22.3.12

sortilégios do bem-viver : a criança, o velho e o dinheiro



Num desses domingos límpidos de outuno , onde a vida parece que foi polida e tudo ficou fácil de ver , pois a luminosidade foi regulada para não ferir a sensibilidade , me preparei para um encontro com pessoas notáveis .
Aniversário de minha ex-mulher , com direito à velhos amigos , lá fui eu.
De pronto, uma casa enorme , construída pós-separação que me faz pensar que se sentia oprimida comigo , e no alto , com uma escadaria substituta da igreja da Penha para os pagadores de promessas que resolveram fazer por menos.
Em lá chegando, todo passado logo se fez , mas com feições e afeições renovadas , companheiros de geração , caminhantes com tempo de estrada , era notório que os rostos são fiéis e permitem ver , que o tempo além de belo professor , também é exigente com seus alunos .Envelhecemos todos , mesmo guardando as proporções ,não há como negar.
Misturados então com as novas gerações , o contraste é pura denúncia . Apolos que buscam sua vez , fazem relembrar o início , o como tudo começou . Toda vez que penso nisso , vejo o quanto a morte é sábia . A morte consagra o tempo do realizado e do que ficou por realizar , pois há um compasso apropriado para essas realizações , pois depois, já não interessam tanto. Luta-se pelo que se acha que vale a pena , mas descobre-se depois que nem tudo vale o esforço.
A arena já não comove tanto e os gladiadores se tornam entediantes , prima-se pelo bom-gosto .É o grande salto , o bom -gosto. E só os amigos que entenderam isso permaneceram .
Um éter de qualidade paira no ar, uma tolerância dos que conheceram a desilusão , dos que menos aprisionados pelas expectativas podem achar graça de tudo , pois nada é tão grave quando os limites são mais naturais.
Depois de tantos encontros gostosos e cumprimentos encontro na fila do crepe saboroso , feito com amor e carinho , meu amigo bonitão , Luiz Fernando, a quem dedico estes escritos.
Como confissão particular , gosto de ir para esses encontros sempre com humor apurado e com boa atenção , pois, em geral, tudo me diverte.
De repente, não me lembro exatamente porque, Luiz diz o seguinte , que me impressionou:
" Tenho um amigo que diz, que existem 3 ítens para se conhecer uma pessoa :
1- Sua relação com as crianças
2- Sua relação com os idosos
3- Sua relação com o dinheiro
Achei muito interessante , pois não havia pensado tão sistematicamente nisso.
Redobrei minha atenção e Luiz então desdobra os argumentos " As crianças são o início de tudo , o por onde tudo começa e já passamos.
Os idosos são dependentes e já nos deram, é hora de nós darmos a eles . ´É uma doação de si  mas sem recíprocas e sem palco, pois é uma doação tipo anônima , sem estardalhaços e discreta.
E quanto ao dinheiro , quando chega, muda as relações , aparece o que antes não havia , a desconfiança.
Daí pra lá o tema me segurou e ficou me ladeando.
Resolvi então aceitar o desafio de desdobrá-lo , e agradeço a meu amigo à inspiração.

O que são crianças ?
Se por um lado todos nos sentimos com algum direito a opinar por termos passado por lá , criança é uma criatura a quem estamos devendo novas elocubrações.
Momento fundamental e originário da construção psíquica , se constitui num universo tão extraordinário, que a cada dia nos surpreendemos com novos dados.
Em alguns trabalhos de pesquisas sobre a vida peri-natal descobre-se que a interação criança-mãe é viva e de mensagens recíprocas no plano mental-emocional.
Os estados da mãe são altamente influentes no feto , que por sua vez configura muitos estímulos de forma precoce, como se antecipando ao porvir. Um modo como a vida se defende , defendendo seus protagonistas .
Toda criança é uma criatura cósmica e representante de toda beleza universal da vida , pois independente de nações, ou cidades , inspiram admirações e respeitos pela origem da vida.
Momento único de visão giroscópica e de inocência desinteressada e por isso tudo interessa, é a mente viva do início , que depois se enquadrará.
Convém lembrar que em geral é consagração do amor e representa o fluxo da própria vida , em seu sentido mais misterioso , e a nossa fragilidade , onde nossa dependência é mais exposta e ratifica o quanto precisamos uns dos outros.
Mas e os que espancam crianças?
É difícil não supor que o espancamento , que é a falta de limite do adulto , não seja de certa forma o modo como aquele se revive , em velhos traumas de violência , onde o limite é uma exigência feita mais ao que não é, do que ao que é.
Em cada ato violento é como se a criança fosse agredida pelo que não é , pelo que não nasceu, às vezes o ódio ao que não tem.
Não é como o irmão, não é como deveria ser ,nasceu no momento errado, trouxe novas incubências, enfim, é o próprio fracasso narcísico de quem espanca , que trás consigo a mesma dor mascarada pelo orgulho e pelo ódio.
Óbvio , não se deve confundir violência com limites necessários ao bem comum. Ensina-se a viver em sociedade , a respeitar o  direito dos outros , a se reconhecer o próprio valor , enfim uma construção complexa de amor e paciência , o que anda cada vez mais raros.
Estamos gerando filhos da impaciência e da intransigência que virão pra nossa conta , a um preço alto , pois serão mais rápidos e tornarão nossas flexibilidades verdadeiras carroças do atraso.
Freud dizia que a criança é o pai do homem . Imaginem , como teremos dificuldades para nos livrar dela com suas tiranias e exigências , base da vida amorosa e social.
Estaremos fabricando homens e mulheres sado-masoquistas , com requintes de vinganças que farão do amor um campo do medo e da impotência.
Tudo começa em casa.
E os idosos ?
Em seu livro sobre velhice Simone de Beauvoir diz que quando Buda saiu do palácio de seu pai pela primeira vez numa carruagem , se deparou com uma figura desdentada , curvado e numa bengala e ao perguntar o que era , recebeu como resposta do seu cocheiro, que era um velho . Espantado o nobre princípe , que viria a se tornar uma das figuras mais importantes na história espiritual da humanidade , diz " Que tristeza que os seres fracos e ignorantes , embriagados pelo orgulho próprio da juventude , não vejam a velhice! Voltemos rápido para casa .De que servem os jogos e as alegrias , se sou a morada da futura velhice?"

Na outra ponta da escala linear , lá estão eles, nossos queridos velhinhos , pedindo respeito, amor e paciência também. Já nos deram e a hora é de reconhecimento , o guerreiro depois da luta , as feridas , os desencantos , as perdas, as melancolias , as realizações também, a família, os filhos criados , os netos e a morte na frente , na consciência do tempo que resta.
São nossos ascendentes , vieram primeiro , representam segundo Hellinger a precedência , e desrespeitar isso , é uma agressão a vida .
Já demos vários golpes que mostram isso, sendo o primeiro o torná-los inúteis , sem função social reconhecida , um tipo de anonimato forçado e perigoso que muitas mortes precipitam.
Uma quase total falta de planejamento social, já indica que a velhice é um tipo de demônio mal -visto e renegado. Tendo a queda da matéria como visibilidade, e a morte como pano de fundo , tememos o futuro que se nos afigura , ainda mais numa cultura cheia de mentira jovial , como se fossemos ficar eternamente juvenis e não fossemos morrer.
Obviamente , não envelhecemos de pronto e sim um pouco a cada dia , um estranho movimento oculto que só revela seus efeitos sem se deixar ver diretamente , mas que por ser irreversível , tem a força de um destino comum.
A consideração então com esses companheiros do tempo , é sem dúvida , um modo revelador,  pois aí, talvez esteja o que não aceitemos facilmente , ou recusa à algum tipo de identificação que possa nos comprometer , à diferença de Buda.
A força do tempo com sua flecha que segue , é algo profundamente instigador e temido , pois é verdade , que por não sabermos o que nos espera , projetamos todos os medos possíveis e imaginários , principalmente quando nos ocorre ficarmos dependentes de alguém, por nos faltar a capacidade de cuidar de si mesmo .
Pensar que vamos interferir na vida de alguém , por terem que nos cuidar, é algo que apavora grande parte da população , principalmente porque é uma fase da vida , em que as doenças nos espreitam e podem nos comprometer.
Há idéia de que possamos ser um peso pra quem seja , é dolorosa.
A morte começa a ser pensada, em muitos casos , como alternativa salvadora.
Cheios de saudades do que se foi , e melancolias de futuros incertos , o idoso segue com profundo sentimento de solidão , com insatisfações nem sempre confessáveis , pois já se sente dando trabalho.
Quando tem independência financeira , o que ajuda muito , tem o dinheiro como compensação e por muitas vezes é este seu trunfo .
Num mundo rápido de velocidades desconcertantes , ser velho é penoso.
Falta paciência e as irritabilidades são imediatas , pois velho é símbolo de atraso .
Lembrando que temos que estar sempre adiantados , temos que chegar nesses mal-ditos endereços que ninguém sabe aonde é. A modernidade líquida é assim , esfumaçante , e impegável. O idoso precisa pegar, aproximar , conferir ,pois seu sistema sensorial ficou mais precário , e com isso desacelera , para poder precisar. Mas , a grosso modo isso é uma heresia à pressa da vida moderna , pois temos que chegar.
É incrível como essa fase parece trazer , uma necessidade de explorar o mundo da sensibilidade , justo porque a diminuição do ritmo , trás o quanto se andou sem ver ou sem sentir . Há um tipo de reparação de si , um aprofundamento que o coração consagra , pois já não se tem que dizer como é , nem impor regras , nem muito vigor do como deve ser.
É um convite à um tipo de observação , um modo de perceber sem rigor , um tipo de descontração, que ajuda a se reconectar com o início , num exercício do como tudo poderia ter sido , caso fosse .
Tem-se aí a impressão que a vida tem mais opções viáveis do que se pôde ver e oferecer , é o que os avós numa grande generosidade da vida , pode então oferecer à seus netos queridos.
Muitos, procuram opções em grupos, que hoje ficaram consagrados , lugar onde se dança, conversa ,e se encontra o espelho que busca solidariedades por identificação.
Enfim, se carrega uma vida , uma história de si e de todos que nos frequentaram , todos que vivem em nós , todos que morreram em nós.
Diria então que a velhice é um lugar , que talvez estabeleça solilóquios onde o diálogo já não se faça tanto .
Aprender a arte profunda do Vivo , é a forma mais eficaz de passar por esta etapa , pois o segredo da vida começa a ser visto como modéstia , um lugar que permite se escutar os silêncios , as pausas , e as figurações que o inusitado vai desenhando em formas variadas.
Uma estética marginal , mas de larga sabedoria .
O velho é um doar sem fama , sem holofotes , pois requerem doações numa ordem diferente da que nos acostumamos , não há o que pedir de volta, pois já recebemos ou não.

Talvez os que acham que não receberam , se sintam lesados de ter que darem e em muitas relações este é um inferno particular , sem soluções rápidas, de dívidas e culpas , que nem a morte libera.
E o dinheiro ?
O dinheiro é a paranóia , diz Félix guatarri , o psiquiatra italiano , amigo de Deleuze.
E é mesmo . Aonde entra o dinheiro as contabilidades se assanham e o medo de ser lesado floresce . Como não temos um passado de transparências , e sabemos das falcatruas do mundo em sua voracidade pelo dinheiro , é fácil desconfiar.
O mundo é uma grande desconfiança , e o dinheiro só faz aumentá-la.
O dinheiro é a posse. Tudo de possessivo lá vem . Se perdermos a ordem de grandeza que nos confere generosidade , dinheiro é tormento . E tome de gente atormentada , cheias de medo de serem lesadas e passadas pra trás, gente para quem o outro é suspeito de início e sem absolvição íntegra.
Todas as formas de associação no convívio , podem ter o destino que a dimensão mal-dita do dinheiro induz. Seja o casal que pede ressarcimento ao outro pelo dinheiro , seja a familia que após a morte de alguém importante , imediatamente vai aos finalmentes, e cada um quer o seu rápido , ou mesmo tragédias que mediante dores intensas só têm como opção serem traduzidas em dinheiro.
Diz um autor que não me lembro bem" o dinheiro conseguiu o que Deus não conseguiu", apontando que a nível do dinheiro , até inimigos convergem interesses e a humanidade encontra um elo em comum.
É no dinheiro que vivemos nossas mesquinharias inconfessadas e grandezas pretendidas , nem sempre efetivas . Típico portador de uma lógica atrasada de uma suposta sobrevivência , é um lugar farto de desculpas e justificativas , pois amparado por um sistema que consagra os vencedores e desmerece os menos favorecidos , é o fetiche destacado da injustiça e da inveja .
Uma ordem social com estas premissas não deixa de ir ou de produzir ,mas põe a  descoberto setores tão importantes da alma , que se por um lado ficamos mais ricos , por outro nossa miséria espiritual é imensa.
Já tentamos tudo , para descobrir que se o dinheiro não for expressão daquilo que a alma tem de humana , uma ordem humana sem restrições universais , utopia descartada que a tal globalização tenta resgatar por outro lugar materialista, e com promessas de bens tecnológicos compartilhados,  teremos dificuldades de construir um elo que suporte , ou nos ajude a suportar o preço de um civilidade manca e excludente.
O dinheiro é um meio poderoso , mas um meio , não exatamente um fim , é restritivo demais, traiçoeiro demais , para nos garantir o vôo delicado do amor que a alma busca em sua realização divina .
Que seja então no possível , um meio que nos traduza em nossas possessividades sintomáticas , que levou Freud a associá-lo com a retentividade anal , onde o grande e o escatológico se encontram para se prenderem ou se diferenciarem.
Tomado como grandeza é capaz de coisas incríveis e de gozo material compartilhado , bem como, uma ordenação qualificada da vida em termos de ofertas . Imagino um bom hospital , uma boa casa , boas estradas, belos parques, uma civilidade ética e estética com o brilho que a matéria possibilita quando bem polida.
Mas o dinheiro pede justiça o tempo todo , pois mostra o contraste que nenhuma ordem econômica, por melhor que seja pode explicar.
O dinheiro é o modo como Deus deixa o mundo aos homens para se exercitarem em suas capacidades , e na difícil tarefa de unir dinheiro e amor.
Luiz , um belo enólogo,ao citar seu outro amigo, a quem agradeço, me deu este presente.
Gostaria então de erguer uma bela taça de vinho , um vinho cheio de segredos da natureza ,e que sempre possibilitou aos homens celebrarem e fazerem brindes ao que a vida tem refinamento : os amigos.
Pois acrescentaria modestamente a lista dos ítens, o modo como cada um brinda e agradece, o que a vida nos oferece a cada dia .






















3.3.12

Estados d´alma .



Ah! que lástima não falarmos mais em estados d`alma , aqueles estados imprecisos , sem origem imediata , um gosto enorme de saudade e ausência , estados que os poetas tem como matéria prima da poesia . A "ausência" é a razão da poesia , diz Rubens Alves , e é , não só da poesia , mas do momento místico , onde todos nós quando distraídos , a vivemos num tipo de solilóquio tão sincero, que a mente , que mente, se assusta e foge.
Foge como?
Voltando rapidamente ao de sempre , ao usual , velho objeto conhecido do medo , aonde havia lacuna no encadeamento , fecha-se de imediato e retoma-se à familiriaridade , que nos garante uma identidade compacta , sólida , uma excrecência resistente ao tempo e às acuidades , onde moram e nos espreitam,às questões maiores da vida.
Um vácuo que se abre entre eu e mim , uma estranha sensação que não sou exatamente quem me digo , e o que digo , não, não pode dar conta do que sou.
Um tipo de divisão não-analítica , um gosto de estranho no ser , como um antigo enderêço  longíquo , mas não esquecido , onde algo muito importante de mim parece morar , mas não há meio de transporte possível para me levar , quando quero .
Só vou lá , distraído e sem pretensões , uma desconfiança que faz brotar em mim , que todos meus preenchimentos são relativos , que toda a ritualística que me compõe é um tipo de atração de ilusão opaca , já que nesses momentos me pareço mais, com algo que se esvai, do que com que fica.
E não adianta o esforço de prender , pois se esvai, é como um éter , um misto de lugar híbrido entre a vida e a morte .A consciência não é a mesma , e alguma coisa indescritível se aproxima , suspeito, que seja, o que se chama de alma e há uma estranha amplitude , como se meu pertencimento, se ampliasse quase todo, e eu fosse uma convergência de focos variados , muito além do que meu usual pode conceber.
Algo profundo ,que roça as angústias , como se eu estivesse por aqui para alguma coisa importante , que não reconheço em detalhes e pouco soubesse falar , mas sinto com profundidade que meu foco nesse momento sou eu mesmo.
Como se fosse um velho acerto de contas de mim para mim, não há o outro nesse momento, uma velha conta, uma velha chaga , as raízes encrustadas na noite dos tempos, em que nunca me soube . Nasci há 10000 anos atrás , minha mãe é a eternidade e meu pai o universo , vivo por aqui na esperança de um dia poder ir , ir sem medo , recuperação lúcida de um enderêço original, de um gozo sem objeto , de uma plenitude sem conteúdo , um se deixar levar unicamente pela reverência , a dimensão mais plena do sagrado.
Há um exílio e digo porque sei , porque vivo , o passar relativo de tudo , como se tudo não fosse para agarrar , mas apenas tocar , sentir e deixar ir , nada fica , a sensação de tudo que esteve aqui e se foi .
Mas é estranho viver assim, angústias que chegam e assumem as feições do desamparo e do desafio, que mexem com todos os medos, com todas identificações que não cansam de se queixar,ora se vitimando , ora pedindo arrego, e ora cobrando preços pelo trabalho que tiveram.
Não tenho de pronto nenhuma identidade com o vale desconhecido , vejo assombro e imensidão demais , o sofrimento das grandezas , do ínfimo ao infinito exuberante , um gosto de quero mãe e da morte me levando sei lá pra onde, uma mutação indescritível, um laboratório de solidão, os fios que me puxam pra lá de mim.
Quero ficar , quero ir , um pêndulo que me oscila , um jogo bi-polar sem a organicidade neurológica , um fino tecido metafísico , uma inter-polação entre a origem e o fim , entre o que se abre e o que se fecha , entre o contorno da forma e a expansão sem limites , um tremendo gosto de aventura e de anormalidade além dos modelos.
Aqui só solilóquios , as vezes excessivos , peço para se calarem sem ser obedecido , mas a única forma pelo qual me situo , a conversa anexa e desconexa que me faz companhia.
Pergunto tudo e ouço tudo , mas tudo vem aos poucos ou instantâneo , não escolho , apenas recolho , vou procurando ser obediente , pois sinto a liberdade bem perto , sinto à loucura, dos loucos e dos santos , breve diferença de sintonia profunda .

O caminho é longo e por vezes inalcançável , um duro ter que caminhar na cumplicidade dos dias, no afago ou nas tormentas das noites , e um pouco de infância no crepúsculo , o júbilo familiar dos interpares assimétricos .
"O que me move é o que me comove" , diz um amigo culto, lhe agradeço , pois é um belo aforisma. Mas me comovo também com o modo como busco me mover , torço por mim, sei que me preciso , narcíso , não posso permitir o desencanto , pois gosto tanto de cantar , mesmo que mal.
Mas o que me comove mesmo é olhar para o lado , sinto a presença de todos , o humano em mim,  a controvérsia cósmica entre o máximo e o minímo , entre a luz e as trevas , entre o amor que ilumina e abençoa e o ódio que fulmina e imperdoa , a "poesis" do que se esculpe.
Niestzche nos pensa como "obra de arte" , cada um com a tarefa de se esculpir , um ato corajoso e forte , uma ética ou uma estética para almas destacadas . Aprecio o Super-Homem , acho incrível pensar em super , como acho a mesma coisa em relação ao infra , em tudo há vida .
Mas meu sentido de pertencer me compromete tanto , me comove a dor , a pobreza, o conflito , os desalmados , os despossuídos , que só me resta trabalhar , a escultura do coração cristão , pois sou a favor do Cristo que liberta , pois fora desse, também sou o Anti-Cristo .
Ao mesmo tempo que alcanço os píncaros da solidão ímpar , sou puro exercício nos interpares , a oferta do dois , a modéstia consentida e reconhecida para o movimento do convívio . A forma é um meio abençoado de se estar junto no que ainda não se emancipou.
Reconheço meus parceiros , no aqui e no ali de qualquer situação , querem o que eu quero , mas sei que se dizem de outra forma , talvez as matizes da escultura ditada pela evolução espiritual , o Deus que Nietzche não viu aonde estava e que a Igreja escondeu.
Estar vivo é estar só e participar se incluíndo , o balanço do um e do dois simultaneamente , o fazer evoluir evoluindo , o amar amando , o gozar gozando , o ser sendo , a presença estando presente .
Somos todos iguais nesta noite , diz a música , somos todos diferentes diz a Psicanálise , que bom que seja assim , iguais e diferentes , o colo do igual e a diferença do desejo , essa "multifrenia" como diz o autor .
O radical, a raiz, é este imperativo único, que lembra o ditado espanhol" Porque justo a mim me coube ser eu ?" . Sou a vida , sou a morte , sou a dor e a alegria , sou o que pareço e o que não compareço , sou a angústia plena de um mistério que me possue todos os dias , a misericórdia que perdoa e o ódio que acusa , o amor que dá e exige , talvez eu seja o lugar aonde a vida brinca consigo mesma.
A mim , me resta então perguntar com Jung do alto de seu solilóquio de vidente " O que a vida quer de nós?"
Valeu , comentem , ajuda muito os comentários.




























29.1.12

A vida e a morte , as duas faces do destino

Há um momento tão único e possivelmente tão indescritível em nossa experiência humana , que é raro se reportar a ele, embora cada um de nós a seu modo , talvez já o tenha vivido.

Me refiro ao momento ímpar e incomparável de quando alguém querido se vai , aquele momento onde o fosso se abre e não há mais volta , pois já não há o que possa ser feito.

Dependendo de quem se vá , da importância que tenha na estrutura geral de nossa vida, o vácuo, é por vezes, desesperador , pois ao mesmo tempo que temos a constatação de que acabou , imediatamente , nos vem o que será de nós sem a pessoa .

Essa vivência acre e agudíssima , pode durar um tempo incontável, mas com certeza é onipresentemente dolorosa, onde nem o sono com seu poder reparador pode nos confortar. É como um roubo profundo, cujo ladrão não tem rosto , e em relação a qual não temos chance, e tudo que cultivamos é levado, sem nos perguntar nada.

Se é verdade que nosso psiquismo vive num deslize associativo , esse momento é de quebra total , ou quase total , talvez uma defesa contra possibilidade de enlouquecermos , como um negação profunda de tudo que a realidade nos exige para viver .

Isso parece tão verdade, que muitos desistem junto com quem foi, num gesto concreto de terminar com sua vida, ou num tipo de desistência lenta que a destituí um pouco a cada dia, um processo tão penoso, tão mórbido , e tão sôfrego que parece que a pessoa encontra ali um derrota , que diga-se , não aceita de jeito algum, de não poder manter vivo seu ente querido.

Muitos dependendo da relação que tinham , sentem-se culpados ; outros não concebem que possam continuar vivos se o amado se foi , perguntam-se se não era ela que deveria ter ido no lugar , e podem até proibirssem de viver.

Mas tudo é tão profundamente triste , e como vivemos uma vida entrelaçada , ao ver um familiar mais atingido apagar-se , o grupo familiar sofre mais ainda , tanto pelo que foi como pelo que fica , um tipo de estrondo onde a vida não será mais a mesma .

O psiquismo reage , na tentativa de fazer a vida continuar , mas somos criaturas de valores e estamos submetidos à um campo de significações , e sabemos perfeitamente o que nos acontece quando tudo perde o sentido .

A identificação com o morto pode se exacerbar, e de tal forma, que busca-se um meio de que viva através de nós , é como se assim alterássemos secretamente a força do destino , e se não foi possível mantê-lo no corpo próprio , o nosso corpo então será sua residência e seu psiquismo se expressará pelo nosso.

Óbvio, que dependendo da força disso , a loucura poderá acontecer e surtos ou crises psicóticas mais graves poderão se manifestar , embora o mais comum , talvez seja , a entrada num processo depressivo e depreciativo tão intenso , que vislumbra-se ali um suicídio inconsciente , um desejo cheio de sinais de morte.

O traço marcante é a solidão que a pessoa fica , um tipo de solidão refratária e quase nada interativa , com poucas respostas às solicitações dos demais , observa-se um mundo que se apaga , um escuro regido por uma dor emudecida e cuja revolta não encontra outra linguagem para se dizer .

A medicação busca aliviar e dar conforto , mas sabemos que não faz milagres e como fazer a pessoa reagir ?

Essa dor, vi principalmente, em mães que perderam seus filhos queridos e se não estou errado , uma das dores mais lancinantes do catálogo humano , uma dor profundamente comovente e deseperadora , onde qualquer argumento parece paliativo de ocasião .

Vi essa dor numa reunião para qual fui convidado de mães que tiveram seus filhos assassinados , e confesso que nunca fiquei tão oprimido , numa total ausência de linguagem, onde tudo que eu pensei em dizer me parecia inócuo e desrespeitoso .

A dor real demais, faz a linguagem sucumbir e desaparecer , não há naquele momento uma moral de sustentação que não incorra em dizeres superficiais , ou em ritos que convocam esperanças para um depois , consolos que não consolam , a sujeição ao destino que nos coloca como protagonista do indesejável .

No entanto , convém perguntar , e aquele que morreu? O que acontece?

De pronto , nos convém, o destino do corpo enquanto mutação biológica , o que vai ser absorvido pela terra e se transformar , já que segundo Lavoisier é assim, "nada se perde tudo se transforma", mas é só?

Aqui o terreno é turbulento ,cheio de debates arraigados e de poucas concordâncias , talvez muitos ódios, aí estejam . Mas porque?

Porque decretamos , um édito da razão dita superior , que a vida é o que se vê , e o que se vê com os olhos do corpo , um confinamento aos limites de uma matéria , cuja densidade que serviu como inspiração aos materialistas , vem sendo obrigada a re-visões importantes do ponto de vista conceitual.

O Ocidente , ainda marcado por uma Idade média obscura e dogmática , trás em si, as dores de seu sequestro intelectual feita pela Igreja Medieval , onde o saber dispensava o pensamento , considerado perigoso e subversivo aos interesses do poder do Clero Romano .

Morte aos hereges e aos pensadores , paga-se o tributo e acumula-se o gozo tão profano e tão indecente , talvez como hoje, que a espiritualidade , o saber que só a transcendência oferece, foi considerada junto com todos os discursos de poder , uma ignorância de uma plebe pouca esclarecida e pouco confiável , como credenciais de uma dimensão que não alcançou o brilho de uma razão inteligente.

"Religião ópio do povo", diz Marx, ou "uma crendice infantil contra o fantasma do desamparo" corrobora Freud, dois expoentes da razão moderna , que me parecem um tanto apressados.

Há na religião ,e diga-se , sou ateu , um ateu espiritual , se é que existe isso ou então passa a existir , um desejo profundo de uma re-ligação que em sã consciência (sic) não é possível negar.

A dor profunda ao mesmo tempo que nos rasga visceralmente , também busca uma conexão , um entremeio decisivo, para vida poder seguir adiante , um tipo de socorro que com tudo e apesar de tudo , nos indica que vale a pena prosseguir , que não podemos combater uma dor com outra dor pior ainda , e que não nos convém nesse momento, nenhuma filosofia do azar.

Chega ser impressionante como aos poucos, tudo se cala , teorias , sistemas, doutrinas etc , como se tudo fosse se rendendo ao inexorável e nos deixando entregues a própria sorte , ou seja, tudo que está fora do alcance ou do raio de ação dos saberes estabelecidos .

Cala-se o filósofo, o médico , o psicanalista , os doutores em geral, os mesmos que sabiam tudo sobre a vida e que pouco oferecem sobre a morte . O que houve?

"Está fora da nossa esfera" diz um , fala que representa um protocolo geral , e que nos revela a impotência de nosso" falo cultural", ou seja, só podemos lidar com o que sustenta e se presta à potência de nossos saberes . Uma "douta ignorância" a là Nicolau de Cusa , que tem nos custado caro , justo aonde mais precisamos , isto é , aonde a vida nos confronta com nossa fé .

Mas fé , o que é ?

Veja aí a definição segundo nosso dicionário eletrônico : "
(do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia[1] ) é a firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta idéia ou fonte de transmissão.

E observem os dizeres na estátua da fé :O véu simboliza a impossibilidade de conhecer directamente as evidências"

Mas a dor é a própria evidência , e num momento único vive-se a relatividade dos demais significados , e abre-se um apêlo vindo das entranhas solitárias de cada um onde parece haver uma ultrapassagem de qualquer fronteira , um ímpeto para o desconhecido , a projeção de uma continuidade, cuja ponte somos obrigados a construir.

Viver com fé, é viver em ligação com o que não existe , é uma disposição para se viver de forma ampla , considerando tudo, sem se deter apriori em nada , tendo-se em conta inclusive , que a direção é rumo ao que não existe , lembrando que tudo que existe , um dia não existiu .

Viemos do que não existe para existir e existindo retornamos a outra forma de existência , que a princípio pra nós não existe , não porque não exista, mas porque não temos como reconhecê-la.

Mas sempre é bom lembrar, que pra nós , o que existe é o que podemos reconhecer, e o que podemos nomear pelos sentidos ou pelos conceitos estabelecidos, mas a morte como experiência não se presta a isso.

Mediante a morte , aquele momento singular , há um turbilhão de dor e de interrogações simultâneas , que é impossível se manter o encadeamento ordinário do psiquismo . Afora , se quem morre não tiver importância , o fosso que se abre é uma vivência comum , ou seja, todos perdem e são afetados, uma estranha concordância com Buda, sobre a impermanência de tudo que existe.

Vive-se a questão : E agora? o que acontecerá?

O cemitério tem sido o enderêço oferecido pelos sentidos , destino para o que se vê e intensa angústia para o que não se vê , um sentido terminal que contém um sem fim de apêlos metafísicos e a convergência controversa da questão maior , ou seja, há algo além ?

Como é possível que todo sólido , tudo que sempre nos pareceu firme e inseparável, tudo com o que sempre contamos , possa terminar assim ?

A fé, em geral, não funciona como recurso de última hora , ou seja , não é uma crença contingencial onde não se tem nada melhor para se oferecer , é antes um testemunho mediante a própria dor , de um próposito que nos permite o reconhecimento de um desígnio maior , a ordem do destino , que nos torna protagonistas do que não escolhemos e somos obrigados a viver.

Abre-se o profundo , naufraga as superfícies , nossa vida e de quem morre não poderá mais ser a mesma , uma transformação em todos os níveis , a busca de um universo em que os mortos continuem vivos e renovados , onde o corpo físico não é um critério único para identificação da vida e o desafio pra quem fica de trazer à morte para vida, já que pra todo aquele que morre , lembramos que nosso destino é o mesmo.

 

Próximo artigo A VIDA CONTINUA , A MORTE COMO PORTA PARA O ALÉM

 

 

 

 

 

 

15.1.12

HYBRIS e METRUM- as dimensões do bem viver




Jung dizia, que o grande mito contemporâneo é o modo como a vida busca se tornar consciente de si mesma, e que estamos num momento onde Psychê se expande pelo desenvolvimento da consciência.

Desde sempre, viver parece ser um exercício de consciência , embora , se pensarmos usando a idéia de complexidade atual , à força do inconsciente e a ordem dos acontecimentos , sempre a  colocaram numa faixa estreita de alcance , em se tratando claro, de um tipo de consciência mais reflexa e com pouca emancipação do mundo.

Poderíamos dizer, que o estar consciente que brota da faixa correlata de consciência , tem a função , enquanto instrumento de poder do Ego , de assegurar dentre tantas vertentes , a da segurança , o sentido da preservação da vida , nosso patrimônio mais prestigiado.

Mas, se a vida porventura, tem algum sentido de desenvolvimento  além de sua preservação, sabemos também que somos criaturas, cuja constituição possue forças que nos impelem desde dentro , e que nos faz buscar no mundo o que nos convém .

Hybris e metrum falam disso , dois tempos do desejo , onde por um lado pagamos o preço de o colocarmos acima do moderado ,e por outro , onde a moderação pode fazer subsumir às intensidades , principalmente das paixões.

Movidos pelo desejo e, logo, o gozo do seu objeto , como levar em conta o jogo de coordenadas que sinalizavam o perigo das exaltações ?

Vejam a definição de Hybris  : "húbris ou hybris (em grego ὕϐρις, "hýbris") é um conceito grego que pode ser traduzido como "tudo que passa da medida; descomedimento" e que atualmente alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou insolência (originalmente contra os deuses), que com frequência termina sendo punida. Na Antiga Grécia, aludia a um desprezo temerário pelo espaço pessoal alheio, unido à falta de controle sobre os próprios impulsos, sendo um sentimento violento inspirado pelas paixões exageradas, consideradas doenças pelo seu caráter irracional e desequilibrado, e concretamente por Até (a fúria ou o orgulho). Opõe-se à sofrósina, a virtude da prudência, do bom senso e do comedimento.

Aqui vemos que o sentido de algo que se exalta contrariando algum tipo de norma , ou de  regra invisível , ou mesmo uma não consideração pelo que não se deve ultrapassar, às custas de algum tipo de punição , que segundo os gregos era o modo como os deuses, agiam com os exaltados ou desequilibrados .

O compasso , a marcação era dado por metrum , ou seja, " A concepção da húbris como infração determina a moral grega como uma moral da mesura, a moderação e a sobriedade, obedecendo o provérbio pan metron, que significa literalmente 'à medida de todas as coisas', ou melhor ainda 'nunca demais' ou 'sempre bem'.

Podemos então ver aqui, que as polaridades , tal como para os chineses de outrora, clamam por certo equilíbrio , tal como na Lei relativa ao interconsumo o Yin e do Yang, que em caso de exarcebação de um , consome o outro , causando prejuízo .

Notório observar, que a exaltação da polaridade é o efeito da paixão , considerada uma desmesura , uma intensificação arrogante onde o metrum é ultrajado , um tipo de não querer saber , um ir e pronto , uma desrazão em nome do desejo , uma renegação de qualquer medida que estabeleça algum tipo de alfândega territorial .

Contudo, se por um lado, isso pode nos induzir a leitura da moral , por outro , parece uma deontologia , a saber " : \l

Deontologia (do grego δέον, translit. deon "dever, obrigação" + λόγος, logos, "ciência"), na filosofia moral contemporânea, é uma das teorias normativas segundo as quais as escolhas são moralmente necessárias, proibidas ou permitidas. Portanto inclui-se entre as teorias morais que orientam nossas escolhas sobre o que deve ser feito..

A deontologia em Kant fundamenta-se em dois conceitos que lhe dão sustentação: a razão prática e a liberdade. Agir por dever é o modo de conferir à ação o valor moral; por sua vez, a perfeição moral só pode ser atingida por uma vontade livre. O imperativo categórico no domínio da moralidade é a forma racional do "dever-ser", determinando a vontade submetida à obrigação. O predicado "obrigatório" da perspectiva deontológica, designa na visão moral o "respeito de si".

Observamos então que estamos submetidos a uma ordem moral que estabelece os valores do como-deve-ser , um fundamento imperativo racional, que visa estabelecer uma primazia , ou um tipo de soberania da razão , para nos garantir um metrum , uma medida , que nos eleve ao estatuto moral  dessa ordem.

Mas por outro lado , se na filosofia chinesa ancestral, o Yin e o Yang não podem existir um sem o outro , o metrum , enquanto medida da moderação ou do equilíbrio , poderia correr o risco de se tornar uma masmorra repetitiva sem a hybris , nosso direito de ir e vir , nossa condição primordial de aprendizagem , daí a liberdade Kantiana .

Coloca-se aqui que as moderações são correlatas também ao nível da consciência , principalmente , onde o movimento pulsional das energias da vida, atiçam os desejos e devolvem os prazeres no nível imediato , equação cuja civilidade com todo seu esforço, ainda peca por resolver .

O homem grego, a grosso modo, era um homem culto , em cuja cultura residiam propostas que equacionavam a relação com os deuses e lhe davam precedência , de tal forma que o destino enquanto " moira " era intocável , não só pelos homens , como também pelo próprios deuses .

Se não tinham o mito do pecado , nem por isso dispensavam a "admoestação" no campo do viver , e só se interessavam pelos heróis , os dotados de coragem e valentia das virtudes , tendo figuração de seus ideais no homem virtuoso , não no homem comum , ignorante demais para o campo das nobrezas do espírito.

Acontece que no contexto de uma massa crítica culta e nobre , o prazer pode ascender ao nível das matérias transcedentais e dispensar seus rigores imediatos , já que nesse caso , o Logos , o Saber é o próprio deleite .

Mas e o homem comum ?

Quando a histeria dispontou em na Europa no final do século XIX , o aparato médico foi acionado por estar em jogo protagonistas de classes nobres , classes que supostamente deveria ter com o metrum , uma relação mais estabelecida , já que a ordem social parece encontrar aí seus triunfos principais, tanto do ponto de vista cultural , como financeiro .

No entanto , o que se viu é que com toda gama de fetiches oferecidas pelo poder , a ascese das moderações é uma questão que não se contém por fronteiras do social , o que poderia nos oferecer um novo olhar sobre a condição do humano .

A hybris ao nos mostrar o mundo dos excessos e das exaltações, nos fala do perigo do muito, mas também não nos propõe o pouco , já que a vida moderada , enquanto a vida do sábio , é uma vida de quem já andou e muito , que já caiu e aprendeu a se levantar , de quem já morreu e aprendeu a renascer , é a vida de alguém que já avista a síntese depois do luto, como quem já não precisa estar tanto .

Corre-se o risco, de por medo, confundirmos a moderação com os modos repressivos e nos acovardarmos , levando Nietzsche a nos considerar como"fracos e ressentidos", e ao mesmo tempo perdermos o direito de errar , condição sine-qua-non , para um aprendizado com verdade .

A pasteurização da vida não interessava aos gregos , uma vidinha sem brilho e sem esplendor, sequer é digna de cogitação filosófica , o que nos leva a ter que convir que o metrum é algo forte e vivo e não uma medida blasê, opressiva e chata , embora para Freud toda questão do mal-estar esteja justamente aí.

Da mesma forma como a coletividade é um axioma do metrum , o desejo é da hybris , e esta tensão entre a singularidade e a normatização comum , é para Freud um lugar dissimétrico e irreconciliável , já que para o desejo a vida é muito e diferente , enquanto para o metrum é o como- deve- ser , o altar da consagração dos valores exponenciais onde o humano se legitima como tal .

Ao se tornar consciente de si , a vida nos obriga também a praticá-la no mesmo nível , como se o véu caísse aos poucos nos dando outras visibilidades e na medida em que avançamos tudo se reconfigura , talvez por isso , poderíamos perguntar qual seria a hybris do metrum , ou qual é o metrum da hybris , já que na filosofia chinesa , no símbolo do Tao , o Yin e o Yang já estão dentro um do outro , talvez da mesma forma como a loucura esteja na doença e vice -versa , um bom início para novas considerações.

Nietsche nos convidava a ir , a pagarmos o preço , mas morreu sózinho , não conseguimos tal nível de desprendimento , Zaratrusta é uma superação que pra nós parece demasiada , para nosso pouco humano .

Mas por outro lado não arriscar, não celebrar a vida é assinar o óbito da literalidade, onde o erótico se fez carne (Lacan), e nos cobra um preço amargo, de nos fazer ver na vida nada mais do que deveres e obrigações que não sabemos exatamente se queremos.

Os fetiches do mundo apenas distraem , mas são rápidos demais , a roda não , ela continua girando sempre e a cada dia , nos fazendo ter a estranha sensação de que tudo é o de sempre e se bobearmos , sempre o mesmo .

Podemos nos deprimir , uma hybris avessa , o entusiasmo ao contrário , a paixão pelo escuro opressor , uma recusa da vida pelo desencanto da celebração , ou podemos ficar frenéticos , hipertímicos, maníacos e também ter a sensação que rodamos em torno do vapor, fumaças de nada .

No entanto , como não celebrar a beleza , a alegria , a amizade , tão apreciada pelos gregos , a reprodução da vida , o gosto pelos filhos , pelos familiares ,enfim , um universo tão cheio de coisas boas e simples , que poderíamos convidar Zaratrusta a descer da montanha e tomar um bom café conosco , um papo informal e cheio de graça , o profundo com descontração , o que talvez tenha faltado  Nietzsche , sózinho demais , para um café a dois, lócus das belas amizades.

 Eta reflexão difícil , desculpem aí , mas não esmoreçam , leiam e comentem

Valeu mais uma vez
























29.12.11

LAMENTOS ESPIRITUAIS



Recentemente uma pessoa de minha família , após 2 anos de muito sofrimento em função de um câncer e outras infecções , e já traqueostomizada , falando com enorme dificuldade e bem baixinho, disse a sua filha, que estava morrendo.

Minha sobrinha me ligou assustada , pois era primeira vez, em todo este tempo, que sua mãe dizia tal coisa. Fomos vê-la já com certa impressão de despedida, e com certo sentimento opressivo no peito,e enquanto dirigia pensava em como era a vida , principalmente no que tange a este momento terminal , onde reis e rainhas , ricos e pobres, bacanas e plebeus , enfim, todos um dia hão de estar .

Minha cunhada sempre foi animada , bem disposta e certo dia descobriu um câncer de mama , que após tratado , foi dado como “zerado”, mas sobre controle periódico. Tempos depois , viria de forma breve e rápida a morte de meu irmão, mas ela resistia bravamente.

Quando chegamos , o cenário era o mesmo que antes tinha visto , ou seja, ela deitada com dois botijões de oxigênio ao lado , com a sonda enfiada goela abaixo , olhos abertos e um emudecimento imposto pelo quadro clínico, já que parecia não faltar desejo de falar.

Seu balbucear era intraduzível , ao que minha sobrinha , fiel intérprete, nos socorria da angústia de ouvir e não saber o que , uma estranha conversa sem reciprocidades.

Imaginei o quão desesperador seria falar e não ser ouvido ou entendido, sem ser mudo, já que a cadeia de pensamentos devia ser ampla , indagações onipresentes, e principalmente, a consciência de uma luta sem prognóstico , a não ser a oferecida pelo desejo de viver e melhorar.

O corpo já bastante desfigurado pelo sofrimento sequencial , sem tréguas, e principalmente , pela violência compreensível de se ver fora de casa , meses a fio, e que em retornos à mesma , na promessa de poder ficar durante bom tempo, era quebrada por alguma inter-corrência clínica, e logo, de volta ao hospital.

Sempre fico pensando que os nervos são a própria cabeça de cada um de nós , que nosso sistema nervoso é a continuidade das imagens que projetamos a cada momento , mas principalmente, as de forte impressão, ou seja, aquelas em nosso destino parece estar em jogo e que nos damos conta de que já não temos o controle do que pode nos acontecer.

Passar a noite em um hospital numa expectativa sabe-se do que, um lugar estranho que só nos faz lembrar de nosso quarto, de nossa cama , enfim, do conforto habitual do dormir , mas prioritariamente do conforto de nossa saúde, é a princípio assustador.

Há um certa fantasia de interligação do hospital com o cemitério, que obviamente carece de lógica, embora nem sempre. Abre-se uma etapa de dor e sofrimento que não oferece garantias de término , embora dependendo do diagnóstico nos sentimos jogados ou num alívio cheio de “ Graças a Deus” , ou num sentimento indescritível , ou um presságio, de algo profundo e sinistro que se aproxima para ficar.

 A família , o companheiro ou companheira também abrem uma peregrinação pela dor , um conjunto afetado pelo destino e que lutam para que a vida se preserve e que volte como era antes.

Mas em muitos casos não é assim . Nunca mais será como antes , um luto do que já não pode ser , um adeus dito à força, sem que a boca se abra. Uma névoa baixa, sem que a luz permita ver, uma comoção de fé , que de súbito descobrimos que não temos, um grande desamparo, onde a vida se esvai, para muito além dos limites de nosso corpo .

Minha cunhada me parecia nesse momento e nesse lugar , um lugar de quase nenhuma palavra , já que parecemos negar a morte até o fim, como se nos recusássemos a admiti-la e falar dela é quase autorizá-la , o que nos tornaria assassinos por falar do que não deve.

Me lembro quando perguntei a meu pai se ele tinha medo de morrer , causei um frenesi em família , porque isso não é pergunta que se faça ,ou seja, há o medo de que a pergunte mate.

Mas tomar consciência de que estamos no fim e que vamos partir e ter que deixar tudo e todos , completamente pelados , tal como chegamos , é duro demais.

Nós sem a vida e a vida sem nós , algo inconcebível , em planos comuns e ordinários como o que vivemos , sabemos que devemos desapegar e só de pensar nisso começamos a fazer questão de tudo, uma estranha fantasia que se nos agarrarmos direitinho a morte não nos verá.

Mas parece haver um momento que algo se afigura, e mesmo sem formato definido , parece ir chegando aos poucos e nos fazendo sentir longe , um longe só , um retorno ou um mergulho no que parece estar além , uma além que vai chegando e ficando pertinho , um longe –perto , ou um perto que vai nos levando pra longe.

Se largar, dizem os Mestres é o melhor , uma experiência de total entrega e única , como nunca fizemos em vida, um tipo de libertação consciente e decisiva . Mas quem de nós pensa em se largar numa hora dessa?

Quem pensa em deixar filhos , marido, mulher, carro ,casa , etc ? é uma falência múltipla do apêgo, um largar em grande escala , um desinvestimento súbito em tudo que passamos a vida investindo , um suicídio econômico , uma exigência apavorante ao nosso pobre ego sem alma.

Minha cunhada suspirou que estava morrendo não pelos remédios , segundo pergunta sugerida, mas disse em voz baixinha “ É pela minha vida mesmo que estou morrendo”.

Essa frase me fez viajar para profundezas , pois tenho relatos dos que antes de morrerem pareceram ver suas vidas de forma global , um tipo de síntese espiritual do que valeu ou não valeu a pena espiritualmente , um conceito do Cristianismo primitivo chamado”metanóia”, um certo repassar da vida a luz de si mesmo .

Sempre me causou impressão de que nessa hora , nesse repasse nos déssemos conta do que poderia ter sido diferente, da dor que deixamos nos outros, das mentiras com que nos descomprometemos , do amor que calamos e das críticas que exaltamos , talvez a consciência tardia de nossas deformações negadas e orgulhosamente blindadas.

Mas como tudo isso é profundo , como sabemos disso e nos esquecemos sempre , porque o orgulho é o nosso rei? Talvez a morte saiba disso e suas figurações seja de acordo com isso também , pois sua proximidade nos faz sentir o que vai ser arrancado e nos exacerba o medo do que de nós será descoberto , um sentido radical de transparência , onde todos nosso erros inconfessados nos esperasse logo na primeira esquina.

E o que teremos a nosso favor? Com o que nos defenderemos se sequer conhecemos quem nos acusa? O tribunal teológico parece ingênuo perante nossas obstinações explicativas , pois na medida em que nos vemos perante a outra face da vida, nossa cidadania se esvaísse, e já não conhecessemos à que legislação estamos sujeitos.

Nosso fim parece tão triste, que sequer conseguimos pensar na possibilidade de estarmos recomeçando ,sem nenhuma religiosidade no profundo e cultivando a superfície , temos a fantasia de sermos tragados por um buraco sem fim, uma eterna queda sem descanso , o pessimismo ,o pavor dos que vivem a Deus sem piedade, dos que fizeram do Espírito um descaso no seu viver cotidiano , o corpo como templo da eternidade.

Se há uma vida além do cemitério, como todas as culturas mais espiritualizadas afirmam, deveríamos estudá-la com afinco, e tirar proveito para nossa forma de viver, e não renegá-la ao espaço menor do imaginário intelectual. Não ficaremos mais vivos negando a morte , pelo contrário , somos tomados pelo medo de viver e de perder , o que nos leva a uma contabilidade mesquinha dos apêgos desnecessários , que a tesoura da morte não dispensará.

Minha cunhada nunca me pareceu tão profunda, e se mantém viva enquanto escrevo o artigo, mas após este encontro, me ficou como uma lição que agradeço e compartilho .   
Agradeço o retorno










Há ou não inveja do pênis?