29.1.12

A vida e a morte , as duas faces do destino

Há um momento tão único e possivelmente tão indescritível em nossa experiência humana , que é raro se reportar a ele, embora cada um de nós a seu modo , talvez já o tenha vivido.

Me refiro ao momento ímpar e incomparável de quando alguém querido se vai , aquele momento onde o fosso se abre e não há mais volta , pois já não há o que possa ser feito.

Dependendo de quem se vá , da importância que tenha na estrutura geral de nossa vida, o vácuo, é por vezes, desesperador , pois ao mesmo tempo que temos a constatação de que acabou , imediatamente , nos vem o que será de nós sem a pessoa .

Essa vivência acre e agudíssima , pode durar um tempo incontável, mas com certeza é onipresentemente dolorosa, onde nem o sono com seu poder reparador pode nos confortar. É como um roubo profundo, cujo ladrão não tem rosto , e em relação a qual não temos chance, e tudo que cultivamos é levado, sem nos perguntar nada.

Se é verdade que nosso psiquismo vive num deslize associativo , esse momento é de quebra total , ou quase total , talvez uma defesa contra possibilidade de enlouquecermos , como um negação profunda de tudo que a realidade nos exige para viver .

Isso parece tão verdade, que muitos desistem junto com quem foi, num gesto concreto de terminar com sua vida, ou num tipo de desistência lenta que a destituí um pouco a cada dia, um processo tão penoso, tão mórbido , e tão sôfrego que parece que a pessoa encontra ali um derrota , que diga-se , não aceita de jeito algum, de não poder manter vivo seu ente querido.

Muitos dependendo da relação que tinham , sentem-se culpados ; outros não concebem que possam continuar vivos se o amado se foi , perguntam-se se não era ela que deveria ter ido no lugar , e podem até proibirssem de viver.

Mas tudo é tão profundamente triste , e como vivemos uma vida entrelaçada , ao ver um familiar mais atingido apagar-se , o grupo familiar sofre mais ainda , tanto pelo que foi como pelo que fica , um tipo de estrondo onde a vida não será mais a mesma .

O psiquismo reage , na tentativa de fazer a vida continuar , mas somos criaturas de valores e estamos submetidos à um campo de significações , e sabemos perfeitamente o que nos acontece quando tudo perde o sentido .

A identificação com o morto pode se exacerbar, e de tal forma, que busca-se um meio de que viva através de nós , é como se assim alterássemos secretamente a força do destino , e se não foi possível mantê-lo no corpo próprio , o nosso corpo então será sua residência e seu psiquismo se expressará pelo nosso.

Óbvio, que dependendo da força disso , a loucura poderá acontecer e surtos ou crises psicóticas mais graves poderão se manifestar , embora o mais comum , talvez seja , a entrada num processo depressivo e depreciativo tão intenso , que vislumbra-se ali um suicídio inconsciente , um desejo cheio de sinais de morte.

O traço marcante é a solidão que a pessoa fica , um tipo de solidão refratária e quase nada interativa , com poucas respostas às solicitações dos demais , observa-se um mundo que se apaga , um escuro regido por uma dor emudecida e cuja revolta não encontra outra linguagem para se dizer .

A medicação busca aliviar e dar conforto , mas sabemos que não faz milagres e como fazer a pessoa reagir ?

Essa dor, vi principalmente, em mães que perderam seus filhos queridos e se não estou errado , uma das dores mais lancinantes do catálogo humano , uma dor profundamente comovente e deseperadora , onde qualquer argumento parece paliativo de ocasião .

Vi essa dor numa reunião para qual fui convidado de mães que tiveram seus filhos assassinados , e confesso que nunca fiquei tão oprimido , numa total ausência de linguagem, onde tudo que eu pensei em dizer me parecia inócuo e desrespeitoso .

A dor real demais, faz a linguagem sucumbir e desaparecer , não há naquele momento uma moral de sustentação que não incorra em dizeres superficiais , ou em ritos que convocam esperanças para um depois , consolos que não consolam , a sujeição ao destino que nos coloca como protagonista do indesejável .

No entanto , convém perguntar , e aquele que morreu? O que acontece?

De pronto , nos convém, o destino do corpo enquanto mutação biológica , o que vai ser absorvido pela terra e se transformar , já que segundo Lavoisier é assim, "nada se perde tudo se transforma", mas é só?

Aqui o terreno é turbulento ,cheio de debates arraigados e de poucas concordâncias , talvez muitos ódios, aí estejam . Mas porque?

Porque decretamos , um édito da razão dita superior , que a vida é o que se vê , e o que se vê com os olhos do corpo , um confinamento aos limites de uma matéria , cuja densidade que serviu como inspiração aos materialistas , vem sendo obrigada a re-visões importantes do ponto de vista conceitual.

O Ocidente , ainda marcado por uma Idade média obscura e dogmática , trás em si, as dores de seu sequestro intelectual feita pela Igreja Medieval , onde o saber dispensava o pensamento , considerado perigoso e subversivo aos interesses do poder do Clero Romano .

Morte aos hereges e aos pensadores , paga-se o tributo e acumula-se o gozo tão profano e tão indecente , talvez como hoje, que a espiritualidade , o saber que só a transcendência oferece, foi considerada junto com todos os discursos de poder , uma ignorância de uma plebe pouca esclarecida e pouco confiável , como credenciais de uma dimensão que não alcançou o brilho de uma razão inteligente.

"Religião ópio do povo", diz Marx, ou "uma crendice infantil contra o fantasma do desamparo" corrobora Freud, dois expoentes da razão moderna , que me parecem um tanto apressados.

Há na religião ,e diga-se , sou ateu , um ateu espiritual , se é que existe isso ou então passa a existir , um desejo profundo de uma re-ligação que em sã consciência (sic) não é possível negar.

A dor profunda ao mesmo tempo que nos rasga visceralmente , também busca uma conexão , um entremeio decisivo, para vida poder seguir adiante , um tipo de socorro que com tudo e apesar de tudo , nos indica que vale a pena prosseguir , que não podemos combater uma dor com outra dor pior ainda , e que não nos convém nesse momento, nenhuma filosofia do azar.

Chega ser impressionante como aos poucos, tudo se cala , teorias , sistemas, doutrinas etc , como se tudo fosse se rendendo ao inexorável e nos deixando entregues a própria sorte , ou seja, tudo que está fora do alcance ou do raio de ação dos saberes estabelecidos .

Cala-se o filósofo, o médico , o psicanalista , os doutores em geral, os mesmos que sabiam tudo sobre a vida e que pouco oferecem sobre a morte . O que houve?

"Está fora da nossa esfera" diz um , fala que representa um protocolo geral , e que nos revela a impotência de nosso" falo cultural", ou seja, só podemos lidar com o que sustenta e se presta à potência de nossos saberes . Uma "douta ignorância" a là Nicolau de Cusa , que tem nos custado caro , justo aonde mais precisamos , isto é , aonde a vida nos confronta com nossa fé .

Mas fé , o que é ?

Veja aí a definição segundo nosso dicionário eletrônico : "
Fé (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia[1] ) é a firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta idéia ou fonte de transmissão.

E observem os dizeres na estátua da fé :O véu simboliza a impossibilidade de conhecer directamente as evidências"

Mas a dor é a própria evidência , e num momento único vive-se a relatividade dos demais significados , e abre-se um apêlo vindo das entranhas solitárias de cada um onde parece haver uma ultrapassagem de qualquer fronteira , um ímpeto para o desconhecido , a projeção de uma continuidade, cuja ponte somos obrigados a construir.

Viver com fé, é viver em ligação com o que não existe , é uma disposição para se viver de forma ampla , considerando tudo, sem se deter apriori em nada , tendo-se em conta inclusive , que a direção é rumo ao que não existe , lembrando que tudo que existe , um dia não existiu .

Viemos do que não existe para existir e existindo retornamos a outra forma de existência , que a princípio pra nós não existe , não porque não exista, mas porque não temos como reconhecê-la.

Mas sempre é bom lembrar, que pra nós , o que existe é o que podemos reconhecer, e o que podemos nomear pelos sentidos ou pelos conceitos estabelecidos, mas a morte como experiência não se presta a isso.

Mediante a morte , aquele momento singular , há um turbilhão de dor e de interrogações simultâneas , que é impossível se manter o encadeamento ordinário do psiquismo . Afora , se quem morre não tiver importância , o fosso que se abre é uma vivência comum , ou seja, todos perdem e são afetados, uma estranha concordância com Buda, sobre a impermanência de tudo que existe.

Vive-se a questão : E agora? o que acontecerá?

O cemitério tem sido o enderêço oferecido pelos sentidos , destino para o que se vê e intensa angústia para o que não se vê , um sentido terminal que contém um sem fim de apêlos metafísicos e a convergência controversa da questão maior , ou seja, há algo além ?

Como é possível que todo sólido , tudo que sempre nos pareceu firme e inseparável, tudo com o que sempre contamos , possa terminar assim ?

A fé, em geral, não funciona como recurso de última hora , ou seja , não é uma crença contingencial onde não se tem nada melhor para se oferecer , é antes um testemunho mediante a própria dor , de um próposito que nos permite o reconhecimento de um desígnio maior , a ordem do destino , que nos torna protagonistas do que não escolhemos e somos obrigados a viver.

Abre-se o profundo , naufraga as superfícies , nossa vida e de quem morre não poderá mais ser a mesma , uma transformação em todos os níveis , a busca de um universo em que os mortos continuem vivos e renovados , onde o corpo físico não é um critério único para identificação da vida e o desafio pra quem fica de trazer à morte para vida, já que pra todo aquele que morre , lembramos que nosso destino é o mesmo.

 

Próximo artigo A VIDA CONTINUA , A MORTE COMO PORTA PARA O ALÉM

 

 

 

 

 

 

15.1.12

HYBRIS e METRUM- as dimensões do bem viver




Jung dizia, que o grande mito contemporâneo é o modo como a vida busca se tornar consciente de si mesma, e que estamos num momento onde Psychê se expande pelo desenvolvimento da consciência.

Desde sempre, viver parece ser um exercício de consciência , embora , se pensarmos usando a idéia de complexidade atual , à força do inconsciente e a ordem dos acontecimentos , sempre a  colocaram numa faixa estreita de alcance , em se tratando claro, de um tipo de consciência mais reflexa e com pouca emancipação do mundo.

Poderíamos dizer, que o estar consciente que brota da faixa correlata de consciência , tem a função , enquanto instrumento de poder do Ego , de assegurar dentre tantas vertentes , a da segurança , o sentido da preservação da vida , nosso patrimônio mais prestigiado.

Mas, se a vida porventura, tem algum sentido de desenvolvimento  além de sua preservação, sabemos também que somos criaturas, cuja constituição possue forças que nos impelem desde dentro , e que nos faz buscar no mundo o que nos convém .

Hybris e metrum falam disso , dois tempos do desejo , onde por um lado pagamos o preço de o colocarmos acima do moderado ,e por outro , onde a moderação pode fazer subsumir às intensidades , principalmente das paixões.

Movidos pelo desejo e, logo, o gozo do seu objeto , como levar em conta o jogo de coordenadas que sinalizavam o perigo das exaltações ?

Vejam a definição de Hybris  : "húbris ou hybris (em grego ὕϐρις, "hýbris") é um conceito grego que pode ser traduzido como "tudo que passa da medida; descomedimento" e que atualmente alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou insolência (originalmente contra os deuses), que com frequência termina sendo punida. Na Antiga Grécia, aludia a um desprezo temerário pelo espaço pessoal alheio, unido à falta de controle sobre os próprios impulsos, sendo um sentimento violento inspirado pelas paixões exageradas, consideradas doenças pelo seu caráter irracional e desequilibrado, e concretamente por Até (a fúria ou o orgulho). Opõe-se à sofrósina, a virtude da prudência, do bom senso e do comedimento.

Aqui vemos que o sentido de algo que se exalta contrariando algum tipo de norma , ou de  regra invisível , ou mesmo uma não consideração pelo que não se deve ultrapassar, às custas de algum tipo de punição , que segundo os gregos era o modo como os deuses, agiam com os exaltados ou desequilibrados .

O compasso , a marcação era dado por metrum , ou seja, " A concepção da húbris como infração determina a moral grega como uma moral da mesura, a moderação e a sobriedade, obedecendo o provérbio pan metron, que significa literalmente 'à medida de todas as coisas', ou melhor ainda 'nunca demais' ou 'sempre bem'.

Podemos então ver aqui, que as polaridades , tal como para os chineses de outrora, clamam por certo equilíbrio , tal como na Lei relativa ao interconsumo o Yin e do Yang, que em caso de exarcebação de um , consome o outro , causando prejuízo .

Notório observar, que a exaltação da polaridade é o efeito da paixão , considerada uma desmesura , uma intensificação arrogante onde o metrum é ultrajado , um tipo de não querer saber , um ir e pronto , uma desrazão em nome do desejo , uma renegação de qualquer medida que estabeleça algum tipo de alfândega territorial .

Contudo, se por um lado, isso pode nos induzir a leitura da moral , por outro , parece uma deontologia , a saber " : \l

Deontologia (do grego δέον, translit. deon "dever, obrigação" + λόγος, logos, "ciência"), na filosofia moral contemporânea, é uma das teorias normativas segundo as quais as escolhas são moralmente necessárias, proibidas ou permitidas. Portanto inclui-se entre as teorias morais que orientam nossas escolhas sobre o que deve ser feito..

A deontologia em Kant fundamenta-se em dois conceitos que lhe dão sustentação: a razão prática e a liberdade. Agir por dever é o modo de conferir à ação o valor moral; por sua vez, a perfeição moral só pode ser atingida por uma vontade livre. O imperativo categórico no domínio da moralidade é a forma racional do "dever-ser", determinando a vontade submetida à obrigação. O predicado "obrigatório" da perspectiva deontológica, designa na visão moral o "respeito de si".

Observamos então que estamos submetidos a uma ordem moral que estabelece os valores do como-deve-ser , um fundamento imperativo racional, que visa estabelecer uma primazia , ou um tipo de soberania da razão , para nos garantir um metrum , uma medida , que nos eleve ao estatuto moral  dessa ordem.

Mas por outro lado , se na filosofia chinesa ancestral, o Yin e o Yang não podem existir um sem o outro , o metrum , enquanto medida da moderação ou do equilíbrio , poderia correr o risco de se tornar uma masmorra repetitiva sem a hybris , nosso direito de ir e vir , nossa condição primordial de aprendizagem , daí a liberdade Kantiana .

Coloca-se aqui que as moderações são correlatas também ao nível da consciência , principalmente , onde o movimento pulsional das energias da vida, atiçam os desejos e devolvem os prazeres no nível imediato , equação cuja civilidade com todo seu esforço, ainda peca por resolver .

O homem grego, a grosso modo, era um homem culto , em cuja cultura residiam propostas que equacionavam a relação com os deuses e lhe davam precedência , de tal forma que o destino enquanto " moira " era intocável , não só pelos homens , como também pelo próprios deuses .

Se não tinham o mito do pecado , nem por isso dispensavam a "admoestação" no campo do viver , e só se interessavam pelos heróis , os dotados de coragem e valentia das virtudes , tendo figuração de seus ideais no homem virtuoso , não no homem comum , ignorante demais para o campo das nobrezas do espírito.

Acontece que no contexto de uma massa crítica culta e nobre , o prazer pode ascender ao nível das matérias transcedentais e dispensar seus rigores imediatos , já que nesse caso , o Logos , o Saber é o próprio deleite .

Mas e o homem comum ?

Quando a histeria dispontou em na Europa no final do século XIX , o aparato médico foi acionado por estar em jogo protagonistas de classes nobres , classes que supostamente deveria ter com o metrum , uma relação mais estabelecida , já que a ordem social parece encontrar aí seus triunfos principais, tanto do ponto de vista cultural , como financeiro .

No entanto , o que se viu é que com toda gama de fetiches oferecidas pelo poder , a ascese das moderações é uma questão que não se contém por fronteiras do social , o que poderia nos oferecer um novo olhar sobre a condição do humano .

A hybris ao nos mostrar o mundo dos excessos e das exaltações, nos fala do perigo do muito, mas também não nos propõe o pouco , já que a vida moderada , enquanto a vida do sábio , é uma vida de quem já andou e muito , que já caiu e aprendeu a se levantar , de quem já morreu e aprendeu a renascer , é a vida de alguém que já avista a síntese depois do luto, como quem já não precisa estar tanto .

Corre-se o risco, de por medo, confundirmos a moderação com os modos repressivos e nos acovardarmos , levando Nietzsche a nos considerar como"fracos e ressentidos", e ao mesmo tempo perdermos o direito de errar , condição sine-qua-non , para um aprendizado com verdade .

A pasteurização da vida não interessava aos gregos , uma vidinha sem brilho e sem esplendor, sequer é digna de cogitação filosófica , o que nos leva a ter que convir que o metrum é algo forte e vivo e não uma medida blasê, opressiva e chata , embora para Freud toda questão do mal-estar esteja justamente aí.

Da mesma forma como a coletividade é um axioma do metrum , o desejo é da hybris , e esta tensão entre a singularidade e a normatização comum , é para Freud um lugar dissimétrico e irreconciliável , já que para o desejo a vida é muito e diferente , enquanto para o metrum é o como- deve- ser , o altar da consagração dos valores exponenciais onde o humano se legitima como tal .

Ao se tornar consciente de si , a vida nos obriga também a praticá-la no mesmo nível , como se o véu caísse aos poucos nos dando outras visibilidades e na medida em que avançamos tudo se reconfigura , talvez por isso , poderíamos perguntar qual seria a hybris do metrum , ou qual é o metrum da hybris , já que na filosofia chinesa , no símbolo do Tao , o Yin e o Yang já estão dentro um do outro , talvez da mesma forma como a loucura esteja na doença e vice -versa , um bom início para novas considerações.

Nietsche nos convidava a ir , a pagarmos o preço , mas morreu sózinho , não conseguimos tal nível de desprendimento , Zaratrusta é uma superação que pra nós parece demasiada , para nosso pouco humano .

Mas por outro lado não arriscar, não celebrar a vida é assinar o óbito da literalidade, onde o erótico se fez carne (Lacan), e nos cobra um preço amargo, de nos fazer ver na vida nada mais do que deveres e obrigações que não sabemos exatamente se queremos.

Os fetiches do mundo apenas distraem , mas são rápidos demais , a roda não , ela continua girando sempre e a cada dia , nos fazendo ter a estranha sensação de que tudo é o de sempre e se bobearmos , sempre o mesmo .

Podemos nos deprimir , uma hybris avessa , o entusiasmo ao contrário , a paixão pelo escuro opressor , uma recusa da vida pelo desencanto da celebração , ou podemos ficar frenéticos , hipertímicos, maníacos e também ter a sensação que rodamos em torno do vapor, fumaças de nada .

No entanto , como não celebrar a beleza , a alegria , a amizade , tão apreciada pelos gregos , a reprodução da vida , o gosto pelos filhos , pelos familiares ,enfim , um universo tão cheio de coisas boas e simples , que poderíamos convidar Zaratrusta a descer da montanha e tomar um bom café conosco , um papo informal e cheio de graça , o profundo com descontração , o que talvez tenha faltado  Nietzsche , sózinho demais , para um café a dois, lócus das belas amizades.

 Eta reflexão difícil , desculpem aí , mas não esmoreçam , leiam e comentem

Valeu mais uma vez
























29.12.11

LAMENTOS ESPIRITUAIS



Recentemente uma pessoa de minha família , após 2 anos de muito sofrimento em função de um câncer e outras infecções , e já traqueostomizada , falando com enorme dificuldade e bem baixinho, disse a sua filha, que estava morrendo.

Minha sobrinha me ligou assustada , pois era primeira vez, em todo este tempo, que sua mãe dizia tal coisa. Fomos vê-la já com certa impressão de despedida, e com certo sentimento opressivo no peito,e enquanto dirigia pensava em como era a vida , principalmente no que tange a este momento terminal , onde reis e rainhas , ricos e pobres, bacanas e plebeus , enfim, todos um dia hão de estar .

Minha cunhada sempre foi animada , bem disposta e certo dia descobriu um câncer de mama , que após tratado , foi dado como “zerado”, mas sobre controle periódico. Tempos depois , viria de forma breve e rápida a morte de meu irmão, mas ela resistia bravamente.

Quando chegamos , o cenário era o mesmo que antes tinha visto , ou seja, ela deitada com dois botijões de oxigênio ao lado , com a sonda enfiada goela abaixo , olhos abertos e um emudecimento imposto pelo quadro clínico, já que parecia não faltar desejo de falar.

Seu balbucear era intraduzível , ao que minha sobrinha , fiel intérprete, nos socorria da angústia de ouvir e não saber o que , uma estranha conversa sem reciprocidades.

Imaginei o quão desesperador seria falar e não ser ouvido ou entendido, sem ser mudo, já que a cadeia de pensamentos devia ser ampla , indagações onipresentes, e principalmente, a consciência de uma luta sem prognóstico , a não ser a oferecida pelo desejo de viver e melhorar.

O corpo já bastante desfigurado pelo sofrimento sequencial , sem tréguas, e principalmente , pela violência compreensível de se ver fora de casa , meses a fio, e que em retornos à mesma , na promessa de poder ficar durante bom tempo, era quebrada por alguma inter-corrência clínica, e logo, de volta ao hospital.

Sempre fico pensando que os nervos são a própria cabeça de cada um de nós , que nosso sistema nervoso é a continuidade das imagens que projetamos a cada momento , mas principalmente, as de forte impressão, ou seja, aquelas em nosso destino parece estar em jogo e que nos damos conta de que já não temos o controle do que pode nos acontecer.

Passar a noite em um hospital numa expectativa sabe-se do que, um lugar estranho que só nos faz lembrar de nosso quarto, de nossa cama , enfim, do conforto habitual do dormir , mas prioritariamente do conforto de nossa saúde, é a princípio assustador.

Há um certa fantasia de interligação do hospital com o cemitério, que obviamente carece de lógica, embora nem sempre. Abre-se uma etapa de dor e sofrimento que não oferece garantias de término , embora dependendo do diagnóstico nos sentimos jogados ou num alívio cheio de “ Graças a Deus” , ou num sentimento indescritível , ou um presságio, de algo profundo e sinistro que se aproxima para ficar.

 A família , o companheiro ou companheira também abrem uma peregrinação pela dor , um conjunto afetado pelo destino e que lutam para que a vida se preserve e que volte como era antes.

Mas em muitos casos não é assim . Nunca mais será como antes , um luto do que já não pode ser , um adeus dito à força, sem que a boca se abra. Uma névoa baixa, sem que a luz permita ver, uma comoção de fé , que de súbito descobrimos que não temos, um grande desamparo, onde a vida se esvai, para muito além dos limites de nosso corpo .

Minha cunhada me parecia nesse momento e nesse lugar , um lugar de quase nenhuma palavra , já que parecemos negar a morte até o fim, como se nos recusássemos a admiti-la e falar dela é quase autorizá-la , o que nos tornaria assassinos por falar do que não deve.

Me lembro quando perguntei a meu pai se ele tinha medo de morrer , causei um frenesi em família , porque isso não é pergunta que se faça ,ou seja, há o medo de que a pergunte mate.

Mas tomar consciência de que estamos no fim e que vamos partir e ter que deixar tudo e todos , completamente pelados , tal como chegamos , é duro demais.

Nós sem a vida e a vida sem nós , algo inconcebível , em planos comuns e ordinários como o que vivemos , sabemos que devemos desapegar e só de pensar nisso começamos a fazer questão de tudo, uma estranha fantasia que se nos agarrarmos direitinho a morte não nos verá.

Mas parece haver um momento que algo se afigura, e mesmo sem formato definido , parece ir chegando aos poucos e nos fazendo sentir longe , um longe só , um retorno ou um mergulho no que parece estar além , uma além que vai chegando e ficando pertinho , um longe –perto , ou um perto que vai nos levando pra longe.

Se largar, dizem os Mestres é o melhor , uma experiência de total entrega e única , como nunca fizemos em vida, um tipo de libertação consciente e decisiva . Mas quem de nós pensa em se largar numa hora dessa?

Quem pensa em deixar filhos , marido, mulher, carro ,casa , etc ? é uma falência múltipla do apêgo, um largar em grande escala , um desinvestimento súbito em tudo que passamos a vida investindo , um suicídio econômico , uma exigência apavorante ao nosso pobre ego sem alma.

Minha cunhada suspirou que estava morrendo não pelos remédios , segundo pergunta sugerida, mas disse em voz baixinha “ É pela minha vida mesmo que estou morrendo”.

Essa frase me fez viajar para profundezas , pois tenho relatos dos que antes de morrerem pareceram ver suas vidas de forma global , um tipo de síntese espiritual do que valeu ou não valeu a pena espiritualmente , um conceito do Cristianismo primitivo chamado”metanóia”, um certo repassar da vida a luz de si mesmo .

Sempre me causou impressão de que nessa hora , nesse repasse nos déssemos conta do que poderia ter sido diferente, da dor que deixamos nos outros, das mentiras com que nos descomprometemos , do amor que calamos e das críticas que exaltamos , talvez a consciência tardia de nossas deformações negadas e orgulhosamente blindadas.

Mas como tudo isso é profundo , como sabemos disso e nos esquecemos sempre , porque o orgulho é o nosso rei? Talvez a morte saiba disso e suas figurações seja de acordo com isso também , pois sua proximidade nos faz sentir o que vai ser arrancado e nos exacerba o medo do que de nós será descoberto , um sentido radical de transparência , onde todos nosso erros inconfessados nos esperasse logo na primeira esquina.

E o que teremos a nosso favor? Com o que nos defenderemos se sequer conhecemos quem nos acusa? O tribunal teológico parece ingênuo perante nossas obstinações explicativas , pois na medida em que nos vemos perante a outra face da vida, nossa cidadania se esvaísse, e já não conhecessemos à que legislação estamos sujeitos.

Nosso fim parece tão triste, que sequer conseguimos pensar na possibilidade de estarmos recomeçando ,sem nenhuma religiosidade no profundo e cultivando a superfície , temos a fantasia de sermos tragados por um buraco sem fim, uma eterna queda sem descanso , o pessimismo ,o pavor dos que vivem a Deus sem piedade, dos que fizeram do Espírito um descaso no seu viver cotidiano , o corpo como templo da eternidade.

Se há uma vida além do cemitério, como todas as culturas mais espiritualizadas afirmam, deveríamos estudá-la com afinco, e tirar proveito para nossa forma de viver, e não renegá-la ao espaço menor do imaginário intelectual. Não ficaremos mais vivos negando a morte , pelo contrário , somos tomados pelo medo de viver e de perder , o que nos leva a uma contabilidade mesquinha dos apêgos desnecessários , que a tesoura da morte não dispensará.

Minha cunhada nunca me pareceu tão profunda, e se mantém viva enquanto escrevo o artigo, mas após este encontro, me ficou como uma lição que agradeço e compartilho .   
Agradeço o retorno










18.12.11

A BEIRA DO CAIS


A imagem do cais enquanto lugar do que vem,do que vai , esse fluxo e refluxo de expectativas e esperanças,pode ser tomada enquanto um limiar , um limite , que por um lado nos dá a imensidão e por outro a cidade .

Ao olhar para essa imensidão, nos vem tudo que não se nomeia , um para-além das representações , um silêncio vibracional , uma dimensão tão extraordinária , que ao mesmo tempo fascinante, também temerosa.

Uma filiação metafísica renegada , um esquecimento do tempo de jornada , a figuração do peregrino que vem da noite dos tempos , que anda desde longe e que um dia espera chegar, os diferentes matizes de todas as dores , e a liberdade não confinada do mistério misterioso.

Eis o que diz " Fernando Pessoa: Quando chego no meu limiar não sei se sou louco ou um mistério misterioso".

Esse limiar apontado pelo poeta é o cais entre o aqui e o lá , entre o que parece não ter limite e tudo que para viver se reduz ou se ordena , como se fosse um manto que protege, e ao mesmo tempo confina .

Ao vigor do olhar para o horizonte, nos vem o estranho endêreço que não podemos contar a ninguém , pois também não sabemos onde fica , o sentimento de pertencer a uma imensidão e ao mesmo tempo navegarmos nos limites das margens estabelecidas , uma vida que sonha com outra , mas naõ consegue se despir de sua própria imantação.

Ao começar de novo, o início pelo nascer, já sofremos a ruptura , um corte , cuja dor trazemos em si , e embora o romantismo necessário da infância inocente , temos a amargura do que deixamos para recomeçar , um ciclo que parece marcar o tempo pelo que confina e pelo que nos solta.

A cidade enquanto metáfora, é o lugar em que tudo se vincula , tudo se apega , nada do que quer ser deixado , onde tudo faz questão de suas próprias razões , é onde a vida reproduz seus atavismos , enquanto retorno das antigas pendências do desejo , os apêlos aos velhos objetos de sempre , a morte como conclusão da mesmice.

Se, como diz a Psicanálise, o que queremos é o impossível e temos que nos assujeitar ao possível, então nessa dobra do apêlo que é obrigado a voltar pelo que não há , temos aí o que o mundo nos oferece como compensação , ou seja, seus fetiches , suas máscaras de amor , seus consolos de consumo , seus objetos possíveis , modulações do impossível .

Nosso sonho nessa instância é de ter o que nos devem , à recusa da Lei que não permite uma plena saciação , o movimento pelo desejo insaciável no deslize de seu objeto que não há , o objeto "a" de Lacan.

Mas o que aprendemos nessa Cosmovisão do herói condenado à imanência do que há , é que não tem outro jeito , ou seja , estamos fudidos e mal pagos , não há ponte para o além , apenas acertos em menor escala com o que há por aí.

Sonhamos com o maior para nos consolar com o menor , a vã esperança de que um dia , quem sabe ..... algo aconteça e ....... nada , absolutamente nada , que não resulte em areia quando o vento começe a soprar.

Essa é uma visão que inverte a ascese e negativiza o início , pois torna a vida um campo cheio de ilusões, onde as afirmativas só legitimam o estatuto de prisioneiro , ou seja, estamos numa prisão, que ninguém sabe onde está a chave pra sair.

Eis o que diz o rei Lear na tragédia de Shakespeare,"Quando nascemos, choramos por estarmos chegando /A este grande palco de bufões".

Choro de quem afirma o direito a vir e a viver, e de quem retoma a caminhada , vindo de outras pairagens , onde o tempo não confina e o sonho é o que aprimora o possível .

Mas convém lembrar, no entanto, que segundo Platão sofremos de reminiscências , lugares onde já estivemos e cujas lembranças nos acompanham , o mundo de onde viemos e pra onde voltaremos , a pátria perene segundo seus ensinos.

A esta altura observamos que estamos entre lá e cá , como a discutir nossa origem pra saber nosso destino , pois a cidade nos oferece o consolo do berço e nos entrega aos braços da família , ou seja , nos interpreta o início pela raiz de nossa biologia e nos assegura à familiaridade .

Por outro lado a vida não nos poupa de questões maiores e difíceis pelo fato de nos protegermos em família , afinal , Buda é o que rompe , o que não se confina aos limites do familiar , pois sabe que a vida é outra coisa e família pode enganar e muito.

Eis o que pergunta o escritor japonês Hiroyuki Itsuki , em seu livro Tariki "O que vem depois? O que se segue a essa percepção? Nascemos em lágrimas, somos oprimidos pelos grilhões do parto , da velhice , da doença e da morte ; existe algum meio para que a pessoa , como indivíduo , leve uma vida que seja altamente gratificante e cheia de esperança e vitalidade , apesar dessa carga?"

Hiroyuki propõe a negativa radical como ponto de partida e diz " Aceitemos essa visão da existência. E então perguntemos: Embora nasçamos chorando, não há um meio de morrermos sorrindo? Não é esse o verdadeiro fim e objetivo de todas as vidas?

Importante dizer, que partindo do Budismo , Hiroyuki sabe da vida como" Maia a grande ilusão", nada do que apetece aos sentidos interessa , não se deve perder o desprendimento, a iluminação contra as pregas da cidade .

Mas nós temos a cidade na conta da própria vida , principalmente quando num erro histórico caríssimo , deixamos a "transcendência" como filha bastarda das religiões , pois aonde o apêgo é maior convém lembrar mais.

Se, ao olharmos na beira do cais para o horizonte, sentimos uma presença indiscriminada de tudo, e fechamos os olhos como uma benção de agradecimento , é porque este lá é também aqui , ou seja, uma disponibilidade manifesta e afim , pois nos permite sentir à inclusão , um para além de mim , que age como uma voz que chama e que é capaz de comover profundamente.

Se queremos o que não há , talvez seja importante refletir o que o desejo pode ver , pois mesmo sendo seu objeto fugaz e o que não permite totalidade, este são os olhos do desejo , aquele que quer sempre e mais.

Mas e se não quisermos? ou pra ficar mais acessível :E se não quisermos tanto? algo se relativiza? Uma vida considerada modesta é também uma inserção no campo do desejo , pois não se trata só do dinheiro como poder de aquisição , mas de um modo de viver que pode ter deste campo uma outra interpretação .

A questão do desejo é também o seu imediatismo , seu mais gozar incessante e insaciável , que além de mover a vida nas instâncias que lha são afins , move o capital e por aí o mundo.

Mas se viemos de outro mundo mais desprendido, e do qual temos cidadania , talvez paguemos o preço de recalcá-lo , por conta de um grande engôdo que sacrifica nossa transcendência , nossa capacidade de não querer por não valer a pena , isto é , se sofremos a sindrome do imediatismo , porque deixar pra depois?

Entendemos que o imediato é que é , nosso descolamento é visto como perda de oportunidade , toda raiz do que iremos chorar depois no arrependimento , pois não se trata do gozo e pronto , mas de ficarmos presos, mesmo que pelo prazer, nos lugares onde iremos sofrer da força de retornar.

E retornar a cada vez, nos faz ter a estranha impressão de que já estivemos por aqui, e mais uma vez aqui estamos , como a nos haver com as pendências onde o desejo nos faz voltar e tentar fazer diferente , um tema caro a filosofia contemporânea , o repetir diferenciando .

A questão é que pra nós ocidentais, o Paraíso ficou monótono e o pecado muito mais dinâmico e interessante , pois há fogo , a quentura própria à tentação.

Obviamente , que essa leitura do Paraíso é equívoca , pois não havia ali o Outro , o terceiro, que só pode se por como serpente , pois o humano não pode antecipar , somos o três , temos ainda muita possessividade por se resolver e adoramos nossa incompletude , já que dessa forma nos apegamos e nomeamos nosso patrimônio.

Paraíso é pra quem já pode largar , pois não precisa e não quer mais , a quebra dos grilhões do que o desejo promete e não cumpre , o exílio do não querer , a maldição dos que podem viver e dispensar , pois sabem que para morrer sorrindo é preciso deixar tudo aonde está e morrer como aquele que viveu com a pura e simples gratidão dos que por terem tudo , não precisam de nada.

Amigos , devolvam por favor, às vezes os temas parecem um pouco mais complicados e eu temo não conseguir simplificá-los . Agradeço o carinho e o saco de ler . Valeu

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4.12.11

A ALMA DO MUNDO






O mundo tem alma?

Tudo tem alma , pois a alma é o que faz viver , vivemos num "mundo almado" diz James Hillman, o grande junguiano , embora, se o termo alma pareça ter uma conotação sutil , não é fácil em tempos espertos como o nosso, situá-la.

No mundo cabe tudo e momentos históricos existem em que a visada de seu compromisso é turvo e aparentemente inexistente . É como se não houvesse o aonde chegar , pois não há indicação de sentido que não possa ser alterado , não há razão moral, espiritual , ou qualquer outra, que resista a uma boa sofística , uma boa retórica que não consiga desfazer alguma pretensão mais permanente.

O vigor imediatista cria seus lugares próprios de manifestação , seu lócus 'voyer ', suas figurações de mercado onde os objetos imediatos ou perenes , podem ser cotados como mercadorias de transações , ou seja , a vida é ali e pronto .

Estanca-se o fluxo por meros interesses e subtrai-se a idéia de que muito do que aparentemente some, pode permanecer em outros lugares que discordam do modo como se negocia.

Podemos negociar valores capitais para uma civilidade , como podemos regar violências que supostamente queremos combater , podemos fingir não ver para não perder, mas não temos como destituir às assombrações que aparecem mesmo de olhos fechados.

Há uma estranha suposição de que o mundo é exterior , um lugar de ações e reações onde podemos nos isentar , ou se descomprometer , a figuração de que o eu é um lacre , um lugar próprio e impenetrável , que participa do mundo por adesão de interesse .

Esse modo de pensar totalmente extemporâneo a culturas mais espiritualizadas , é o que  nos possibilita , por conta do poder , a mentir e se inocentar com a mesma facilidade , ser bandido e mocinho , ser assassino e herói , num tipo de mistura que busca confundir o olhar, por falta de um critério que reconheça que o alto e o baixo , além de serem diferentes , pertencem à ordens diferentes.

Nossa timidez liberal , se por um lado propõe um tipo de soltura que rompe com o tradicional , por outro, deixa vago uma série de espaços que vão sendo costurados com oportunismos de ocasião .

Chega a ser impressionante a cara de pau de determinados políticos, por exemplo, que mesmo incriminados , se julgam além do bem e do mal, como se o patrimônio lapidado fosse uma questão particular .

Esses personagens anômalos são criações que resultam de nossa relação com o mundo , quando este se torna depositário de nossas indiferenças ou de nossas perversões particulares em âmbito restrito , uma retórica cúmplice , um espelho de consentimentos que cada vez mais, mostra o que tem de traiçoeiro .

É incrível , como nos julgamos no direito de ocupar a cadeira dos que foram lesados, sem nos incluirmos na dos que lesam , talvez porque sem estes critérios , julgamos os crimes pelos seus efeitos espetaculares ou pela gravidade de sua extensão , como se pequenos crimes pudessem passar impunes pela falta de tamanho.

A alma do mundo somos nós , pois na rede invisível das conexões, tudo está em tudo , nada está fora , a não ser pelo desejo de excluir , o que também nos faz pagar um preço alto , apesar da ignorância que rege o imediatismo de nossa contabilidade social.

Ao vibrar em nós, tem a pretensão de nos dizer o que ninguém quer escutar , ou seja , nosso pertencimento à uma alteridade, que quanto mais se adia mais sofrimento provoca , pois o se há o Um , ele não está na subjetividade repetitiva com ares monótonos de cada um , e sim no entre , nos entremeios , no ter que se dizer e pedir para ser escutado.

Este entrelaçamento é a teia cujos fios nos unem, e nos tornam sensíveis uns aos outros , que recorta o humano enquanto um campo diferenciado e com características próprias , uma dimensão a ser frequentada de forma consciente , pois aí , cada um, além de reconhecer seu pertencimento , se torna também um outro, enquanto um espectro amplo das opções humanas.

Cada um que se consagra é um outro a consagrar , uma via de sedução e de chamada , ou seja , uma chama que queima , que destrói , que mata o que não deixa viver , o verdadeiro reino dos vivos , tão almejado e temido ao mesmo tempo.

"Deixemos os mortos"dizia Jesus , esses já tem endereço , pois pensam que chegaram , vamos nós os vivos que ainda não sabemos pra onde ir , e que temos então que viver a cada dia , como se fosse o último , sem promessas e nem dívidas , no afã das suposições que antecipam o que não conseguem pegar .

O mundo ao renegar sua alma , perde sua interpretação maior, seu horizonte para ver mais longe , mas ao mesmo tempo não enxerga o perto , a proximidade para poder ver o que nos falta no outro , um interjogo de ofertas e recepções que ao serem lapidados tornam a linguagem um dialeto universal , uma língua cheia de vocabulários intraduzíveis sem apreço , uma língua que exige o coração como aquele que ouve e se surprende com o que fala .

Uma escuta toda , cheia de ruídos de insetos e amores prometidos , cheia de alegrias e dores  recheadas de penetrações , o mundo vive em mim, se refugia em mim , eu sou o mundo , no seu baixo , no seu ventre que me reproduz , no seu alto que me reluz .

Sujo o mundo da mesma forma como corro para limpá-lo , é minha casa e meu exílio , minha pátria cheia de nação e minha mente sem noção , o lugar onde me amparo no corrimão e choro de doer, o que trago no coração . Ah ! Viva o mundo , que mesmo não me chamando Raimundo é aonde estou e me apresento , ou para ser jumento , ou um assento onde me sento , para ver quais palavras precisam de acento , um doce cordel desrrimado pelo vento.

Minhas homenagens a Manoel de Barros , meu mestre da simplicidade nativa, para quem as palavras foram feitas para coisar.
























13.11.11


VAREJOS DA ALEGRIA

Em tempos que a felicidade anda confusa de se ver, e mais ainda de se definir , optei por olhar a vida , para ver o que me diz.
Pós -modernidade , abolição dos sistemas, de doutrinas etc e espírito de liberdade , o tudo pode ser, mas nada é , enfim, um momento único , onde a idéia de "fundamentos" ou mesmo "vontade de potência" parece não passar de um bom yogoberry a escolher o sabor e decidir firmemente sobre qual a calda mais adequada à ocasião.
É melhor não insistir , acho que vai trazer tanta amargura , que comecei a pensar no varejo como alternativa, esse ato que se consome , esse minuto de sabor com apetite , mas um agudo diferencial , esse truque supérfluo , mas de grande valia para auto-estima.
Assim vejo, por exemplo, o valor de um bom churrasco com amigos , mesmo que na esquina, um bom papo regado à chopp , uma boa peça de teatro, um bom filme, uma boa soneca , em geral, depois do rango, um bom jogo de futebol para quem gosta , uma festa animada , uma conversa cheia de graça , um bom degustar de vinho ,quantos pontos que animam a vida e que festejam o brilho e o prazer de se viver.
Uma resistência férrea ao desencanto , ao pessimismo das amarguras alá Cioran , uma constante excessão às perpectivas sociológicas desanimadoras , um borbulhar constante contra o marasmo sombrio da rotina escrava , um ato guerrilheiro contra o imposição injusta das desigualdades sociais.
Se por um lado a felicidade parece englobar o muita coisa de uma vez , esses varejos não , porque não têm essa pretensão toda , não parecem querer erradicar nada e nem subverter algo, apenas garantir o direito à uma boa risada, à uma animação imprescindível para repaginação do cotidiano,  um animo necessário à alma da vida .
Obviamente, que esse homem que se alegra assim ,não frequenta nenhum compêndio filosófico, e esses momentos parecem tão inúteis para qualquer pretensão , que passam por conta de coisa nenhuma , apenas um des-sufoco vulgar , não-letrado e totalmente despretensioso .
Mas isso não me parece exatamente assim.
Digo porque embora , possamos não tirar daí nenhum substrato maior , esses momentos situados são tão prazerosos e agradáveis , que ficam como pano de fundo, a espera de oportunidade . Lacan dizia que o neurótico vive em função do fim de semana , algo que me parece já vem sendo subvertido há muito tempo.
A boa piada bem colocada , um humor que muda o rumo da prosa , uma tirada sutil que desconcerta, o almoço bem digerido e saboreado calmamente , o sorriso espontâneo ,o chopp ao cair da tarde , a celebração da vida sem pretensões maiores , como aquele bom café bem pedido, ou depois do almoço como arremate antes da volta ao trabalho, ou degustado com memórias deliciosas, trazida pelo cheiro inconfundível de família, que o lanche da tarde mediunicamente sempre faz lembrar.
Fico pensando que a memória reserva um lugar especial para essas inscrições , pois são de fácil evocações , voltam trazendo sentimentos do que valeu a pena , das delícias pré-conceituais , pois figuram mais como viagem dos sentidos , o que se sente , unidades de prazeres íntimos e compartilhados , um gozo por estar ali , uma sempre comunhão que naquele instante , nos satisfaz, pois absolvemos a vida e ela não nos deve nada.
Talvez por isso gostamos tanto do recreio , que bela hora de liberdade , uma defesa legal contra seriedade chata de sala de aula, um encontro de movimentos alegres e fugazes , uma gritaria como resposta ao silêncio imposto , um gosto especial de ter amigos .
Depois o recreio vira arranjo aonde for possível , no bar , na rua , no banheiro , em casa , enfim , uma soltura sem habeas-corpus , uma meninice imperdível que nos indica o quanto ser adultos doutrinados é uma violência tida como necessária .

"O mundo está assim porque foi feito por homens sérios e todo homem sério é um perigo" diz Osho , do alto de sua bela sabedoria espiritual , um mestre que propõe " viver é sorrir",e tem a dança como terapêutica , um êxtase contra repressões desnecessárias que só servem para nos manter infelizes , afirma.
"A felicidade derruba governos " afirmo eu , na linha rebelde de Osho , para quem governos e governantes não se interessam pelo povo feliz , porque se tornariam desnecessários ou obsoletos . De certa forma há um ranço predominante onde um pouco mais de alegria , já pode se tornar uma ameaça , pois a ordem vigente foi feita para regular valores e condutas que não atrapalhem muito e evitem o novo , esse sim o desejo prometido, e renegado aos confins de uma utopia impensável.

Estratégia perversa de quem não quer sair do lugar , unicamente porque não convém , reprime-se o novo como perigo , nunca se sabe aonde vai dar , obriga-se o de sempre , que embora cansado e monótono não incomoda enquanto subversão , apenas como insatisfação , que pode deslocar-se como sintoma.
Talvez a situação árabe na África do norte , estejam mostrando que se suporta durante um tempo, que até pode ser longo , principalmente quando do outro lado alguém tem um exército a disposição, mas a vida sem alegria e sem mudança sugere a pergunta , pra que então?

Se tudo fica sério, engendra razões intocáveis e autoritárias , que buscam se impor como ato de força e violência , uma insanidade muito diferente da que se vê nos hospitais psiquiátricos, e porque têm poder, recusam o diagnóstico e as medicações.
 Nossa querida rua da alfândega , lembra um amigo, é o locus da revolução mundial , onde árabes e israelenses comem quibes e esfihas juntos , dividem o mesmo espaço e não soltam bombas ,há anos.
É incrível também, como a alegria descontrai a vida , evita o visgo pegajoso das conversas cheias de venenos , cujos tentáculos buscam cumplicidades nas mediocridades implícitas ou explícitas das mentes opacas , desfaz o tom severo das profecias sombrias , aproveita o cenário para uma conexão inusitada , enfim , um perigo para os pessimistas doutrinários e para estagnação sugestiva e hipnótica dos que querem pregar verdades.

Esse garimpo no cotidiano é tão ou mais interessante , quando vemos que embora determinadas ligações se façam por interesses ou obrigações , as que são mais procuradas são aquelas onde se pode rir . Passada a reunião de trabalho ou outra qualquer , forma-se o cenário onde abre-se conversas que buscam o bom humor , um prazer de conexões sinápticas que não viam a hora da reunião acabar .

Quando algum tempo atrás votou-se no macaco Tião para governador , achou-se isso uma alienação política e rapidamente analistas chatos entraram em ação , não viram aí , que o surreal é a resposta do humor ao que perdeu a graça , o que só aborrece e não faz mais rir, a não ser de deboche.
De certa forma tudo tende a chatice, depois dos 5 minutos usuais, se não houver riso .Sem riso o relógio é um compasso monótono , as cartilhas que ensinam a vida se tornam obsoletas, a vida perde o tônus e sua coloração se embota , os dentes ficam cariados por falta de serotonina, e o amor sem o riso é um gesto brusco .
Sorrisão pra todos
















30.10.11

A VIDA TRIVIAL



Estimulado por uma chamada de Bert Hellinger em seu livro " A fonte não precisa perguntar pelo caminho" sobre a vida trivial , decidi escrever algo a respeito .

Um tanto surpreendido pelo tema e principalmente pela afirmação de que só é possível ser feliz aqui , na vida trivial, me pus a meditar, e de pronto , meus apelos transcendentais se arrepiaram em protesto .

Descobri , por exemplo, que desde sempre me referi a outro lugar , um lugar inominável , um endereço querido e nada específico , um tipo de cenário sem objetos, uma senha de passagem , embora sem poder dizer pra onde.

Lembro que em muitas ocasiões de estreitamento no convívio , aquelas que tudo parece bárbaro e caótico , onde o ogro interno comparece e o anjo desaparece , em que a vontade assassina se revela , mostrando a precariedade das premissas civilizadas , meu consolo estava justo no apelo para aquele lugar a que me referi .

Mas examinando mais de perto , na força da proposição de Hellinger , vejo também que era um lugar só, ou seja, um lugar de mim, reflexo da minha capacidade fantasiosa de eliminar o outro , sem muita consideração .

Ao mesmo tempo , o exame da resistência em tomar o trivial como lugar da felicidade , também me levou a outros pontos.

O trivial pra mim sempre foi dúbio , ambivalente , amoroso e odioso , estreito e amplo, e aqui verifico o quanto a emocionalidade das situações de convívio, ditavam o céu ou o inferno do cotidiano , com seus rituais de coexistência.

Um estar além, mesmo sem saber aonde, me dava impressão de desafogo , um halo de transitório de algo que vai passar, e na frente a vida será outra.

Meus relaxamentos usuais se assentavam nos prazeres que os rituais proporcionavam, como uma boa comida , um encontro festivo em família , as farras com amigos, os namoros , enfim, uma linguagem comum , que conjugava também minhas exigências, meus conflitos e, por muitas vezes , a exarcebação de meu pertencimento ao futuro .

A liberdade de sonhar com outro mundo , por muitas vezes me pareceu um desejo de não-pertencer, a falta de identidade , principalmente em família onde o estar-ali , me parecia uma queda , um sufoco a qualquer pretensão maior .

Percebi, no entanto, que isso tinha haver com os nichos de mesquinharia que toda família tem em maior ou menor grau , aqueles momentos onde a vida em comum, determinada por laços biológicos, parece uma metafísica de algum desejo equivocado de algum Criador .

Mas a consciência maior é descobrir que esses nichos renegados , também existem em você e de tal forma , que descobre-se , não sem surpresa que o outro mal-dito , é o modo como você mal-diz .

Disputa-se lugar na família , no amor dos pais , a tal ponto diz Freud que o maior medo da criança é " perder o amor dos pais", o lugar radical do desamparo , a principal angústia da espécie junto com a da castração .

É difícil não se sair machucado da ordem familiar , descobre-se por exemplo, com Lacan que a completude é " uma antecipação à uma condição de dependência", uma precocidade que só funciona no imaginário , ou seja , a imagem esconde o que se depende.

E Hellinger diz que se é feliz " quando pai e mãe podem viver em nós livres ", afirmação ousada e importante , pois supõe a cura das projeções primárias, aquelas que Melanie Klein tão bem estudou e nos deixou como legado.

Mas o sutil aqui , me parece é que pai e mãe perdoados , é também nossa libertação pelo perdão , o receber o que foi possível com gratidão e devolver o que não nos pertence com consideração .

Hellinger de certa forma , recoloca em outros termos e com outra abordagem , um tema caro a análise Kleiniana , quando se trata da inveja e gratidão e principalmente na lida com os impulsos destrutivos que geram culpa e exigem reparação .

É preciso reparar e agradecer , o que significa reconhecer o que recebeu como alimento para matéria e para o espírito e tomar seu lugar na ordem familiar diferenciando os direitos próprios ao lugar e devolvendo com consciência o amor investido .

Em outras palavras só vive quem deixa viver , sem espaço para os pais viverem , a vida é opressiva , pois da mesma forma como vivemos nos pais, que abriram espaço para nos receber , temos o mesmo por fazer , trabalho árduo , pois muitas das feridas que carregamos encontram-se no cerne dessas relações .

Obviamente que esse pertencimento mesmo não tendo uma ordem regular , não permite negação do pertencimento , pois se nasce de alguém e é preciso considerar tal fato como a matriz do humano , já que essa ordem familiar é transgeracional , nos diz Hellinger, e se encarna, nos fazendo encarnar , inclusive , lugares de outros , já passados.

É nessa visada que a vida se rege pelo comum , um constante acerto consigo mesma , um aqui cheio de vida , de dores e alegrias que subjaz na forma de torrentes dinâmicas , que inclue o trivial com suas nuances e também os sonhos , a reparação que a ordem faz ao recolocar o que lhe é devido .

Hellinger , diga-se é um pensador de forte teor espiritual e sua concepção implica à diferença de Freud, uma Cosmovisão , mas uma imanência relacional ditada por ordens que estruturam a vida e parecem buscar sua reverência a um poder superior .

O trivial, ao mesmo tempo que se oferece como uma disposição , um modo como tudo se dispõe, é o lócus de um belo exercício espiritual , pois é o cenário oferecido pela vida para sua consagração , pois esse comum é aonde as forças profundas da alma se movimentam em sua busca de realização e instaura seus novos movimentos .

O Além, em seu nível operacional , é o modo como a alma orquestra seus movimentos pelos silêncios , pelo reconhecimento dos limites e pelo se deixar conduzir , o uso da ponte que nos leva ao desconhecido , mas que é regido por uma fonte que rege tudo.

Penso nos poetas , esses que parecem se nutrir tão disso , pois falam do familiar de uma forma não usual , descrevem o comum com imagens tão sugestivas que nos surpreendem , pois embora estejamos vendo o mesmo , na poesia é tão outro que lamentamos a falta de alcance de nossa linguagem.

No diário da vida inscreve-se o profundo , mesmo que em níveis superficiais , lembrando a "banda de Moebius" que Lacan consagrou , pois o que está dentro está fora e vice-versa , mas o que Hellinger parece ensinar é que mesmo em atos ordinários está contido todo extraordinário que rege os fenômenos singulares .

Hoje ao olhar o trivial , o comum , o cotidiano enquanto compasso do Cosmo , não vejo outra coisa, a não ser essa reverência que se começa lá no modo como fomos recebidos ,e veja-se aqui, a contribuição de Groff das vivências perinatais , e que torna nossa estadia por aqui um profundo momento de nossa alma , enquanto peregrina de um tempo eterno , de um tempo que, se não teve início , também não tem fim.

Agradeço o aqui , e agradeço o lá , agradeço o meu estar aqui , pelos amores que recebi e recebo e pela oportunidade de fazer valer a vida pela única capacidade que a faz despertar quando sai da inconsciência , o Amor.

Viva Hellinger

 

 

Há ou não inveja do pênis?