regula então os modos de percepção ordinária e reiterativa , que faz do mundo o mundo , uma hábito valente e compartilhado , que nos torna iguais por força de padrões comuns e nos promete uma segurança falsificada de uma grupalidade covarde.

Para avançar é preciso a solidão , lugar onde o silêncio nos ajuda a calar o excesso de sonoridades inócuas e oriundas de nossos inventários obsessivos , cheios de culpas e tormentos orgulhosos , ecos do fracasso narcísico, que tombou no limite de sua impotência de cobrir com verniz  os rituais que a angústia desenha perante o desconhecido.

O desconhecido visto assim, é um desprendimento , uma ruptura , que nos exige se despregar,  único modo de ter a energia disponível, uma energia não vinculada em modos restritos , ou um vínculo voltado para um Absoluto , cuja invisibilidade parece procurar em nós nosso lado não-material , o que de nós parece viver além , muito além, dos limites do corpo.

Mas também é verdade que nossa consciência , tal como nos determina nos mostra o tempo todo  os efeitos de nossas vinculações, pois ela mesma os toma como patamar de referência , ou seja, sem esses efeitos nos sentimos fantasmas incorpóreos, sem saber ao que se referir.

Para entrar no desconhecido então se faz necessário suportar as quebras que libertam a consciência mas trazem o medo ,e enfrentar o medo é condição básica para tal empreitada,a empreitada que se assemelha a morte , motivo pela qual nos recusamos a mexer com isso, daí que, tornar o desconhecido esquecido é o nosso grande truque de salvar nosso modo de consciência.

Mas se a consciência assim colocada rege a percepção , isso significa que , embora queiramos que tudo seja diferente para nos sentirmos vivos e diferenciados , temos um sinistra vocação para ficar no mesmo lugar , mesmo à custa de ser feliz.

Talvez ficar no lugar de sempre , nos preserve de nos sentirmos infelizes agudos , optamos por uma infelicidade mais crônica , na vã esperança que com o tempo, estejamos mais habituados a ela , já que nosso truque é transformar os hábitos em guardiões da segurança , uma forma de prender o mundo na primeira atenção .

Na medida em que a energia se vincula como hábito , toda percepção se regula como um padrão familiar, onde a linguagem trata de domesticá-la  na conta de uma nomeação conhecida , ou seja , o novo se torna velho ao receber nomes que impedem de ser visto como desconhecido ,mas como analogias do que já existe.

Evita-se assim rupturas de fato , que poderiam levar ao inusitado , ao que não se conforma, ao que não cabe , ao preço de ficarmos cheios de anseios e angústias pela compulsão de repetir sem conseguir diferenciar , como se aos poucos fossemos nos entregando a uma mesmice desgostosa que ao renegar o mistério perdeu seu encanto, e aí só lhe resta dar a morte a esperança de um término libertador.

Nesse caso a morte é sonhada como as terras distantes que pertencem ao outro lado, lado assustador e desejado ; para muitos fim de um fardo , para outros libertação da asfixia de um conhecido que se tornou monótono por falta do que mais oferecer.


7.6.12

A burrice relacional"

A burrice é uma cicatriz" (Adorno-Horkheimer)

" O ato repressor cria uma espécie de cicatriz - burrice. Quem é repreendido e reprimido , repete o último gesto que assistiu antes da repressão . Toda vez que é posto para pensar , ou que é acionado de alguma maneira para agir , ele repete o gesto de violência que o emburreceu. Ele empaca na gesticulação estereotipada. Assim, o burro , nesse caso, não é violento por ser ignorante,mas é violento por conter a cicatriz da burrice." (Guiraldelli Jr in ""A dialética do Iluminismo")

Sem contraposição a Goleman " A inteligência emocional " , nem a Gardner com sua teoria das "Inteligências múltiplas", gostaria de recortar um tema do cotidiano , bem onipresente e campo de muitos desentendimentos e sofrimentos diversos, ou seja , a burrice relacional.

Se a epígrafe é correta , logo o burro além de " empacar ", sofre de recorrência , pois volta ao mesmo lugar , toda vez que desafiado a pensar ou a agir , no sentido de senhor de si , retoma ao lugar de escravo , ou seja , o que não esquece e não perdoa , pois tem uma dívida impagável que o atormenta e por isso , não pode ser livre , a não ser para lembrar .

Mas lembrar o que ?

O gesto que o emburreceu . Como?

Há aí, um entrelaçar entre o que emburrece e o que é emburrecido , pois se não se pode pensar, menos ainda falar , pois só se fala para viver e ser feliz, o resto são mímicas , um jogo especular de mágoas e lesões de reconhecimento , em que a burrice é aquela de manter a única opção possível , ou seja , não ter opções.

O burro empaca em sua falta de opções e em seu estreitamento negativo , pois tem razão que ninguém vê , só ele . Essa é sua arma mortal , fazer desconhecer suas razões ou dogmatizá-las de tal forma , que ao mesmo tempo que é um incompreendido, é também autor de um texto que escapa às palavras , e consequentemente à fala .

Quem fala se desdiz , quem não fala tem sempre razão intocável , lugar que ninguém sabe aonde é , logo , não se chega lá . A burrice, nesse caso, não pode prescindir de seu esconderijo, lugar de suas inúmeras razões inomináveis , arma poderosa , pois se mata sem dizer o porque, jogo perverso que faz do outro, alguém que não entende ... o que jamais foi dito.

Não se questiona aí o absurdo do paradoxo , pois para o burro ele não existe , blindagem demais para reconhecer o valor do limite.

Não se escolhe as palavras, nem o momento , nem a ternura que as tornaria melhor recebidas , pois no fundo tem medo de ser compreendido e ter que vir a luz do dia mostrar seu rosto, que não vê faz muito.

Ser burro é também ser bruto , pois a brutalidade é a intimidação que tenta negar o que precisa ser dito , mata-se, mas não se confessa.

Pois senão vejamos :

O que se quer?

Amor e prestígio , duas demandas poderosas de qualquer ego humano .

Como se faz?

Escolhe-se alguém, ou se é escolhido por alguém ,que deixará de ser alguém e se tornará um foco , um foco constante de apêlos variados , pedidos de amor e sexo , de importância , de lugar exclusivo , de companhia que fará um recorte no mundo, com ela(e), o mundo é outro , justo porque é um outro .

A partir daí uma inter-penetração irá tecer o convívio , um estranha vivência de se deixar ir e de ficar , um pêndulo, que nesse lá e cá , expressa o desafio do ganho que nos obriga a se arriscar e o medo danado de perder e sofrer , a doce vertigem de que não há garantias .

Mas é verdade também, que a partir daí , este outro que passa a nos fazer parte , também desafia nossas habilidades de cativar , de atrair , enfim, de se valer a pena , eis um desafio que uma vez iniciado segue até o fim , pois no mundo dos investimentos diz um autor " o inconsciente é capitalista ", como a ressaltar que por mais que não queiramos " não há lugar assegurado" .

É como assumissemos a tarefa de nos fazer interessantes , uma qualidade da atração e da intensidade , que nos mantém o valor enquanto uma aposta que vale a pena, um esforço de aprimoramento constante que esculpe nosso mundo de dentro , à começar por nossos modos pelo lado de fora.

A fala por exemplo , o mal da boca , aquelas palavras sem consequências , a ignorância deliberada dos efeitos , fala-se e pronto , talvez algo que dito em outra hora, ou de outro modo provocaria menos estragos .

O cuidado com o não-ofender , a não-violência em níveis sutis , o ter em conta que da mesma forma o outro sente e reage , o aprender que nem tudo é tão grave assim , e que deixar pra lá , em muitas ocasiões não é vergonha nem derrota, pois não se trata de uma disputa ou de uma arena .

É incrível que ao mudar nossos modos , mudamos também a forma de ver as coisas , como se aos poucos tirassemos delas a severidade , a acidez crítica que contamina tudo , e ao mesmo tempo ganhamos em sinceridade não-ofensiva , a expressão que consagra nosso ser, o poder dizer sem matar , a palavra que celebra a vida e chama o profundo com ternura e delicadeza.

Todo analista sabe que as projeções são imperiosas e cheias de razões particulares, e que enquanto isso não quebra , a pessoa não é tocada a nível de uma reversão , um modo de reconhecimento do que lhe cabe , do que é seu e só seu , única maneira de começar a sair dessas pequenas e custosas prisões emocionais que nos infernizam a vida.

Quando um casal, por exemplo, começa a perceber o convívio , não mais como um conjunto de projeções autorizadas sómente pela neurose de cada um, mas como um modo desafiador de aprender e de se curar , começa a surgir ,o que em geral ,começa a faltar nessa ocasião, ou seja , a gratidão pelo presença companheira , o valor do lado-a-lado , que o tempo ensina aos que conseguem afrouxar o cinto de suas onipotências.

Se por um lado ninguém é de ninguém , mais uma razão para nos agradecermos ,pois sustentamos um pertencimento por amor e só , reiterando assim que estamos aonde estamos porque assim queremos , e não como vítimas do que não foi possível .

A burrice relacional começa quando esses preceitos tão nobres ,e não se vive sem nobreza, começam a serem tratados como óbvios , crime grave que arrolará muitos processos desagradáveis e sentenças serão aplicadas , ou como culpa ou como castigo , lugar onde os fracassos, ao invés de ensinarem se tornam desgraças, cujas dores nos farão chorar , um prognóstico sinistro quanto a nossa capacidade de amar de verdade e onde o orgulho foi péssimo professor .


15.5.12

Sobre o dois : o lá e cá do Mistério



“Com efeito ,esse é o mistério da consciência. Os seres humanos afastam-se desse mistério; nós nos afastamos da escuridão , das coisas que são inexplicáveis. Encarar a nós mesmos em outros termos é loucura. Portanto, não despreze o mistério do homem em você sentindo pena de si mesmo ou tentando racionalizá-lo .Despreze a estupidez do homem em você, compreendendo-a. Mas não se desculpe por nenhum dos dois ; ambos são necessários.”
D Juan in “ O fogo interior”

Parece que somos fadados e enfadados a se virar no dois , essa nossa eterna divisão que vive a sonhar com o Um , nosso grande amor impossível , nossa busca agoniada de reconciliação , o sonho de juntar as margens e cessar a busca , o Nirvana que fez Freud apontar para morte como sendo o “gran finalle” , enfim, o zero do apagamento. Não há nada mais a se querer;

Desde sempre ouvimos que a vida depende de nossa afirmação , um tipo de doutrina que procura validar o que existe como sendo o que há de melhor, somos obrigados a nos tornar adeptos dessa religião que nos torna participantes sem opção .

Validar o mundo , eis nossa grande premissa pedagógica , pois essa é a nossa casa , o único mundo possível , portanto, tratemos de entrar em cena como atores que protagonizam o enredo sem saber ao certo do que se trata .

Nascidos em família , entramos no jogo já em curso e com lugar designado “ Nascemos no desejo do Outro “ diz Lacan, somos objetos sensíveis da forma como somos investidos , do modo como nos tratam , da importância que tem o que vivemos , e nos cala fundo como acolhem o que expressamos .

Se não há alguém do outro lado que nos permita poder dizer o que quer que seja , aos poucos vamos aprendendo a mentir , uma inverdade compactuada como senha de participação , já que percebemos rápido , o quão incômodo somos nós aos olhos dos outros .

Em que lugar então nos é dado ser ?

Eis a angústia intraduzível , porque só somos no dois , ou seja , somos na própria divisão que nos estrutura , o ladrão que nos tira como bilhete para nos dar passagem.
O tempo todo somos e não somos , não há nenhuma afirmação que não tenha ao lado uma negação ,” Quem não tiver pecado que se apresente” diz a máxima espiritual , apontando que no campo do Pathos , das afecções sensíveis, sofremos das mesmas coisas e nosso repertório de respostas não parece tão variado .

Mas o que queremos parecer então?

Parecemos o que convém ao mundo , enquanto atores que buscam prestígio nos seus desempenhos , um tipo de teatro onde nossas mazelas e virtudes se revezam a todo tempo, onde a vida finge ser regida pelo bem-estar, ilusão que tem nos custado caro demais , para passar incólume.

Mas não há como não fazer assim, já que a força do mundo é a que melhor representa o campo dos nossos desejos , o campo das nossas perdições para que depois , e diga-se , só depois , possamos nos haver a questão dos acertos , o modo impecável do guerreiro que se prepara para morrer , quando descobre que os limites herdados reprimem o mistério das dimensões.

Talvez o que o tempo nos traga como dádiva, seja a forma como nos re-consideramos , já que a idéia de fim nos confronta com o vigor do mistério que passou embotado ao longo de várias racionalizações e ateísmos cheios de medo , um descuido terrível que nos obriga a tratar o desconhecido como inimigo .

Sendo parte de nossa natureza essencial ,o mistério parece se recusar a qualquer molde estabelecido e sua força desafia os padrões que buscam lhe domesticar , ou seja, nossas reduções não garantem o fim dos sustos , e nem dos impactos de tudo que corta nossa forma retilínea de viver.

Vivemos no dois , sendo um o lado que nos familiarizamos e é o representante de todo sistema do que se conhece, o lado da consciência dita normal ,e do outro o desconhecido , o não representado , o temido , o que pode vir do fundo e trazer agitos incontroláveis .

Citando novamente D.Juan “ Uma das grandes manobras dos espreitadores é contrapor o mistério à estupidez que há em cada um de nós.”

Mas ao mesmo tempo que estamos cercados por um cinturão que parece nos sondar a todo tempo , quase que nos ameaçando e por isso vivemos com medo , por outro insistimos que nossa vida seja apenas a medida do nosso controle .

É como se ao olharmos o que não tem fundo , nos apavorássemos de tal forma , que recorremos de pronto a qualquer medida mais substantiva , um ponto de concretude, que nos devolva nosso senso de identidade familiar .

Isso tem sido um vitória de Pirro , pois ao renegarmos a força do próprio Mistério , nos tornamos reféns do próprio controle , que por sua vez se estica o que pode , para nos forjar uma segurança que só existe em nossa fantasia.

Hoje, nos orgulhamos de sermos adeptos da razão , que tem nos trazido muita coisa boa , muito conforto e facilidades que nos fascinam , e nos acomodam . É como quiséssemos fazer da vida a continuidade de todos nossos confortos e acomodações .Uma premissa enganosa , que em contra-partida nos deixa absolutamente vulneráveis aos encontrões da vida , uma contrariedade que nos tem levado à desistência , o portal das depressões.

No entanto , as raízes do desconhecido não estão no que se conhece e ao se perderem na dimensão do mistério , dependem do alcance da razão para ter algum sentido e aqui está armadilha , pois ao exercitar determinadas decifrações em modos racionais , tomamos a razão como instrumento único e assoberbado.

Não é atoa que de tempos em tempos assistimos suicídios de belos pensadores que foram tomados pelo sinistro da razão e sentiram a impotência profunda perante o Mistério que não se submete , apenas concede e lembra que a ordem é de lá pra cá , ou seja, somos desbravadores do que já existe .

Nossa soberba é fatal , uma requintada vaidade cheia de intelectualismos elaborados e sedutores , como se fossemos nós os donos e pronto , não se discute mais.

São essas vaidades que recheiam nossas vidas e lhe conferem afirmação e poder , como se nossas identidades fossem o ponto de compactuação de nosso prestígio , nosso perigoso jogo auto-importância , nossa ficção egóica que nos martiriza como escravos e faz com que sempre estejamos inseguros e tirânicos.

Ao abrirmos nossa vocação par o Mistério que entregamos lamentavelmente as religiões , somos tocados fundos pela noção deque não é pela importância que se anda no desconhecido, pelo contrário , eis o que diz D.Juan , o grande xamã de Castanheda “ A primeira verdade é que o mundo é como parece , e entretanto não é . Não é tão sólido e real como nossa percepção foi levada a crer , mas também não é uma miragem . O mundo é uma ilusão, como tem sido dito; ele é real por uma lado ,e irreal por outro.”

Talvez como nós , que somos então obrigados a correr a trilha das ilusões para saciar nossos sentidos e paixões, e descobrir que nossa materialidade pode ser nosso maior engano .
Frente ao Mistério , só nos resta vivê-lo , algo que batalhamos por aprender como , já que o óbvio nos é oferecido a preços de pexinxa , enquanto que o extra-ordinário , que nos perturba e nos instiga , é muito mais difícil , talvez para raros como dizia Herman Hesse .

Mas enquanto houver vida , vivamos ...

Há ou não inveja do pênis?