30.1.13

A DOR QUE NÃO TEM PREÇO


 

Desde sempre suspeitamos que há estranho no reino da Dinamarca . É como tivéssemos uma quase certeza , não afirmada , que em nossas vidas as coisas acontecem sem que possamos antecipá-las , embora tendo que vive-las .
O estudo do destino , hoje renegado por uma sociedade que se julga por demais inteligente , sempre foi um ponto privilegiado em outros tempos , considerados primitivos demais para serem levados em conta .
Mesmo a afirmação dos gregos mostradas em suas tragédias de que “ O homem não pode fugir ao seu destino “ , nos soa muito determinista e não convém, exacerbar nos determinismos , ao custo de nos tornarmos místicos ou supersticiosos , duas modalidades condenáveis para o brilho do intelecto .
No filme “A ponte de S.Luis Rey “ o tema é tratado com incrível sensibilidade , pois de antemão o autor coloca a sinistra questão do porque mediante acontecimentos trágicos , lá estão determinados atores , protagonistas de um enredo invisível , chocante , aterrador , e como todo trágico , irreversível .
Deuses e homens se atraem e se repelem na disputa pelo destino , e por isso as moiras fiandeiras eram tão temidas , pois uma fia, a outra mede e a outra corta , nos dando a idéia de que os fios de nosso destino passam por 3 tempos lógicos e inexoráveis.
O que querem os Deuses ? perguntamos cheios de temor e raiva , dependendo do que nos compete  ou sejamos obrigados a viver , questão tão enigmática que parece eterna e infinita, sendo respondida a cada tempo , a cada geração .
É como se procurássemos um nexo que funcionaria como uma ponte de sentido , um elo que hoje , depois de tantas imposições autoritárias deixamos na mão da ciência que nos parece mais confiável para afastar o fantasma da inquisição religiosa .
Tornamo-nos adeptos do conhecimento mais lógico , mais explicado , supostamente mais palpável , mas lento demais para nos consolar em aflições profundas , principalmente, quando viver nos exige algo que nossos nexos ordinários e cotidianos já nada mais podem nos oferecer.
Roubar o segredo do Deuses foi o ímpeto de Prometeu por amor aos humanos , preço alto a ser pago, se supõe que o que se quer é o poder de alterar o destino , já que não saberíamos o que fazer se alterássemos a ordem dos acontecimentos , discussão oportuna que a chamada Neonatologia , à intervenção do homem na concepção da vida ,vem se debatendo .

A consciência por sua vez , muito próxima dos níveis mais imediatos , serve como um tipo de regulação energética , como se empenhasse em nos manter atentos por aqui mesmo , possivelmente uma forma de garantir a vida contra nossa vulnerabilidade .

Vamos vivendo ordinariamente renegando qualquer alerta maior que nos tire o sossêgo , uma tendência arcaica , onde viver e bem-estar se confundem , uma aderência ao princípio que Freud tomou como primário , ou seja , buscar o prazer e evitar a dor .
Mas e as dores inevitáveis , aquelas que colocam em jogo nosso desejo de sobreviver ?
É sempre bom lembrar que tudo só é se faz sentido , onde as significações que sustentam a vida nesse mundo são ratificadas e fazem merecer o esforço , senão cai-se num buraco de esvaziamentos mortais que dilaceram nosso patrimônio espiritual em pouco tempo .
Viver é também um ato de convencimento compartilhado e dependendo da situação a morte pode parecer muito mais interessante , principalmente quando o que se perde é tão valioso , que nos deixa em extrema pobreza miserável quando se vai.
 A vida só é um louvor para os que assim procedem , mas mesmo nosso entusiasmo é posto à prova quando perdemos ,pois há fissuras que se estabelecem e comprometem à circulação da seiva da vida em nós , como se tivéssemos que ver grandezas onde somos extremamente míopes .
Uma dor profunda por perdas irreversíveis quebra identificações e podem jogar nossas crenças ao chão , pelo ralo para ser mais preciso , ou podem ser colocadas no altar da salvação , um último antídoto contra o desespero da auto-destruição .
Mas é verdade também que onde optamos por continuar , precisamos a todo tempo relembrar o pelo que continuamos , “um tirar forças não se sabe de onde”  dizia uma mãe chorando pela morte de sua filha na boate .
A falta é que já não temos nenhuma transcendência a nos oferecer , pois tratamos isso como uma questão religiosa , ou seja , um modo opcional , já que nossas concepções nos deixam absolutamente órfãos , quando mais precisamos delas .
Deus é um agora ou um depois ? Há uma Divindade para momentos terríveis e chocantes como este da boate , onde se morre impiedosamente , na forma mais absurda possível?
Essa dura questão difícil , parece ser hoje mais do que nunca uma busca pessoal , pois corresponde muito mais aos estados d`alma do que razões consensuais ( vide “ estados d`alma” nesse blog), a um vigor particular mais do que consolos coletivos .
O Divino só no mais íntimo , um corte com as superfícies de plantão, um silenciar perante as falações sonoras , um dispor, mais do que um antagonismo que ao se fechar nos condena ao escuro da circunvolução desesperada de rodar, rodar e não sair do lugar .
O homem é a parte , o primor da Criação nos dizem ,e sem dúvida , que bela espécie extraordinária , capaz de consciência , de amor e de ódio , de aconchegos e rejeições , uma criatura das polaridades , um bi-polar a procura de uma unidade não-escrita , segundo Lacan.
Mas se sofremos e se a dor ataca agudamente o Ser , então , o que fazer ? A dor não faz ,a dor desfaz .  E desfaz o que precisamos desfazer , caso queiramos continuar . Um processo de profunda desobstrução , uma retomada de pura coragem e de rumo , pois o senso de direção ou muda ou fica mais vivo , uma re-inserção a duras penas.
Fênix é um mito fantástico , pois temos que renascer do que restou , e nos ultrapassar onde a desistência parece tão de acordo e óbvia , um sumiço econômico onde nossa ausência nesse momento nos parece a melhor forma de sumir a dor . Sumo onde a dor aparece demais .
Quando mergulhamos nesse universo profundo empurrados sem escolher tudo se desfaz , todo modo compactuado , que nos dava a sensação de solidez e por onde transcorria nossa cotidianidade , uma síntese heterogênea dos propósitos que compõem nossa vigília  e também dos sonhos onde esperávamos chegar , há um colapso onde somos arremessados pra longe .
E este longe é tão mais torturante quanto perto é , sofre-se dentro de uma familiaridade perdida, como acreditar que o que estava ali a tão pouco tempo atrás , não esteja mais?
Que corte pode ser este , com poder inacreditável de nos tirar o que nos era tão precioso , tão perto e alcançável , compondo o cenário que nos acostumamos a conviver , a dormir e acordar como se fosse uma extensão nossa , uma privacidade que supúnhamos blindada , e que de repente , constatamos que fomos roubados , lesados , sem o menor poder de nos defender ?
Como dizia um pai, que chamado a reconhecer o corpo de sua filha morta num acidente de trânsito, como dizer que a pessoa que saiu tão linda e arrumada a pouco , pode ser a mesma desfigurada e enrolada num saco plástico preto , como se  fosse um lixo ?
Estica-se a mão e não se pode mais pegar , embora sentindo-se que o outro está ali e que o espaço físico não pode ser o critério de se validar ou não essa presença , principalmente onde o coração se apresenta para gritar sua importância e sua recusa de que a perda possa levar o que não plantou .
Mas nossa vida é assim , um enredo ladeado e circundado pelo mistério , o que nos faz supor o destino na esperança de antecipá-lo , numa tentativa de sair da frente do que de dor ele possa trazer , mas como?  Não temos este poder mágico cobiçado pelos mitos e lendas medievais , o que temos é a consciência cada vez mais aguda de que estamos expostos .
Talvez para muitos esta seja a grande fobia de viver e se relacionar , já que a vida nos coloca perante o imprevisível, e estreita nossas fórmulas de segurança . A magnitude do perigo para Freud é se perceber sozinho  quando todos se vão ,e talvez nesse momento de tanta dor , descubramos que tanto na dor quanto no amor estamos sós , essa estranha condição que nos torna únicos , a mesma condição que faz do Divino uma convicção de vida , única maneira de tê-la também na morte .
Às famílias e seus filhos mortos , a dor que só imaginamos , o suficiente para silenciar e rogar para que a vida prevaleça e nos dê força, e onde nossos mortos vivam a grandeza que sua morte nos deixou como legado . Um laço de amor inesquecível , uma transcendência de corações  , onde a razão já não pode chegar .

Meus sentimentos a todos .

 

 

23.1.13

João , o barrucho

 

João era meu vizinho de frente ... da calçada . Morava literalmente do outro lado , que eu ingenuamente achava que era só da calçada .
A princípio , o via mas não me detinha , me parecia mais um desses moradores que descobriram na rua o prazer de ser livre – o que me faz pensar o quanto um lar é pra muitos uma prisão emudecida- e lá estava , justo , bem em frente , na direção , enfim , parecia um lugar convergente .
Abria o portão e .... lá está ele , com seus trapos e papéis colocados em saco plástico , protegidos com empenho, segredo de Estado , perigosas informações em mãos inimigas.
Achava particularmente que já havia louco demais na minha vida , e evitava de certa forma contato íntimo a céu aberto , heresia que iria me custar caro , pois a verdade só nas ruas , ensinava o outro João , o do Rio .
Mas eis que minha neutralidade chula , logo se foi , quando uma garotada endiabrada e perita em sacanear quem lhe parece menos , pegou os documentos perigosos e saíram correndo , para pavor de João , nervoso e agitado , impotente , sem saber o que fazer .

Acho que naquele momento não pude tomar a brincadeira como tal , reagi , cheio de inclusões sociais por dentro , paladino de opressões vividas ao longo de décadas de hospital psiquiátrico, e eu mesmo me surpreendi e a todos , pois exigi não só que devolvessem os documentos sujos, como evitássemos a terceira guerra mundial , pois sei lá o que continham .
Foi o suficiente para um amor nascer do limbo , um lótus , pois a partir daí João e eu nos tornamos parceiros , de que ? .... a vida iria me dizer.
Me chamava de Bhering e eu de João , Bhering e João , nova dupla no mundo da esquizofrenia, que o tinha sequestrado na adolescência , uma hebefrenia , em geral irreversível , ou seja , João não tinha passagem de volta.
Sempre me perguntei porque alguém decide viver sua vida cuidando dos loucos , trabalho ingrato , pouco retorno efetivo , mal pago , problemas sociais seríssimos , uma humanidade a parte , um universo paralelo , que ao longo dos anos tem sido um sufoco só.
Como me orgulho de meus companheiros de luta , pois em meio aos tiroteios pesados , lá estavam eles , sofrendo juntos , apostando na causa e nos consolando mutuamente nas centenas de frustrações do cotidiano psiquiátrico .
É como se precisássemos de uma utopia a cada dia , um soerguer de bandeira , nada de desânimos ou brochuras , lutemos dizia meu amigo Ivo , a causa vale a pena .
Tinha todas essas mensagens dentro de mim , bem gravadas e prontas para serem acionadas ao primeiro disparo , mas confesso , que nunca tinha convivido com um louco , com uma loucura didática , com todos os sintomas clássicos , como amigo e vizinho diário .
Conheci um homem , meu Deus um louco a seu modo, que fundou uma comunidade , chamada Loucódromo e se internou com sua equipe para uma nova metodologia de tratamento , sendo cassado pelo CRM estadual de S.Paulo , já que defendia o tratamento com uma equipe sensitiva , música e dança , e ainda achava Osho , o terapeuta do século .
Recorreu e teve obra consagrada em outros países , mas seu livro “ O universo paralelo da loucura “ é uma ficção para os cânones da ciência .
O conheci em S.Paulo e estudei um pouco com ele , e num almoço , alguém discursava bravamente , dando plena vazão ao seu delírio , para uma plateia assustada e boquiaberta.
João me queria como amigo , irmão ou sei lá o que , pois em curtos períodos tocava campainha me chamando , e seu jeito de tocá-la logo reconhecíamos , pelo exagero do toque.
Eventualmente surtava e só Bhering tinha acesso , uma exclusividade narcísica que me fazia pensar em que tipo de público estava meu sucesso .
Mas um dia , depois de pesquisar de onde tinha vindo João , o alienígena , me deparo com sua mãe que veio visitá-lo na rua e pronto , começava um capítulo surpreendente para todos nós .
Dª Maria gostou de mim e passamos a nos encontrar numa Instituição que trabalho , queria ouvir desta mulher o que na loucura um dia foi uma vida comum , o que foi um sonho, pois suspeito que toda loucura tenha tido pretensão de pertencer e participar .
Fraturas do destino , que nos fazem tão pequenos e indefesos e Dª Maria parecia me confirmar isso, pois era o protótipo da mulher miúda e com certo comprometimento mental , pois quando me via gesticular , hábito onipresente , acompanhava o movimento das minhas mãos , uma cena engraçada , pois sua cabeça descrevia os movimentos de minhas mãos.
Mas Dª Maria tinha uma parceira inseparável , sua filha Virinha, esquizofrênica também , mas bem menos agitada que João , com asseios duvidosos o que tornava nossos contatos um certo martírio , superado pela dor não dita dessa mulher , que possuía mais 2 filhos normais que não se empolgavam com a mãe e menos ainda com os irmãos .
Dª Maria se preocupava em morrer e deixar seus filhos deserdados entregues à própria sorte , desconfiando com certeza, que não seriam acolhidos pela família .
Me contou que era casada com Seu Paulo e que João , tinha estudado e era inteligente , tendo se separado quando ele ainda era púbere e que a partir daí tudo mudara , pois sendo dependente financeiramente do ex-marido passou a morar num tipo pensionato , com Virinha.
As duas juntas eram indescritíveis , pareciam siamesas e atrapalhadas, sendo a conversa , essa que estamos acostumados , um difícil parto de significação. Enfim , um desses rumos impensáveis que a visa toma , onde os encontros com o trágico parecem inescapáveis .
Como observaram a calçada já ficou longa e próxima e nesse ínterim , João é atropelado , ficando com uma ferida exposta indigesta de se ver. Após longa peregrinação , sempre recusada , pois nosso amigo, não era convidativo pra nada , e ainda mais louco , a utopia do hospital geral com enfermaria psiquiátrica .
Num desses , o ortopedista , cercado d belas estagiárias e com voz douta , disse impiedosamente na nossa frente : só cortando , conforme podem ver... . Não , não vi , olhei daqui , olhei dali e não vi . Vi o quanto qualquer sofrimento pode ser matéria de um exibicionismo perigoso , pois , olhei para João e agradeci sua loucura protege-lo , pois se manteve à revelia , alheio ao que se passava.
Fomos embora , eu torturado e João falando , como sempre , parodiando talvez de “ quem fala os males espanta “ , ou “ A palavra ou a morte”dizia Moustafá Safouan , o psicanalista indiano , radicado em Paris.
Dias após recebo uma ligação de Seu Paulo , dizendo que João havia ido para outra cidade e sido preso , e o convocavam a tirá-lo de lá . Imediatamente disse a ele que não , que o removessem e direto para um hospital de ortopedia , pois seu caso era grave , e sendo entre instâncias municipais , haveria maior propabilidade de interná-lo.
E assim foi feito , João foi internado e lindamente operado , sem mutilações , um belo trabalho, diga-se empolgante, pois conseguimos reunir a parte principal da família . Lá estavam , Paulo , Maria , João , Virinha e nós minha família , um encontro com ares de normalidade .
João asseado, deitado na cama , cabelos curtos , me parecia feliz , e aproveitando à ocasião , propus à Seu Paulo que permitisse que eles , Maria , Virinha e João morassem juntos , pois não há como evitar o engodo de uma vida mais feliz , lição que me faria repensar tudo até hoje.
Seu Paulo , um bom homem que havia se cansado de tanta loucura , conforme me havia dito, concordou e assim foi feito , um bom apartamento e lá estava a família junta , mesmo que parcialmente , com a possibilidade de exercitarem todos os hábitos que compõem o cotidiano da vida.
Poderia tomar banho, cozinhar , ver televisão e quem sabe com alguma sorte astrológica , conversarem. Eu me sentindo feliz , achando que essa é a melhor forma de se viver , assim me disseram , assim acreditei , João não .
Logo sentiu falta de sua loucura , de seu mundo de sua rua , bateu em todo mundo , botou as duas pra fora , ameaçou o proprietário e se trancou no apartamento , saindo amarrado pela polícia , acabando ali mesmo meu gozo normótico e das duas também , que voltaram para o pensionato .
Me mudei e João também mudou , até hoje vive na rua e segundo nosso último encontro , vive bem , já sem Dª Maria que foi ao encontro dos seus medos e faleceu , e de Virinha nada sei , uma experiência que como constatam inesquecível .
Atravessei a calçada de volta , suspeitando que a vida desse lado promete mais , mas que o Mistério mesmo , está lá com suas verdades que nos apressamos a limpar do lado de cá .
Estou bem Bhering , estou bem , procurava me assegurar João , me deixando com a terrível sensação que estar bem ou é um caso de amor ou um caso psiquiátrico , esses dois lados que insistem em nos perseguir.

VALEU

15.1.13

Ivan , o quase terrível e a fábula das uvas .


 
 

Ivan , o terrível era ruim pra diabo . O homem matou o filho e mais quem decidisse , inclusive o arquiteto que construiu a Catedral de S.Basílio , justo para não construírem outra igual .

Sua foto é apavorante e matar era parte de suas estratégias de poder , e acabou louco , morrendo numa disputa de beber vodca , única e definitiva derrota segundo dizem.

Mas o Ivan , o meu Ivan , a quem presto homenagem também tinha fama , mas outra , fama de perigoso , justamente por ser louco . Vivia sentado quase todo dia na porta do depósito de coco , falando um dialeto sinistro e emitindo grunhidos , alheio aos olhares, que medrosos passavam distantes e rápidos.

O detalhe é que em cima de sua casa que ficava rente ao depósito morava Nina , criatura pela qual Ivan se apaixonou de forma estranha , como não podia deixar de ser .

Uma noite Nina passou mal ,e tinha eu ir para o hospital já à noite , ao perceber movimentos na casa daquela Ivan se aproximou e viu os enfermeiros retirando-a na maca para por na ambulância .

Foi o que bastou . Ivan sei lá o que indecifrou e saiu dando bolacha em todo mundo , para pavor geral , inclusive da Nina que por pouco não morreu do coração .

A esta altura Nina ficou secundaria , já que conter Ivan passou a ser a obrigação de todos ,e toma-lhe de bolachas , o homem era brabo pra chuchu , uma gritaria geral e ... policia , ufa! até que enfim ,e lá vai Ivan o apaixonado contido em seus protestos , deixando um legado de olhos roxos e nervos abaladíssimos , uma prova de amor que ninguém mais gostaria de testemunhar.

Mas curiosamente , Ivan já fazia parte do cenário e sua falta era sentida  , e a molecada denunciava assim : cade o Ivan? Tu viu ontem o que aconteceu? O cara ficou maluco... e as mães proibindo aproximações , o que tornava Ivan mais excitante ainda .

Se aproximar Ivan era um teste de masculinidade tribal e incontinencia urinaria ,  coisa que ninguém fazia , a não ser de longe , distancia resguardada para se sair em disparada ao menor espirro de Ivan .

Mas eis que um dia a vida promove uma estranha prova de admissão psiquiátrica ao ar livre , o que seria uma marca virginal , preludio de todas as outras que viriam depois , de todos Ivans que encontraria em meu trabalho clinico em Hospital Psiquiátrico .

Deixe-me explicar melhor .

A tal casa que Ivan morava com sua mãe sisuda , era de seu irmão , dono do botequim da esquina , e tinha um quintal razoável com mangas e uvas que impressionavam a boca .

Havia dois amigos que moravam justo numa vila de poucas casas , vizinha de Ivan , separada por um muro alto pra ocasião acrescido do diabo do arame farpado , encaracolado com as piores intenções assassinas , pelo menos pra nós que tínhamos também a piores intenções de pular e roubar tudo .

Manhã de sol , nada a fazer e resolvemos olhar o quintal e...... lá estavam todas , uma festa romana , digna do Deus Baco , uvas excelentes prontinhas para serem chupadas com carinho e dedicação e de graça , um presente da natureza contra propriedade privada dos homens .

Bom, a ocasião faz o ladrão , que por sua vez , louva à ocasião .

O problema é que um pouco mais a direita sentado na porta de sua casa , lá estava ele , Ivan o quase terrível , pronto para nos assar , estuprar, ou qualquer coisa assassina , que faria de nosso ato inocente uma tragédia digna dos jornais .

“Meninos encontrados mortos sob cachos de uvas , ou “ Entupidos de uvas , meninos morrem apenas com folhas de parreiras nos genitais “,o fato era que nossas fantasias eram mortais e ninguém dali sairia vivo .

Mas por outro lado , por essa estranha atração do sinistro que congestiona o transito de um lado em dia de acidente na pista contraria , permanecíamos firmes e pra não ficarmos completamente extáticos pelo pavor , resolvemos nos desafiar e alguém possuído pelo capeta diz” duvido alguém pular?.

É impossível descrever o que se passa nessas ocasiões ,e só mesmo o prazer de ser viril de forma consagrada através de façanhas que possivelmente matou muita gente, é que explica não só alguém propor , como também alguém aceitar .

Silêncio gélido , ânus contraidíssimo e ..... aceitei .

Minha alma se esvaiu e eu não podia acreditar no que tinha dito , e recuar seria o massacre , talvez, moralmente pior do que eu imaginava vir assim que pulasse.

Agora a brincadeira era outra , ou seja , desafiar .... quero ver se tu é macho mesmo ?

Não, não sou , nunca fui e não serei , mas era tarde para confissões íntimas , e a única coisa que me ocorreu , foi olhar para Ivan impávido e atento, e dizer sofregamente : Posso pegar uva?

Lembro o quanto torcer é um ato mágico e aleatório , pois torci muito pra ele dizer grosseiramente que não , mas qual não foi nossa surpresa , quando ele monotonamente disse “pule”.

Decreto assinado , morte certa me despedi de todos que por sua vez ficaram mudos , confirmando o perigo da façanha , já que o arame não permitiria fugas , o suficiente para um infanticídio rápido e sem revides , pois passei pelos arames antipáticos pensando na Nina , Ah! Meu Deus ,e se ele me achasse jeitosinho , meio parecido com a Nina , delírios alucinatórios alteram a senso-percepção e o juízo de realidade .

Quer dizer , ações que só os sem juízos praticam .

Silenciosamente me despedi de minha mãe , tão boa , meu pai , um funeral rápido pois tinha conseguido me livrar dos arames e pimba ... lá estava eu .... e Ivan , que assim que pulei se levantou e veio ao meu encontro.

Ver o Ivan na minha frente e tão intimo , senti que ali já não havia mais o que fazer , eu um mínimo com um gigante tarado . Minha voz já não podia contar com ela , meus amigos uma plateia romana e muda , esperando o primeiro golpe pra cabeça despencar e eis que ouço , uma voz que já não sabia de que mundo vinha “ sobe”.

Olhei e não acreditei , Ivan tinha se agachado e me convidava a subir em suas costas para pegar as uvas no alto , um gesto humilde de um homem enorme e apavorante até então .

Algo em mim mudou e obedeci submisso e até certo ponto , onde meus nervos permitiam, confiante .

Peguei as uvas triunfalmente e extremamente agradecido , um dom que viria a exercer mais conscientemente depois, escolhendo os melhores cachos com sua permissão e incentivo , e voltando ao chão cheio de reflexões , que plantavam ali naquele momento a trajetória que o destino , a quem agradeço também, viria a me proporcionar no campo da Psiquiatria.

A loucura de perto , tão íntima, tão perigosa e tão humana como qualquer outro gesto , as uvas generosas que me deram o grato prazer de ser tocado tão fundo , por uma criatura que só fez me quebrar , e me alertar de que além dos arames vivem os homens, que um dia podem não ter tido a chance de oferecer as uvas de seu coração , pois foram rechaçados por aqueles que não ousaram se aproximar de verdade.

5.1.13

Arreligião do viver


 

Em tempos de conexões ocultas onde o visível parece ser apenas uma franja , um limite do olhar , somos tentados a perguntar sobra a conexão da criatura com Criador , essa re-ligação que nos interroga , que nos acompanha nos altos e baixos da vida , como se alguma reminiscência nos lembrasse de algo sem dizer o que .

A imagem da Divindade vai mudando junto conosco , de tal forma que desde à natureza até o fascínio dos astros , esse lençol brilhoso que parece nos acobertar , temos imputações de sentido , como a busca de significações mais próximas , mais efetivas , para o que ? Para o nosso viver , ou seja , quem quiser ver a Divindade há de vê-la na própria vida , lugar do mais profundo Mistério.

Situados e alocados dentro dessa imanência até o fim , já que nascemos , vamos nesse grande e difícil exercício do viver , intimados pelo corpo em suas urgências e reposições constantes , sentimos a força da carne com seu preciosismo e exigências . Ao mesmo tempo , vamos além , vamos passeando pelo Além , já que nos é insuportável o cheiro único da carne , quando muito perto.

Nosso frescor , o frescor de nossa vida depende disso , de podermos nos ausentar , de sair e poder voltar , pois esse movimento é o único que nossa alma reconhece , já que qualquer confinamento nos faz faltar o ar.

Na verdade, precisamos de Deus enquanto não o reconhecemos , esta orfandade que nos remete ao desamparo , já que nossa capacidade mental é mínima perante tanto mistério , como se nossa ignorância nos oprimisse e nos fixasse a endereços , que apesar de parciais não nos deixam nus .

Mas ao olhar a vida , vemos tudo .

Todo compasso orquestrado do oculto , todo seu esplendor a cada dia , principalmente na devolução virginal dos dias , únicos e irretornáveis , um movimento incansável de recomeços , e diga-se , com todo cenário fascinante que essa Deusa do Amor-Natureza não se cansa de nos oferecer , eis nossa lição comprometida , única maneira de ver Deus se vendo.

Talvez pra isso precisemos ficar ateus , tirarmos molduras estabelecidas , crenças estereotipadas , nada enquadres forçados ou concordâncias submissas , precisamos de vigor , de fôlego , da alegria de quem se propõe a explorar para vivermos o êxtase das pequenas descobertas .

Depois de todas imagens impostas e sincrônicas à nossa sugestionabilidade , precisamos perder o medo de todas inquisições que só fazem repetir e ameaçar , é preciso descobrir à vida como uma grande celebração , um estar feliz por existir e participar , nosso lugar único e indispensável.

Alçar o verdadeiro valor espiritual , que ninguém pode nos tirar porque também não nos foi dado , é preciso conquistá-lo . Um pouco a cada dia , o frescor da evolução que nos abençoa , nos conclamando a seguir , afrouxando o rigor severo que endurecem às imperfeições , e nos tornando aprendizes reverentes e dedicados do Vivo , ou seja , do que não quer viver pra morte , essa sonolência que nos demencia e nos seduz.

Deus vive na vida , e por isso é para os Vivos , um sentido maior da existência que nada tem haver com refúgios ou covardias como querem alguns críticos da religião ,nem com espertos que vendem suas canalhices , prometendo aos cegos o que eles mesmos não vêem .

Nada disso serve, tudo efêmero , pois não são com esses emaranhados que conseguimos andar , e nada pode nos poupar da tarefa de seguir , a não ser quando vendemos nossa alma em troca do descompromisso , um crime grave que nos condenará a pior miséria , a miséria do espírito .

Todo criado e toda criatura tem compromisso com seu Ser , com seu brilho , com seu aprendizado , uma singularidade que é ímpar que requer o próprio caminho , seu vôo , seu desprendimento de significações apriori , em geral autoritárias ou omissas .

Não se pode ver o Reino de Deus em si estando morto , é impossível , porque Deus é vida a todo tempo , o que faz com que muitos achem a vida insuportável , é vida demais .

Busca-se um modo de diminuir a vida , ou de se esconder dela , ou tentando desistir ou fazendo de conta que se está vivo , uma caricatura que faz da vida um jogo de performance para os bonzinhos , aqueles que por medo não se revoltam, e aparentam se submeter sem se sujar no jogo , pois estão a margem.

Impostores , vivem na ante-sala com opiniões sobre tudo , em geral, esclerosadas por falta de testemunho verdadeiro , ensinam sem aprender , promovem espetáculos sem causa , como dizia Proust , uma praga nesses tempos confusos .

Mas tudo requer coragem ,e não há coragem pra quebrar a casca dura se não se acreditar que o melhor virá do próprio esforço , uma partenogênese de si , um esforço por nascer de si , do seu desejo maior , o encanto orgástico da própria redenção .

Nesse sentido Deus é essa chamada para o a-mais , função que modernamente alocamos no desejo , como um mais-gozar , sem enfatizar que todo desejo tem seu preço , às vezes maior do que podemos pagar.

No entanto , a maior dificuldade , é que não podemos ver Deus na ótica de nossas conveniências , aqui o esforço é outro, ou seja , não  se trata de fazermos reduções arrogantes ao quadro de nossas crenças ou opiniões , uma pasteurização do gozo em função do correto , o puro medo de perdermos nosso lugar no Céu .

Não, é o insuportável do correto que nos induz à projeção do Divino como proteção , dando margem a que essa operação seja vista como infantil , como em Freud por exemplo ,como se o correto pudesse ser uma linha reta bem delineada e obedecida.

Com isso , somos obrigados a nos dissociar , a recusar o que em nossas apreciações parece condenável , como desautorizando seu estatuto na ordem do Ser ,daí optamos então por uma experiência pequena, uma pequenez crônica perante o Criador , um pecador viciado em pecar e pedir perdão , a mesma hóstia que nos dá a senha para repetirmos tudo novamente.

Eis o que diz o Rabino Nilton Bonder em seu excelente livro  A alma imoral “ Na trilha da sobrevivência , a mesmice é o caminho curto , o mais simples , e que tem os custos mais elevados (longos)”

Não há extensões potenciais se a teimosia cronificar e se imbuir de certezas , e uma espiritualidade verdadeira nem de longe é caminho de certezas , antes pelo contrário , brota de tudo que nos deixa inseguros , com a difícil tarefa de não recuar pelo medo .

Tudo que se refere à coragem aqui , é um passo a mais em relação ao medo , já que não somos heróis , mas um andar tipo deambulante , onde a coragem nos incita e o medo procura nos retrair , é um passo dúbio , um tipo de alquimia onde o diferencial quem nos dá, é a alma .

É a alma em sua busca não substantiva, que nos livra dos apegos demasiados que entulham nossa mochila , e nos torna pesados demais , um peixe quase morto para não ser alvo fácil de pescadores hábeis , a morte como descompromisso de árdua tarefa de nascer de si.

Há aqueles que se entregando, entendem essa entrega como um gesto nobre, já que se tornarão comida para outros , impostura dos que fazem do bem uma renegação à tarefa de aprofundar , limam a superfície para parecer mais lustosa , como se a luz pudesse prescindir do escuro .

Não se aprofundam , adoram os ídolos de sua própria superfície , evitam se reconhecer pois não querem dar à vida a compreensão de uma viagem que prossegue e cujo entremeios funcionam como repousos de re-contratos ,optam a cada parada, por reaparelhar suas fantasias de chegada.

Se o Reino está em nós , andar é mudar , é se transformar , uma dura luta nas arenas do dia-a-dia , uma escuta que vinda das entranhas do interior , nos faz prestar atenção em tudo ao redor , o Universo Vivo pronto a nos dar o ensino que precisamos para não esmorecer .

Mas a consciência da estreiteza é fundamental , senão, não temos como reconhecer nossa angústia primordial que é estarmos submersos num mundo de relatividades perante nossos anseios absolutos oriundas das potências de nosso Ser , nossa alma que se recusa à falsas chegadas .

Um dia na flecha do tempo teremos o grande Encontro com o Criador , e talvez, neste dia sonhado pelos alquimistas, descubramos que tudo que queríamos , já estava aí desde sempre e que a dimensão supra da consciência só se fez onde, mesmo por pouco tempo ,quebramos os grilhões dessa tendência de prendermos a vida em nossas mesquinharias e nos deixemos mover por tudo que nos comove.

VALEU.

 

 

 

 

               

21.12.12

O tempo como pano de fundo


 

“ Se lembra quando a gente
Chegou um dia acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que pra sempre
Sempre acaba “

 

Em tudo ele lá está : O tempo

Uma figura incrível , que perpassa os saberes e os dizeres , que obriga a ciência ao que não sabe , que oferece ausência aos poetas , que mostra o início e o fim , que nos dá a musicalidade dos acontecimentos e as recordações do bom e do mau em tudo que vivemos .

Deus temido na mitologia , Cronos tem a chave do profundo , que associado `a escuridão sempre fez tremer os homens , uma suspeita irrecusável de que esse profundo é o portal do Mistério que nos sonda.

A flexibilidade das mãos orquestra o tempo , pois tanto fecha para conter , como se abre para largar , linguagem única do tempo que nos dá o apego e nos obriga a deixar , exercício perene que ao ser renegado , só nos faz sofrer .

Saudades e memórias se unem e sucumbem , nos trás as lágrimas dos lençóis subterrâneos , a impotência do desejo de fazer permanecer quando Cronos decide o término , pois, afinal , tudo envelhece , ou seja , a tudo foi concedido o tempo para ser  e para des-ser , um neologismo que na carne pode nos tornar melancólicos .

Temos saudades incríveis do que não sabemos , uma antítese vinculativa aos objetos palpáveis, como se pertencêssemos  a um mundo não tão concreto , um mundo onde a linguagem corrente é banal demais , um mundo de um sentir , de um pertencer desmaterializado , tão sutil que nos refugia na solidão do indiscernível.

O tempo mata e nos faz viver , pois relativiza o concreto e dá ao eterno um semblante vazio e ao mesmo tempo  pleno , uma plenitude que nos permite colocar nossos sonhos e desejos de reencontros com tudo que amamos , nos faz acreditar que um dia tudo que perdemos poderá nos reencontrar .

É como se fosse um grande exercício cósmico , onde nossas experiências se tornam registros de um belo patrimônio espiritual , onde não se faz necessário levar a carcaça , mas apenas as notas que ao executarem suas melodias nos remete, e lá estamos novamente.

Quando conhecemos uma pessoa, por exemplo , esse estranho processo assim se faz, pois a levamos conosco num pra dentro só nosso , onde podemos vestí-la ou despí-la  variando as cores e escolhendo a música que nos convém .

Essa magia que desfaz o automatismo é a beleza e a dor da vida , o modo como subvertemos o tempo e reconhecemos seu poder , o modo como nos apropriamos de tudo pelo sabor do desejo, e da mesma forma, como temos que soltar o que só possuímos transitoriamente.

Eis uma emblemática questão que tocou Freud em seu artigo sobre transitoriedade , o valor do efêmero , sem o qual nada teria graça imediata , já que sem transcendência não há esperança , pois vivemos da alegria dos sentidos , ou seja, “o que me move é que me comove” dizia M.D.Magno em seus seminários no Colégio Freudiano .

Essa invisibilidade do tempo é sábia , pois é como se fossemos “ aos poucos” , um giro meio sem roda , uma alteração sem tanto sobressalto , o que nos faz correr atrás das maquiagens  ,  esse ingênuo esconderijo que nos dá a sensação de adiamento , que minimiza o espanto , mas que não nos dá imunidade , ou seja , a sentença é para todos .

Nascer e morrer, juram os ocultistas, são facetas do mesmo processo , o ômega e o alfa , que só nos faz achar tudo mais difícil ainda , pois dizem que não há fim , pois sequer início houve.

Pra nós do vulgo , que não fazemos outra coisa senão sofrer do que termina e nem vemos o que é está começando , talvez estejamos mais próximos dos poetas , os que conseguem tirar da ausência um gosto especial , vamos poetando a lá Manoel de Barros , ou fazendo dessa saudade do nada o gosto do tudo.

A música, por exemplo , dizia Adriana Calcanhoto , compassa o sentido do tempo , referindo-se ao seu encarne cotidiano , essa consecução de tarefas sequenciais  que molda a vida e nos faz acreditar que assim é , ou assim é que é , onde entre solilóquios onipresentes , essa maneira pela qual sonorizamos nossos pensamentos sem que ninguém nos ouça, sofremos nossas afetações , nosso Pathos , como dizia Spinoza.

É justo nesse espaço onde o outro não penetra que sofremos do tempo de forma inconfessa , nossas mazelas que resguardamos do tribunal social , nossas angústias de estar indo sem saber pra onde , o gosto do que se foi e ao mesmo tempo permanece , uma busca dos modos compartilhados e a solidão do próprio destino , uma estar sozinho sem queixas ou acusações.

Essa servidão involuntária , não nos deixa alternativa , ou é ou é , um tipo de imperativo que não se faz menos categórico pelo fato de ser menos autoritário, é como se pudéssemos nadar como peixes com a sensação de liberdade , embora estando dentro de um lago , da qual não podemos sair .

Curioso, é que ao se dar conta disso, Camus afirma que a única questão válida na filosofia é o suicídio , ou seja,  a vida faz sentido?

Se o tempo é Senhor, e Cronos era muito parecido com a Morte , o que nos resta ?

Viver , logo se diz . Mas viver pra que ?  argumenta Camus , que de certa forma encontra em Cioran certa parceria , já pra esse filósofo búlgaro , a vida encontra sentido em suas próprias amarguras.

E nós ? não tão cultos , não tão profundos , talvez mais sorridentes e chorões , vivemos nossa vida como um culto cotidiano cheio de conteúdos que vamos triando para ampliar nosso gozo , razão da vida para alguns , esse hedonismo, que hoje de tão metonímico , ficou histérico fazendo recrudescer em nós um vazio, que pós-modernidade tratou de elevar aos novos modos de ser , a nossa liberdade escolher o que for , um direito ao mau –gosto , pura e simplesmente assim.

Mas a vida não para e nem o tempo , diz Cazuza . Tudo gira e vai girando e segundo um iniciado mor “ não tem dó dessa matéria , diz Mestre Irineu .

As saudades gritam seus clamores e apegos , as lágrimas os lamentos do que se foi , um grito espremido entre o passado e o viver do presente , essa imanência que uma vez nós , sempre nós , tal como o ditado espanhol “ Porque justo a mim me coube ser eu?

Às vezes, temos pena da gente mesmo , um direito justo se não for exagerado , “O que Deus quer de nós dizia Jung , em suas reflexões angustiantes perante o Mistério e a onipresença da dor psíquica ,a dor que não dispensa o sentido do viver ou do morrer.

Então o que nos resta , mais uma vez perguntando ?

Ir , redefinindo a descrição de nós como peregrinos , os que vivem dentro do tempo , buscando sua intimidade , para que ele o tempo, nos ensine o que de fora não temos como aprender , o que nossas fronteiras maculadas e doutrinárias cegam o alcance , e talvez assim tenhamos com o futuro uma relação de amor onde nossos objetos não sejam tão substantivos.

Esse parece ser o espírito da gratidão , que já habita o futuro , pois embora tudo passando materialmente, nem por isso deixa de reconhecer o valor do que recebeu , a intenção e a qualidade do que foi oferecido , a inscrição do gesto nas alturas , lá onde os homens colocaram o Céu .

O Céu enquanto metáfora das alturas do cotidiano , que tão cheio de vícios e conteúdos nos asfixia , nos torna duros e exigentes , nos faz engolir o choro abençoado de nossas lágrimas tão conexas e íntegras e também da alegria tão verdadeira de nossas celebrações .

A vida como celebração da alegria do existir e da reverência profunda à dor que nos ensina e nos irmana , apesar do nosso narcisismo falido insistir que só o Eu é a plataforma , o atraso em relação aos que já não precisam tanto defender , pois menos compulsivos na redução mental de fazer da vida uma onipotente contenção entre as quatro paredes de si mesmo.

VALEU

 

 

 

 

5.12.12

Ai ! que tudo vai passando ...


 
A vida anímica é pra nós a vida por excelência , a vida em que nos encontramos , em que nos praticamos , onde aprendemos o mundo , e a nós mesmos.
Desde sempre, é essa vida pela qual lutamos , cenário único de nossos embates e onde vamos adiante na busca de ser feliz . Esse mundo é a nossa crença favorita , guarda –roupa de nossas vestimentas , desde as usuais , corriqueiras , até as mais luxuosas de raras ocasiões.
Obviamente, é onde o mundo se compõe com seus arranjos e desarranjos , com o grotesco e o sublime de suas concepções e onde todos nós nos encontramos , como num grande palheiro que nos faz buscar conexões invisíveis ou inexistentes , para dar algum sentido a essa imanência de estarmos juntos sem saber exatamente para que.
Quem nasce ratifica e testifica o que existe , e promete não só cumprir como animar as construções ancestrais , alcances e limites dessas concepções que nos norteiam , que nos oferecem à estrutura e os modos de segurança , bíblia importantíssima par nos poupar esforços desnecessários.
Somos atores com script definidos, e que temos por questões singulares indefinir, já que o mundo muda quando nascemos ,uma vez que somos representantes de um processo único e complexo , um enorme trabalho de energia e desejo, que nos torna dependentes da significação.
Habitamos a todo tempo à significação e a buscamos em tudo , nosso lema é ser reconhecido e se possível amados .Essa estranha filiação ao sentido , nos faz a princípio querer estar em tudo, como se nossa ausência assinalasse uma dispensa , ou seja, minha presença , diga-se material, é a senha da minha inclusão, preciso estar em tudo.
A idéia de ser esquecido é um tormento que nos força a um tipo de grupalidade um tanto tribal , onde a solidão é vista como um negativo , uma falta do outro , um sentimento terrível que nos apunhala frontalmente , uma pergunta sofrida e ácida de quem sou eu quando fico só?
Então , vamos nessa , tudo junto , o junto aqui como uma forma de ocupação , um sentido visível do outro , a diluição do medo de escuro quando a mãe está perto.
Isso anima a vida em todos seus rituais anímicos e seus jogos de animação , assinamos essa forma de prestígio a cada dia , e protagonizamos suas sequências , dia-após-dia.
A princípio, tudo nos faz acreditar que é assim mesmo ,e qualquer modo de insubordinação é mal-visto , pois existem sanções nos estilos também , já que o coletivo precede o individual , e a forma precede o estilo.
As ordenações, que merecem estudos a parte, regulam a vida e sua forma de preenchimento, nos inculcando noções  e nos direcionando para valores que , em resumo, nos dizem o que é certo ou errado.
Vamos ser homem ou mulher , e se for gay já complica, de acordo com os cânones estabelecidos , forçações ( não existe essa palavra, inventei) ideológicas que reasseguram à ordem , a moral e os bons costumes , chavões de uma sociedade parasitária que não quer mexer com seus enganos.
Mas, se do ponto de vista coletivo , vemos o mundo com sua maquinária apelativa e cheio de ameaças aos descontentes , por outro lado , do lado da terceira margem do rio , onde a subjetividade não tem a marca de um mero reflexo dessa mumificação social , nossos apelos singulares , nos cobra a razão pela qual nascemos e se não fizermos diferença , embotamos o valor do próprio nascimento.
O risco aqui é permanecer não-nascido no singular e com o protótipo de personagens de animação , cuja liberdade está no limite mesmo do seu desempenho , ou seja, o mundo me diz ao que vim , me prometendo suas glórias e infortúnios , me oferecendo a possibilidade de não ter que me dar ao trabalho de descobrir .
Nascer é forçar , é coragem , é encorajar-se para mais , é um descontentamento perene com todas as promessas do mais fácil , é uma ruptura profunda onde o que era primordial se faz supérfluo, e o que não tinha importância parece então fundamental.
A viagem não se faz sem revolta , sem insubmissão , pois é preciso questionar para saber , é preciso lançar-se , mas não para respostas definitivas e cheias de certezas , não , o mote aqui é outro , por querer nascer não sei quem sou ... e por favor não me digam , vivo de forma plena no que não me satisfaz.
Penso o quanto a arte quer vida , o quanto o singular no esteio do coletivo faz à diferença , e o quanto precisamos nos sentir únicos para poder amar , já que o amor não pode ser o sufocar das diferenças , mas o berço onde se nasce como celebração desse único.
Pois há um momento mítico em que essa operação profunda cobra sua realização , já que na medida em que tudo vai passando , mesmo ao que nos agarramos para prender , esses jogos anímicos de sustentação da vida vão imperceptivelmente se esvaziando.
É como se os nexos afrouxassem, e os fossos se abrissem um pouco a cada dia ,e como se de nós para nós, algum silêncio se fizesse , alguns hiatos nos intervalasse e o mundo , esse tão familiar e estranho mundo , ficasse um tanto fora de foco , fazendo com que certa estrangeirice nos apossasse , nos trazendo certa memória sem conteúdo.
Memória essa que nos remete ao que há de mais vago para uns , ou ao lugar de ausências , o âmago da poesia , dizem os poetas , já que por princípio o que fica é o que já passou , o inexistente com feições de saudades , dores silenciosas de se saber, que no jogo maior tudo se vai e nada fica .
Quebra-se as identificações , essas molduras que nos garantem feições socialmente ratificadas, e aos poucos começamos um longo caminho a sós , onde as sonoridades diminuem , os frenesis já não interessam , e as conversas sem humor parecem enfadonhas .
Todo pequeno aparece como tentação , como apego , uma sedução de não ir , como se fosse possível ficar , apenas um truque de se permanecer acompanhado quando o funil aparece , ou companhias presentes para uma alma ausente .
Tudo uma grande e bela recordação , um poema diria, um ir não se sabe pra onde , mas com o registro de que todos vamos ,talvez para descoberta do que nossa forma de viver encobriu , talvez para o mesmo âmago do mistério que um dia nos trouxe.

15.11.12

A cura e o incurável


 

Há em nós, nessa cultura fálica, um certo temor de admitir que algumas coisas não tem cura e pronto. É como se tivéssemos que curar tudo , um "furor curandis" que tem nos dificultado e muito. Talvez se, num ato sincero, reconhecessemos o que não tem cura , poderíamos ver melhor o que tem, e com isso redefiniríamos nossos limites.

 A idéia de cura é complexa , pois, por muitas vezes, o que temos por cura num nível pode não ser no outro, como no caso de uma enfermidade, que por muitas vezes precisa ser mais rápida em sua manifestação , com o risco de que uma outra poderia ser fatal .

É o modo como a vida defende seu patrimônio ,e é possível pensar, que não sucumbimos por ela estar ao nosso lado . Tantas loucuras , tantas ignorâncias ,que perguntamos porque não foi pior? Porque a vida nos defendeu , já que seu princípio é manter todos vivos e espertos .

Pra que ? O que se passa aí?
Freud categoricamente afirmava que o que queremos é morrer , o descanso nirvânico da tensão nenhuma ,mas a vida é que não deixa . Não deixa esta tensão zerar , de formas que economicamente estaríamos no máximo do gozo . Mas viver dá trabalho psíquico e físico também, pois temos que agir no mundo , aceitando suas regras e buscando o como fazer melhor com menos trabalho .

Submetidos à pressão da vida social , o esforço é enorme e muitos não conseguem e se alheiam  ou desistem e saem da estrada .Até pra ser masoquista diz Lacan, "dá muito trabalho". E de fato, perpassados por diversas forças que sobre nós atuam , desde a natureza até nossas pulsões , aprendemos que sem malabarismos , nada feito .

Viver e com-viver, é um ato contínuo de malabarismo , onde aguçamos a atenção e não podemos deixar cair tanto , pois sabemos o quanto é difícil levantar .

Lutamos então para flexibilizar , pois o vento bate e nos curva e com isso nos movimenta pra lá e pra cá , e com isso aprendemos a sacudir , " levanta , sacode a poeira e dá volta por cima " diz a letra que marcou época , indicando uma série de movimentos e de gingados que o malandro , essa figura incrível, precisa ter.

Mas também parece verdade, e Freud observou isto também, que muitas coisas , ou modos de configuração da matéria mental , parece obedecer a outro tipo de apêlo , pois insistem em ficar no mesmo lugar , apesar de toda evidência em contrário , mostrando que chegou a hora de mudar .

Tem-se inclusive a impressão que quando se busca mudar , há algum tipo de leitor que ao denunciar o desejo , conclama todas as forças da mesmice para protestar , gerando boicotes às vezes tão grosseiros, que chegam a parecer um tanto ridículos .

O desculpismo tem seu próprio vocabulário e sua retórica impenetrável , que nos dá a impressão clara, que se luta para ficar e não para sair.

O sintoma assim posto é paradoxal , pois quer e não quer ao mesmo tempo, ou seja, a economia vista pela relação custo-benefício , aponta o custo e o consumo energético, que se tem para manter o sintoma enquanto um modo agudo de condensação psíquica .

Por outro lado a liberação energética , implica em mudança de posicionamento para que novas circulações sejam possíveis , e aí começa um fenômeno que impressiona os analistas .

Quando a energia afroxa e consequentemente o campo distende , é o momento onde a diminuição da tensão psíquica abre opções ao campo mental, que antes sequer era possível cogitar e o que era da ordem de fantasias distantes se aproxima .

Isto resulta em que o desejo ganha força e novas impressões surgem, e por princípio revigoram o cenário mental , de formas que algo se expande fazendo com que o que está estabelecido entre em vibração e comece a balançar , a "vertigem da liberdade" que Kiekgard apontava.

Novas avaliações se fazem e re-ordenações passam a acontecer , até aonde a pessoa não se sinta ameaçada pelas rupturas que percebe se delinear na sequência , pois justo aí, é que começa o perigo.

O perigo, de mediante algo novo e diferente por falta de identificação psíquica , fazer recuar em nome da segurança do já conhecido , toda energia liberada e desta forma cair na tentação econômica do" deixa como está".

Ruim com ele , pior sem ele , me dizia uma mulher num casamento já inexistente e destroçado , mas regulador de fantasias de destruição para alguém, que desde cedo , não pôde se experimentar sózinha. O gozo narsícico da singularidade , o ímpar da diferença , o brilho do valor único , que nenhuma relação não oferece por si , mas pode se tornar um bom lugar para prática do dois , enquanto um terceiro que brota no amor de dois.

A questão é que quando o campo abre oferecendo possibilidades , temos grande chance de exaltar a pobreza do lugar comum , como contrapartida ao maior , um tipo de fobia à espaços maiores que supomos exigir o que não temos.

Assim temos as razões para desistir , as velhas desistências que nos empurraram para o sofrimento que queremos nos livrar. É como , depois de todo preparativo para o salto do trampolim , desistíssemos e optássemos por ficar como sempre , uma armadilha ardilosa com gosto de fracasso , verdadeiro laço que nos une à uma mesmice muda e vai selando o fracasso como destino .

É lamentável, que mesmo nossas psicologias não ajudem muito , e que a Psiquiatria acabe compactuando com sintomas , um modo onde as questões verdadeiras da criatura , fiquem presas nas penumbras de seu recuo.

Tem-se então a impressão que se vai ficando , abandonos silenciosos de sonhos mais ousados , entregas à fronteiras estreitas que sacrificam o dinamismo mental, insatisfações que cada vez mais tornam os nervos frenéticos , gerando impaciências , irritabilidades , intolerâncias e por fim um forte sentimento de impotência , que hoje , respondem pelas bi-polaridades psíquicas.

A cada recuo , é difícil se dar conta que o futuro esteja em jogo , pois o elo recusado tem em uma de suas interfaces , não só o passado , mas o devir , o que poderia ser , caso fosse .

Melancolias do futuro, que nos deixam com sentimentos de atrasos que não sabemos do que , é como se corressemos atrás cada vez mais , com a sensação que a maçã pendurada em nossa frente se afasta na medida que buscamos mordê-la . Com isso, nossa confusão só faz aumentar,pois nosso esforço começa parecer inútil , e nossa vida a ser tomada pela alma das obrigações e deveres  que aos poucos vão parecendo castigos , a tal ponto que , muitos autores, ainda vêm nisso a "queda do Éden" se repetindo em nossos infernos brandos e repetitivos.

O incurável é o que é assim e pronto , não vai mudar , não só por que não se quer , mas também como uma mostragem que nossa capacidade de reversão tem limite . Não podemos ser o que queremos , e nos resta reconhecer que temos que viver no que nos é possível, eis a nossa castração de todo dia.

Aceitar isto nos torna modestos , enquanto hérois de uma vida simples , mas pode ser também uma libertação das fantasias fálicas que sempre nos obrigam a debater com a vida o seu porque e sua ordenação , e admitir que falhamos . Falhamos em ser como o pai , como o avô , como machos comedores , como a mãe , avó , como super-mulher ou super-homem , e descobrimos que se não formos como somos e tomarmos nossa chance única, que só nossa singularidade nos oferece , nosso jeito , nosso estilo , seremos um tipo de doublê de nós mesmos , a estranha retórica que não nascemos para ser felizes.

Talvez o que queiramos curar, é justo, o que não tem cura , e o que passamos a vida recusando, seria então , o que poderia mudar o jogo a nosso favor.

Mas.............

 

 

 

 

 

 

 

Há ou não inveja do pênis?