3.10.11
Foram os cabeludos que mudaram o mundo
Por estes dias meio nostálgicos e cheios de sol , consultório em obra e tendo que permanecer por aqui , resolvi ver o vídeo de um conjunto que possivelmente marcou muita gente , Creedence Clearwater Revival e viajei longe .
Primeiro a alegria dos caras , aqueles que você sente o prazer de quem ama o que faz , John Fogerty a frente , o grande gênio e compositor da maior parte das canções , seu irmão Tom , parceiro de algumas e mais dois outros caras , vejam só :
Creedence Clearwater Revival foi uma banda de rock californiana formada por John Fogerty (guitarra e vocais principais), Tom Fogerty (guitarra), Stu Cook (baixo) e Doug Clifford (bateria), que, sob outras denominações, tocavam juntos desde 1959.
Adotaram o nome Creedence Clearwater Revival em 1967, com o qual lançaram as primeiras gravações em 1968. O nome surgiu pela junção do nome de um amigo de Tom Fogerty, Credence Nubal, com Clearwater, uma cerveja da época e Revival, simbolizando a união entre os membros, que já tocavam juntos desde 1959. Ao nome de Credence, adicionaram um e para lembrar creed (crença, credo).[1] Em 1968 obtiveram o primeiro disco de ouro, com o álbum de estreia, Creedence Clearwater Revival.
Ao longo da carreira, entre singles e álbuns, conquistaram nove discos de ouro e sete discos de platina. Separaram-se em julho de 1972. John Fogerty foi quem teve mais êxito na carreira solo. Seu irmão Tom faleceu em 6 de setembro de 1990. Em 1993 o Creedence Clearwater Revival foi introduzido ao Rock and Roll Hall of FameHYPERLINK \l "cite_note-1"[2].
Recentemente, Stu Cook e Doug Clifford formaram o genérico Creedence Clearwater Revisited, e passaram a excursionar pelo mundo, tocando antigos sucessos da banda original ."
Sensacional vê-los em ação ! nossa, que belo astral , e que energia de renovação ! Época que a revolução dos costumes começava a se expandir pelo mundo , chegando a nós , sempre um pouco atrasados , mas não teve quem não dançasse ou se sacudisse ao som das baladas , que de verdade pouco diziam , como a maioria delas, mas o som, o som , era o que importava , equem curte rock, sabe que os arranjos , as guitarras principalmente , eram a senha para o astral ,para tudo que queria abrir , a sede do mais, o gosto da des-repressão , mas com som e muita dança.
Woodstock foi o ápice , clamor de toda uma geração e liberdade ( sempre é bom lembrar que liberdade é conceito temporal e que figura dentro de um registro histórico) , festival de tudo , de corpos , sexo , maconha ( a principal) , alegrias miI , muito som e contato , com um detalhe , a saber, eram todos cabeludos , homens e mulheres .
Se os Beatles , já tinham promovido a celebração de um novo tempo , mudando energéticamente os conceitos , e com talento inconteste toda concepção de uma ruptura anunciada desde a juventude transviada de James Dean , os hippies encarnaram as mudanças no seu cotidiano , buscando outra forma de ser e viver.
Heman Hesse , Marcuse , Gurus e o fascínio dos ensinamentos espirituais do Oriente , desde Mahatma Gandi até o Maravishi dos Beatles , com participação de Ravi Shankar , pra quem não sabe , pai de Nora Jones, a cantora premiada de jazz , que deixou 18000 pessoas na rua que não puderam entrar em seu show em S.Paulo.
Caraca, coisa boa, tanta mudança , muita adrenalina e muito apelo para outra coisa , outra cena , não tanto do inconsciente , mas pelo contrário , além do consciente chato e masmorrento que regia os padrões já surrados e monótonos de um mundo que já pedia para ser outro .
Pois a rapaziada escutou em si estes apelos e se lançaram , nada de guerras idiotas e sem nexos ,em nome sei lá do que e fora com Vietnam e fora com brutalidades , um romantismo delicioso e valente , chocante aos olhos conservadores , mas irreversível , a força e o clamor de uma juventude que resolveu mostrar a cara e dizer o que não queria mais pra si .
Se por um lado não havia como segurar os exageros (vejam a hybris e o metrum , a ser lançado no blog ) que lamentavelmente levou muita gente jovem, conhecidas e anônimas, embora , por outro, abriu espaços e mudou completamente o desenho do tecido social , redescobrindo o valor do improviso e da criação , crítica direta à consciência laranja apontada por Wilber e da des-humanização do capitalismo festejado principalmente pelos ricos em detrimento dos pobres.
Um mundo de potências ameaçadoras , de destruição nuclear a nos invadir o imaginário , de ditaduras e assassinatos impiedosos , dividido entre duas concepções ideológicas de direitas e esquerdas , tudo empurrado goela abaixo , cheio de contradições inexplicáveis e de mentiras nada convincentes .
Os cabeludos , mesmo não atentando para toda complexidade em jogo , resolveram desafiar o sistema e com o slogan " paz e amor " entraram na luta por um mundo melhor , "faça paz , não faça guerra ". Adotando postura no estilo de Henry Thoreau que dizia "Quero me defrontar apenas com os fatos essenciais da existência, em vez de descobrir, a hora da morte, que não vivi".
Naturista e rebelde Thoreau , queria expulsar da floresta , sua casa por opção e consoante com uma vida simples e natural , " tudo que não fosse vida", propondo que deveríamos desobedecer , seu livro empolgante , pois para ele em sua crítica ao Estado: "O melhor governo é o que menos governa".
Era hora do basta , do "chega de nos dizer o que fazer ou o modo com deveríamos ser" uma guerrilha ao" ideal de eu"proposto pelos modos conservadores e já pouco convincente para quem queria muito mais .
Relações burocratizadas e institucionalizadas em formas estereotipadas , como o casamento por exemplo , ou como construir família e se tornar um bom homem , pagador de impostos, cumpridor de deveres e obrigações , era visto como uma sentença a ser cumprida , já que a forma era a mesma há milênios .
Uma revolução nos costumes , como disse, e na relação do público e do privado ,pois não haveria esta autoridade prévia a dizer o que deveria ser feito , tudo era novo e experimental , partia-se para pesquisa relativa aos estados alterados de consciência , a vida para além do ego, nossa, quanta coisa incrível e cheia de desejo de descobrir .
Alan Watts e Thimoty Leary , a nos dizer das possíveis iluminações pelo LSD , um tipo de anúncio empolgante , mas que se mostraria equivocado na sequência , já que aí a questão é mais complexa , mas que de certa forma, apontaria para os ventos que trazem dúvidas às certezas estabelecidas na equação vida-morte , que nos instiga cada vez mais .
O espírito vigente da liberdade incidia de imediato sobre as roupas , estilo solto de poucas combinações , algo como , mais à vontade de se vestir como se quer, do que de combinar , outro front onde o padrão estabelecido e portador das estéticas convencionais sofreria duros golpes , que rapidamente absorveria trnasformando em moda , um novo estilo a ser oferecido nas vitrines .
Hoje é " normal" ver um senhor com cabelos compridos e presos, tipo rabo de cavalo , coisa impossível de ser concebida a pouco tempo atrás , ou senhoras com cabelos vermelhos e adornadas exoticamente , herança valente que ousou minimizar a importância do olhar do outro em nossas vidas particulares e em nosso direito de experimentar combinações assimétricas , mais pra bandana do que pra buquê .
Mundo vivo, intenso , cheio de propostas , de grandes debates, desde a influência do sistema social na regência do particular , até a direção do mundo como um lugar de todos , uma nova forma de ver e viver , algo pelo que lutar, uma boa e bela causa , onde a vida parecia se dizer melhor .
Mudou o mundo , mudamos nós e meu vídeo que repeti duas vezes está acabando , e eu também vou me despedindo , escrevo já com os efeitos da nova revolução que possivelmente , não agradasse tanto a Thoreau , pois passamos a um modo virtual de ser , onde os estados alterados e experimentais parecem mais próximos da esquizoidia social , do que de uma nova realidade transcendental.
A vez é dos carecas , dos modelitos ensaiados para mídia , dos moicanos bem estudados para os flashs , mas sem dúvida, também de outros ganhos, principalmente tecnológicos , uma rede social de criaturas virtuais que vão descobrindo seus modos de transformar o mundo, de influir nos destinos sociais , de participar da história e de amar , um novo tipo de virtuosismo onde o virtual é que decide o depois.
Interessante , pois inverte o comum e propõe novos desafios , onde cada um haverá de fazer suas apostas , já que o terreno pós- moderno é de todos e de ninguém em particular, uma condição sem nomeações , sem muitos endereços e sem sistemas maiores para se socorrer .
Uma mexida no narcisismo que para alguns é a grande mazela atual do mundo, pois na perda de referência do familiar, o mundo ficou mais impessoal , um lugar onde o sujeito tem o seu valor pela performance de mercado que, cada vez mais exigente, vem deixando de fora muita gente que, por sua vez, tende a buscar um melhor lugar para viver .
A questão dos lugares e territórios vem exigindo novas remarcações , pelo aproveitamento de todos , já que não se pode conceber uma ordem sócio-familiar que só caiba os seus , pois aos poucos e graças aos cabeludos e barbudos , começamos a enxergar que o mundo é de todos e que nossa cidadania é universal, outra fronteira que os cabeludos enfrentaram , deixando crescer os cabelos além dos limites demarcados .
Ah! desculpem a celebração! É que gosto muito dos meus cabelos encaracolados e símbolo de uma época que faz parte de mim e que reviso sempre , uma escola de fortunas e de confrontos que evitam as acomodações , embora reconheça que tudo passa e muito já passou , e que John Forgety hoje, é gordo e careca , mas continua vivo como arte e talento , a memória eterna do que é bom .
Valeuuuuuuuuuuu aí o do cabelo grande
19.9.11
DEVOLUÇÕES
Tomo esse tema interessante como reflexão , pois é um desses temas que
vige no dia- a- dia com grande importância , mas de pouca visibilidade
estudiosa como tantos outros , que afetam diretamente o cotidiano , mas passam
como óbvios , sem serem.
Devolução- ato ou efeito de devolver , nos diz o pai dos burros ( todos
nós).
Embora não tendo um dicionário filológico que me permitisse ver o
radical da palavra , intuo que devolver , me sugere tanto envolver , quanto
evolução , pois implica " algo que se devolve ao primeiro possuidor".
A vida gramatical é sempre um convite para o a mais , pois as regras e o
significado das palavras , acabam por estruturar o cotidiano como um campo de
significações onde a fluência percorre os caminhos estabelecidos pelos signos ,
o que se oficializou.
Muitas palavras que usamos de forma corriqueira , em geral, de forma
literal , por vezes apontam para opções que sequer nos damos conta.
Podemos por exemplo, questionar se essa devolução , esse ato de devolver
, é um gesto mecânico ou implica algo mais?
Tomando outro ponto de partida , sugiro pensar que essa devolução não é
um ato mecânico, nem literal, e que a beleza da vida e do convívio generoso ,
passa por aí , lugar privilegiado para se observar a qualidade do amor
praticado em uma sociedade.
A cada dia a vida se oferece com tudo , cheia de luminosidades e
imprevistos que nos provocam e se por muitas vezes nos fazem sofrer , nem por
isso deixamos de constatar , que se não fosse assim , como iríamos exercitar
nossas capacitações?
Como esculpir-se como obra de arte , se não há estímulos ? perguntaria
Nietzche .
Logo, viver é devolver , ou devolver-se, a maneira única como a vida ao
passar pelo nosso processador íntimo , qualifica ou deprecia o que recebe ,
exprime ou contém o afeto , visto aqui como "afetare" , ou seja , o
modo como somos afetados pela vida.
Observemos aqui a chamada Lei da compensação de Bert Hellinger , que diz
: Oque recebemos temos que devolver de forma qualificada , recebe-se,
qualifica-se e devolve-se, eis o grande exercício do amor . Não fazer isso
afeta a compensação , lugar aonde alguém se sentirá lesado ".
O que isso me sugere então é que devolver é uma forma de implicação,
isto é, o modo como me implico no que recebo , sendo que essa implicação pode
ir desde do extremo onde me finjo de morto até a confissão verdadeira da
gratidão reconhecida pela alma, as nuances do meu próprio envolvimento.
Em cada situação essas nuances se fazem observar , desde aquelas onde me
escondo mesmo, até ficar invisível torcendo pra que ninguém me descubra, até
aquelas onde me apresento para testemunhar , o testemunho dos corajosos que
pagam o preço da verdade como causa , algo completamente fora de modo em nosso
tempo de covardias.
Esse é um exercício de expressão de si como sujeito testemunhal que nos
obriga à con-sideração , o modo como se considera , da verdade no campo dos
afetos , tendo em conta que as relações amorosas e sociais , encontram aí seus
destinos , suas opções e efeitos , e cuja vivacidade que mantém o
"espírito do Vivo" , pode ter aí seu lugar de sequestro.
Seja o homem que se cala perante sua mulher , por não conseguir dizer o
quanto a ama por tudo que dela tem recebido como companheira lado-a-lado ,
patrimônio que aos poucos vamos aprendendo seu valor pelas dores que sua falta
provoca , seja o pai que reprime a fala de elogios a seus filhos num tipo de
exigência insaciável , seja a mulher que por não se sentir amada dentro de seu
impossível , se fecha em humores azedos e cara de perversa.
Enfim , tudo que não falamos no tempo oportuno e que só acrescentaria às
devoluções qualificadas , e que nos permitiria espantar e ser menos
mal-tratados por uma série de fantasmas do desamor , e que ficam guardados na
caixa-preta, na esperança de um dia ser descobertas pelos arqueólogos de um
futuro , onde nosso cadáver já nada poderá dizer a seu favor.
Nossa ética nesse caso é a ética da "Presença ", a expressão
que submete os orgulhos do "eu" ao possível da "Verdade",
que mesmo que não possa ser toda como
diz Lacan, também não nos autoriza às omissões , onde argumentamos que não
faria diferença testemunhar e dizer , pois ou não temos tanta importância
assim, ou que o outro também não nos faz tanta questão.
Cantilena de uma criatura "fraca e ressentida" como diz
Nietzshe , lá vamos nós esperando da vida favores que sejam cúmplices de nossas
omissões arcaicas , velhas exigências subterrâneas que tem o orgulho como
guardião .
No sentido de Hellinger somos sempre geradores do próximo passo , pois
este depende de nossa devolução, ou melhor da qualidade devolvida, pois se o
prendemos , fazemos uma contenção , ou uma restrição onde a boca ao invés de
dizer sussurra ou cala , o outro não pode ter seu prestígio de volta e nem nos
dará o nosso.
Dessa forma , as mágoas, ódios , rancores , sabotagens e manipulações
irão fazer o papel inverso, ou seja , destituirão a qualidade e instalará as
depreciações , recurso sinistro aonde nenhum de nós terá o que sente merecer ,
uma circularidade depreciativa onde o valor nosso de cada dia poderá descambar
para a arrogância ou para depressão.
Uma sociedade cheia de histeria coletiva , limiar baixo do faz -de-conta
, onde se propõem simulações na conta de que a vida se deixa enganar , pois não
temos com ela compromissos maiores como protagonistas , tem simplesmente nos
levado a um vazio de propósitos que chega causar arrepios , quando sabemos que
gerações esperam sua vez de entrar no barco.
Devoluções começam em casa , lugar do aprendizado dos modos e das
expressões , do respeito amigável , da indulgência que estimula mais do que
condena , da alegria como chama que dá brilho a vida , do elogio que enobrece e
reconhece o valor , do perdão que aponta o erro mas incentiva o esforço por
novos acertos e correções , enfim, em todos os lugares aonde estivermos esta é
nossa "deontologia" , o como deve ser do ser para sua realização.
Não devolver e guardar , ou não qualificar por vinganças e boicotes é um
equívoco que nos custa caro , pois torna a vida amorosa um campo minado cheio
de desconfianças mútuas aonde cada um de nós vai se tornando caçadores do
defeito alheio , retórica mínima para se justificar a falta de entrega .
Mas o que é viver sem entrega?
Nada é nosso , temos que entregar de volta se entregando , um
"eis-me aqui ", cheio de gratidão e reconhecimento por tudo que
recebemos , para que nosso vazio seja apenas uma amplificação da nossa
capacidade de receber melhor , uma apuração de nossa admiração ao que é belo ,
nobre e elegante no gesto amoroso.
Devolver é um exercício de lapidação , um polir as lentes como fazia
Spinoza , pois a qualidade nos ajuda a ver melhor e ao devolver, sentimos que
fazemos justiça no amor , dando ao outro o que lhe pertence e reconhecendo o
que é nosso , o que nos ajuda a não reter o que não convém.
Elogiar é um ato de coragem e honestidade que mesmo não sendo fácil , em
função de nossos vícios críticos , temos que praticar, pois só o maior pode
curar o menor, tipo assim , na medida em que nos tomamos como opção a mais pra
que ficar com menos?
Ao devolver com amor, me amo também e me faço amar de mais perto , pois
forneço a senha da aproximação e libero o caminho para o contato mais íntimo ,
lugar onde a descontração é capaz de falar a verdade sem precisar ofender.
VALEU AMIGOS , LEMBRANDO QUE COMENTÁRIOS AJUDAM MUITO
AGRADEÇO , AGRADEÇO E AGRADEÇO.
4.9.11
QUAL É O TOM?
Ainda em nossa reflexão pelos modos da subjetividade , este mundo tão
incrível de onde partem todas as glórias e todas as injúrias , lugar onde se
busca marcar o que se quer e onde se sofre do que não quer, chegamos ao início
da conversa , ou seja , como na música é preciso buscar o tom .
Em " As palavras e a boca " aqui mesmo no blog tratamos desse
momento crucial onde as palavras ao sairem fazem destino e implicam o falante
de diversas formas , mas hoje tratamos do tom , é, esse tom imprescindível que
compassa a melodia e torna possível a escuta , a escuta que recebe e qualifica
ou a que deprecia , lugar de atritos e antagonismos que trazem consigo o ódio ,
o medo e a culpa por um lado e por outro a admiração , o sentido de descoberta
e a gratidão da companhia .
O tom é o a mais , é o que não está de pronto , tem que ser descoberto ,
não existe apriori, pertence ao campo da intuição e do amor , pois é ele que
irá decidir o depois, ao mesmo tempo que decide o que irá acontecer já .
Podemos e talvez devessemos sempre buscar o tom em tudo , o tom da manhã
, da noite , o tom da transa, da comida a saborear , o tom de si e do outro , o
tom que indique a sinceridade da palavra e não mate a conversa , o tom da hora
de falar e também de escutar, enfim , o
tom que acerta no alvo sem machucar , sem ofender , o tom da franqueza amorosa
.
É como se admitíssemos que o universo tendo sua musicalidade ,nos
caberia a cada situação descobrir o tom , sendo esse o lugar onde a fluência se
torna possível , ou seja, a música segue , nos convocando a outras descobertas
.
Caso não seja assim, é como se o disco estivesse arranhado e ou com
sulcos que fazem tudo se repetir de forma muito desagradável, um tipo de
reverberação mental onde se volta ao de sempre
mas no contra-fluxo , isto é ,perdeu-se o tom , daí pra lá só
desarranjos .
Como somos seres do verbo , isso então fica mais onipresente se
inserindo constantemente em nossa forma de falar uns com outros , nos
permitindo visualizar que nossas palavras expressam o tom de nossos estados
d`alma, revelando o que de oculto tentamos esconder , em geral , antagonismos
não reconhecidos ou pouco admitidos , que nos fazem desafinar , apesar de
nossas boas intenções.
Se encontrarmos o tom , as palavras soarão diferente e seremos escutados
com mais acuidade , permitindo que o sincero não seja deselegante , e fazendo
da expressão um momento de revelação , algo inusitado , confessional , e que
toca no fundo , pois invoca ressonâncias que penetram e estimulam o respeito na
recepção.
Palavras demais e repetitivas , reverberativas,são uma questão de quem
quer ganhar , expressão de onde cada um de nós se sente ou se sentiu lesado ,
onde o toca-disco está com alguma falha estrutural , e que faz com que cada
situação se torne um embate para auto-afirmação.
É isso que nos dificulta achar o tom, pois ao invés de sintonizá-lo
primeiro, procuramos impô-lo às
situações de forma onipotente, partindo da suposição que ele é quem
define o como deve ser , o modo como nossas razões procuram se antecipar na
busca de seu reconhecimento.
Obviamente,convém lembrar que todos sofremos dos mesmos males e das
mesmas afirmações , pois nos conhecemos em nosso convívio milenar e sabemos o
arsenal que temos,com armas variadas que vão do sutil ao estúpido . Logo a cada
situação de convívio tudo retorna , desde estratégias para ganhar até fracassos
magoados , derrotas que grudam e prometem vinganças .
Achar o tom é um trabalho de cura , um desgrude emocional de si mesmo
para uma passagem de nível , um lugar melhor onde minimizemos as disputas ,
onde reconheçamos o que nos pertence e torne possível devolver o que não é
nosso. Um tipo de triagem que nos remonta aos modos emocionais da família com
suas exigências e idealizações e que nos trazem encargos que incorporamos e
nunca conseguimos dizer não.
Quando o trabalho de diferenciação se faz possível é quando o não saí
das entranhas do ressentimento e se torna um lugar plausível , um lugar
reconhecido e legitimado , onde reconheço o direito de recusar o que não me
convém .
Se faço isso , e em geral, depois de muito sofrer pra se livrar de
dívidas e culpas, no que o código de rigidez interna se torna mais flexível ,
posso buscar dizer sem ofender , primeiros ensaios no campo do amor que promove
a autenticidade , como escultura de uma singularidade recuperada .
Da mesma forma o outro se movimenta , pois seu lugar também muda , pois
o vejo como alguém que não sou eu , uma vida própria , um estilo próprio que
não pode se sustentar como objeto de minhas projeções autoritárias , me liberto
libertando o outro de mim , refazendo fantasias primárias de que sou o centro
não copernicano do universo .
Osho , o Mestre rebelde,ensina que uma pausa é um intervalo entre duas
notas , um des-lugar para novas revelações , uma amplificação da recepção onde
o não-limitado pode comparecer e novas melodias podem surgir .
Talvez descubrir qual é o tom , requeira uma pausa , um modo consciente
de respiração , onde o que está grudado,mesmo que incipientemente , precisa
afrouxar , uma redução da gana , um tipo de solvente para as reverberações
obssessivas , onde a obssessão única é dar razão a si mesmo e querer que o
outro confirme.
Um intervalo pode ser uma oração profunda , um apêlo superior para
desconstrução de velhas razões rancorosas , uma redução de tamanho pela
humildade flexível , uma versatilidade onde o resultado,seja qual for , não é
uma mordida irreparável no meu ser , não é uma ofensa que não possa ser
revertida em compaixão .
Sabemos que tudo nos ofende dependendo da ocasião , é como se em algum
nível de nós mesmos, feridas atávicas e doídas comparecem e nos sentimos tão
maltratados , tão incompreendidos que sequer nos damos conta que essa é uma
condição comum .
Não há o "Outro" dizia Lacan ," é impossível" , e
corroborado por seu discípulo Didier Anzieu que escrevia : " o Outro não
dá não é porque não quer , é porque não pode, já que não tem".
Óbvio, que para nós quando não recebemos o amor pretendido , esse
encontro marcado pelas nossas expectativas , nos frustramos e ficamos raivosos
, nossa primeira atuação é o ataque sem grandes considerações, fomos sacaneados
de forma injusta , à guerra para reparação.
No entanto, é também nossa prisão, o que não nos deixa dormir , o que
escurece o dia, o que vai direto para os nervos, o que faz sucumbir o humor , é
enfim , o que precisamos aprender a falar e para isso , na medida em que
queremos nos libertar , não tem jeito , temos que saber, qual é o tom mesmo?
21.8.11
A BURRICE RELACIONAL I
"A burrice é uma cicatriz" (Adorno-Horkheimer)
" O ato repressor cria uma espécie de cicatriz - burrice. Quem é repreendido e reprimido , repete o último gesto que assistiu antes da repressão . Toda vez que é posto para pensar , ou que é acionado de alguma maneira para agir , ele repete o gesto de violência que o emburreceu. Ele empaca na gesticulação estereotipada. Assim, o burro , nesse caso, não é violento por ser ignorante,mas é violento por conter a cicatriz da burrice." (Guiraldelli Jr in ""A dialética do Iluminismo")
Sem contraposição a Goleman " A inteligência emocional " , nem a Gardner com sua teoria das "Inteligências múltiplas", gostaria de recortar um tema do cotidiano , bem onipresente e campo de muitos desentendimentos e sofrimentos diversos, ou seja , a burrice relacional.
Se a epígrafe é correta , logo o burro além de " empacar ", sofre de recorrência , pois volta ao mesmo lugar , toda vez que desafiado a pensar ou a agir , no sentido de senhor de si , retoma ao lugar de escravo , ou seja , o que não esquece e não perdoa , pois tem uma dívida impagável que o atormenta e por isso , não pode ser livre , a não ser para lembrar .
Mas lembrar o que ?
O gesto que o emburreceu . Como?
Há aí, um entrelaçar entre o que emburrece e o que é emburrecido , pois se não se pode pensar, menos ainda falar , pois só se fala para viver e ser feliz, o resto são mímicas , um jogo especular de mágoas e lesões de reconhecimento , em que a burrice é aquela de manter a única opção possível , ou seja , não ter opções.
O burro empaca em sua falta de opções e em seu estreitamento negativo , pois tem razão que ninguém vê , só ele . Essa é sua arma mortal , fazer desconhecer suas razões ou dogmatizá-las de tal forma , que ao mesmo tempo que é um incompreendido, é também autor de um texto que escapa às palavras , e consequentemente à fala .
Quem fala se desdiz , quem não fala tem sempre razão intocável , lugar que ninguém sabe aonde é , logo , não se chega lá . A burrice, nesse caso, não pode prescindir de seu esconderijo, lugar de suas inúmeras razões inomináveis , arma poderosa , pois se mata sem dizer o porque, jogo perverso que faz do outro, alguém que não entende ... o que jamais foi dito.
Não se questiona aí o absurdo do paradoxo , pois para o burro ele não existe , blindagem demais para reconhecer o valor do limite.
Não se escolhe as palavras, nem o momento , nem a ternura que as tornaria melhor recebidas , pois no fundo tem medo de ser compreendido e ter que vir a luz do dia mostrar seu rosto, que não vê faz muito.
Ser burro é também ser bruto , pois a brutalidade é a intimidação que tenta negar o que precisa ser dito , mata-se, mas não se confessa.
Pois senão vejamos :
O que se quer?
Amor e prestígio , duas demandas poderosas de qualquer ego humano .
Como se faz?
Escolhe-se alguém, ou se é escolhido por alguém ,que deixará de ser alguém e se tornará um foco , um foco constante de apêlos variados , pedidos de amor e sexo , de importância , de lugar exclusivo , de companhia que fará um recorte no mundo, com ela(e), o mundo é outro , justo porque é um outro .
A partir daí uma inter-penetração irá tecer o convívio , um estranha vivência de se deixar ir e de ficar , um pêndulo, que nesse lá e cá , expressa o desafio do ganho que nos obriga a se arriscar e o medo danado de perder e sofrer , a doce vertigem de que não há garantias .
Mas é verdade também, que a partir daí , este outro que passa a nos fazer parte , também desafia nossas habilidades de cativar , de atrair , enfim, de se valer a pena , eis um desafio que uma vez iniciado segue até o fim , pois no mundo dos investimentos diz um autor " o inconsciente é capitalista ", como a ressaltar que por mais que não queiramos " não há lugar assegurado" .
É como assumissemos a tarefa de nos fazer interessantes , uma qualidade da atração e da intensidade , que nos mantém o valor enquanto uma aposta que vale a pena, um esforço de aprimoramento constante que esculpe nosso mundo de dentro , à começar por nossos modos pelo lado de fora.
A fala por exemplo , o mal da boca , aquelas palavras sem consequências , a ignorância deliberada dos efeitos , fala-se e pronto , talvez algo que dito em outra hora, ou de outro modo provocaria menos estragos .
O cuidado com o não-ofender , a não-violência em níveis sutis , o ter em conta que da mesma forma o outro sente e reage , o aprender que nem tudo é tão grave assim , e que deixar pra lá , em muitas ocasiões não é vergonha nem derrota, pois não se trata de uma disputa ou de uma arena .
É incrível que ao mudar nossos modos , mudamos também a forma de ver as coisas , como se aos poucos tirassemos delas a severidade , a acidez crítica que contamina tudo , e ao mesmo tempo ganhamos em sinceridade não-ofensiva , a expressão que consagra nosso ser, o poder dizer sem matar , a palavra que celebra a vida e chama o profundo com ternura e delicadeza.
Todo analista sabe que as projeções são imperiosas e cheias de razões particulares, e que enquanto isso não quebra , a pessoa não é tocada a nível de uma reversão , um modo de reconhecimento do que lhe cabe , do que é seu e só seu , única maneira de começar a sair dessas pequenas e custosas prisões emocionais que nos infernizam a vida.
Quando um casal, por exemplo, começa a perceber o convívio , não mais como um conjunto de projeções autorizadas sómente pela neurose de cada um, mas como um modo desafiador de aprender e de se curar , começa a surgir ,o que em geral ,começa a faltar nessa ocasião, ou seja , a gratidão pelo presença companheira , o valor do lado-a-lado , que o tempo ensina aos que conseguem afrouxar o cinto de suas onipotências.
Se por um lado ninguém é de ninguém , mais uma razão para nos agradecermos ,pois sustentamos um pertencimento por amor e só , reiterando assim que estamos aonde estamos porque assim queremos , e não como vítimas do que não foi possível .
A burrice relacional começa quando esses preceitos tão nobres ,e não se vive sem nobreza, começam a serem tratados como óbvios , crime grave que arrolará muitos processos desagradáveis e sentenças serão aplicadas , ou como culpa ou como castigo , lugar onde os fracassos, ao invés de ensinarem se tornam desgraças, cujas dores nos farão chorar , um prognóstico sinistro quanto a nossa capacidade de amar de verdade e onde o orgulho foi péssimo professor .
A BURRICE RELACIONAL II
A figuração do burro enquanto algo retrógrado , algo que empaca , como caracterização da falta de inteligência , é um tipo de licença que não faz jus ao animal, que diga-se , é inteligente .A questão é que mediante algum perigo ou reminicência o danado empaca que não anda de jeito nenhum.
Para o observador não há perigo algum , para o burro sim , que por sua vez não cede de maneira alguma , em geral , causando irritações em seus donos, que sabem que bater não adianta . Com isso qualquer ato de menor prestígio ou considerado de pequeno alcance é considerado " burro ", o antônimo de inteligência , do brilho , do fulgor ,da assimilação rápida, enfim , um mal-dizer que se tornou uma arma de depreciação .
Mas em nosso caso consideraremos um detalhe interessante , nessa situação do burro, ou seja , é que o burro não passa pelo mesmo lugar que algo aconteceu e o impressionou , como se revivesse o que passou de forma tão atual que é como se estivesse acontecendo agora. É difícil convencê-lo que a situação é outra e já passou , pra ele por um estranho condicionamento, o resultado será sempre o mesmo.
Nada mudou , pois prisioneiro do tempo, não enxerga o que já não é o mesmo ,seu sentido lhe trás uma ameaça , cujo perigo está mais dentro do que fora , uma cisma que acabou lhe consagrando , como símbolo da burrrice .
O que seria então uma burrice relacional?
Começaremos então pela palavra consciência , ou seja , sua dupla vertente :
A primeira pela ciência ,a expressão do desejo de conhecer , a construção do saber , uma modalidade de cognição fundamental que ilumina a vida , corta a ignorância e permite aquisições importantes na transformação da vida .
A outra é o com : o estar-com, o exercício do convívio como produção de consciência, o outro como amor e como ódio , este esbarrão constante que me serve como aconchego e ao mesmo tempo como repulsa , essa intimidade e invasão perene , o eterno desafio da habilidade para se com-viver.
Daí a ver que o convívio é aonde a chama da consciência acende ou apaga não é difícil , difícil é aceitar que na raiz dessa convivência a vida aprimora seus modos , uma ascese do grotesco ao sublime , na qual todos nós, querendo ou não estamos submetidos .
Relação é uma denúncia constante do que é bruto e do que se aprimora , do que se pede e do que se oferece , um eterno jogo de reconhecimento , onde cada ato se inscreve numa significação amorosa para ser celebrado ou frustrado , o que nos cura ou nos fere , uma estranha sensibilidade que parece nos tornar débeis e dependentes.
Ora, mas a virtude do amor é o poder de mostrar aonde somos frágeis e sensíveis , uma senha da espécie que poderia servir como alerta, pois a dor do reconhecimento é comum, e que partindo daí , deveríamos ter em conta que ao mesmo tempo que sofremos , fazemos sofrer .
Nesse ponto algo se impõe , a saber :
Que somos criaturas do verbo e que o verbo é o início , e que o início era o verbo .
Isso nos ensina que o verbo é o que dá partida , ou seja, tanto inicia como parte .
Ao dar a partida chama pra junto ou afasta , exclue , um tipo fica pra lá, que tem o poder mortal de ofender e abrir feridas.
O tempo todo informamos uns aos outros que somos sensíveis ao trato e que no trato, muitos protocolos do convívio existem , já que se referem aos modos primários , aquela película de sensibilidade que subjaz ao ato humano e lhe confere o que o poder de afetar.
Como desde sempre nascemos no campo do Outro , inscritos no desejo que nos trouxe ou que nos recusou , não temos como forçar emancipações ou independências que busquem renegar essa ordem humana , ao risco de graves distúrbios esquizóides e psicopatológicos.
Dessa forma então , se tudo começa no verbo e se somos sujeitos-objetos do trato, então porque não prestamos uma atenção mais específica a esses dois ítens tão fundamentais?
Por exemplo , a palavra uma vez dita , não tem jeito , já é , como se diz.
Logo , seria interessante :
Observar o momento de dizê-la , e o modo como é pronunciada , já que o outro é sensível às intenções nem sempre explícitas que contém.
A palavra será tão mais íntegra e respeitável , quanto menos acusativa seja , já que acusações de certa forma , sempre trazem algum nível projetivo não reconhecido em quem fala.
Pra isso é necessário que possamos ir além dos 5 minutos iniciais , como dito no artigo anterior, o nível reflexo onde as ofensas encontram as dores primárias ainda em estado bruto, pois blindadas , em geral, pelo orgulho , não permitem fácil acesso à consciência a não ser pelas projeções , onde o que não reconheço em mim aparece como acusação ao outro .
A ponderação , ajuda o compasso do tempo e ao modo de falar , embora , seja importante também identificar o quanto as intenções falsificam as justificativas , já que o que se diz num nível , não se justifica no outro .É como se a palavra apontasse pra um lugar e a expressão facial ou gestual não corroborasse o endereço .
Esse fenômeno dissociativo que a teoria da comunicação trouxe para o estudo das familias e que tem sido de grande valia no estudo clínico em geral , pois , é a negação do que nos escapa, e que retorna como tensão aumentada , impossiv el de ser contida numa conversa , por exemplo .
É mais fácil brigar do que conversar , diz um autor . Casais se separam melhor quando estão bem , neuroses conjugais são vícios reiterativos , o que ameaça e não se cumpre , diz outro estudioso.
Mas tudo é relativo a capacidade de conter sem agir , um tipo de exercício quase yogue , um suportar à energia que ofende sem ofender , uma troca desigual que só o amor referenda , uma alternativa , onde a opção é buscar abrangência onde tudo se estreitou , um oferecer algo maior a si mesmo , evitando-se assim o sinistro emocional que se segue de imediato à ofensa.
Quando uma pessoa tem lesões primárias graves , talvez isso seja ainda mais difícil , mas parece ser esse o caminho de nossa cura , senão , nossa alternativa é repetir , e repetir sem poder elaborar , ou seja , sofremos de forma incompreendida sem aprender nada , razão obscura de nossa revolta e de nosso confinamento incandescente no fogo do ódio que nos subjuga.
Não é atoa que Lacan , já se referia ao amor e ao ódio , como amódio , apontando o quanto sofremos de ambos , quase sempre no mesmo lugar .
Talvez devessemos aprender o momento de se calar e esperar , o momento mais oportuno de falar , buscando com isso algo que ultrapasse , que não fique no jogo pequeno de quem tem razão , algo que se imponha por sua maioridade , por sua clareza , por sua maior dignidade .
Me parece um exercício tão profundo quanto raso , mas um exercício onipresente , uma busca de um ponto acima , uma elegância um pouco acima da grosseria , uma inteligência um pouco além de uma burrice que estanca em si mesma , um amor a mais do que a espada , uma grandeza mais atraente do que minímos auto-referentes, que obliteram o outro por nos imputar uma dor especular de grande custo narcísico , principalmente ali onde Narciso empacou no fascínio de sua imagem estanque.
7.8.11
OS CINCO , DEZ, QUINZE PRIMEIROS MINUTOS DE MIM MESMO
(REFLEXÕES SOBRE A CONTRARIEDADE)
Coisa incrível é se observar . Não aquela observação defunta , obssessiva , que nos incrimina pelos pecados que fez de Adão, homem e Eva, mulher . Digo aquela observação mais afim de surpresa do que de certeza, a desconfiança positiva de que há em nós , muitos.
Descobri, por exemplo, que somos constituídos de níveis e que em cada nível a vida se decide de uma forma diferente, de tal forma , que se esperarmos um pouco que seja , algo muda . Essa idéia já é antiga , como " conte até dez" antes de agir , lembrando que algo muda enquanto contamos , algo se faz ou desfaz .
Em cada situação somo testados nessas variações de níveis ,e um mesmo assunto que num nível é aterrador ,em outro pode ser engraçado, como depois de um susto , segue-se as gargalhadas .
No primeiro nível temos uma camada reflexa , uma ordem simétrica e pouco flexível , a ordem do toma lá , dá cá ou bateu levou ,ou olho por olho, dente por dente, que deu origem a famosa Lei de Talião .
Nesse nível a auto-referência é exacerbada , um substrato rígido e cheio de emocionalidade reativa , um modo de figuração catártica que é justificada como " se eu não colocar pra fora, morro ". Aqui tudo é perigoso e pode explodir a qualquer momento , basta tocar num limiar em que se toma algo como ofensivo e pronto .......os dados estão lançados.
Aí, muitas palavras se arvoram e magoam , muitos relações se contraem e por vezes se destroem, muitos ditos se registram e chegam aos nervos da memória , lugar onde esquecer, só com perdão .
O que acontece aí é digno de se estudar , não consta nos livros , mas é uma batalha ferrenha , esse momento inicial onde a contrariedade nos mordeu , é uma condensação tão espetacular do primitivo , do animalesco , das absurdidades , dos pequenos assassinatos na fantasia , dos pescocinhos que a gente aperta , dos cabelos que se arrancam, enfim , um arsenal tão próprio e tão atávico , que em poucos minutos estamos exaustos de tanto atacar.
O curioso é que não passa de pronto , apesar de toda ação bélica , o treco volta e já de novo estamos pensando , amaldiçoando , dizendo todas as formas de impropérios ( pra não falar outra coisa), tudo no plano mental, que a esta altura já virou um ringue, em que só nós batemos .
A impressão que temos destes 5 minutos iniciais é que não passam e tiram até o sono , pois é o lugar onde nos sentimos lesados de forma não merecida , embora não tenhamos examinado nada das razões do outro .
Nesse momento não interessa as razões de quem quer que seja , e se alguém insiste em nos contar , pronto, mais um para mirar e puuuuuuuum atirar , pois já que estamos em guerra não custa mais um .
Esse estado é um horror , pois além de nos atormentar, temos dúvida sobre as razões que afirmamos ter , ou mesmo, se nossa reação não está sendo um pouco excessiva para ocasião, um exagero que nos amplifica e ao mesmo tempo nos prende , pois podemos ter reações tão brutas e intensas , que o estrago também pode ser muito.
Tudo tem que ser proporcional ao grau como fomos atingidos , um misto de dor e ódio nos afeta e nos aprisiona , como se quizessemos vingança e ao mesmo tempo, lamentamos ser tão vulneráveis.
Nunca sabemos ao certo quanto dura esses 5 minutos , até que num certo limiar impreciso , algo começa a mudar e o relógio , vai prosseguindo para o próximos 5 minutos.
O que acontece nessa sequência também é espetácular , pois é como algo começasse a amolecer , mesmo que por dentro , já que por fora o orgulho não deixa mostrar de pronto.
Começa aos poucos um misto de culpa , meio ao longe, que vai se aproximando devagar e a estabelecer uma certa idéia de que pode não ter sido bem assim . Que coisa dificil , pois, depois de tanta certeza retubante e assertivas inegociáveis é como se recuássemos e ficassemos mais modestos e com chance de estarmos errados ,com a difícil tarefa de reconhecer o erro e pedirmos desculpas por tamanha hipérbole emocional .
Cruz credo , o que se vê aí é a expressão do quanto é difícil a humildade sincera, de olhando nos olhos pedirmos o perdão , pois por um lado a culpa nos acusa e de outro o orgulho continua nos fustigando , tal como leão ferido , cheio de dor mas pronto para o ataque.
A famosa divisão entre o anjinho que pede para desculpar e diminue a importância do acontecido , e o diabinho que nos manda ficar firmes no orgulho e justifica nossos ataques, lembrando o que passou como prejuízo.
Chega a ser engraçado o catálogo de expressões desse momento , gestos que vão desde " aí foi mal ... hem " uma frase rápida que não diz o que , ou um tapinha meio sem vergonha , meio mudo ou superficial demais para o que aconteceu , e sempre fico com a impressão que se fomos olhar de perto, podemos descobrir que já estamos fazendo muito em pedir desculpas ,então , não me venha com detalhes.
Mas algo mudou , pois recuamos e houve uma flexibilização da retórica de mão única que vigia até então. O outro volta a existir , descobrimos que ele não é tão demônio assim, e inclusive , por muitas vezes já nos ajudou muito , reflexão essa, nem sempre feita de boa-vontade , mas trazida pelo inconsciente numa forma de retaliação que a luz faz ao escuro , quando se fecha em ingratidão .
É uma situação típica por exemplo de casal , que se ataca até o máximo e depois recuam , tentando devolver o valor que foi tirado indevidamente , um jogo de reaproximação todo ritualizado , que vai desde da descontração do rosto até os agrados , que mesmo não sendo ditos, servem como meia paga ao que se ofendeu.
É uma jantinha aqui , um presentinho ali , um súbito interesse por detalhes a que nunca se prestou atenção , uma saída a um lugar diferente , enfim , uma série de compensações que visam recolocar no lugar, o que foi violado.
Esses 10 minutos , também não sabemos quanto tempo dura , embora fique a impressão que não há uma superação de todo ,e tudo pode voltar de repente , é preciso cuidado , aquela constatação de que tudo estava voltando a ficar bem e .... pronto , que merda ! tudo de novo.
Os 5 minutos finais que não acabam nunca , já entram em outra esfera , pois se trata de uma reflexão do que tem de mim em mim ? O que em mim é tão provocativo , às vezes sádico , às vezes masoquista , um gosto pervertido pela instabilidade ou brigas , uma renegação da paz enquanto sujeição , enquanto entrega que ninguém parece merecer.
Uma sequência do relógio que nos insere, enquanto, responsáveis pelo que vivemos , o denunciar da vítima que há em nós e também do algoz severo , pronto a castigar , em formas estúpidas ou por hostilidades silenciosas que se eternizam em mágoas pegajosas, que ignoram à passagem do tempo , sente-se como se fosse ontem, o ocorrido.
Mas nosso horror parece estar aí , ou seja, descobrir-se como um sujeito cujo desafio é assumir seu desejo e seu preço , o ver que a vida não nos deve, e reinterpretá-la é uma condição para sair do prejuízo.
Parece que só podemos ser feliz quando tudo nos for restituído , embora não saibamos exatamente o que , a ruptura narcísica que nos arremesa para o desconhecido , e nos denuncia em nossas exigências e controles viciados, o Outro que não me deixa ser , como diz Lacan , fala do neurótico cujo gozo é gozar de não-gozar.
Se houver, como diz Helling, uma Lei da compensação , então , é como para ter de volta, precisamos restituir o que foi tirado , e nesse caso o valor do outro , o que por sua vez também subtrai o nosso. É como devolver algo , para recuperar o que é nosso .
Penso que isso funciona como um círculo que se retroalimenta , em que , os 5 minutos finais voltam a cada etapa à se reinserir sobre os 5 iniciais , o como as curas num nível,tornam o reçomeço mais elástico , mais flexível e talvez não durem tanto. Isso nos alivia muito desses estados sinistros , que se por uma lado revela tudo de autoritário que há em nós , por outro é um tormento que sabota a vida em várias ocasiões , estragos que poderiam ser evitados, se a mordida não fosse levada tão pra dentro .
Mas temos dores sinistras, não visíveis , recorrentes, que fazem com que por um estranho processo, sempre caiamos no mesmo lugar , que já conhecemos e que parece nos conhecer desde há muito, uma ressonância cujas extensões nos fecham , roubam-nos as palavras, transfigura-nos às feições e escurece nossa alma.
Ao examinarmos mais de perto, parece que há feridas antigas em tecidos primários, cujas artérias emocionais irrigam velhos rancores , lesões profundas e atávicas onde um inimigo se estabeleceu e parece morar ali ,e está, sempre pronto a nos cutucar e ofender.
Nossa cura primordial depende disso , o acesso a um lugar aonde a consciência só vai a contra-gosto , ou porque não quer ou não pode , por isso é sempre atingida na contra-mão , o que faz parecer que os 5 minutos iniciais são sempre uma afronta ,algo que não aconteceria se não fossemos provocados.
Mas o velho retorno indica ao contrário , ou seja, sofremos de nós mesmos , a esperança esforçada e desejada , de que um dia saibamos retribuir às ofensas , senão com um sorriso , pelo menos com alguma emancipação que não estanque tanto, o fluxo do amor e da vida.
Sem dúvida, nesse dia, iremos nos agradecer muito o esforço, pois será nossa carta de alforria dos grilhões, que por nos mal-dizer , também nos invoca tudo que parece mal-dito nos outros.
Viva nós , viva o ajuste que buscamos fazer em nossos relógios até o tempo ser livre , como nós gostaríamos de ser.
De bom grado os comentáios
14.7.11
OS ENCALHADOS
A imagem do vivo que encalha é impressionante , uma angústia do que foi interrompido , um movimento que sabe-se lá porque, empacou e nos desperta o desejo imediato de recomeçá-lo ou recolocar através de algum ato nobre à condição que possibilite retomá-lo .
Uma baleia , um golfinho , imagens comuns que nos frequentam têm um poder aglutinador espetacular , surge gente de todo lugar pra ajudar , um esforço comum pra que a criatura recupere seus movimentos e volte pro seu habitat , dando a nós o sentido de recuperação do fluxo, algo como a vida continua.
Uma alegria e um alívio que nem sabemos explicar exatamente , como que em algum nível do inconsciente nos identificássemos com cada etapa do processo , desde de seu sucumbir provisório, caso seja, até a liberação dos gestos , o vigor do estilo , a beleza das nadadeiras indo com disposição em direção ao mar .
É como se estivéssemos indo e soubéssemos aonde chegar e de repente , pronto , encalha-se, nem pra lá nem pra cá , um misto de impotência e aflição , uma imposição por falta de posição , que nos submete ao estranho , o que não foi convidado, e nos rouba o movimento, trazendo a angústia da incerteza , a imprecisão de nosso destino.
Encalha-se em qualquer praia , ou seja, na do amor , no dinheiro , nos propósitos , nos sonhos, enfim, aonde se quer chegar corre-se o risco de encalhar.
Mas se por um lado há o encalhe , por outro há o encalhado , à condição e a criatura , um misto alternado de limites e desafios , uma imprevisibilidade dos resultados, um interjogo onde busca-se remover o que impede e por outro sonha-se com a soltura do que estancou.
A questão maior é quando numa visada mais ampla nos damos conta que os encalhados são muitos , gente que nadou com esforço , gente que sonhou com o prometido , gente que quer pertencer , gente que quer amar , que quer casar , que quer trabalhar, gente que quer o seu lugar, gente que quer ser gente .
Num livro recém lançado sobre Bombaim , a cidade mais populosa do mundo, o autor mostra a revolta de uma juventude traída em seus ideais , que depois de receber toda educação formal com vistas ao mercado descobre que não há emprego pra todos , corroborando a tese de Jeremy Rifkin sobre uma sociedade sem empregos.
Por outro lado Boman em seus diversos livros sobre a modernidade líquida traduz de forma sensível,todas variações no campo do amor , principalmente, quando se trata das implicações que o amor suscita nos protagonistas quando se trata de se comprometer , o que trás a idéia de algo perene . Se não podemos descartá-lo, é melhor não se comprometer , um mecanismo que tem deixado na praia dos encalhes um monte de sonhos de casamento , um imenso desejo de pertencer à ordem de reprodução da vida.
Chora-se e angustia-se muito com a amarga impressão que o tempo passa e nada acontece de forma mais profunda , a vida presa histericamente no raso , a falta de identidade da dor que espera o acontecer e as ofertas esteréis que buscam disfarçá-la , sofre-se sem poder dizer porque , já que dores da alma são invisíveis.
E são invisíveis não porque não tenham nome, não , não é isso , e sim porque hoje é vergonhoso chorar pela alma , o lugar onde as permanências vivem e reinvidicam a dimensão do profundo,pois uma vez passado o pacto das histerias coletivas, busca-se o que é singular , o modo como as realizações fazem a vida valer a pena .
Mas diz uma cliente “ pra que falar de sentimentos , se isso pode ser uma arma contra você ?” , e isso tem se tornado um lugar tão comum num mundo violento e cheio de distâncias , que embora os sentimentos sejam o alimento de qualquer vínculo , foram relegados a uma categoria menor, inclusive, na Psicanálise.
Não há propostas no amor que possam prescindir do que se sente, o modo não elaborado e espontâneo que fazem que o convívio seja um lugar de espantos e descobertas mútuas , um alegrar-se juntos , a inocência que mesmo relegada , é a única forma que nos permite não fazer dele,do convívio, uma grande paranóia.
Não temos planejamentos sociais que nos de o alcance do que virá , gerações que chegam, renovam , pois trazem o novo , os ímpetos e o imenso desejo de aprender e conquistar, um sangue novo , o entusiasmo juvenil a ser trabalhado e esculpido em seus próprios termos, a renovação da própria vida.
Não, insistimos em ser velhos e viscosos , o osso é nosso e pronto . Típico raciocínio debilitado, pois ao perdermos o espiríto comunitário, deixamos de ver o futuro em quem nos sucede , a visão tosca e burra dos que não querem morrer em nada.
“O poder não se passa , toma-se” dizia Foulcalt, indicando que tudo nos fará guerrear , pois não se vive sem poder . Passar o poder para quem se prepara sempre foi o modo das sabedorias antigas , um ritual sábio e cheio de amor , pois os que recebiam se comprometiam a usá-lo em prol da comunidade , sua gente , sua tradição seu povo querido .
E sabia-se a hora de fazê-lo , pois tudo amadurece e não convém perder o tempo , senão estraga,algo como a fabricação do vinho , tempo da colheita , sumo propício a próxima etapa.
O que fazemos hoje? Um tipo” Deus dará” que só faz nos atormentar , um falange de gente encalhada em todos os níveis da vida , um povo orfão de oportunidades e de propósitos que tem custado alto aos governos e as políticas públicas , pois parados, custam muito mais,e uma enormidade de corações sedentos , buscando acasalamentos para serem fecundados e engravidados de amor sincero.
A vida é amor e trabalho dizia Freud , dois pilares imprecindíveis da dignidade da criatura humana, e manter essas condições, é possibilitar que a vida ofereça seu sentido maior, sua ordem de grandeza ,que se refaz a cada passo conquistado. É como se a cada avanço , novos desafios se apresentassem, nos dando o gosto pelas conquistas , “Eu sou minhas conquistas” dizia um amigo querido . Mas quando os desafios não apresentam suas relevâncias , e se pasteurizam ou se tornam desesperos , uma ameaça começa pairar , ou seja, ou paralizamos ou se atiramos de qualquer jeito, a figuração bipolar que marca o psiquismo moderno.
Queremos ser feliz , sem essa ficção ontológica, começamos a não saber o pra que, se não trabalhamos , se não amamos, o sentimento ontológico de mutilação começa a nos corroer , uma estranha carência de si e do outro , a falta do gosto de ser importante para alguma coisa que seja.
Deprimimos, o valor próprio é barateado como auto-estima de livro de auto-ajuda, sofremos da acidez de precisar e não conseguir pedir , uma tristeza profunda que nos abate a alma, como se nossos sonhos primordiais de realização, ficassem tão distantes e pálidos que temos medo de confessá-los.
Trabalhamos para construir e nos construímos pelo trabalho dizia Marx , e “uma vida sem amor é uma vida morta” ensinava Osho , ora uma visão que não tenha isto em conta é obsoleta e engendra um tipo de violência niilista, a violência do nada , do coisa nenhuma , o pertencer a inconsistência , uma falta de crédito no que se quer , um esvair-se do que se acredita.
Todo poder é uma direção para luz ou para sombra , um gesto que tem custado caro e muito arrependimentos, quando chega à consciência do que se poderia fazer para que tudo fosse maior e mais bonito, e se ficou preso num nível menor , o que não foi bom nem pra si, nem para os outros.
Os encalhados fazem apêlo e têm força , pedem chances e oportunidades para se incluírem, participarem e realizarem , denunciam um tipo de perversão coletiva , um sistema com critérios obsoletos com conceitos ultrapassados , que busca manter seu modo estabelecido , às custas dos que querem e precisam chegar.
A questão dos imigrantes , a xenofobia sacial , as supremacias étnicas , tem trazido tanta violência e tantas perdas , com dores tão indescritíveis , inclusive os genocídios , que talvez já estamos imersos num tipo de loucura assassina e auto-destrutiva , cujas medicações só estejam num tempo futuro da consciência .
É preciso abrir e oferecer com justiça e com amor , pois só assim teremos argumentos para contrapor a ordem sintomática, que tem produzindo sujeitos que tangenciam os vínculos sociais, por não se sentirem comprometidos com o cinismo que se tornou uma epidemia , a vida subjugada ao modo de desempenho , uma fábrica de artistas , cuja arte maior é mentir como se fosse verdade , a máscara como se fosse identidade.
O poder , em geral, tende a ser anacrônico e repetitivo, uma rede elaborada de acomodações e prestígios particulares , e se for protagonizado por gente coisinha fica crônico, e só produz atrasos,a condição para ignorância apaixonante , o sintoma como deslocamento da verdade, a cegueira que nos permite tornar indiferente o que é maior.
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