5.1.13

Arreligião do viver


 

Em tempos de conexões ocultas onde o visível parece ser apenas uma franja , um limite do olhar , somos tentados a perguntar sobra a conexão da criatura com Criador , essa re-ligação que nos interroga , que nos acompanha nos altos e baixos da vida , como se alguma reminiscência nos lembrasse de algo sem dizer o que .

A imagem da Divindade vai mudando junto conosco , de tal forma que desde à natureza até o fascínio dos astros , esse lençol brilhoso que parece nos acobertar , temos imputações de sentido , como a busca de significações mais próximas , mais efetivas , para o que ? Para o nosso viver , ou seja , quem quiser ver a Divindade há de vê-la na própria vida , lugar do mais profundo Mistério.

Situados e alocados dentro dessa imanência até o fim , já que nascemos , vamos nesse grande e difícil exercício do viver , intimados pelo corpo em suas urgências e reposições constantes , sentimos a força da carne com seu preciosismo e exigências . Ao mesmo tempo , vamos além , vamos passeando pelo Além , já que nos é insuportável o cheiro único da carne , quando muito perto.

Nosso frescor , o frescor de nossa vida depende disso , de podermos nos ausentar , de sair e poder voltar , pois esse movimento é o único que nossa alma reconhece , já que qualquer confinamento nos faz faltar o ar.

Na verdade, precisamos de Deus enquanto não o reconhecemos , esta orfandade que nos remete ao desamparo , já que nossa capacidade mental é mínima perante tanto mistério , como se nossa ignorância nos oprimisse e nos fixasse a endereços , que apesar de parciais não nos deixam nus .

Mas ao olhar a vida , vemos tudo .

Todo compasso orquestrado do oculto , todo seu esplendor a cada dia , principalmente na devolução virginal dos dias , únicos e irretornáveis , um movimento incansável de recomeços , e diga-se , com todo cenário fascinante que essa Deusa do Amor-Natureza não se cansa de nos oferecer , eis nossa lição comprometida , única maneira de ver Deus se vendo.

Talvez pra isso precisemos ficar ateus , tirarmos molduras estabelecidas , crenças estereotipadas , nada enquadres forçados ou concordâncias submissas , precisamos de vigor , de fôlego , da alegria de quem se propõe a explorar para vivermos o êxtase das pequenas descobertas .

Depois de todas imagens impostas e sincrônicas à nossa sugestionabilidade , precisamos perder o medo de todas inquisições que só fazem repetir e ameaçar , é preciso descobrir à vida como uma grande celebração , um estar feliz por existir e participar , nosso lugar único e indispensável.

Alçar o verdadeiro valor espiritual , que ninguém pode nos tirar porque também não nos foi dado , é preciso conquistá-lo . Um pouco a cada dia , o frescor da evolução que nos abençoa , nos conclamando a seguir , afrouxando o rigor severo que endurecem às imperfeições , e nos tornando aprendizes reverentes e dedicados do Vivo , ou seja , do que não quer viver pra morte , essa sonolência que nos demencia e nos seduz.

Deus vive na vida , e por isso é para os Vivos , um sentido maior da existência que nada tem haver com refúgios ou covardias como querem alguns críticos da religião ,nem com espertos que vendem suas canalhices , prometendo aos cegos o que eles mesmos não vêem .

Nada disso serve, tudo efêmero , pois não são com esses emaranhados que conseguimos andar , e nada pode nos poupar da tarefa de seguir , a não ser quando vendemos nossa alma em troca do descompromisso , um crime grave que nos condenará a pior miséria , a miséria do espírito .

Todo criado e toda criatura tem compromisso com seu Ser , com seu brilho , com seu aprendizado , uma singularidade que é ímpar que requer o próprio caminho , seu vôo , seu desprendimento de significações apriori , em geral autoritárias ou omissas .

Não se pode ver o Reino de Deus em si estando morto , é impossível , porque Deus é vida a todo tempo , o que faz com que muitos achem a vida insuportável , é vida demais .

Busca-se um modo de diminuir a vida , ou de se esconder dela , ou tentando desistir ou fazendo de conta que se está vivo , uma caricatura que faz da vida um jogo de performance para os bonzinhos , aqueles que por medo não se revoltam, e aparentam se submeter sem se sujar no jogo , pois estão a margem.

Impostores , vivem na ante-sala com opiniões sobre tudo , em geral, esclerosadas por falta de testemunho verdadeiro , ensinam sem aprender , promovem espetáculos sem causa , como dizia Proust , uma praga nesses tempos confusos .

Mas tudo requer coragem ,e não há coragem pra quebrar a casca dura se não se acreditar que o melhor virá do próprio esforço , uma partenogênese de si , um esforço por nascer de si , do seu desejo maior , o encanto orgástico da própria redenção .

Nesse sentido Deus é essa chamada para o a-mais , função que modernamente alocamos no desejo , como um mais-gozar , sem enfatizar que todo desejo tem seu preço , às vezes maior do que podemos pagar.

No entanto , a maior dificuldade , é que não podemos ver Deus na ótica de nossas conveniências , aqui o esforço é outro, ou seja , não  se trata de fazermos reduções arrogantes ao quadro de nossas crenças ou opiniões , uma pasteurização do gozo em função do correto , o puro medo de perdermos nosso lugar no Céu .

Não, é o insuportável do correto que nos induz à projeção do Divino como proteção , dando margem a que essa operação seja vista como infantil , como em Freud por exemplo ,como se o correto pudesse ser uma linha reta bem delineada e obedecida.

Com isso , somos obrigados a nos dissociar , a recusar o que em nossas apreciações parece condenável , como desautorizando seu estatuto na ordem do Ser ,daí optamos então por uma experiência pequena, uma pequenez crônica perante o Criador , um pecador viciado em pecar e pedir perdão , a mesma hóstia que nos dá a senha para repetirmos tudo novamente.

Eis o que diz o Rabino Nilton Bonder em seu excelente livro  A alma imoral “ Na trilha da sobrevivência , a mesmice é o caminho curto , o mais simples , e que tem os custos mais elevados (longos)”

Não há extensões potenciais se a teimosia cronificar e se imbuir de certezas , e uma espiritualidade verdadeira nem de longe é caminho de certezas , antes pelo contrário , brota de tudo que nos deixa inseguros , com a difícil tarefa de não recuar pelo medo .

Tudo que se refere à coragem aqui , é um passo a mais em relação ao medo , já que não somos heróis , mas um andar tipo deambulante , onde a coragem nos incita e o medo procura nos retrair , é um passo dúbio , um tipo de alquimia onde o diferencial quem nos dá, é a alma .

É a alma em sua busca não substantiva, que nos livra dos apegos demasiados que entulham nossa mochila , e nos torna pesados demais , um peixe quase morto para não ser alvo fácil de pescadores hábeis , a morte como descompromisso de árdua tarefa de nascer de si.

Há aqueles que se entregando, entendem essa entrega como um gesto nobre, já que se tornarão comida para outros , impostura dos que fazem do bem uma renegação à tarefa de aprofundar , limam a superfície para parecer mais lustosa , como se a luz pudesse prescindir do escuro .

Não se aprofundam , adoram os ídolos de sua própria superfície , evitam se reconhecer pois não querem dar à vida a compreensão de uma viagem que prossegue e cujo entremeios funcionam como repousos de re-contratos ,optam a cada parada, por reaparelhar suas fantasias de chegada.

Se o Reino está em nós , andar é mudar , é se transformar , uma dura luta nas arenas do dia-a-dia , uma escuta que vinda das entranhas do interior , nos faz prestar atenção em tudo ao redor , o Universo Vivo pronto a nos dar o ensino que precisamos para não esmorecer .

Mas a consciência da estreiteza é fundamental , senão, não temos como reconhecer nossa angústia primordial que é estarmos submersos num mundo de relatividades perante nossos anseios absolutos oriundas das potências de nosso Ser , nossa alma que se recusa à falsas chegadas .

Um dia na flecha do tempo teremos o grande Encontro com o Criador , e talvez, neste dia sonhado pelos alquimistas, descubramos que tudo que queríamos , já estava aí desde sempre e que a dimensão supra da consciência só se fez onde, mesmo por pouco tempo ,quebramos os grilhões dessa tendência de prendermos a vida em nossas mesquinharias e nos deixemos mover por tudo que nos comove.

VALEU.

 

 

 

 

               

21.12.12

O tempo como pano de fundo


 

“ Se lembra quando a gente
Chegou um dia acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que pra sempre
Sempre acaba “

 

Em tudo ele lá está : O tempo

Uma figura incrível , que perpassa os saberes e os dizeres , que obriga a ciência ao que não sabe , que oferece ausência aos poetas , que mostra o início e o fim , que nos dá a musicalidade dos acontecimentos e as recordações do bom e do mau em tudo que vivemos .

Deus temido na mitologia , Cronos tem a chave do profundo , que associado `a escuridão sempre fez tremer os homens , uma suspeita irrecusável de que esse profundo é o portal do Mistério que nos sonda.

A flexibilidade das mãos orquestra o tempo , pois tanto fecha para conter , como se abre para largar , linguagem única do tempo que nos dá o apego e nos obriga a deixar , exercício perene que ao ser renegado , só nos faz sofrer .

Saudades e memórias se unem e sucumbem , nos trás as lágrimas dos lençóis subterrâneos , a impotência do desejo de fazer permanecer quando Cronos decide o término , pois, afinal , tudo envelhece , ou seja , a tudo foi concedido o tempo para ser  e para des-ser , um neologismo que na carne pode nos tornar melancólicos .

Temos saudades incríveis do que não sabemos , uma antítese vinculativa aos objetos palpáveis, como se pertencêssemos  a um mundo não tão concreto , um mundo onde a linguagem corrente é banal demais , um mundo de um sentir , de um pertencer desmaterializado , tão sutil que nos refugia na solidão do indiscernível.

O tempo mata e nos faz viver , pois relativiza o concreto e dá ao eterno um semblante vazio e ao mesmo tempo  pleno , uma plenitude que nos permite colocar nossos sonhos e desejos de reencontros com tudo que amamos , nos faz acreditar que um dia tudo que perdemos poderá nos reencontrar .

É como se fosse um grande exercício cósmico , onde nossas experiências se tornam registros de um belo patrimônio espiritual , onde não se faz necessário levar a carcaça , mas apenas as notas que ao executarem suas melodias nos remete, e lá estamos novamente.

Quando conhecemos uma pessoa, por exemplo , esse estranho processo assim se faz, pois a levamos conosco num pra dentro só nosso , onde podemos vestí-la ou despí-la  variando as cores e escolhendo a música que nos convém .

Essa magia que desfaz o automatismo é a beleza e a dor da vida , o modo como subvertemos o tempo e reconhecemos seu poder , o modo como nos apropriamos de tudo pelo sabor do desejo, e da mesma forma, como temos que soltar o que só possuímos transitoriamente.

Eis uma emblemática questão que tocou Freud em seu artigo sobre transitoriedade , o valor do efêmero , sem o qual nada teria graça imediata , já que sem transcendência não há esperança , pois vivemos da alegria dos sentidos , ou seja, “o que me move é que me comove” dizia M.D.Magno em seus seminários no Colégio Freudiano .

Essa invisibilidade do tempo é sábia , pois é como se fossemos “ aos poucos” , um giro meio sem roda , uma alteração sem tanto sobressalto , o que nos faz correr atrás das maquiagens  ,  esse ingênuo esconderijo que nos dá a sensação de adiamento , que minimiza o espanto , mas que não nos dá imunidade , ou seja , a sentença é para todos .

Nascer e morrer, juram os ocultistas, são facetas do mesmo processo , o ômega e o alfa , que só nos faz achar tudo mais difícil ainda , pois dizem que não há fim , pois sequer início houve.

Pra nós do vulgo , que não fazemos outra coisa senão sofrer do que termina e nem vemos o que é está começando , talvez estejamos mais próximos dos poetas , os que conseguem tirar da ausência um gosto especial , vamos poetando a lá Manoel de Barros , ou fazendo dessa saudade do nada o gosto do tudo.

A música, por exemplo , dizia Adriana Calcanhoto , compassa o sentido do tempo , referindo-se ao seu encarne cotidiano , essa consecução de tarefas sequenciais  que molda a vida e nos faz acreditar que assim é , ou assim é que é , onde entre solilóquios onipresentes , essa maneira pela qual sonorizamos nossos pensamentos sem que ninguém nos ouça, sofremos nossas afetações , nosso Pathos , como dizia Spinoza.

É justo nesse espaço onde o outro não penetra que sofremos do tempo de forma inconfessa , nossas mazelas que resguardamos do tribunal social , nossas angústias de estar indo sem saber pra onde , o gosto do que se foi e ao mesmo tempo permanece , uma busca dos modos compartilhados e a solidão do próprio destino , uma estar sozinho sem queixas ou acusações.

Essa servidão involuntária , não nos deixa alternativa , ou é ou é , um tipo de imperativo que não se faz menos categórico pelo fato de ser menos autoritário, é como se pudéssemos nadar como peixes com a sensação de liberdade , embora estando dentro de um lago , da qual não podemos sair .

Curioso, é que ao se dar conta disso, Camus afirma que a única questão válida na filosofia é o suicídio , ou seja,  a vida faz sentido?

Se o tempo é Senhor, e Cronos era muito parecido com a Morte , o que nos resta ?

Viver , logo se diz . Mas viver pra que ?  argumenta Camus , que de certa forma encontra em Cioran certa parceria , já pra esse filósofo búlgaro , a vida encontra sentido em suas próprias amarguras.

E nós ? não tão cultos , não tão profundos , talvez mais sorridentes e chorões , vivemos nossa vida como um culto cotidiano cheio de conteúdos que vamos triando para ampliar nosso gozo , razão da vida para alguns , esse hedonismo, que hoje de tão metonímico , ficou histérico fazendo recrudescer em nós um vazio, que pós-modernidade tratou de elevar aos novos modos de ser , a nossa liberdade escolher o que for , um direito ao mau –gosto , pura e simplesmente assim.

Mas a vida não para e nem o tempo , diz Cazuza . Tudo gira e vai girando e segundo um iniciado mor “ não tem dó dessa matéria , diz Mestre Irineu .

As saudades gritam seus clamores e apegos , as lágrimas os lamentos do que se foi , um grito espremido entre o passado e o viver do presente , essa imanência que uma vez nós , sempre nós , tal como o ditado espanhol “ Porque justo a mim me coube ser eu?

Às vezes, temos pena da gente mesmo , um direito justo se não for exagerado , “O que Deus quer de nós dizia Jung , em suas reflexões angustiantes perante o Mistério e a onipresença da dor psíquica ,a dor que não dispensa o sentido do viver ou do morrer.

Então o que nos resta , mais uma vez perguntando ?

Ir , redefinindo a descrição de nós como peregrinos , os que vivem dentro do tempo , buscando sua intimidade , para que ele o tempo, nos ensine o que de fora não temos como aprender , o que nossas fronteiras maculadas e doutrinárias cegam o alcance , e talvez assim tenhamos com o futuro uma relação de amor onde nossos objetos não sejam tão substantivos.

Esse parece ser o espírito da gratidão , que já habita o futuro , pois embora tudo passando materialmente, nem por isso deixa de reconhecer o valor do que recebeu , a intenção e a qualidade do que foi oferecido , a inscrição do gesto nas alturas , lá onde os homens colocaram o Céu .

O Céu enquanto metáfora das alturas do cotidiano , que tão cheio de vícios e conteúdos nos asfixia , nos torna duros e exigentes , nos faz engolir o choro abençoado de nossas lágrimas tão conexas e íntegras e também da alegria tão verdadeira de nossas celebrações .

A vida como celebração da alegria do existir e da reverência profunda à dor que nos ensina e nos irmana , apesar do nosso narcisismo falido insistir que só o Eu é a plataforma , o atraso em relação aos que já não precisam tanto defender , pois menos compulsivos na redução mental de fazer da vida uma onipotente contenção entre as quatro paredes de si mesmo.

VALEU

 

 

 

 

5.12.12

Ai ! que tudo vai passando ...


 
A vida anímica é pra nós a vida por excelência , a vida em que nos encontramos , em que nos praticamos , onde aprendemos o mundo , e a nós mesmos.
Desde sempre, é essa vida pela qual lutamos , cenário único de nossos embates e onde vamos adiante na busca de ser feliz . Esse mundo é a nossa crença favorita , guarda –roupa de nossas vestimentas , desde as usuais , corriqueiras , até as mais luxuosas de raras ocasiões.
Obviamente, é onde o mundo se compõe com seus arranjos e desarranjos , com o grotesco e o sublime de suas concepções e onde todos nós nos encontramos , como num grande palheiro que nos faz buscar conexões invisíveis ou inexistentes , para dar algum sentido a essa imanência de estarmos juntos sem saber exatamente para que.
Quem nasce ratifica e testifica o que existe , e promete não só cumprir como animar as construções ancestrais , alcances e limites dessas concepções que nos norteiam , que nos oferecem à estrutura e os modos de segurança , bíblia importantíssima par nos poupar esforços desnecessários.
Somos atores com script definidos, e que temos por questões singulares indefinir, já que o mundo muda quando nascemos ,uma vez que somos representantes de um processo único e complexo , um enorme trabalho de energia e desejo, que nos torna dependentes da significação.
Habitamos a todo tempo à significação e a buscamos em tudo , nosso lema é ser reconhecido e se possível amados .Essa estranha filiação ao sentido , nos faz a princípio querer estar em tudo, como se nossa ausência assinalasse uma dispensa , ou seja, minha presença , diga-se material, é a senha da minha inclusão, preciso estar em tudo.
A idéia de ser esquecido é um tormento que nos força a um tipo de grupalidade um tanto tribal , onde a solidão é vista como um negativo , uma falta do outro , um sentimento terrível que nos apunhala frontalmente , uma pergunta sofrida e ácida de quem sou eu quando fico só?
Então , vamos nessa , tudo junto , o junto aqui como uma forma de ocupação , um sentido visível do outro , a diluição do medo de escuro quando a mãe está perto.
Isso anima a vida em todos seus rituais anímicos e seus jogos de animação , assinamos essa forma de prestígio a cada dia , e protagonizamos suas sequências , dia-após-dia.
A princípio, tudo nos faz acreditar que é assim mesmo ,e qualquer modo de insubordinação é mal-visto , pois existem sanções nos estilos também , já que o coletivo precede o individual , e a forma precede o estilo.
As ordenações, que merecem estudos a parte, regulam a vida e sua forma de preenchimento, nos inculcando noções  e nos direcionando para valores que , em resumo, nos dizem o que é certo ou errado.
Vamos ser homem ou mulher , e se for gay já complica, de acordo com os cânones estabelecidos , forçações ( não existe essa palavra, inventei) ideológicas que reasseguram à ordem , a moral e os bons costumes , chavões de uma sociedade parasitária que não quer mexer com seus enganos.
Mas, se do ponto de vista coletivo , vemos o mundo com sua maquinária apelativa e cheio de ameaças aos descontentes , por outro lado , do lado da terceira margem do rio , onde a subjetividade não tem a marca de um mero reflexo dessa mumificação social , nossos apelos singulares , nos cobra a razão pela qual nascemos e se não fizermos diferença , embotamos o valor do próprio nascimento.
O risco aqui é permanecer não-nascido no singular e com o protótipo de personagens de animação , cuja liberdade está no limite mesmo do seu desempenho , ou seja, o mundo me diz ao que vim , me prometendo suas glórias e infortúnios , me oferecendo a possibilidade de não ter que me dar ao trabalho de descobrir .
Nascer é forçar , é coragem , é encorajar-se para mais , é um descontentamento perene com todas as promessas do mais fácil , é uma ruptura profunda onde o que era primordial se faz supérfluo, e o que não tinha importância parece então fundamental.
A viagem não se faz sem revolta , sem insubmissão , pois é preciso questionar para saber , é preciso lançar-se , mas não para respostas definitivas e cheias de certezas , não , o mote aqui é outro , por querer nascer não sei quem sou ... e por favor não me digam , vivo de forma plena no que não me satisfaz.
Penso o quanto a arte quer vida , o quanto o singular no esteio do coletivo faz à diferença , e o quanto precisamos nos sentir únicos para poder amar , já que o amor não pode ser o sufocar das diferenças , mas o berço onde se nasce como celebração desse único.
Pois há um momento mítico em que essa operação profunda cobra sua realização , já que na medida em que tudo vai passando , mesmo ao que nos agarramos para prender , esses jogos anímicos de sustentação da vida vão imperceptivelmente se esvaziando.
É como se os nexos afrouxassem, e os fossos se abrissem um pouco a cada dia ,e como se de nós para nós, algum silêncio se fizesse , alguns hiatos nos intervalasse e o mundo , esse tão familiar e estranho mundo , ficasse um tanto fora de foco , fazendo com que certa estrangeirice nos apossasse , nos trazendo certa memória sem conteúdo.
Memória essa que nos remete ao que há de mais vago para uns , ou ao lugar de ausências , o âmago da poesia , dizem os poetas , já que por princípio o que fica é o que já passou , o inexistente com feições de saudades , dores silenciosas de se saber, que no jogo maior tudo se vai e nada fica .
Quebra-se as identificações , essas molduras que nos garantem feições socialmente ratificadas, e aos poucos começamos um longo caminho a sós , onde as sonoridades diminuem , os frenesis já não interessam , e as conversas sem humor parecem enfadonhas .
Todo pequeno aparece como tentação , como apego , uma sedução de não ir , como se fosse possível ficar , apenas um truque de se permanecer acompanhado quando o funil aparece , ou companhias presentes para uma alma ausente .
Tudo uma grande e bela recordação , um poema diria, um ir não se sabe pra onde , mas com o registro de que todos vamos ,talvez para descoberta do que nossa forma de viver encobriu , talvez para o mesmo âmago do mistério que um dia nos trouxe.

15.11.12

A cura e o incurável


 

Há em nós, nessa cultura fálica, um certo temor de admitir que algumas coisas não tem cura e pronto. É como se tivéssemos que curar tudo , um "furor curandis" que tem nos dificultado e muito. Talvez se, num ato sincero, reconhecessemos o que não tem cura , poderíamos ver melhor o que tem, e com isso redefiniríamos nossos limites.

 A idéia de cura é complexa , pois, por muitas vezes, o que temos por cura num nível pode não ser no outro, como no caso de uma enfermidade, que por muitas vezes precisa ser mais rápida em sua manifestação , com o risco de que uma outra poderia ser fatal .

É o modo como a vida defende seu patrimônio ,e é possível pensar, que não sucumbimos por ela estar ao nosso lado . Tantas loucuras , tantas ignorâncias ,que perguntamos porque não foi pior? Porque a vida nos defendeu , já que seu princípio é manter todos vivos e espertos .

Pra que ? O que se passa aí?
Freud categoricamente afirmava que o que queremos é morrer , o descanso nirvânico da tensão nenhuma ,mas a vida é que não deixa . Não deixa esta tensão zerar , de formas que economicamente estaríamos no máximo do gozo . Mas viver dá trabalho psíquico e físico também, pois temos que agir no mundo , aceitando suas regras e buscando o como fazer melhor com menos trabalho .

Submetidos à pressão da vida social , o esforço é enorme e muitos não conseguem e se alheiam  ou desistem e saem da estrada .Até pra ser masoquista diz Lacan, "dá muito trabalho". E de fato, perpassados por diversas forças que sobre nós atuam , desde a natureza até nossas pulsões , aprendemos que sem malabarismos , nada feito .

Viver e com-viver, é um ato contínuo de malabarismo , onde aguçamos a atenção e não podemos deixar cair tanto , pois sabemos o quanto é difícil levantar .

Lutamos então para flexibilizar , pois o vento bate e nos curva e com isso nos movimenta pra lá e pra cá , e com isso aprendemos a sacudir , " levanta , sacode a poeira e dá volta por cima " diz a letra que marcou época , indicando uma série de movimentos e de gingados que o malandro , essa figura incrível, precisa ter.

Mas também parece verdade, e Freud observou isto também, que muitas coisas , ou modos de configuração da matéria mental , parece obedecer a outro tipo de apêlo , pois insistem em ficar no mesmo lugar , apesar de toda evidência em contrário , mostrando que chegou a hora de mudar .

Tem-se inclusive a impressão que quando se busca mudar , há algum tipo de leitor que ao denunciar o desejo , conclama todas as forças da mesmice para protestar , gerando boicotes às vezes tão grosseiros, que chegam a parecer um tanto ridículos .

O desculpismo tem seu próprio vocabulário e sua retórica impenetrável , que nos dá a impressão clara, que se luta para ficar e não para sair.

O sintoma assim posto é paradoxal , pois quer e não quer ao mesmo tempo, ou seja, a economia vista pela relação custo-benefício , aponta o custo e o consumo energético, que se tem para manter o sintoma enquanto um modo agudo de condensação psíquica .

Por outro lado a liberação energética , implica em mudança de posicionamento para que novas circulações sejam possíveis , e aí começa um fenômeno que impressiona os analistas .

Quando a energia afroxa e consequentemente o campo distende , é o momento onde a diminuição da tensão psíquica abre opções ao campo mental, que antes sequer era possível cogitar e o que era da ordem de fantasias distantes se aproxima .

Isto resulta em que o desejo ganha força e novas impressões surgem, e por princípio revigoram o cenário mental , de formas que algo se expande fazendo com que o que está estabelecido entre em vibração e comece a balançar , a "vertigem da liberdade" que Kiekgard apontava.

Novas avaliações se fazem e re-ordenações passam a acontecer , até aonde a pessoa não se sinta ameaçada pelas rupturas que percebe se delinear na sequência , pois justo aí, é que começa o perigo.

O perigo, de mediante algo novo e diferente por falta de identificação psíquica , fazer recuar em nome da segurança do já conhecido , toda energia liberada e desta forma cair na tentação econômica do" deixa como está".

Ruim com ele , pior sem ele , me dizia uma mulher num casamento já inexistente e destroçado , mas regulador de fantasias de destruição para alguém, que desde cedo , não pôde se experimentar sózinha. O gozo narsícico da singularidade , o ímpar da diferença , o brilho do valor único , que nenhuma relação não oferece por si , mas pode se tornar um bom lugar para prática do dois , enquanto um terceiro que brota no amor de dois.

A questão é que quando o campo abre oferecendo possibilidades , temos grande chance de exaltar a pobreza do lugar comum , como contrapartida ao maior , um tipo de fobia à espaços maiores que supomos exigir o que não temos.

Assim temos as razões para desistir , as velhas desistências que nos empurraram para o sofrimento que queremos nos livrar. É como , depois de todo preparativo para o salto do trampolim , desistíssemos e optássemos por ficar como sempre , uma armadilha ardilosa com gosto de fracasso , verdadeiro laço que nos une à uma mesmice muda e vai selando o fracasso como destino .

É lamentável, que mesmo nossas psicologias não ajudem muito , e que a Psiquiatria acabe compactuando com sintomas , um modo onde as questões verdadeiras da criatura , fiquem presas nas penumbras de seu recuo.

Tem-se então a impressão que se vai ficando , abandonos silenciosos de sonhos mais ousados , entregas à fronteiras estreitas que sacrificam o dinamismo mental, insatisfações que cada vez mais tornam os nervos frenéticos , gerando impaciências , irritabilidades , intolerâncias e por fim um forte sentimento de impotência , que hoje , respondem pelas bi-polaridades psíquicas.

A cada recuo , é difícil se dar conta que o futuro esteja em jogo , pois o elo recusado tem em uma de suas interfaces , não só o passado , mas o devir , o que poderia ser , caso fosse .

Melancolias do futuro, que nos deixam com sentimentos de atrasos que não sabemos do que , é como se corressemos atrás cada vez mais , com a sensação que a maçã pendurada em nossa frente se afasta na medida que buscamos mordê-la . Com isso, nossa confusão só faz aumentar,pois nosso esforço começa parecer inútil , e nossa vida a ser tomada pela alma das obrigações e deveres  que aos poucos vão parecendo castigos , a tal ponto que , muitos autores, ainda vêm nisso a "queda do Éden" se repetindo em nossos infernos brandos e repetitivos.

O incurável é o que é assim e pronto , não vai mudar , não só por que não se quer , mas também como uma mostragem que nossa capacidade de reversão tem limite . Não podemos ser o que queremos , e nos resta reconhecer que temos que viver no que nos é possível, eis a nossa castração de todo dia.

Aceitar isto nos torna modestos , enquanto hérois de uma vida simples , mas pode ser também uma libertação das fantasias fálicas que sempre nos obrigam a debater com a vida o seu porque e sua ordenação , e admitir que falhamos . Falhamos em ser como o pai , como o avô , como machos comedores , como a mãe , avó , como super-mulher ou super-homem , e descobrimos que se não formos como somos e tomarmos nossa chance única, que só nossa singularidade nos oferece , nosso jeito , nosso estilo , seremos um tipo de doublê de nós mesmos , a estranha retórica que não nascemos para ser felizes.

Talvez o que queiramos curar, é justo, o que não tem cura , e o que passamos a vida recusando, seria então , o que poderia mudar o jogo a nosso favor.

Mas.............

 

 

 

 

 

 

 

22.10.12

Quando bate a hora , ultrapassagem e morte na estrada de si


 
Continuando então a reflexão postada no artigo anterior (que diga-se , não sei qual) partimos então do bater da hora , o momento intenso, profundo, que se instala como uma névoa , um tipo de embaçamento que vai se manifestando sem que possamos controlar .

Algo se altera à revelia, como um marco , um momento em que a ruptura se estabelece, e a partir dali , a corda se rompe e o barco desliza, sem que o dono possa imediatamente trazê-lo de volta , algo como “os dados estão lançados” , há de se viver os resultados.

A idéia de que nossa vida possa ser regida por algo adiante , não nos é tão familiar , já que nossas determinações parecem vir todas do passado , ou seja , do que temos registro , o que se inscreve na memória , nos dando um senso de continuidade , que para muitos estudiosos , é a nossa maior ilusão .

Com o passado temos um tipo de intimidade mnêmica , um tipo” juro que foi assim” , ou um grau de certeza , já que afirmamos que em tudo que já nos passou , estivemos lá.

Estivemos mesmo?

Eis uma estranha indagação, inconcebível para uma padrão mental que alicerçado em categorias de certezas, recusa enfaticamente à possibilidade de ações no plano psíquico que não tenham sido induzidas por um sujeito , mesmo que esse sujeito seja partido , ou inconsciente , como diz a Psicanálise .

No entanto , também seria equivocado , dizer que nossa vida seja apenas  a expressão dos nossos quereres, pois nem sempre se muda por que se quer , e sim porque já não temos como conter o que saiu do lugar , já que depois de tanto in-decidir , a corda ao se romper , já não nos deixa outra alternativa, senão largar para seguir.

A figuração de seguir  nos comove , seja na literatura ou no cinema , ficamos impressionados com os personagens errantes , aqueles que parecem nunca ter endereços definidos , ou mesmo de morarem em lugar nenhum.

É como se encontrássemos o que temos de fluido , um contra-ponto dos modos pesados que nossa solidez nos impõe , a vida que materializa suas regulações como ordens inconteste , nos dando a impressão que nosso script , é um tipo decoreba , uma cartilha de sinalizações que tem o mérito de nos levar aos mesmos lugares de forma mais econômica.

Mudar é suportar o atrito com o que se tem de mais rígido .

E nossa rigidez é a forma mais arcaica, do quanto nossa identidade primitiva ainda é indiferenciada , o quanto qualquer vivência nos faz sofrer em termos simbióticos , como se fossemos protagonistas de uma constante ameaça de destruição , ou seja, tudo que tenha o poder de nos desautorizar, tudo que torne nossa autoridade impotente em nos salvar.

Em nosso nível primário o que nos interessa é manter pra nos assegurar da continuidade , da perspectiva de que as sequências não nos decepcionarão , e de que nosso viver é o modo manifesto de nossa ilusão sequencial .

A neurose é uma ficção sequencial , um apelo tão forte às figurações lineares , que a milênios sofremos desse modo de doutrinação , postulados que ao mesmo tempo que nos oferece abrigo , nos deixa à deriva , quando temos viver rupturas atéias , aquelas que não se importam com as liturgias de nossas crendices particulares.

Uma vez que a hora bate , sacrifica-se as sequências habituais , e vive-se o medo do escuro , a opacidade do que chega , já que nos instiga e nos atemoriza , uma paranóia com gosto de que algo acabou, e que nos é extremamente doloroso te que largar.

Ir adiante, ao mesmo tempo, que parece o clamor de nossa liberdade , é também um tipo de sentença de morte,  em que sentimos o presságio de nosso fim , um certo desespero do que será de nós ,já que despossuídos de certezas e cheios de dúvidas por todos os cantos de nosso ser, tentamos nos agarrar a qualquer fiapo de certeza , lugar onde nos tornamos sensíveis a qualquer profeta que nos diga o que fazer.

No que a corda se rompe e o barco começa a se afastar , somos tomados pela re-visão feita pelas culpas e dívidas que carregamos com relação as nossas competências , isto é, onde nossa presença pode estar e se dizer , ou onde nos escondemos em nosso-faz-de-conta habitual e buscamos o emudecimento como refúgio .

Nossa simbiose implica em rever contratos de convívio , lugares onde depositamos omissões e cultivamos a surdez  como meio de não se inserir , único meio pelo qual a vida pode nos perdoar , já que mudar é buscar uma outra forma de inserção , uma redenção do que é restrito e exigente , e tomada das grandezas como “entrance” no que é maior e generoso .

Toda crise é um confronto com que é mesquinho e particular demais , um empuxo para um devir de maior abrangência e com-sideração , um aprender que não está nos livros e cujo professor é o valor da própria questão.

Aqui tudo precisa ser visceral , algo mais próximo das entranhas , lugar de onde se veio , a melhor forma de saber pra onde se vai , já que o fim e o início estão sempre , um término é também um recomeço .

A morte de si é um funeral narcísico , uma ruptura com todas as fantasias sobre si construídas ao longo da vida , um sistema de compensações e de exigências que fazem do amor o lugar de aberrações e de renegações de limites.

No que sou destituído , não há como não encolher , uma redução de tamanho que pode causar regressões literais , um sentimento de incapacidade de continuar , que nos faz questionar o quanto crescer é uma exigência , mais do que um desenvolvimento compassado de fases psíquicas.

18.9.12


A REVOLUÇÃO DO MÍNIMO

Habituados aos anseios pelo maior , seja lá o que isso queira dizer , esperamos por algo que venha a mais , que nos traga sensação de ganho , essa economia que o capitalismo só faz reificar e se valer , esse preenchimento quase compulsivo ... do nada.

Vida moldada por essa troca perene , entre o que sai e o que entra , vivemos aí, os ganhos e os prejuízos , que validamos por algum critério particular , que sequer conseguimos explicar pra gente mesmo , por exemplo , uma sensação de perda é o suficiente para comermos a mais , ou gastar não importa muito com o que , ensaio de uma reposição simbólica do que se foi .

Essa economia que nos torna contábil a todo tempo , rege nossas transações e dependendo, dão uma concretude desmesurada ao que buscamos , de tal forma que nos arvoramos nessa busca , dando a ela um estatuto quase vital.

Dependendo do valor que esteja em jogo , a própria vida entra na roleta , e pode ser a última moeda a se apostar , como se, ao não suportarmos perder , entregamos o perdedor , única alternativa de uma pretensiosa  fantasia de acabar com o jogo, acabando com quem joga.

Lacan diz do mais –gozar , ou seja , sempre queremos mais , pois o inconsciente é da ordem do capital , que sempre quer mais , por isso é capitalista . Esse a mais é o moto-perpétuo do desejo , esse insaciável que rege a economia de todo movimento .

Mas, inseridos nesse sistema somos consumidores de todo tipo de fetiche , seja na roupa , seja no sexo , no cigarro , enfim , no que for , lá estamos numa oralidade quase acrítica , que põe pra dentro tudo que é sugerido , sem nunca perguntar o quanto custa sair.

Diria mesmo, que criamos uma oralidade própria aos tempos modernos , tempo de consumo, dos insumos rápidos de pouca digestão , que afetam profundamente o aparelho gastro-intestinal , considerado o segundo cérebro do corpo .

Sem entrar em reflexões psicossomáticas , o fato é que , ou sofremos de desarranjos, ou de constirpações retentivas , expressão de distorções energéticas de nossos apegos ao impegável, ou de nossas expulsões rápidas , talvez traídos pelo que entrou sem merecer.

Sempre me pergunto se o quanto o ganho , ao se tornar elemento chave , pode nos fechar ao invés de nos abrir , o quanto nos tornamos sujeitos a velha fórmula de ganhar e não levar , agonia constante para nossas aflições possessivas.

Penso que a sensação de ganhar pode ser fictícia se não nos leva adiante , um passo a mais , uma amplitude diferenciada para melhores opções, pois afinal , o que significa ganhar e estar sempre no mesmo lugar?

Precisamos nos sentir melhor , uma justificativa para nossos investimentos , por vezes tão caros e sofridos que não deveríamos nos contentar com pouco , um a mais , mas com qualidade , uma estética mais apaixonante e desafiadora e não meros fetiches inúteis que só fazem nos engordar, e se sentir vazios depois de dois minutos.

Se o ganho for a palavra de ordem ,a celebração se sacrifica já que é contemplativa , pois nos dá um ganho que não pode se contabilizar nos registros usuais , é um ganho como a arte , um ganho de um sublime a ser deslumbrado e não possuído e guardado.

Esse ganho da celebração quando se abre na alma , nos coloca frente ao extra-ordinário , onde se ganha com o menos e não com o mais , um des-possuir-se  ao invés de possuir e conter, um largar para permanecer mais vazio ao invés de entupir-se e querer mais para se preencher.

É justo aí , que descobrimos todo valor do mínimo , o valor do que se tem e não só do que se quer , um louvor de gratidão aos invés dos protestos insaciáveis , a beleza nas mínimas manifestações que , em geral são despercebidas .

Num vídeo recente feito por um canal de televisão se não me engano , filmou-se a vida desde os embriões até seus corpos adultos , um trabalho de rara beleza e de silêncio fecundo onde nada atropelava nada , como se cada etapa soubesse seu lugar e hora , sem brigas desnecessárias , numa interdependência compassada de mesmo sentido e direção.

A filosofia moderna nos ensina que não temos natureza , que não temos essência , logo somos nada e podemos ser tudo , um laborioso trabalho de decisões e escolhas , embora curiosamente , algo me faça acreditar que estamos fadados ao Bem.

Se não temos a harmonia a nosso favor , podemos então , apreciar o valor do Bem em comum, esse gosto ético-estético e espiritual de estabelecer direções para nossa energia onde a vida se faça melhor pra todos.

Se há aí, algum tipo de queixa de ter sido deixados a sós pela natureza , que não nos dotou de instintos que nos dirija e nos mostre o caminho, por outro , nos deu o espírito da aventura , da graça de arriscar e descobrir , de ter o poder de discriminar o quanto o Bem nos eleva para uma plataforma de maior visada, onde o ganho mesmo , é o que pode ser um patrimônio comum.

A vida nos dá a cada dia e recebemos cheios de reconhecimento , algo que relegamos a uma religiosidade das religiões, mas que só nos coloca em mais-erro , ou seja, quanto mais aderidos, mais pegados e pesados , a vida como uma carroça para os sonhos , estranho contraste com a velocidade dos fetiches.

Nossa religiosidade é a celebração do que existe e nos é oferecido sempre ,uma metáfora de grandezas livres e desimpedidas  e por isso livres de medidas estabelecidas, sem pertencerem a um sistema específico de valor e reconhecimento.

É um patrimônio de todos, sem preço estipulado pelo homem , é o gozo não-material dos sensíveis, que vêm a beleza que desabrocha sem alarde, sem cobrar nada a quem quer que seja, a não ser que vivamos com olhos de ver , já que o homem morto é o que mais interessa, pois é uma presa mais fácil .

É o homem que não vê o aqui , pois é lá que o objeto está... mas lá onde?

Na sua fantasia de apropriação , no seu querer ser dono e mandar sempre , na mera revolta de não se deixar capturar pois é livre ... para ser escravo , o gozo que Nietsche abominava , pois era dos fracos e ressentidos.

O homem morto pede a sugestão pela recusa de ter que descobrir e decidir , e enquanto in-decide , pisa nas flores pelo caminho , não se emociona com as estrelas e não vê poesia ao seu redor , menos ainda quem lhe precisa.

 A revolução do mínimo é para poucos , os que buscam o gozo da qualidade sensível , cheios de recheios naturais , numa postura de quem vive a favor e que mesmo sofrendo do querer mais , que seja o melhor para todos.

Para isso revê suas medidas para o que lhe convém , um direito de ser-feliz , sabendo que não é o muito sua senha, e que seu pouco é sua leveza , já que seu desprendimento é o seu maior gesto de amor para consigo , não como uma indiferença , mas como uma paixão .

O mínimo nos dá intimidade , está nos cantos , nos prazeres intensos e gratuitos , seja no café , no banho, no papo , nos sortilégios do imprevisto , sempre na forma de uma gratuidade que provoca o espanto do custo dos prazeres vendidos.

 

19.8.12

Sem tristeza não se chega no fundo , no pró-fundo .




Escrito ao som de Adele , a triste que encanta o mundo


É curioso como nossas dores maiores parecem penetrar no mundo , tudo dói em tudo , a memória parece fazer uma cumplicidade com todos os ínfimos detalhes , até mesmo aqueles que nunca sequer nos importaram ,e agora tudo é ,uma opacidade, onde as paredes, por não conseguirem conter o clamor, o faz deslizar.

Deslize onde tudo se repassa sem piedade , como se merecessemos passar pelo que estamos passando , não exatamente por castigo , mas como abertura para outros estados, onde a alma enfrenta o profundo , uma tarefa que parece pertencer à sua vocação .

A principio , uma vocação maldita , que arrasa o bem-estar costumeiro , esse nirvana sintomático do cotidiano , onde descansamos nossas vidas e temos um senso de continuidade consigo mesmo, sem grandes saculejos ou empurrões desnecessários .

Nossas ficções de amor são caprichosamente trabalhada nesses lugares , pois não pensamos no amor como um furacão , mas como um vento-a-favor , uma reiteração melhorada do que já temos ou do que podemos acrescentar , mas sem grandes saculejos ou empurrões desnecessários.

Eis que numa conjunção ou disjunção cósmica qualquer algo se rompe , e sem nos consultar nos faz viver dores que não pedimos , nos dando o gosto terrível da impotência , o apagamento de todos objetos e fetiches da magia , onde o encanto acabou , simples assim .

Acostumados a sermos o centro do universo não-Copernicano , que veio nos chatear , fomos des-centrados , jogados para laterais ou para os barrancos que nos fazem rolar , machucados que ardem no ato e no tratamento .

Uma impressão profunda que perdemos , que não teremos mais , que misturada a idéia que talvez não tenhamos aproveitado tudo , só agrava nosso rasgo , um sulco no centro da alma que se parte, uma viagem ao fundo , que curiosamente nos arrasa , nos tira o raso.

Vazados , somos despossuídos , uma contra-mão de quem se preparou e foi preparado para possuir,a mão que mesmo contra, se abre para deixar de fato o que já não pode manter, uma sentença feita à fantasia de tentar salvar o que já não é possível.

Ah ! que dor , eis o nosso brado emudecido , de pouco alcance às palavras , somos empurrados com saculejos de todos afetos envolvidos , parece que nosso valor foi o maior blefe vivido , uma mentira que não resistiu aos ataques do que se foi .

O que se foi , foi levando em nós o que nos era mais caro , o que tinhamos de mais caprichado , e ele sim tem valor , o valor de nos fazer sentir uma merda , a vitória escatológica que nos arrebata como um guerreiro que lutou , lutou , mas não resistiu à dor do que lhe foi tirado.

Toda nossa rotina de si foi alterada , pois a vida já não acompanha nossas intenções, que mal sabemos quais são , até pensar em morrer faz parte, nosso senso de preservação se altera, pois , já não sabemos se queremos se manter , pois vem a cruel pergunta; se manter pra que?

Nossa alma parece ter ido embora , nos largou sózinhos e sem nenhuma inspiração maior , um corpo sem metafísica , um pensamento sem corpo , um monismo apagado e um dualismo sem ligação , ah! quanta tristeza!

Tudo parece se dirigir para o fundo , que tal como nos sonhos não tem base, e nos faz tremer com a idéia de continuar caindo sem parar , ou mesmo de ter que se agarrar aquele galhozinho magro na lateral e passarmos ali a vida inteira com medo de despencar.

Nesse momento, constatamos que nossa vida pertence à uma certa altura , que já galgamos muitas coisas e subimos vários degraus ,e cair ou despencar é contrário a tudo isso , somos anti-gravitacionais , não queremos ficar presos , sentimos falta radical de nossa cidadania nas alturas.

O tempo e nossa força de aceitação e elaboração vem a nosso favor , precisamos voltar a existir , desconfiamos que somos uma peça que fará falta no tabuleiro , que precisamos continuar , nos recuperar do golpe duro e dificil , juntar o que nos restou e aos poucos levantar .

Somos seres de desafios e mesmo combalidos , em algum nível , voltamos timidamente a nos querer de novo , reequacionamos o valor do que se foi , estimando se foi um ato do destino ou uma decisão pessoal , ou seja , se o que perdemos foi pela parte do destino ou se foi por decisão de alguém.

Esse modo de compreender tem fortes influencias em nossa forma de re-considerar e é decisivo na ordenação de nossas forças, e sem ter em conta casos mais graves , nos ajuda muito em transformar dor em aprendizado .

Mas para isso é preciso deixar a tristeza viver , entrar em seus estados d`alma , seus cenários e labirintos , até que aos poucos como uma bela mestra até então escondida , começamos a perceber o quanto estamos mudando e pensando o que tinhamos medo até de chegar perto.

Um novo fluxo vai se desvelando e atualizando nossa energia , nos dando uma nova consciencia das recusas , da surdez, das carencias , das submissões forçadas por medo de deixar ir, do nosso "eu" pequeno e arrogante , especializado em estratégias desde cedo e que com isso nos dificultou poder se ver , um pouco mais nú , um pouco mais crú.

Descobrimos que somos filhos das polaridades e negar isso é forçar uma filiação que não se mantém , somos dialéticos , um tanto assim como assado , tanto direitos como tortos , ternos e agressivos , nobres e plebeus , e descobrir isso sem mal-dizer, é uma experiência que nos deixa felizes, pois percebemos que lutamos muito para sermos aceitos.

Mudamos a relação com a alteridade , pois o outro não é mais dono , e eu não vou mais brincar de acordos que não ratifico , um surto de sinceridade que convoca toda coragem que jamais tive.

Vejo o quanto minhas tristezas me são necessárias como antídoto contra o superficialismo sem alma , essa cumplicidade coletiva que me obriga a ser personagem de textos que não me reconheço , ah " minha alma o quanto te preciso , o quanto é você o meu mistério , o eterno devir dos meus altos e baixos , a grande companheira de uma jornada dificil e longa, é com você que sigo , pois sei que eu e você , você e eu , nos precisamos .

Mesmo que eu caia , sei que você luta pra me levantar , que eu erre e você luta pra eu acertar , que eu sinta o fim e você me propõe o recomeço , que me soergue dos vales escuros e me conforta com um pouco de luz , que me salvaguarda das ilusões de superficie me dando a dor que me aprofunda , pois tenho aprendido que é lá que você mora.

Como não tenho imunidade , passarei pelas dores do mundo e espero com a maior dignidade possível , já que ouço os choros ao redor e me comove o coração apertado, mas vivo porque sei que só quem está vivo pode sofrer e levantar, afinal , estamos numa escola, dizem os sábios , e como aluno me resta aprender e bem o que me ensinam e por isso , não me recuso à tristeza , pois sei o valor de suas matérias.

Há ou não inveja do pênis?