17.10.11


HOMENS : UMA QUESTÃO ATUAL

Criatura concorrida e mal-dita pelo gênero oposto , acusado de superficial e com fama de quem só quer comer ,um tipo guloso; lá está ele, o homem ! Egocêntrico por vocação , tende a auto-suficiência , e sabe como ninguém mascarar suas dores , é aquele que não faz análise porque acha que não precisa, nada que uma racionalidade narcísica supostamente não resolva.
Quem é ele?
Portador do pênis , o símbolo fálico, o que penetra , o que mostra a virilidade, conquistador por excelência , o homem traz na sua ancestralidade , a caça.
Fazedor de história , aprendeu que para viver é preciso lutar e mostrar força , pois em seu desafio tem o outro , ora como amigo, ora como rival. É tão necessitado de se exibir , como sofre de graves inibições não confessadas .
Aguçado na visão , tem forte relação com o mundo de fora , sua casa por excelência , ao mesmo tempo que seu mundo de dentro , é seu lugar analfabeto, onde, em geral , só se matricula por força de imposição da vida .
O símbólico não tem o refinamento dos sentimentos , já que tendo a razão como domínio , tem dificuldades em sentir , em se sentir , uma disposição que considera frágil e que é um dos pontos de entrave com as mulheres.

Se relacionar, a princípio é um ato erótico, e só depois se torna amor , um amor vinculativo com teor de macho e fêmea , que define de pronto, o código de quem manda e quem obedece . Se por um lado, a afirmação parece depender do poder de mando , por outro, também é um esconderijo para não se deixar ver.

Mas toda mulher sabe ou intue que se o homem não se sentir mandando , é como se estivesse manco , inferiorizado, e é capaz de muitas coisas para manter esse lugar , embora não passe despercebido , que haja nisso uma busca de afirmação .

Essa dialética que vicia não só os homens mas também as mulheres , tem favorecido a existência de um poder sinistro e dogmático onde muitas coisas se ocultam , já que se torna uma privacidade lacrada , máscara do que não se pode dizer.

Me parece um atavismo ancestral que expressa toda sua dubiedade , pois, se por um lado é o guerreiro que vai a luta e quer suas glórias reconhecidas, por outro , é frágil e dependente,  facilmente atingido em sua insegurança como macho , sua figuração primordial.

Robert  Johnson em sua trilogia HE, SHE , WE diz que o homem arquetipicamente s é portador de uma ferida que se não for reconhecida , irá persegui-lo a vida inteira .

Ferida esta, feita pelo apelo que a vida faz no sentido de separá-lo da mãe , pois tendo sido o filhinho da mamãe , perde seu reino e tem que ir em busca do que perdeu , se lançando em rotas perigosas que o testam sempre , o expõem sempre ,e que podem endurecê-lo, caso fique renegando o que dói , sua dor de existir , como dizia Lacan.

Se por um lado é "fazedor de paraísos", aquele que quer sempre tudo bem e “por favor, não me aporrinhe", tem como expediente usual o "superficializar" , ou seja, nada que ele tenha feito , ou a escuta que deixou de ter, merece observações críticas, já que, se ser criticado pra espécie é difícil , para o homem, mais ainda.

Ser criticado lhe traz forte senso de reprovação , a seu ver nunca merecida , o que lhe faz se fechar, e aqui um capítulo especial seria as fachadas usadas, como vítima ou intimidação, a jura de vingança , de certa forma presente nas hostilidades explícitas ou implícitas, com que mascara a dor que lhe foi infringida.

Falar de dor não é seu forte , aprendendo desde cedo que " homem não chora ", fez disso seu paradigma no trato com seus afetos , o que faz com que a imagem seja mais importante do que seu sofrimento , uma dor emudecida que não se diz , mas que se trai.

E se trai pelo sintoma ,pois é um grande sensitivo à morte pelo coração , o orgão espiritual que na medicina chinesa responde pelas angústias da alma , as asfixias de tudo que é guardado e superficializado .

Ao tirar a alma do profundo sacrificando sua integridade , se obriga a mentir para si mesmo, pois tenta traduzir suas aflições pelos modos objetivos de sua relação com o mundo. Quando na verdade , se trata do quanto essa objetividade , perde seus fundamentos e força, quando é destituída de seus modos subjetivos .

Jung diz que ao descaracterizar a "anima " , enquanto uma força profunda e intuitiva, regida pela própria alma , o homem se condena à estagnação da consciência , razão que o torna refém de uma racionalidade muito concreta. E concretude é o que não permite voar, pois torna a vida literal demais , com seus símbolos de ocupação , ou seja, tanto o poder , como sexo e dinheiro .

É aqui que um homem começa a morrer se não for além disso , difícil tarefa pra quem tem pouca transcendência e pouco sente , pois o mundo interno apenas simula sua submissão, quando na verdade , é quem nos domina , pois é o lugar onde reside a essência de nossa espiritualidade maior .

Ser homem tal qual o mundo ensina tem se mostrado um fardo , que aos poucos vem mostrando seus prejuízos , pois impõe uma formatação insaciável , o que se corre atrás e não se alcança nunca .Projeção correlata ao modo de consciência , ainda em seu núcleo, contém o conquistador , linguagem arcaica que denota virilidade e exigência , um "ideal de eu" caro , pois não se suporta fracassar ,e não fracassar é a negação da neurose .

Tudo só começa quando se fracassa , eis um momento de verdade única , a crise das entranhas onde se manda embora o narcisismo dos pais , e se suporta que não se é quem gostariam , e daí em cadeia , ou seja, não sou esse filho, esse marido , esse homem -mula , esse provedor , esse ganhador fantasioso .

Não; aqui , reconhece-se que nada é tanto , para poder se reconhecer também, que nada é tão pouco , tem-se uma crise de valor profundo ( que diga-se, nada a ver com esse jogo de auto-estima barato), um momento em que se vive uma ruptura que requer tanta coragem, que muitos se acovardam.
Mas é pegar ou largar , veja a sacação genial de Jung a este respeito:
“Quando se atinge um ápice da vida , quando o botão desabrocha e do menor emerge o maior, então, como afirma Nietzsche, “É-se transformado em dois”, e a figura maior , que sempre se foi , mas que permanecia invisível , aparece diante da personalidade menor com força de revelação. Aquele que é verdadeira e incuravelmente pequeno sempre há de arrastar a revelação do maior para baixo , até o nível da sua pequenez e jamais compreenderá que alvoreceu o dia do julgamento de sua pequenez" 

Para o homem a mulher é dúbia , aquela que ao mesmo tempo que lhe concede a glória lhe manda ao inferno de si mesmo .
A glória, enquanto passagem de nível, uma graduação a mais no campo da inserção consciente na vida , tudo que lhe permite ter o ganho de quem se conquista , de quem sai da infância , de quem se liberta do jugo materno , de quem busca o orgulho do pai , um passo na direção da emancipação que o livra da eterna regressão e retardamento .

Diz Jonhson" A mulher para o homem é gestação da consciência ", aquela consciência que sozinho não seria possível , pois ficaria preso nas grades de um modo coletivo e genérico , com pouca força de individuação . Isto é ," um homem vazio " , de muita aparência e de pouco conteúdo , talvez, e suspeito disso , o que leva às perversões , inclusive à pedofília.

Por outro lado , é incrível ver sua capacidade de enfrentamento , pois sendo um conquistador , faz tudo avançar, pois sua gana de conquista movimenta o mundo , e o leva a lugares inexplorados , pois aí, nessa ordem territorial, é o próprio filho da Terra , aquele pra quem a Terra mostra seus segredos e o convida a ocupar .

Tem para com os seus uma deferência toda especial , e se por um lado foge da dor , por outro é capaz de sofrer muito pelas dores dos que ama , mesmo que a seu modo.Sofre a impotência perante os desígnios do destino e da ordem oculta da vida , pois teme o que escapa ao seu controle, o que lhe torna um "preocupado" constante.

No campo dos sentimentos a maioria é analfabeta , pois sendo uma linguagem do amor e da fluência , tal como Isis na margem do rio passando água de uma jarra para outra ,há um choque com o padrão mental estabelecido , que tende a tratar sentimentos como algo menor.

Uma tendência depreciativa que tem custado caro aos relacionamentos , pois em contrapartida diz ainda Jonhson " A mulher quer ser amada" ,e como ser amada sem falar de sentimentos? .A celébre cantilena " discutir relação " já mostra o quanto enfadonho é se tocar nisso .

Futebol, dinheiro , amigos , turma , tudo rola; mas sentimentos, não . O contraponto estabelecido pela racionalidade evasiva , identifica aí um campo perigoso aonde se sente mal preparado e em perigo , pois na fala da mulher ( que diga-se, nem sempre ajuda  quando confunde o dizer com um rosário de queixas acumuladas), se vê perante sombras que só podem vir à tona por denúncia .

E ser denunciado pelas sombras , que as palavras da mulher evocam , é um martírio sem igual , a ponto de um homem dizer, que brigar com a mulher, o colocava em estado de surto psicótico. Eis a força das sombras , que só a mulher trás , o anjo que vira demônio quando se entrega a tal tarefa.

Mas convém observar, que precisamos uns dos outros , e que nossa realização depende de reconhecermos tal verdade , pois a diferença, é sem dúvida, o grande catalizador da vida , e esse esforço é o que nos permite evoluir enquanto raça e indivíduos dotados de uma singularidade cósmica .

E aqui ,a grande confissão, é que somos movidos a carinho , algo que custamos a pedir e exigimos quase uma submissão telepática da mulher , como se isso amenizasse a reprovação já citada, embora, ao exigir mais do que pedir , nos vejamos mais próximos da recusa do que da compreensão .

Se a mulher quer ser amada, o homem parece querer ser compreendido e tem em si uma estranha sensação de não sê-lo , uma solidão amarga de quem confunde a incompreensão com o desejo de ser absolvido sem se comprometer.

É como se precisássemos ser perdoados antes do crime , um estranho vício esculpido  milenarmente na alma ,pois se tornou o modo como forjamos inocência nos lugares onde nossas assinaturas não permitem dúvidas , nos dando a ilusão de estar fora , justo onde estamos mais dentro.

Tenho a impressão que isso irá demorar um pouco a se clarear em razão do forte teor emocional presente em tal questão , principalmente pela quebra dos modos projetivos, onde os erros parecem abalar toda estrutura do edifício , tipo " se você acha isso de mim, então, só me resta “ ir embora" , reação tão exagerada, como um tipo de pressão para se calar a boca de quem denuncia.

No entanto, algo parece se ensaiar e evoluir pelos campos do acasalamento , que diga-se, é um direito de todos , pois pertencemos, como ressalta Hellinger, à "Ordem do Amor" e como tal, somos criaturas que desenvolvemos a consciência amando , daí, nosso aprendizado para amar com uma qualidade menos projetiva , onde a vida amorosa seja vista como uma grande celebração de dois , com gosto diferenciado de un -ião .

É a forma de celebração onde a presença de um amor verdadeiro liberta os sexos para novas possibilidades no campo da consciência , onde o cada um possa ser o esteio do próximo nível do outro , uma mediação entre o que se está e o que pode vir- a- ser , o gosto de se ficar com gratidão e de ir cheio de alegrias no coração , sabendo-se como diz "Érica Jong" , a grande autora americana , “que vive-se melhor e com amor quando se sabe que vai morrer”.

Minha homenagem especial aos homens que me ajudaram a me construir e a todos que me ensinaram e me ensinam a difícil arte de ser um homem e amar , já que compartilhamos juntos este desafio, e ao olhar para o lado, não deixo de ver o quanto buscar outro modo de consciência, parece ser o desafio máximo.

Se por um lado somos viris, guerreiros ou provedores , por outro, lá dentro bate o coração, em geral, emudecido por tudo que não conseguimos falar, uma estranha solidão não solicitada, mas um tipo de moradia perene , onde as mulheres lutam para entrar.

E deixá-las entrar é o risco , o momento máximo da ambivalência, pois pode significar tanto nossa redenção do medo de amar , como nossa subjugação à dependência materna que o inconsciente insiste em repetir .

VIVA OS HOMENS!  VIVA OS GUERREIROS VALIOSOS NA ARTE DA GUERRA  E CONFUSAS CRIATURAS NO REINO DE AFRODITE MAS UM LUGAR ONDE DEUS MOSTROU O VALOR DA COSTELA .










3.10.11

Foram os cabeludos que mudaram o mundo


Por estes dias meio nostálgicos e cheios de sol , consultório em obra e tendo que permanecer por aqui , resolvi ver o vídeo de um conjunto que possivelmente marcou muita gente , Creedence Clearwater Revival e viajei longe .

Primeiro a alegria dos caras , aqueles que você sente o prazer de quem ama o que faz , John Fogerty a frente , o grande gênio e compositor da maior parte das canções , seu irmão Tom , parceiro de algumas e mais dois outros caras , vejam só :

Creedence Clearwater Revival foi uma banda de rock californiana formada por John Fogerty (guitarra e vocais principais), Tom Fogerty (guitarra), Stu Cook (baixo) e Doug Clifford (bateria), que, sob outras denominações, tocavam juntos desde 1959.

Adotaram o nome Creedence Clearwater Revival em 1967, com o qual lançaram as primeiras gravações em 1968. O nome surgiu pela junção do nome de um amigo de Tom Fogerty, Credence Nubal, com Clearwater, uma cerveja da época e Revival, simbolizando a união entre os membros, que já tocavam juntos desde 1959. Ao nome de Credence, adicionaram um e para lembrar creed (crença, credo).[1] Em 1968 obtiveram o primeiro disco de ouro, com o álbum de estreia, Creedence Clearwater Revival.

Ao longo da carreira, entre singles e álbuns, conquistaram nove discos de ouro e sete discos de platina. Separaram-se em julho de 1972. John Fogerty foi quem teve mais êxito na carreira solo. Seu irmão Tom faleceu em 6 de setembro de 1990. Em 1993 o Creedence Clearwater Revival foi introduzido ao Rock and Roll Hall of FameHYPERLINK \l "cite_note-1"[2].

Recentemente, Stu Cook e Doug Clifford formaram o genérico Creedence Clearwater Revisited, e passaram a excursionar pelo mundo, tocando antigos sucessos da banda original ."

Sensacional vê-los em ação ! nossa, que belo astral , e que energia de renovação ! Época que a revolução dos costumes começava a se expandir pelo mundo , chegando a nós , sempre um pouco atrasados , mas não teve quem não dançasse ou se sacudisse ao som das baladas , que de verdade pouco diziam , como a maioria delas, mas o som, o som , era o que importava , equem curte rock, sabe que os arranjos , as guitarras principalmente , eram a senha para o astral ,para tudo que queria abrir , a sede do mais, o gosto da des-repressão , mas com som e muita dança.

Woodstock foi o ápice , clamor de toda uma geração e liberdade ( sempre é bom lembrar que liberdade é conceito temporal e que figura dentro de um registro histórico) , festival de tudo , de corpos , sexo , maconha ( a principal) , alegrias miI , muito som e contato , com um detalhe , a saber, eram todos cabeludos , homens e mulheres .

Se os Beatles , já tinham promovido a celebração de um novo tempo , mudando energéticamente os conceitos , e com talento inconteste toda concepção de uma ruptura anunciada desde a juventude transviada de James Dean , os hippies encarnaram as mudanças no seu cotidiano , buscando outra forma de ser e viver.

Heman Hesse , Marcuse , Gurus e o fascínio dos ensinamentos espirituais do Oriente , desde Mahatma Gandi até o Maravishi dos Beatles , com participação de Ravi Shankar , pra quem não sabe , pai de Nora Jones, a cantora premiada de jazz , que deixou 18000 pessoas na rua que não puderam entrar em seu show em S.Paulo.

Caraca, coisa boa, tanta mudança , muita adrenalina e muito apelo para outra coisa , outra cena , não tanto do inconsciente , mas pelo contrário , além do consciente chato e masmorrento que regia os padrões já surrados e monótonos de um mundo que já pedia para ser outro .

Pois a rapaziada escutou em si estes apelos e se lançaram , nada de guerras idiotas e sem nexos ,em nome sei lá do que e fora com Vietnam e fora com brutalidades , um romantismo delicioso e valente , chocante aos olhos conservadores , mas irreversível , a força e o clamor de uma juventude que resolveu mostrar a cara e dizer o que não queria mais pra si .

Se por um lado não havia como segurar os exageros (vejam a hybris e o metrum , a ser lançado no blog ) que lamentavelmente levou muita gente jovem, conhecidas e anônimas, embora , por outro, abriu espaços e mudou completamente o desenho do tecido social , redescobrindo o valor do improviso e da criação , crítica direta à consciência laranja apontada por Wilber e da des-humanização do capitalismo festejado principalmente pelos ricos em detrimento dos pobres.

Um mundo de potências ameaçadoras , de destruição nuclear a nos invadir o imaginário , de ditaduras e assassinatos impiedosos , dividido entre duas concepções ideológicas de direitas e esquerdas , tudo empurrado goela abaixo , cheio de contradições inexplicáveis e de mentiras nada convincentes .

Os cabeludos , mesmo não atentando para toda complexidade em jogo , resolveram desafiar o sistema e com o slogan " paz e amor " entraram na luta por um mundo melhor , "faça paz , não faça guerra ". Adotando postura no estilo de Henry Thoreau que dizia "Quero me defrontar apenas com os fatos essenciais da existência, em vez de descobrir, a hora da morte, que não vivi".

Naturista e rebelde Thoreau , queria expulsar da floresta , sua casa por opção e consoante com uma vida simples e natural , " tudo que não fosse vida", propondo que deveríamos desobedecer , seu livro empolgante , pois para ele em sua crítica ao Estado: "O melhor governo é o que menos governa".

Era hora do basta , do "chega de nos dizer o que fazer ou o modo com deveríamos ser" uma guerrilha ao" ideal de eu"proposto pelos modos conservadores e já pouco convincente para quem queria muito mais .

Relações burocratizadas e institucionalizadas em formas estereotipadas , como o casamento por exemplo , ou como construir família e se tornar um bom homem , pagador de impostos, cumpridor de deveres e obrigações , era visto como uma sentença a ser cumprida , já que a forma era a mesma há milênios .

Uma revolução nos costumes , como disse, e na relação do público e do privado ,pois não haveria esta autoridade prévia a dizer o que deveria ser feito , tudo era novo e experimental , partia-se para pesquisa relativa aos estados alterados de consciência , a vida para além do ego, nossa, quanta coisa incrível e cheia de desejo de descobrir .

Alan Watts e Thimoty Leary , a nos dizer das possíveis iluminações pelo LSD , um tipo de anúncio empolgante , mas que se mostraria equivocado na sequência , já que aí a questão é mais complexa , mas que de certa forma, apontaria para os ventos que trazem dúvidas às certezas estabelecidas na equação vida-morte , que nos instiga cada vez mais .

O espírito vigente da liberdade incidia de imediato sobre as roupas , estilo solto de poucas combinações , algo como , mais à vontade de se vestir como se quer, do que de combinar , outro front onde o padrão estabelecido e portador das estéticas convencionais sofreria duros golpes , que rapidamente absorveria trnasformando em moda , um novo estilo a ser oferecido nas vitrines .

Hoje é " normal" ver um senhor com cabelos compridos e presos, tipo rabo de cavalo , coisa impossível de ser concebida a pouco tempo atrás , ou senhoras com cabelos vermelhos e adornadas exoticamente , herança valente que ousou minimizar a importância do olhar do outro em nossas vidas particulares e em nosso direito de experimentar combinações assimétricas , mais pra bandana do que pra buquê .

Mundo vivo, intenso , cheio de propostas , de grandes debates, desde a influência do sistema social na regência do particular , até a direção do mundo como um lugar de todos , uma nova forma de ver e viver , algo pelo que lutar, uma boa e bela causa , onde a vida parecia se dizer melhor .

Mudou o mundo , mudamos nós e meu vídeo que repeti duas vezes está acabando , e eu também vou me despedindo , escrevo já com os efeitos da nova revolução que possivelmente , não agradasse tanto a Thoreau , pois passamos a um modo virtual de ser , onde os estados alterados e experimentais parecem mais próximos da esquizoidia social , do que de uma nova realidade transcendental.

A vez é dos carecas , dos modelitos ensaiados para mídia , dos moicanos bem estudados para os flashs , mas sem dúvida, também de outros ganhos, principalmente tecnológicos , uma rede social de criaturas virtuais que vão descobrindo seus modos de transformar o mundo, de influir nos destinos sociais , de participar da história e de amar , um novo tipo de virtuosismo onde o virtual é que decide o depois.

Interessante , pois inverte o comum e propõe novos desafios , onde cada um haverá de fazer suas apostas , já que o terreno pós- moderno é de todos e de ninguém em particular, uma condição sem nomeações , sem muitos endereços e sem sistemas maiores para se socorrer .

Uma mexida no narcisismo que para alguns é a grande mazela atual do mundo, pois na perda de referência do familiar, o mundo ficou mais impessoal , um lugar onde o sujeito tem o seu valor pela performance de mercado que, cada vez mais exigente, vem deixando de fora muita gente que, por sua vez, tende a buscar um melhor lugar para viver .

A questão dos lugares e territórios vem exigindo novas remarcações , pelo aproveitamento de todos , já que não se pode conceber uma ordem sócio-familiar que só caiba os seus , pois aos poucos e graças aos cabeludos e barbudos , começamos a enxergar que o mundo é de todos e que nossa cidadania é universal, outra fronteira que os cabeludos enfrentaram , deixando crescer os cabelos além dos limites demarcados .

Ah! desculpem a celebração! É que gosto muito dos meus cabelos encaracolados e símbolo de uma época que faz parte de mim e que reviso sempre , uma escola de fortunas e de confrontos que evitam as acomodações , embora reconheça que tudo passa e muito já passou , e que John Forgety hoje, é gordo e careca , mas continua vivo como arte e talento , a memória eterna do que é bom .

Valeuuuuuuuuuuu aí o do cabelo grande

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

19.9.11

DEVOLUÇÕES




Tomo esse tema interessante como reflexão , pois é um desses temas que vige no dia- a- dia com grande importância , mas de pouca visibilidade estudiosa como tantos outros , que afetam diretamente o cotidiano , mas passam como óbvios , sem serem.

Devolução- ato ou efeito de devolver , nos diz o pai dos burros ( todos nós).

Embora não tendo um dicionário filológico que me permitisse ver o radical da palavra , intuo que devolver , me sugere tanto envolver , quanto evolução , pois implica " algo que se devolve ao primeiro possuidor".

A vida gramatical é sempre um convite para o a mais , pois as regras e o significado das palavras , acabam por estruturar o cotidiano como um campo de significações onde a fluência percorre os caminhos estabelecidos pelos signos , o que se oficializou.

Muitas palavras que usamos de forma corriqueira , em geral, de forma literal , por vezes apontam para opções que sequer nos damos conta.

Podemos por exemplo, questionar se essa devolução , esse ato de devolver , é um gesto mecânico ou implica algo mais?

Tomando outro ponto de partida , sugiro pensar que essa devolução não é um ato mecânico, nem literal, e que a beleza da vida e do convívio generoso , passa por aí , lugar privilegiado para se observar a qualidade do amor praticado em uma sociedade.

A cada dia a vida se oferece com tudo , cheia de luminosidades e imprevistos que nos provocam e se por muitas vezes nos fazem sofrer , nem por isso deixamos de constatar , que se não fosse assim , como iríamos exercitar nossas capacitações?

Como esculpir-se como obra de arte , se não há estímulos ? perguntaria Nietzche .

Logo, viver é devolver , ou devolver-se, a maneira única como a vida ao passar pelo nosso processador íntimo , qualifica ou deprecia o que recebe , exprime ou contém o afeto , visto aqui como "afetare" , ou seja , o modo como somos afetados pela vida.

Observemos aqui a chamada Lei da compensação de Bert Hellinger , que diz : Oque recebemos temos que devolver de forma qualificada , recebe-se, qualifica-se e devolve-se, eis o grande exercício do amor . Não fazer isso afeta a compensação , lugar aonde alguém se sentirá lesado ".

O que isso me sugere então é que devolver é uma forma de implicação, isto é, o modo como me implico no que recebo , sendo que essa implicação pode ir desde do extremo onde me finjo de morto até a confissão verdadeira da gratidão reconhecida pela alma, as nuances do meu próprio envolvimento.

Em cada situação essas nuances se fazem observar , desde aquelas onde me escondo mesmo, até ficar invisível torcendo pra que ninguém me descubra, até aquelas onde me apresento para testemunhar , o testemunho dos corajosos que pagam o preço da verdade como causa , algo completamente fora de modo em nosso tempo de covardias.

Esse é um exercício de expressão de si como sujeito testemunhal que nos obriga à con-sideração , o modo como se considera , da verdade no campo dos afetos , tendo em conta que as relações amorosas e sociais , encontram aí seus destinos , suas opções e efeitos , e cuja vivacidade que mantém o "espírito do Vivo" , pode ter aí seu lugar de sequestro.

Seja o homem que se cala perante sua mulher , por não conseguir dizer o quanto a ama por tudo que dela tem recebido como companheira lado-a-lado , patrimônio que aos poucos vamos aprendendo seu valor pelas dores que sua falta provoca , seja o pai que reprime a fala de elogios a seus filhos num tipo de exigência insaciável , seja a mulher que por não se sentir amada dentro de seu impossível , se fecha em humores azedos e cara de perversa.

Enfim , tudo que não falamos no tempo oportuno e que só acrescentaria às devoluções qualificadas , e que nos permitiria espantar e ser menos mal-tratados por uma série de fantasmas do desamor , e que ficam guardados na caixa-preta, na esperança de um dia ser descobertas pelos arqueólogos de um futuro , onde nosso cadáver já nada poderá dizer a seu favor.

Nossa ética nesse caso é a ética da "Presença ", a expressão que submete os orgulhos do "eu" ao possível da "Verdade", que mesmo que não possa ser  toda como diz Lacan, também não nos autoriza às omissões , onde argumentamos que não faria diferença testemunhar e dizer , pois ou não temos tanta importância assim, ou que o outro também não nos faz tanta questão.

Cantilena de uma criatura "fraca e ressentida" como diz Nietzshe , lá vamos nós esperando da vida favores que sejam cúmplices de nossas omissões arcaicas , velhas exigências subterrâneas que tem o orgulho como guardião .

No sentido de Hellinger somos sempre geradores do próximo passo , pois este depende de nossa devolução, ou melhor da qualidade devolvida, pois se o prendemos , fazemos uma contenção , ou uma restrição onde a boca ao invés de dizer sussurra ou cala , o outro não pode ter seu prestígio de volta e nem nos dará o nosso.

Dessa forma , as mágoas, ódios , rancores , sabotagens e manipulações irão fazer o papel inverso, ou seja , destituirão a qualidade e instalará as depreciações , recurso sinistro aonde nenhum de nós terá o que sente merecer , uma circularidade depreciativa onde o valor nosso de cada dia poderá descambar para a arrogância ou para depressão.

Uma sociedade cheia de histeria coletiva , limiar baixo do faz -de-conta , onde se propõem simulações na conta de que a vida se deixa enganar , pois não temos com ela compromissos maiores como protagonistas , tem simplesmente nos levado a um vazio de propósitos que chega causar arrepios , quando sabemos que gerações esperam sua vez de entrar no barco.

Devoluções começam em casa , lugar do aprendizado dos modos e das expressões , do respeito amigável , da indulgência que estimula mais do que condena , da alegria como chama que dá brilho a vida , do elogio que enobrece e reconhece o valor , do perdão que aponta o erro mas incentiva o esforço por novos acertos e correções , enfim, em todos os lugares aonde estivermos esta é nossa "deontologia" , o como deve ser do ser para sua realização.

Não devolver e guardar , ou não qualificar por vinganças e boicotes é um equívoco que nos custa caro , pois torna a vida amorosa um campo minado cheio de desconfianças mútuas aonde cada um de nós vai se tornando caçadores do defeito alheio , retórica mínima para se justificar a falta de entrega .

Mas o que é viver sem entrega?

Nada é nosso , temos que entregar de volta se entregando , um "eis-me aqui ", cheio de gratidão e reconhecimento por tudo que recebemos , para que nosso vazio seja apenas uma amplificação da nossa capacidade de receber melhor , uma apuração de nossa admiração ao que é belo , nobre e elegante no gesto amoroso.

Devolver é um exercício de lapidação , um polir as lentes como fazia Spinoza , pois a qualidade nos ajuda a ver melhor e ao devolver, sentimos que fazemos justiça no amor , dando ao outro o que lhe pertence e reconhecendo o que é nosso , o que nos ajuda a não reter o que não convém.

Elogiar é um ato de coragem e honestidade que mesmo não sendo fácil , em função de nossos vícios críticos , temos que praticar, pois só o maior pode curar o menor, tipo assim , na medida em que nos tomamos como opção a mais pra que ficar com menos?

Ao devolver com amor, me amo também e me faço amar de mais perto , pois forneço a senha da aproximação e libero o caminho para o contato mais íntimo , lugar onde a descontração é capaz de falar a verdade sem precisar ofender.

VALEU AMIGOS , LEMBRANDO QUE COMENTÁRIOS AJUDAM MUITO

AGRADEÇO , AGRADEÇO E AGRADEÇO.










4.9.11

QUAL É O TOM?


Ainda em nossa reflexão pelos modos da subjetividade , este mundo tão incrível de onde partem todas as glórias e todas as injúrias , lugar onde se busca marcar o que se quer e onde se sofre do que não quer, chegamos ao início da conversa , ou seja , como na música é preciso buscar o tom .

Em " As palavras e a boca " aqui mesmo no blog tratamos desse momento crucial onde as palavras ao sairem fazem destino e implicam o falante de diversas formas , mas hoje tratamos do tom , é, esse tom imprescindível que compassa a melodia e torna possível a escuta , a escuta que recebe e qualifica ou a que deprecia , lugar de atritos e antagonismos que trazem consigo o ódio , o medo e a culpa por um lado e por outro a admiração , o sentido de descoberta e a gratidão da companhia .

O tom é o a mais , é o que não está de pronto , tem que ser descoberto , não existe apriori, pertence ao campo da intuição e do amor , pois é ele que irá decidir o depois, ao mesmo tempo que decide o que irá acontecer já .

Podemos e talvez devessemos sempre buscar o tom em tudo , o tom da manhã , da noite , o tom da transa, da comida a saborear , o tom de si e do outro , o tom que indique a sinceridade da palavra e não mate a conversa , o tom da hora de falar e também de escutar,  enfim , o tom que acerta no alvo sem machucar , sem ofender , o tom da franqueza amorosa .

É como se admitíssemos que o universo tendo sua musicalidade ,nos caberia a cada situação descobrir o tom , sendo esse o lugar onde a fluência se torna possível , ou seja, a música segue , nos convocando a outras descobertas .

Caso não seja assim, é como se o disco estivesse arranhado e ou com sulcos que fazem tudo se repetir de forma muito desagradável, um tipo de reverberação mental onde se volta ao de sempre  mas no contra-fluxo , isto é ,perdeu-se o tom , daí pra lá só desarranjos .

Como somos seres do verbo , isso então fica mais onipresente se inserindo constantemente em nossa forma de falar uns com outros , nos permitindo visualizar que nossas palavras expressam o tom de nossos estados d`alma, revelando o que de oculto tentamos esconder , em geral , antagonismos não reconhecidos ou pouco admitidos , que nos fazem desafinar , apesar de nossas boas intenções.

Se encontrarmos o tom , as palavras soarão diferente e seremos escutados com mais acuidade , permitindo que o sincero não seja deselegante , e fazendo da expressão um momento de revelação , algo inusitado , confessional , e que toca no fundo , pois invoca ressonâncias que penetram e estimulam o respeito na recepção.

Palavras demais e repetitivas , reverberativas,são uma questão de quem quer ganhar , expressão de onde cada um de nós se sente ou se sentiu lesado , onde o toca-disco está com alguma falha estrutural , e que faz com que cada situação se torne um embate para auto-afirmação.

É isso que nos dificulta achar o tom, pois ao invés de sintonizá-lo primeiro, procuramos impô-lo às  situações de forma onipotente, partindo da suposição que ele é quem define o como deve ser , o modo como nossas razões procuram se antecipar na busca de seu reconhecimento.

Obviamente,convém lembrar que todos sofremos dos mesmos males e das mesmas afirmações , pois nos conhecemos em nosso convívio milenar e sabemos o arsenal que temos,com armas variadas que vão do sutil ao estúpido . Logo a cada situação de convívio tudo retorna , desde estratégias para ganhar até fracassos magoados , derrotas que grudam e prometem vinganças .

Achar o tom é um trabalho de cura , um desgrude emocional de si mesmo para uma passagem de nível , um lugar melhor onde minimizemos as disputas , onde reconheçamos o que nos pertence e torne possível devolver o que não é nosso. Um tipo de triagem que nos remonta aos modos emocionais da família com suas exigências e idealizações e que nos trazem encargos que incorporamos e nunca conseguimos dizer não.

Quando o trabalho de diferenciação se faz possível é quando o não saí das entranhas do ressentimento e se torna um lugar plausível , um lugar reconhecido e legitimado , onde reconheço o direito de recusar o que não me convém .

Se faço isso , e em geral, depois de muito sofrer pra se livrar de dívidas e culpas, no que o código de rigidez interna se torna mais flexível , posso buscar dizer sem ofender , primeiros ensaios no campo do amor que promove a autenticidade , como escultura de uma singularidade recuperada .

Da mesma forma o outro se movimenta , pois seu lugar também muda , pois o vejo como alguém que não sou eu , uma vida própria , um estilo próprio que não pode se sustentar como objeto de minhas projeções autoritárias , me liberto libertando o outro de mim , refazendo fantasias primárias de que sou o centro não copernicano do universo .

Osho , o Mestre rebelde,ensina que uma pausa é um intervalo entre duas notas , um des-lugar para novas revelações , uma amplificação da recepção onde o não-limitado pode comparecer e novas melodias podem surgir .

Talvez descubrir qual é o tom , requeira uma pausa , um modo consciente de respiração , onde o que está grudado,mesmo que incipientemente , precisa afrouxar , uma redução da gana , um tipo de solvente para as reverberações obssessivas , onde a obssessão única é dar razão a si mesmo e querer que o outro confirme.

Um intervalo pode ser uma oração profunda , um apêlo superior para desconstrução de velhas razões rancorosas , uma redução de tamanho pela humildade flexível , uma versatilidade onde o resultado,seja qual for , não é uma mordida irreparável no meu ser , não é uma ofensa que não possa ser revertida em compaixão .

Sabemos que tudo nos ofende dependendo da ocasião , é como se em algum nível de nós mesmos, feridas atávicas e doídas comparecem e nos sentimos tão maltratados , tão incompreendidos que sequer nos damos conta que essa é uma condição comum .

Não há o "Outro" dizia Lacan ," é impossível" , e corroborado por seu discípulo Didier Anzieu que escrevia : " o Outro não dá não é porque não quer , é porque não pode, já que não tem".

Óbvio, que para nós quando não recebemos o amor pretendido , esse encontro marcado pelas nossas expectativas , nos frustramos e ficamos raivosos , nossa primeira atuação é o ataque sem grandes considerações, fomos sacaneados de forma injusta , à guerra para reparação.

No entanto, é também nossa prisão, o que não nos deixa dormir , o que escurece o dia, o que vai direto para os nervos, o que faz sucumbir o humor , é enfim , o que precisamos aprender a falar e para isso , na medida em que queremos nos libertar , não tem jeito , temos que saber, qual é o tom mesmo?






21.8.11

A BURRICE RELACIONAL I



"A burrice é uma cicatriz" (Adorno-Horkheimer)

" O ato repressor cria uma espécie de cicatriz - burrice. Quem é repreendido e reprimido , repete o último gesto que assistiu antes da repressão . Toda vez que é posto para pensar , ou que é acionado de alguma maneira para agir , ele repete o gesto de violência que o emburreceu. Ele empaca na gesticulação estereotipada. Assim, o burro , nesse caso, não é violento por ser ignorante,mas é violento por conter a cicatriz da burrice." (Guiraldelli Jr in ""A dialética do Iluminismo")

Sem contraposição a Goleman " A inteligência emocional " , nem a Gardner com sua teoria das "Inteligências múltiplas", gostaria de recortar um tema do cotidiano , bem onipresente e campo de muitos desentendimentos e sofrimentos diversos, ou seja , a burrice relacional.

Se a epígrafe é correta , logo o burro além de " empacar ", sofre de recorrência , pois volta ao mesmo lugar , toda vez que desafiado a pensar ou a agir , no sentido de senhor de si , retoma ao lugar de escravo , ou seja , o que não esquece e não perdoa , pois tem uma dívida impagável que o atormenta e por isso , não pode ser livre , a não ser para lembrar .

Mas lembrar o que ?

O gesto que o emburreceu . Como?

Há aí, um entrelaçar entre o que emburrece e o que é emburrecido , pois se não se pode pensar, menos ainda falar , pois só se fala para viver e ser feliz, o resto são mímicas , um jogo especular de mágoas e lesões de reconhecimento , em que a burrice é aquela de manter a única opção possível , ou seja , não ter opções.

O burro empaca em sua falta de opções e em seu estreitamento negativo , pois tem razão que ninguém vê , só ele . Essa é sua arma mortal , fazer desconhecer suas razões ou dogmatizá-las de tal forma , que ao mesmo tempo que é um incompreendido, é também autor de um texto que escapa às palavras , e consequentemente à fala .

Quem fala se desdiz , quem não fala tem sempre razão intocável , lugar que ninguém sabe aonde é , logo , não se chega lá . A burrice, nesse caso, não pode prescindir de seu esconderijo, lugar de suas inúmeras razões inomináveis , arma poderosa , pois se mata sem dizer o porque, jogo perverso que faz do outro, alguém que não entende ... o que jamais foi dito.

Não se questiona aí o absurdo do paradoxo , pois para o burro ele não existe , blindagem demais para reconhecer o valor do limite.

Não se escolhe as palavras, nem o momento , nem a ternura que as tornaria melhor recebidas , pois no fundo tem medo de ser compreendido e ter que vir a luz do dia mostrar seu rosto, que não vê faz muito.

Ser burro é também ser bruto , pois a brutalidade é a intimidação que tenta negar o que precisa ser dito , mata-se, mas não se confessa.

Pois senão vejamos :

O que se quer?

Amor e prestígio , duas demandas poderosas de qualquer ego humano .

Como se faz?

Escolhe-se alguém, ou se é escolhido por alguém ,que deixará de ser alguém e se tornará um foco , um foco constante de apêlos variados , pedidos de amor e sexo , de importância , de lugar exclusivo , de companhia que fará um recorte no mundo, com ela(e), o mundo é outro , justo porque é um outro .

A partir daí uma inter-penetração irá tecer o convívio , um estranha vivência de se deixar ir e de ficar , um pêndulo, que nesse lá e cá , expressa o desafio do ganho que nos obriga a se arriscar e o medo danado de perder e sofrer , a doce vertigem de que não há garantias .

Mas é verdade também, que a partir daí , este outro que passa a nos fazer parte , também desafia nossas habilidades de cativar , de atrair , enfim, de se valer a pena , eis um desafio que uma vez iniciado segue até o fim , pois no mundo dos investimentos diz um autor " o inconsciente é capitalista ", como a ressaltar que por mais que não queiramos " não há lugar assegurado" .

É como assumissemos a tarefa de nos fazer interessantes , uma qualidade da atração e da intensidade , que nos mantém o valor enquanto uma aposta que vale a pena, um esforço de aprimoramento constante que esculpe nosso mundo de dentro , à começar por nossos modos pelo lado de fora.

A fala por exemplo , o mal da boca , aquelas palavras sem consequências , a ignorância deliberada dos efeitos , fala-se e pronto , talvez algo que dito em outra hora, ou de outro modo provocaria menos estragos .

O cuidado com o não-ofender , a não-violência em níveis sutis , o ter em conta que da mesma forma o outro sente e reage , o aprender que nem tudo é tão grave assim , e que deixar pra lá , em muitas ocasiões não é vergonha nem derrota, pois não se trata de uma disputa ou de uma arena .

É incrível que ao mudar nossos modos , mudamos também a forma de ver as coisas , como se aos poucos tirassemos delas a severidade , a acidez crítica que contamina tudo , e ao mesmo tempo ganhamos em sinceridade não-ofensiva , a expressão que consagra nosso ser, o poder dizer sem matar , a palavra que celebra a vida e chama o profundo com ternura e delicadeza.

Todo analista sabe que as projeções são imperiosas e cheias de razões particulares, e que enquanto isso não quebra , a pessoa não é tocada a nível de uma reversão , um modo de reconhecimento do que lhe cabe , do que é seu e só seu , única maneira de começar a sair dessas pequenas e custosas prisões emocionais que nos infernizam a vida.

Quando um casal, por exemplo, começa a perceber o convívio , não mais como um conjunto de projeções autorizadas sómente pela neurose de cada um, mas como um modo desafiador de aprender e de se curar , começa a surgir ,o que em geral ,começa a faltar nessa ocasião, ou seja , a gratidão pelo presença companheira , o valor do lado-a-lado , que o tempo ensina aos que conseguem afrouxar o cinto de suas onipotências.

Se por um lado ninguém é de ninguém , mais uma razão para nos agradecermos ,pois sustentamos um pertencimento por amor e só , reiterando assim que estamos aonde estamos porque assim queremos , e não como vítimas do que não foi possível .

A burrice relacional começa quando esses preceitos tão nobres ,e não se vive sem nobreza, começam a serem tratados como óbvios , crime grave que arrolará muitos processos desagradáveis e sentenças serão aplicadas , ou como culpa ou como castigo , lugar onde os fracassos, ao invés de ensinarem se tornam desgraças, cujas dores nos farão chorar , um prognóstico sinistro quanto a nossa capacidade de amar de verdade e onde o orgulho foi péssimo professor .



A BURRICE RELACIONAL II


A figuração do burro enquanto algo retrógrado , algo que empaca , como caracterização da falta de inteligência , é um tipo de licença que não faz jus ao animal, que diga-se , é inteligente .A questão é que mediante algum perigo ou reminicência o danado empaca que não anda de jeito nenhum.

Para o observador não há perigo algum , para o burro sim , que por sua vez não cede de maneira alguma , em geral , causando irritações em seus donos, que sabem que bater não adianta . Com isso qualquer ato de menor prestígio ou considerado de pequeno alcance é considerado " burro ", o antônimo de inteligência , do brilho , do fulgor ,da assimilação rápida, enfim , um mal-dizer que se tornou uma arma de depreciação .

Mas em nosso caso consideraremos um detalhe interessante , nessa situação do burro, ou seja , é que o burro não passa pelo mesmo lugar que algo aconteceu e o impressionou , como se revivesse o que passou de forma tão atual que é como se estivesse acontecendo agora. É difícil convencê-lo que a situação é outra e já passou , pra ele por um estranho condicionamento, o resultado será sempre o mesmo.

Nada mudou , pois prisioneiro do tempo, não enxerga o que já não é o mesmo ,seu sentido lhe trás uma ameaça , cujo perigo está mais dentro do que fora , uma cisma que acabou lhe consagrando , como símbolo da burrrice .

O que seria então uma burrice relacional?

Começaremos então pela palavra consciência , ou seja , sua dupla vertente :

A primeira pela ciência ,a expressão do desejo de conhecer , a construção do saber , uma modalidade de cognição fundamental que ilumina a vida , corta a ignorância e permite aquisições importantes na transformação da vida .

A outra é o com : o estar-com, o exercício do convívio como produção de consciência, o outro como amor e como ódio , este esbarrão constante que me serve como aconchego e ao mesmo tempo como repulsa , essa intimidade e invasão perene , o eterno desafio da habilidade para se com-viver.

Daí a ver que o convívio é aonde a chama da consciência acende ou apaga não é difícil , difícil é aceitar que na raiz dessa convivência a vida aprimora seus modos , uma ascese do grotesco ao sublime , na qual todos nós, querendo ou não estamos submetidos .

Relação é uma denúncia constante do que é bruto e do que se aprimora , do que se pede e do que se oferece , um eterno jogo de reconhecimento , onde cada ato se inscreve numa significação amorosa para ser celebrado ou frustrado , o que nos cura ou nos fere , uma estranha sensibilidade que parece nos tornar débeis e dependentes.

Ora, mas a virtude do amor é o poder de mostrar aonde somos frágeis e sensíveis , uma senha da espécie que poderia servir como alerta, pois a dor do reconhecimento é comum, e que partindo daí , deveríamos ter em conta que ao mesmo tempo que sofremos , fazemos sofrer .

Nesse ponto algo se impõe , a saber :

Que somos criaturas do verbo e que o verbo é o início , e que o início era o verbo .

Isso nos ensina que o verbo é o que dá partida , ou seja, tanto inicia como parte .

Ao dar a partida chama pra junto ou afasta , exclue , um tipo fica pra lá, que tem o poder mortal de ofender e abrir feridas.

O tempo todo informamos uns aos outros que somos sensíveis ao trato e que no trato, muitos protocolos do convívio existem , já que se referem aos modos primários , aquela película de sensibilidade que subjaz ao ato humano e lhe confere o que o poder de afetar.

Como desde sempre nascemos no campo do Outro , inscritos no desejo que nos trouxe ou que nos recusou , não temos como forçar emancipações ou independências que busquem renegar essa ordem humana , ao risco de graves distúrbios esquizóides e psicopatológicos.

Dessa forma então , se tudo começa no verbo e se somos sujeitos-objetos do trato, então porque não prestamos uma atenção mais específica a esses dois ítens tão fundamentais?

Por exemplo , a palavra uma vez dita , não tem jeito , já é , como se diz.

Logo , seria interessante :

Observar o momento de dizê-la , e o modo como é pronunciada , já que o outro é sensível às intenções nem sempre explícitas que contém.

A palavra será tão mais íntegra e respeitável , quanto menos acusativa seja , já que acusações de certa forma , sempre trazem algum nível projetivo não reconhecido em quem fala.

Pra isso é necessário que possamos ir além dos 5 minutos iniciais , como dito no artigo anterior, o nível reflexo onde as ofensas encontram as dores primárias ainda em estado bruto, pois blindadas , em geral, pelo orgulho , não permitem fácil acesso à consciência a não ser pelas projeções , onde o que não reconheço em mim aparece como acusação ao outro .

A ponderação , ajuda o compasso do tempo e ao modo de falar , embora , seja importante também identificar o quanto as intenções falsificam as justificativas , já que o que se diz num nível , não se justifica no outro .É como se a palavra apontasse pra um lugar e a expressão facial ou gestual não corroborasse o endereço .

Esse fenômeno dissociativo que a teoria da comunicação trouxe para o estudo das familias e que tem sido de grande valia no estudo clínico em geral , pois , é a negação do que nos escapa, e que retorna como tensão aumentada , impossiv el de ser contida numa conversa , por exemplo .

É mais fácil brigar do que conversar , diz um autor . Casais se separam melhor quando estão bem , neuroses conjugais são vícios reiterativos , o que ameaça e não se cumpre , diz outro estudioso.

Mas tudo é relativo a capacidade de conter sem agir , um tipo de exercício quase yogue , um suportar à energia que ofende sem ofender , uma troca desigual que só o amor referenda , uma alternativa , onde a opção é buscar abrangência onde tudo se estreitou , um oferecer algo maior a si mesmo , evitando-se assim o sinistro emocional que se segue de imediato à ofensa.

Quando uma pessoa tem lesões primárias graves , talvez isso seja ainda mais difícil , mas parece ser esse o caminho de nossa cura , senão , nossa alternativa é repetir , e repetir sem poder elaborar , ou seja , sofremos de forma incompreendida sem aprender nada , razão obscura de nossa revolta e de nosso confinamento incandescente no fogo do ódio que nos subjuga.

Não é atoa que Lacan , já se referia ao amor e ao ódio , como amódio , apontando o quanto sofremos de ambos , quase sempre no mesmo lugar .

Talvez devessemos aprender o momento de se calar e esperar , o momento mais oportuno de falar , buscando com isso algo que ultrapasse , que não fique no jogo pequeno de quem tem razão , algo que se imponha por sua maioridade , por sua clareza , por sua maior dignidade .

Me parece um exercício tão profundo quanto raso , mas um exercício onipresente , uma busca de um ponto acima , uma elegância um pouco acima da grosseria , uma inteligência um pouco além de uma burrice que estanca em si mesma , um amor a mais do que a espada , uma grandeza mais atraente do que minímos auto-referentes, que obliteram o outro por nos imputar uma dor especular de grande custo narcísico , principalmente ali onde Narciso empacou no fascínio de sua imagem estanque.









7.8.11

OS CINCO , DEZ, QUINZE PRIMEIROS MINUTOS DE MIM MESMO


(REFLEXÕES SOBRE A CONTRARIEDADE)

Coisa incrível é se observar . Não aquela observação defunta , obssessiva , que nos incrimina pelos pecados que fez de Adão, homem e Eva, mulher . Digo aquela observação mais afim de surpresa do que de certeza, a desconfiança positiva de que há em nós , muitos.

Descobri, por exemplo, que somos constituídos de níveis e que em cada nível a vida se decide de uma forma diferente, de tal forma , que se esperarmos um pouco que seja , algo muda . Essa idéia já é antiga , como " conte até dez" antes de agir , lembrando que algo muda enquanto contamos , algo se faz ou desfaz .

Em cada situação somo testados nessas variações de níveis ,e um mesmo assunto que num nível é aterrador ,em outro pode ser engraçado, como depois de um susto , segue-se as gargalhadas .

No primeiro nível temos uma camada reflexa , uma ordem simétrica e pouco flexível , a ordem do toma lá , dá cá ou bateu levou ,ou olho por olho, dente por dente, que deu origem a famosa Lei de Talião .

Nesse nível a auto-referência é exacerbada , um substrato rígido e cheio de emocionalidade reativa , um modo de figuração catártica que é justificada como " se eu não colocar pra fora,  morro ". Aqui tudo é perigoso e pode explodir a qualquer momento , basta tocar num limiar em que se toma algo como ofensivo e pronto .......os dados estão lançados.

Aí, muitas palavras se arvoram e magoam , muitos relações se contraem e por vezes se destroem, muitos ditos se registram e chegam aos nervos da memória , lugar onde esquecer, só com perdão .

O que acontece aí é digno de se estudar , não consta nos livros , mas é uma batalha ferrenha , esse momento inicial onde a contrariedade nos mordeu , é uma condensação tão espetacular do primitivo , do animalesco , das absurdidades , dos pequenos assassinatos na fantasia , dos pescocinhos que a gente aperta , dos cabelos que se arrancam, enfim , um arsenal tão próprio e tão atávico , que em poucos minutos estamos exaustos de tanto atacar.

O curioso é que não passa de pronto , apesar de toda ação bélica , o treco volta e já de novo estamos pensando , amaldiçoando , dizendo todas as formas de impropérios ( pra não falar outra coisa), tudo no plano mental, que a esta altura já virou um ringue, em que só nós batemos .

A impressão que temos destes 5 minutos iniciais é que não passam e tiram até o sono , pois é o lugar onde nos sentimos lesados de forma não merecida , embora não tenhamos examinado nada das razões do outro .

Nesse momento não interessa as razões de quem quer que seja , e se alguém insiste em nos contar , pronto, mais um para mirar e puuuuuuuum atirar , pois já que estamos em guerra não custa mais um .

Esse estado é um horror , pois além de nos atormentar, temos dúvida sobre as razões que afirmamos ter , ou mesmo, se nossa reação não está sendo um pouco excessiva para ocasião, um exagero que nos amplifica e ao mesmo tempo nos prende , pois podemos ter reações tão brutas e intensas , que o estrago também pode ser muito.

Tudo tem que ser proporcional ao grau como fomos atingidos , um misto de dor e ódio nos afeta e nos aprisiona , como se quizessemos vingança e ao mesmo tempo, lamentamos ser tão vulneráveis.

Nunca sabemos ao certo quanto dura esses 5 minutos , até que num certo limiar impreciso , algo começa a mudar e o relógio , vai prosseguindo para o próximos 5 minutos.

O que acontece nessa sequência também é espetácular , pois é como algo começasse a amolecer , mesmo que por dentro , já que por fora o orgulho não deixa mostrar de pronto.

Começa aos poucos um misto de culpa , meio ao longe, que vai se aproximando devagar e a estabelecer uma certa idéia de que pode não ter sido bem assim . Que coisa dificil , pois, depois de tanta certeza retubante e assertivas inegociáveis é como se recuássemos e ficassemos mais modestos e com chance de estarmos errados ,com a difícil tarefa de reconhecer o erro e pedirmos desculpas por tamanha hipérbole emocional .

Cruz credo , o que se vê aí é a expressão do quanto é difícil a humildade sincera, de olhando nos olhos pedirmos o perdão , pois por um lado a culpa nos acusa e de outro o orgulho continua nos fustigando , tal como leão ferido , cheio de dor mas pronto para o ataque.

A famosa divisão entre o anjinho que pede para desculpar e diminue a importância do acontecido , e o diabinho que nos manda ficar firmes no orgulho e justifica nossos ataques, lembrando o que passou como prejuízo.

Chega a ser engraçado o catálogo de expressões desse momento , gestos que vão desde " aí foi mal ... hem " uma frase rápida que não diz o que , ou um tapinha meio sem vergonha , meio mudo ou superficial demais para o que aconteceu , e sempre fico com a impressão que se fomos olhar de perto, podemos descobrir que já estamos fazendo muito em pedir desculpas ,então , não me venha com detalhes.

Mas algo mudou , pois recuamos e houve uma flexibilização da retórica de mão única que vigia até então. O outro volta a existir , descobrimos que ele não é tão demônio assim, e inclusive , por muitas vezes já nos ajudou muito , reflexão essa, nem sempre feita de boa-vontade , mas trazida pelo inconsciente numa forma de retaliação que a luz faz ao escuro , quando se fecha em ingratidão .

É uma situação típica por exemplo de casal , que se ataca até o máximo e depois recuam , tentando devolver o valor que foi tirado indevidamente , um jogo de reaproximação todo ritualizado , que vai desde da descontração do rosto até os agrados , que mesmo não sendo ditos, servem como meia paga ao que se ofendeu.

É uma jantinha aqui , um presentinho ali , um súbito interesse por detalhes a que nunca se prestou atenção , uma saída a um lugar diferente , enfim , uma série de compensações que visam recolocar no lugar, o que foi violado.

Esses 10 minutos , também não sabemos quanto tempo dura , embora fique a impressão que não há uma superação de todo ,e tudo pode voltar de repente , é preciso cuidado , aquela constatação de que tudo estava voltando a ficar bem e .... pronto , que merda ! tudo de novo.

Os 5 minutos finais que não acabam nunca , já entram em outra esfera , pois se trata de uma reflexão do que tem de mim em mim ? O que em mim é tão provocativo , às vezes sádico , às vezes masoquista , um gosto pervertido pela instabilidade ou brigas , uma renegação da paz enquanto sujeição , enquanto entrega que ninguém parece merecer.

Uma sequência do relógio que nos insere, enquanto, responsáveis pelo que vivemos , o denunciar da vítima que há em nós e também do algoz severo , pronto a castigar , em formas estúpidas ou por hostilidades silenciosas que se eternizam em mágoas pegajosas, que ignoram à passagem do tempo , sente-se como se fosse ontem, o ocorrido.

Mas nosso horror parece estar aí , ou seja, descobrir-se como um sujeito cujo desafio é assumir seu desejo e seu preço , o ver que a vida não nos deve, e reinterpretá-la é uma condição para sair do prejuízo.

Parece que só podemos ser feliz quando tudo nos for restituído , embora não saibamos exatamente o que , a ruptura narcísica que nos arremesa para o desconhecido , e nos denuncia em nossas exigências e controles viciados, o Outro que não me deixa ser , como diz Lacan , fala do neurótico cujo gozo é gozar de não-gozar.

Se houver, como diz Helling, uma Lei da compensação , então , é como para ter de volta, precisamos restituir o que foi tirado , e nesse caso o valor do outro , o que por sua vez também subtrai o nosso. É como devolver algo , para recuperar o que é nosso .

Penso que isso funciona como um círculo que se retroalimenta , em que , os 5 minutos finais voltam a cada etapa à se reinserir sobre os 5 iniciais , o como as curas num nível,tornam o reçomeço mais elástico , mais flexível e talvez não durem tanto. Isso nos alivia muito desses estados sinistros , que se por uma lado revela tudo de autoritário que há em nós , por outro é um tormento que sabota a vida em várias ocasiões , estragos que poderiam ser evitados, se a mordida não fosse levada tão pra dentro .

Mas temos dores sinistras, não visíveis , recorrentes, que fazem com que por um estranho processo, sempre caiamos no mesmo lugar , que já conhecemos e que parece nos conhecer desde há muito, uma ressonância cujas extensões nos fecham , roubam-nos as palavras, transfigura-nos às feições e escurece nossa alma.

Ao examinarmos mais de perto, parece que há feridas antigas em tecidos primários, cujas artérias emocionais irrigam velhos rancores , lesões profundas e atávicas onde um inimigo se estabeleceu e parece morar ali ,e está, sempre pronto a nos cutucar e ofender.

Nossa cura primordial depende disso , o acesso a um lugar aonde a consciência só vai a contra-gosto , ou porque não quer ou não pode , por isso é sempre atingida na contra-mão , o que faz parecer que os 5 minutos iniciais são sempre uma afronta ,algo que não aconteceria se não fossemos provocados.

Mas o velho retorno indica ao contrário , ou seja, sofremos de nós mesmos , a esperança esforçada e desejada , de que um dia saibamos retribuir às ofensas , senão com um sorriso , pelo menos com alguma emancipação que não estanque tanto, o fluxo do amor e da vida.

Sem dúvida, nesse dia, iremos nos agradecer muito o esforço, pois será nossa carta de alforria dos grilhões, que por nos mal-dizer , também nos invoca tudo que parece mal-dito nos outros.

Viva nós , viva o ajuste que buscamos fazer em nossos relógios até o tempo ser livre , como nós gostaríamos de ser.

De bom grado os comentáios


Há ou não inveja do pênis?