24.3.13

MUTANTES E EXILADOS


O grande livro de Camus , um dos que  lhe rendeu o prêmio Nobel chama-se “O estrangeiro”, onde o protagonista chamado Meursalt , se mostra indiferente à morte da mãe ,e por isto , julgado perigoso pelo juiz , mesmo tendo assassinado um árabe.

Camus buscava retratar o “absurdo” da existênc ia e sua questão fundamental era o suicídio , pois indagava sobre o sentido ou não da existência , interrogação tirada da própria experiência de vida difícil que teve e de sua participação política ativa na vida do pós –guerra.

O absurdo em Camus, parecia ter como substrato a própria relação entre os homens , já que ele mesmo , de família pobre conheceu as dificuldades e opressões que os homens submetem aos homens . Talvez no fundo, nunca tenha achado o que justificasse tal opressões , e aliado as mazelas da vida, perguntava-se se a existência não é regida pelo Absurdo .

Quando me deparei com este livro fiquei com o tema na cabeça , sempre tendo em conta a indiferença emocional , a pouca significação mediante fatos, que por suposto espera-se sempre envolvimento e afetação , um comover-se pelos picos de dor do humano.

Mas com o tempo fui me dando conta que este estrangeiro de Camus , embora me tenha aberto o tema e a quem agradeço muito , não atendia algumas considerações que me pareciam preciosas  na questão do exílio existencial.

Tenho em conta que o viver, embora com forte apelo coletivo e regulado por suas ordenações, não prescinde do modo como cada um se insere , de tal forma , que esta inserção, seja o que nos difere,  é nossa particularidade fundamental .

Mas observo também, que esta inserção ,reflete às tensões do como nos sentimos mediante a tarefa do viver ,o quanto nos é caro ou barato este grande exercício diário de ratificar em si, um investimento e um dispêndio de energia que faz apelo constante ,e cuja justificativa é a significação de prazer ou não, que cada um encontra para suas disposições .

Se por um lado, o corpo nos dá a forma, e esta nos dá uma identidade de espécie enquanto um animal privilegiado , por outro , a consciência e o modo simbólico como nos movemos , nos remete à outra viagem ,regida pela tensão entre o estranho e o familiar .
O corpo, nosso eixo comum, nos iguala e nos engana , pois permite um consenso fictício, em função da nossa forma de aparelhamento , algo como um uniforme que nos veste e esconde além da anatomia ,nossa questão solitária e intransferível de Sentido .

Somos familiares numa dimensão que nos faz comum,  e estrangeiros na singularidade de nossas marcações únicas, uma transgressão constante que não pode ser vivida sem uma profunda angústia , já que aí , não se trata de uma métrica familiar , mas de uma constatação inarredável , só se é quando se rompe .

Esta ruptura é um ato único , desobediente , que requer coragem ,a coragem de Ser de Tillich, ao preço de exclusões dolorosas , já que o excluído se torna algum tipo de renegado , aquela criatura condenada às catacumbas , o exílio como castigo e alívio por não ser visto .

O estrangeiro em Camus, põe em xeque a ordem emocional do reconhecimento , a devolução emocional e afetiva do que se recebe , portanto , não chorar no enterro da mãe , além de ser ingrato , é uma suspeita patológica da alteridade , o sentido e relevância do outro .

Mas o nosso exilado , chora e reconhece , sem poder ser reconhecido , justo por ser portador de um vírus de estrangeirice , que não só não lhe concede identidade tribal , como ameaça algo de muito valor . Mas o que pode ser de valor assim ?
A própria mutação , diria eu, pois em geral, só se muda alinhado com a prospecção do futuro , como um desdobramento que não coloque em risco os pilares de ordenação da vida comunitária em seus mecanismos de reprodução , forma consagrada de se perpetuar .

Ora, um exilado não se interessa por isso .Pois é justo esse compromisso “aede eternum” que o perturba terrivelmente , formas-compromisso , contratos de antemão , que sufocam a dimensão experimental  da liberdade, ao  impor um roteiro que estabelece as molduras do depois .

O exilado não consegue sobreviver a tamanha exigência sem esforço ou sem romper com tal rigor , pois vive e respira o ar de sua experimentação , às ordenações são concessões que faz para se compor e participar do que é comum.
A vida no corpo lhe parece uma prisão domiciliar , onde cumpre a pena por não ter alternativa,  mas não lhe outorga nenhuma primazia , e não é atoa que alguns acabam por dispensar de vez o corpo , lhe tirando a vida.

Viver no substrato do corpo , na materialidade da vida com seus regulamentos , com seus rituais cheios de deveres e obrigações a cumprir , parecem tirar da vida o que tem de melhor , um assassinato a arte de viver , um sequestro estúpido a dimensão cromática da existência .

Daí muitos exilados fora do foco de suas paixões se tornam deprimidos , se arrastam , são entediados e pouco afeitos a vigília , no que essa lhe subscreve o agendamento das obrigações, enquanto a noite é o fulgor , o cenário para liberdade experimental , onde o corpo só é , como agenciador do gozo e dos prazeres , inclusive libertinos.
Propõem outra ordem para o viver , uma outra dimensão que aos olhos comuns são ameaças a serem combatidas , pois ferem a tradição , código de reiteração do valor da segurança como primordial, em relação a possível desordem da vida.
Encarnam invejas na conta de parecerem mais soltos e descolados por uma lado , mas suas fragilidades na performance do dia-a-dia lhes tornam alvos de críticas , o que faz doer , ainda mais quando vem de pessoas significativas , ponto crucial de uma ferida narcísica, de quem vive na vanguarda, ainda débito com a tradição .
O crescei e multiplicai-vos é a dimensão do corpo como ensina Nilton Bonder em seu livro “ A alma imoral “,e transgredi-lo por recusa é assinar uma dívida com a tradição,  cuja sentença dependerá da cabeça de cada um , onde o diferente precisará evitar se sacrificar como pagamento a essa transgressão .
Se assim não for tudo poderá ficar insuportável demais , e o sentido da exclusão atingir a própria razão de viver ,e a lógica do “ não caibo mais aqui” se impõe então dolorosamente , caso em que assistimos “ acidentes “ de overdoses ou outro tipo , despedidas contingenciais de quem já queria partir há muito tempo.

Vejo que onde a vida se exercita em lugares de excessão ao usual , algo importante parece querer se viabilizar , talvez porque nossa forma de viver ainda não possa contemplar outras, mas que nem por isso deixam de comparecer .
Penso o quanto devemos aqueles que ousaram tentar, e foram sacrificados por nossa ignorância segura, de “ tem que ser assim”, mesmo que nossa mesmice já esteja saturada por falta de opções .

Eis o que diz um mutante a respeito de outro , de forma inteligente e sutil, que só os poetas parecem conseguir na arte do dizer “ Ele é um bicho adoidado . Um gigante pelo avesso . Ele não tem início , nem fim . Está sempre descomeçando. Ele não tem frente , nem fundos .Sua gira tem trezentos e sessenta graus . Obrigado Chacal , um belo mutante , sem dúvida .

 

 

 

 

 

 

17.3.13


TAPEAÇÕES

Talvez o que chamamos de “realidade”, tentando conferir a ela um certo mote de determinismo , onde o chavão “ a realidade é assim mesmo “, parece nos impor alguma resignação nos convidando a se conformar , contenha mais mistério  e mais tapeação do que sonha nossa vã filosofia.

Se olharmos atentamente pra nossa vida, o que vemos é um consumo enorme de energia com tarefas , deveres , obrigações e promessas de dias melhores , que impressionam pelo modo como são adiados . É como se vivêssemos com gosto de lesados , assistindo uma série de falcatruas, onde os favorecimentos dispensam qualquer senso de justiça social e considerações sobre o prejuízo aos outros .

Pouco interessa estes outros se estamos assegurados por nossos inter-pares, que não só participam de modo cúmplice , mas que também levam o seu , numa rede de conluios e trapaças , cuja oneração , ou seja , a conta , tem que ser paga por todos ,aqueles que sequer comeram do bolo.

O custo é incalculável e repercute em todas esferas da vida , principalmente , onde os investimentos são necessários para melhorar a vida coletiva em seus aspectos variados , como saúde , alimentação , transporte , lazer etc .

O cenário fica ainda mais agravado, quando nos damos conta, que somente alguns poucos usufruem de tal regalias e que criam mecanismos de reprodução e de defesas elaboradas , para não perderem o gozo dessa usurpação , bem como , colocam a si mesmos como representantes legítimos de tal aberração .

Obviamente ,e sabemos bem disso , nada disso é novo ,e senhores e escravos, opressores e oprimidos , patrões e empregados , governos e sociedades , sempre dialetizaram em torno de seus interesses políticos e materiais , e nesse sentido a história parece se repetir .

No entanto , na medida em que evoluímos , seja pela retórica da evolução biológica ou espiritual , onde a evolução da consciência parece ser a chave do processo , vamos percebendo também que o mundo encarna às mazelas que nos pertencem .

Correções que estabeleçam um correto que não seja morto ou corrompido , dependem de uma certa suscetibilidade , que pode vir pelo viés político, religioso , ou espontaneamente compassivo , onde o outro não pode ser uma decoração sem voz , sem reconhecimento , sem um mínimo de sujeito que diga , que aja , que faça jus ao que o humano tenha de dignidade.

O tal "olho grande" que atribuímos às crendices e superstições , pelo contrário , parece um fato de grande relevância científica , pois é grande por querer conter mais e mais , sustentando a lógica perversa , de que uma vez podendo ter mais , porque não?

Justifica-se então que os outros são meramente invejosos porque não tiveram oportunidade , e sendo assim , pega-se o quanto mais melhor , pois qualquer um faria o mesmo nesse lugar , lógica fácil de entender, porque determinados lugares uma vez alcançados , não se quer sair mais deles .

Premissa do próprio atraso e do sub-desenvolvimento interesseiro , ou seja ,a ignorância como instrumento de dominação , renega-se a idéia de uma teia própria da vida, onde todos tem o seu lugar e sua importância em sua cadeia de produção , sendo que , acrescentando à Capra, que  nossa realização como espécie , depende de desenvolvermos a capacidade de amar .

É o amor que nos dá a chance de nos reconhecermos igualmente perante nossas diferenças , e se hoje , a neurociência descobre que o Bem é também mecanismo de produção de serotoninas e endorfinas , é ao humanizar o outro em seu valor , que minha humanidade se realiza .

Depreciar o outro, condená-lo ao prejuízo, tornar a vida mais difícil pra todos em nome de ganâncias , fere é a ordem que jogamos fora , para nos livrar dela e ficarmos mais a vontade com nossas trapaças , fazendo o mundo depender somente de nossas inteligências e sofisticações culturais , isto é, a ordem cósmica .

Reconhecer que pertencemos a uma Ordem maior pode nos inferiorizar , nos fazer  reviver submissões opressivas de religiões autoritárias , e aguçar nossos traumas de liberdade , mas tudo nos mostra que não há outro caminho , já que distorções geram desequilíbrios caros e sofrimentos profundos demais .

Muita riqueza pra poucos faz sofrer a muitos , muita ladroagem tira da vida à confiança , muitos assassinatos nos faz ter medo de viver , à violência destrói nosso prazer de estar aqui e cria fobias estranhas , o cinismo nos torna cínicos e prisioneiros de segundas intenções .

Adoecemos a olhos vistos com desequilíbrios mais variados no campo mental , e se Freud se surpreendeu com a força da sexualidade , hoje sua banalização gera esquizoidias nos afetos , no sentido da entrega , pois porque se comprometer se se pode ter mais?

E mais ,e cada vez mais , uma compulsão perigosa que leva consigo qualquer fundamento , onde tudo vale , já que é uma questão de livre-arbítrio , e onde a ordem social perdeu seu fio condutor de dizer o que é bom ou ruim , ou seja , somos livres como queríamos , e perdidos como nunca.

Nossas transgressões não geram de fato uma outra ordem , onde pudéssemos relaxar e compartilhar os ganhos , pelo contrário , mal chegamos e logo saímos , já que nada serve muito , e por uma estranha compulsão temos que seguir , embora , por favor , não perguntem pra onde .

Canalhices ferem o tecido social e forjam imagens perigosas da vida como um campo de ninguém , nos ensinando que se formos canalhas estamos matriculados , já que o sintoma da tapeação se tornou uma palavra de ordem da sobrevivência .

Mas por outro lado , é incrível, que o que condenamos , também descobrimos em nós , e também somos objetos e sujeitos dessa perversão , não como agentes de coisas extremas mas talvez de pequenas lesões que também nos interrogam em nossa coerência e o quanto fazemos da vida uma questão de oportunidade .

Creonte , o grande Rei de Tebas , dizia que só se conhece um homem depois que ele passa pelo poder , e sem dúvida , prova difícil do que temos de incorruptível , como se fossemos afrontados com a tentação  de “ que a ocasião faz o ladrão “.

É por vezes tão ruim ver governantes esbanjar cinismo em proveito próprio , como é difícil ver o guardador de  carro cheio de espertezas e intimidações , como é mais difícil ver um amigo lesando conscientemente alguém .

Mas o mais doloroso é ver que somos vacilantes, e que nossas convicções também tem sua parte frouxa , que também nutrimos em muitas ocasiões, a mesma retórica que tanto nos parece execrável nos outros .

A cura passa por aí , curar em si o que maldiz o outro , único meio de se libertar desse visgo, que com certeza , ainda teremos que trabalhar e sofrer muito para transformá-lo numa compreensão cósmica , aquela que nos ensina e nos lembra , que apesar de todos os tesouros, um dia que não se sabe a hora , vamos morrer .

Será que haverá outro tipo de justiça a nos esperar ?

13.3.13

0 ANSCHAUUNGSGABE E O EINBILDUNGSKRAFT ... O QUE É ISSO ?


 

Acho o alemão um dos idiomas mais sábios pela riqueza metafórica que contém , embora confesse que não sei nada do mesmo . Alguns estudos em Psicanálise e com ajuda de amigos me deram “an passant” a idéia dessa riqueza, já que muitos conceitos Freudianos ao serem traduzidos , se deformavam como acontece com traduções apressadas .

Mas essas duas palavras são incríveis e não há correspondente em português , ou melhor não que eu saiba , já que Anschauungsgabe significa –“ o dom de olhar mais além “ e Einbildungskraft- “o poder de construir sobre” .

Pensar nisso me levou a relação do ver com a linguagem ,e eu na falta do que fazer resolvi deixar a imaginação me conduzir , tendo em conta que de pronto logo me ocorreu , os níveis da linguagem , a saber ; o literal, o metonímico e o metafórico , três tempos lógicos parodiando Lacan .

A literalidade, diria, que é o modo concreto de apreensão , um tipo quase sensorial de ser , onde o toque é decisivo como inferência da constatação , ou seja , tudo só é se for tocado pelos sentidos , que diga-se , são enganadores .Do ponto de vista do conhecimento é um nível menos abstrato e muito passível de acomodações , pois mesmo usando os sentidos , perde em reflexão crítica .

É um tipo duro , algo como pom... pom , queijo... queijo , nada portanto de, é pau é pedra , a literalidade recusa isso , é mesa é mesa e pronto , fica o inconcebível do avesso , a maravilha de Lewis Carol com Alice , sem variações de forma ou de tamanho, menos ainda pensar pelo avesso .

Nesse nível, a loucura não é de maneira alguma uma dimensão do viver que permite o ultraje do convencionalismo chapado dos registros conceituais , é doença mental e pronto , sem distinção , pondo no mesmo saco gênios e doentes neurologicamente comprometidos , como se faltasse um refinamento ou mesmo cartografia distintiva .

O simbólico aqui é um adereço a serviço das certezas , pois raciocina-se o mundo pela busca ávida de conclusões , campo de disputas e violências a toda prova, já que não se suporta duas verdades simultâneas , tipo, ou é ou não é , sem outros espaços combinatórios e alternativos.

A militância aqui ou é fruto da ignorância ou da arrogância , já que os modos dialógicos supõem não só alternâncias entre as polaridades , bem como , a flexibilidade que isso requer , condição primordial para que haja brechas ou pausas de onde o inusitado possa comparecer, e viabilizar algo não previamente pensado .

Nesse caso, é possível pensar que a literalidade é extremamente sonora e adora o barulho das assertivas , o que em alguns casos é oportuno , mas não como palavra de ordem , onde quem fala é sempre Senhor e o outro Escravo da obediência .

Vê-se aqui  que o Anschauungsgabe , “o dom de olhar mais adiante” fica comprometido , pois a tendência é de se olhar sempre para o mesmo , conservadorismo , em geral, autoritário e pouco afeito à mudanças , pois olhar adiante impõe certo desprendimento necessário à levitação da mente .

A mente no que flutua um pouco que seja , ganha altura , passo imprescindível para ampliação dos horizontes e consequentemente da ressignificação da mesmice estabelecida como lugar comum . Isso quer dizer que ao alçar um pouco de vôo  , tem-se a chance de romper ou de reformulações importantes , principalmente , onde o viver já vinha sendo sacrificado pelo recalque.

Algo como “ não se pode ser outro se o mesmo não deixa “, o que implica em se refazer o nível de controle que se quer ter , pois a entrega resultante desse processo , já é fruto do reconhecimento de que a altura pode mais por oferecer mais.

Sócrates dizia que no campo do Amor só se larga quando se visualiza algo melhor , veja em “ O Banquete “, e podemos aplicar aqui o valor desse ensinamento , pois o vôo engendra à brisa que refresca à capacidade de sonhar .

E o sonho é um antídoto poderoso em relação a literalidade , já que refunda o simbólico de forma mais geométrica , menos aritmética e linear como propõe a literalidade .Trata-se de recuperar uma dimensão fundamental para o despertar humano , o exercício de ver além , matéria prima da esperança e de prospecção para o futuro , lugar onde nossas utopias nos esperam ansiosamente .

Já o Einbildunlskraft , “ o poder de construir sobre “ nesse nível sofre muito da falta de desprendimento , já que a ênfase é na segurança , modo como a vida é primariamente credenciada , já que não pode haver descontinuidade em relação ao próximo passo , ratificação da própria concepção da vida como sequência única.

A contrapartida disso é o medo, já que a relação com o incognoscível é de rechaço , ou seja , não se quer saber do que não se controla ou não se submete . A relação do sujeito aqui é de Escravo já que o controle é o Senhor , uma subjugação de difícil reversão na neurose obsessiva, o esvaziamento constante do que não se deixa pegar , sofrimento que gera superstições e rituais pegajosos , fetiche contra desgraça do imprevisível.

Mas também é verdade que a vida sempre se constrói,  e aqui não seria diferente , embora a construção literal seja sempre de aderência , o que torna os scripts rígidos com pouca mobilidade , paredes muito grossas com pretensões definitivas .Os moldes uma vez estabelecidos querem se impor com exclusividade , o que a partir de certo ponto o que era bom fica sufocante.

Sempre é importante considerar que a mente , embora um lugar muito privilegiado da alma , também se submete ao conjunto de forças que regem a vida e cujo fechamento é tolerado de forma provisória , já que a neurose é justo aonde o relativismo toma o caráter do absoluto .

O que se constrói precisa levar isso em conta , ou seja, o modo como tudo muda ou pode mudar , já que o tempo posterior , o que vem depois precisa ter seu lugar , nem que seja como um lugar vazio , pois é esta fenda que permite o elo com o devir , o que ainda vai chegar .

Negar isso ou fazer de conta que tudo já está, é forçar uma completude impostora , em geral, mantida como norma ou regra inquestionável , configuração que aos poucos vai envelhecendo por falta de renovação .

O “poder construir sobre” e o olhar adiante” mantém uma relação íntima e de interdependência , pois dependendo do como seja a concepção da obra , seu terreno e sua arquitetura , pode-se ter mais ou menos facilidade de articulação com o horizonte , mas principalmente o fluir do devir , o eterno vigor de qualquer construção humana .

Sem isso ficamos presos e estanques , nossa ousadia passa a ser nossa própria paranóia , isto é, passamos a ter medo de qualquer idéia de vanguarda que nos obrigue a ir pra linha de frente , passamos a ser o segundo ou terceiro por recusa de  ser o primeiro , na vã esperança de que alguém o faça por nós.

Olhar adiante é ir pra frente , um olhar que permite o depois sem medo , uma intimidade não íntima com o desconhecido , uma reverência ao espaço aberto , a tudo que nos traz o gosto do amanhã sem sacrifícios ao dia de hoje .

CONTINUAREMOS COM O 2º NÍVEL  - O METONÍMICO NO PRÓXIMO ARTIGO .

Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança ou a possibilidade de associação entre eles. Por exemplo, "Palácio do Planalto" é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser localizado lá o gabinete presidencial.

6.3.13

A Terra Brasilis , a Aurora de uma esperança



Sempre que penso em política me ocorre uma estranha sensação , tanto física como mental , um estado difuso de ser um protagonista do que me afeta , ao mesmo tempo , em que me questiono o que isto tem haver comigo?

A cada dia, vejo uma imensa movimentação ocorrendo , muitos dizeres , muitos pareceres , muitas decisões , muitas promessas , um universo que percebo próximo , pois me coloca como depositário direto do que se passa ( a discussão sobre energia , por exemplo , se traduz pelo preço da conta a pagar , do alimento ,a mesma coisa ), ou seja , é um universo não tão paralelo, mas uma tanto alienígena à maioria de nós.

Este universo com suas leis oficiais e oficiosas nos confude  a tal ponto,  que a maioria sequer se interessa por ele , mesmo sabendo ou não , que é de lá que parte as grandes decisões sobre a vida material , que é a vida mais imediata , aquela que fala do pão , o mínimo necessário para que o homem acredite em Deus , diria São Tomás de Aquino .

Estabelece-se desde sempre a relação do chamado Estado x Sociedade , relação difícil , complicada , por muitas vezes ininteligível , até mesmo para os mais experts , aquelas almas que não olham pra outra coisa , que buscam conter o futuro em seus anseios de poder , seja financeiro ( outro universo intraduzível ) ou político , uma febre delirante que nenhuma medicação consegue baixar .

Sempre me pareceu e continua me parecendo , que por ser um animal político ( Aristóteles ) , e diga-se , pólis ( povo) , a chamada política seria por princípio, o modo pela qual se buscaria meios para que determinados fins, pudessem ser alcançados  para melhoria geral , já que , não há outro propósito maior .

Somos obrigados por esta estranha e decisiva imanência, a convivermos uns com outros e possibilitarmos através do trabalho , este elo comum a espécie , uma condição que seja a melhor para todos , uma vez que temos em conta , que nem só do pão viverá o homem .

Observa-se de pronto, que a maioria parece não ter vocação para lugares de poder público , lideranças em relação quantitativa com o povo são pouquíssimas e por isso , por falta de engajamento  nessas esferas tendem a se repetir , pois uma vez alcançadas articulações de projetos ou só mesmo de manutenção do status quo, se eternizam com a espada do poder .

Assistimos decisões sobre nossas vidas diárias, como se estes centros que decidem pertencessem a outro planeta , não conseguimos ver a via de acesso onde pudéssemos nos fazer ouvir , e agravado pela percepção da tendência que todo poder político parece ter , de se afastar para seus palácios , uma vez conquistado .

As cúpulas alegam privacidade , o que sem dúvida é necessário , mas não só , pois é fácil ver que medidas antipáticas , mesmo que necessárias , são cercadas de cerceamentos de retorno , como que não interessa mais o que se pensa , principalmente o que for contrário , condição básica, para que aos poucos os autoritarismos passem à História por conta das melhores intenções .

Ideologias, todas alegam ser o caminho do Homem , ignoram que tiram a liberdade de poder se ver todos os lados , ou de se escutar o oposto , e embora considerem na chamada democracia o lugar importante da oposição , vemos que “ Quem não está conosco , está contra nós”, uma surdez ditatorial , que só faz confirmar que “ democracia é a escuta da alteridade e da diferença”.

Sendo um exercício espetacular de condução de destinos sociais , precisaríamos ter com nossos governantes uma relação de profunda solidariedade e amor , pois precisamos que acertem , que sejam iluminados em suas decisões , que nos ajudem a avançar , tanto física como espiritualmente , que nos estimule o amor ao próximo , que nos libere de visões provincianas , que nos dê à confiança de estarmos não só apontando para o mesmo norte , mas efetivando-o cada vez melhor em nosso dia-a-dia .

Creonte , o grande Rei de Tebas , afirma que “ só se conhece um homem quando ele passa pelo poder “ , e aí eis a provação de todos nós , pois o poder é um capítulo especial em nossa evolução , não só pela subversão que faz à ralação do ganha pão ( já que traz todos os fetiches à satisfação oral sem as interdições da realidade), mas pelos atavismos que suscita como poder de mando , volta-se ao anacronismo do velho passado com seu estilo imperial .

Observando-se construções da nobreza , é fácil perceber que o povo , a plebe com seus tormentos sempre acabam sendo consideradas incômodas , e logo, levanta-se muros enormes e intransponíveis e bem guardadas pelas suas guardas , pleonasmo perfeitamente adequado para o caso .

Distâncias se estabelecem hoje em muros mais invisíveis , burocracias que desestimulam ações que buscam proximidade , alega-se falta de tempo para o contato , o mesmo que em épocas de eleições toma outra feição demagógica , pois precisa-se do voto , instrumento ainda precário por si só, já que sem a consciência mais esclarecida( a lá Habermas), o voto é sugestão hipnótica, que os chamados coronéis aprenderam na prática , sem formação acadêmica nenhuma.

Até hoje nosso ranço materialista é um grave impedimento , pois falamos do pão e não da alma , como se fossemos reduzidos a um único sistema orgânico , o gastro-intestinal , como se nosso esclarecimento para um melhor viver e deciframento do mundo , fosse secundário .

A alma quer sua luz , que começa justo na educação , uma condição da sua autonomia como sujeito , talvez temida pelos governos obscurantistas como diria Henry Toureau , em seu livro clássico “ Desobediência Civil “, condição de quem se esclarece para melhor poder sonhar , um pouco mais de alívio em relação à opressão do cotidiano, que só faz se repetir em suas mazelas .

Os ricos são invejados pois parecem ter uma vida cheia de variações , de novidades , de paredes finas ou inexistentes , de que podem fazer o que quiserem ou terem o que quiserem , fantasia de que o dinheiro nos devolve a relação mágica com o seio materno , embora desenvolva o controle chamado anancástico , segundo Freud , o poder de reter às fezes .

Dinheiro e sujeira , aqui nesse país conhecemos bem desde sempre , pois somos filhos de uma Corte falida e fugidia , mais uma imposição da vida e de Napoleão do que uma escolha propriamente dita , um imaginário de fim de mundo por falta de opção e de certeza que Napoleão jamais iria se aventurar a vir aqui pessoalmente , já que até hoje muita gente não sabe onde fica o Brasil , nem no mapa .

Embora se faça justo dizer também,  o quanto de desenvolvimento devemos ao nosso Regente Imperial e sua troup fugidia , trapalhadas interessantíssimas por um lado, e feitos que nos tiraram da província e do chamado “ quinto dos infernos”.

Nossos políticos adoram esta nossa condição meio degredada e ignorante , pois eles mesmos não passariam no teste de qualidade , criaturas que sequer sabem falar direito , mal informados, falta de cultura geral ,e resultado de um fisiologismo podre que insistem em manter para não desaparecerem de vez .

A visão do homem em Paidéia ,  pedagogia da formação das virtudes ensinada pelos gregos, passa longe , pois a muito se perdeu o sentido de direção , metonímia que nos faz rodar com sensação de que não se sai do lugar , afetação que atinge o sentido do próprio viver , onde a verdade e a mentira se acolhem de forma prática de acordo com os interesses imediatos .

Perde-se qualquer critério e estabelece-se uma ideologia prática , o que interessa é o que tem urgência , desespero que abre brecha para todas falcatruas , pois argumenta-se que importante é por o asfalto , mesmo que dure pouco , alto custo pago por imposição da demagogia dos que dizem nos representar.

O “Homem” a quem se busca perdeu seu endereço num mundo confuso e arrogante , nos falta um verdadeiro ideal , seja o ideal de Eu de Freud , a utopia de Tomás More ou o Homem Divino das tradições espirituais , um Homem que valha realmente a pena , um Homem que apesar das nossas diferenças, seja reconhecido como melhor , um exemplo da raça como Nietzsche buscou formular , em seu Zaratrusta .

Melhoremos nós e dispensemos a quem queira nos representar sem credenciais , uma vez que a política está em nós mas não o exercício político do poder , façamos esforço para que nossos obscurantismos particulares não seja nossa escolha ao decidir sobre nossos destinos social , principalmente, tendo-se em conta que viver olhando para o que não presta pode nos contaminar , mas não olhar pode nos alienar . 

Trabalhemos pela vida que acreditamos , mesmo que sua raízes ainda estejam incipientes , mas por que não ? É assim que tudo começa , pois uma nova disposição mental não pode começar com muitos , o processo é ir se despertando aos poucos , encarnemos então este novo sopro , pois ninguém é dono do que a vida nos oferece de melhor e o que de melhor nos identifica , a liberdade.

Esse artigo seria bem maior , parei para que se adaptasse ao estilo do blog , que já se queixam o que compreendo , embora tenha assuntos que pareçam inesgotáveis . Agradeço a paciência e o tempo que me dedicam  . VALEU.

 

 

 

23.2.13

Nasci menino

( Ei Bento , seja bem vindo )
 
Há um quadro de Gustave Courbet chamado “ A descoberta do mundo “ de 1865 ,em que há uma mulher de perna aberta com a genitália toda exposta e que andou recentemente sendo notícias , pois descobriram quem era a mulher que serviu de modelo .
Descoberta do mundo?
É , é assim o início , vêm-se ao mundo quando alguém abre as pernas e curiosamente tudo começa quando alguém também faz o mesmo , num coito carnal e simbólico de recepção.
O médico gritou : é um menino , é um menino , tapinha no bumbum , choro e vida ... eis uma sequencia de pura emoção e festa para os que encomendaram , enfim, chegou a tão esperada encomenda .
Comigo não foi assim , e tudo já começou complicado , pois nasci com o tal cordão enroscado no pescoço , mais pra lá do que pra cá ,e com prognóstico ruim , possivelmente não vai sobreviver , diziam estas línguas de mau agouro que gozam no pessimismo assassino.
Mas resolvi viver , Vim , vi e nasci , parodiando Júlio Cesar , descrevendo uma vitória e procurando intimidar o Senado Romano , só que eu não tinha a quem intimidar , decidi viver e foda-se , parodiando agora uma piada sobre Niemeyer , que havia decidido “ não morrer e foda-se , vou me decompor um público” . Mas morreu , apesar da morte.
Mas nasci menino , uma direção cósmica única ,construção de um gesto singular e sobre aquele ranço ancestral do guerreiro , aquele arquétipo do que vai a luta , conquistar primeiro o alimento , à caça , depois o mundo .
Espera-se de antemão que um homem seja homem , como se isso fosse previamente possível, aliás , meus amigos gays reclamam de não fazerem parte de nenhum imaginário doméstico-familiar , ou seja, nascer menino é ser macho, seja lá o que isto queira dizer .
Ao avaliar alguns protocolos a respeito dessa doutrinação , não poderia dizer que tenha sido um bom exemplo para esse militarismo sexual , pois senão vejamos :
1-Homem não chora – Um horror lamentável , pois me dou conta que o quanto ter chorado , teria me poupado de tantas manobras mentirosas , estava ferido , atingido  e .... sem lágrimas , uma contenção idiota , apenas para manutenção da imagem que não suporta dúvidas.

2- É o homem que toma iniciativas – Essas tais iniciativas sempre sublinhadas por esta pedagogia do macho , você compreende a cantilena repetitiva , justo quando ? ... Quando você está com medo , um afeto , um modo de afetação condenável , como ficar com medo , que absurdo !
Mas você procura a tal descontração e o que vem , em geral, é uma inibição cujo tamanho varia pra cada um  , inibição inconfessável , pois símbolo do fracasso do macho e cheia de repreensões culturais , obriga o pecador de pênis a emudecer.
A coisa fica difícil , justo quando na adolescência você tem que atravessar a rua e ir na direção do sexo oposto , tanto anatomicamente quanto ao lado , é do outro lado, e você é que tem que atravessar . O pavor de ver tal esforço ser resumido a uma negativa , não consta dos livros didáticos . Não , não quero você . Sentença fatal , cuja cura é inestimável no tempo .
Isso sem contar que o chamado sexo oposto , é o sexo indesejado para muitos , crime grave para uma cultura onde os heróis nunca são gays , e só agora, um confessou tal preferência   (depois de  72 anos Lanterna Verde se confessa gay , um tipo bicha tardia... Gosto mais do meu amigo Juão , lúcido ,assumido ,inteligente e generoso , leiam seu livro” As mutações do Arco Íris” ),e provoca polêmica.
As operações emocionais que são colocadas em jogo por tal determinismo , só não são piores porque a biologia ao amadurecer os hormônios gera um tesão danado e estimula o psiquismo a fantasiar o estranho objeto do prazer perigoso , mas tesudo.
Precisamos de heróis nesse momento , que pode ser qualquer um mais ousado ( Brecht não levou em conta esse lugar sexual quando disse “ Infeliz do país que precisa de heróis”), um atrevido que nos convença que ir ao outro lado não é tão perigoso assim.
Aliás, tentaram por todas maneiras me dizer que tudo era uma questão de jeito , o que confesso até hoje tal proposição não me convenceu. Não há nada íntimo entre um homem e uma mulher a princípio , antes pelo contrário, duas criaturas diferentes procurando um meio comum de falar do desejo.
Se o imaginário do homem é de superioridade , antigo registro da tal caça que o fazia sentir viril , o da mulher é outro , nada de caça , nada de troféu , mas ser amada , o que quer uma mulher?  perguntava Freud do alto de sua sabedoria máscula .
A cultura é ainda dos machos, e graças ao avanço das mulheres pudemos questionar este imaginário antigo e mascarador do que realmente se passa, pois nossa insegurança aprendemos a escondê-la como fraqueza menor .
3- O macho é o provedor , lorota danada, difícil de se livrar . Em sendo o cabeça do casal , termo asqueroso que muitos adoram como lugar de prestígio , é ele o macho que está determinado à linha de frente . É o lugar da morte emudecida , onde se morre de preocupações sem se falar delas , afinal , o medo do fracasso é inerente à esta construção .

Preocupações num mundo altamente competitivo , onde todo mundo passa o outro pra trás sem escrúpulos , é uma tensão onipresente dia e noite ativa , e o homem toma pra si tal desafio , achando que é assim mesmo , um reedição da Lei de Talião , “olho por olho, dente por dente”, onde se aprende que não devemos levar desaforo pra casa.

Esta pedagogia em mim não vibrava convictamente , o que me trouxe muitas dificuldades pois embora , querendo ser aceito como todos , sentia que minha performance não era convincente ...lembro por exemplo de meu irmão querendo me ensinar a namorar , o que me amassava mais ainda , custei a descobrir que mesmo o contato é uma questão de estilo .

“O homem é o estilo”, dizia Lacan , frase redentora que descobri  tarde demais , um alto preço pago por aqueles que tangenciam , ou são infiéis as molduras doutrinárias , e até conseguir reconhecer que os fracos também amam , demorei .

Com Freud aprendi que “ anatomia não é destino” , ou seja , pode-se ser homem sem se ser macho , lembro por exemplo , de Akenaton , o faraó que era tido como afeminado ,e que propôs anistia para os povos dominados , uma nova cidade com novas propostas menos militaristas e foi assassinado com sua mulher Nefertiti , pois sua propostas mexiam com a mentalidade máscula da época.

Reich pergunta em seu livro “ O assassinato de Cristo” quem matou o Cristo ? apontando que uma couraça uma vez estabelecida estabelece os modos rígidos de sua expressão e recepção , ou seja , onde se é duro o mole é depreciado ou posto pra fora como menor , não como diferente .

Hoje me pergunto se o vacilo do vem –não-vem no nascimento já apontava este desconforto, o preço de nascer menino e ter que rezar em cartilhas do que é ser homem , recalque profundo de tudo que num homem não cabe no homem , roubo cruel de uma instigação diária do que nos faz aprendiz do desconhecido , do inusitado , recusa que os infartos atestam a cada dia.

Somos filhos do Logos , do saber , e analfabetos dos sentimentos , o mundo onde Íris , a deusa do arco-íris que nos ensina aprender a arte de ser flexíveis , pois sentimentos mudam , vem e vão , convém aprender a balançar para diminuir a exigência de importância , lugar onde o autoritarismo se confunde com o próprio ressentimento .

Nasci menino dependente da mãe , como todos da espécie , tive que fazer malabarismo de cortar o cordão para voltar o erótico para outra mulher , exogamia complexa, ao preço de ficar incestuoso , coisa tão comum quanto as reedições das virilidades simuladas que se recusam a reconhecer que fracassaram .

Novos fetiches , novos voiyers , o mundo pela fechadura , e a procura de se manter viril , o medo horroroso de que um dia o pênis não seja mais a anatomia da gangorra que compassa o tempo , pois simplesmente a gangorra não pode subir mais.

Viva os homens

 

17.2.13

A CRISE INSTITUCIONAL DA IGREJA E A IGREJA DO CRISTO

 

O que estamos presenciando hoje com a renúncia corajosa do Papa ,e que expõe a intimidade da Igreja em seus escaninhos do poder e dinâmicas sombreadas entre os supostos representantes de uma das maiores instituições religiosa do mundo ,é como se diz popularmente , uma gota d’agua , num oceano de questões complexas.

O mundo , diga-se , encontra-se em crise com seus fundamentos , já que o iluminismo da razão de pronto , recusou um fundamento religioso , o maior pacote de imposição religiosa pela Igreja do Ocidente, que resultou em assassinatos de diferentes naipes , principalmente, o da liberdade de pensar.

Fundada por Jesus como projeto de continuidade de tudo que ensinava , teve em Pedro , o pescador de almas , seu primeiro representante maior  , talvez devido as características de sua própria liderança mais assertiva.

A diferença entre seus apóstolos não era desapercebida pelo Nazareno , e por muitas vezes suas intervenções , conclamava a transigência e a indulgência necessária para que o próprio convívio entre eles , já fossem os exemplos indispensáveis dos ensinamentos transmitidos .

Jesus sabia mais do que ninguém de que matéria somos constituídos , e que nossa nobreza é um projeto cujo alcance , vamos realizando a duras penas ,tendo em conta que nossa ancestralidade animalesca , não se desapega facilmente .

 A própria história bíblica é repleta de destemperos emocionais , onde os próprios representantes do Bem e do Amor , aqueles escolhidos para pregar a palavra, tinham atos nada dignos do buscavam convencer .

 Moisés , por exemplo , na chamada noite do “ Bezerro de Ouro “, estima-se algo em torno de 10000 pessoas assassinadas à seu mando , assim como João Batista , que nunca se cansou de acusar Heródes em público de sair com sua cunhada , o que resultou na sua degola.

 A linguagem , embora com a nobre tarefa de indicar o”Caminho para o Reino de Deus”, e apelando para todo tipo de arranjos simbólicos e alegóricos , não podia exigir que os homens fossem outros , já que a evolução é uma conquista lenta e milenar .

Somos a própria traição e Judas é a condenação inesquecível , justo por nos lembrar , de que nos é muito mais próximo do que o Mestre de Nazaré , com sua superioridade inquestionável de valores já traduzidos em ações , descompasso que nos é caro , já que de forma alguma podemos fazer integralmente o que pregamos.

Compreender esse aspecto deveria nos tornar mais solidários , pois temos às contradições em comum, a traição ao que desejamos e ainda não podemos conquistar , e nossa história é um repassar dessas contradições , e que embora venham a tona eventualmente , fazem parte de nosso viver diário .

A Igreja do Cristianismo chamado Primitivo , porque inicial , tinha como fundamento o Céu Aberto, o lugar de todos , único lugar possível de se desfazer máscaras sociais , importâncias do mundo com suas riquezas e brasões e que segundo o Mestre não serviam como passaporte transcendental para o Divino.

Jesus pregava com sua autoridade que o Caminho para o Divino é justo de se despojar , o ficar mais a nú espiritualmente falando , já que a Verdade não é uma simulação , mas uma conquista do verdadeiro coração espiritual , o Graal procurado por fora , mas escondido  disponível por dentro .

Se “Meu Reino não é desse mundo “ é porque esse mundo não é tão convidativo às verdades espirituais , tarefa- mor deixada à Igreja , de trabalhar para tornar esse mundo mais apetitoso a manifestação do Espírito em sua inocência santa . Mas como sustentar um inocência se todos somos contaminados pelo que mais temos de menor?

Portanto não se tratava de validar tanto o mundo com seus prazeres e encantos , menos ainda de seus poderes , palavra chave para que a subversão proposta à primazia do Espírito fosse gradualmente se perdendo , e que o Reino da Matéria com seus encantos imediatos e  muito mais rápidos em suas promessas se restabelecesse com mais força .

Ao se deixar conduzir pelo modelo do Poder do mundo , e estabelecer alianças com a nobreza numa grande barganha de interesses que só faziam afundar ainda mais o Espírito , a Igreja do Cristo tomava outro rumo , que lhe custaria caro como representante de Deus na Terra .

Intrigas , conchavos, conspirações , assassinatos , favores por troca , enfim, marcas que em nada renovavam o cenário para as boas-novas espirituais , e o Mestre Amado era de novo assassinado , agora por seus adeptos , que nunca se viram traidores , viva Judas, que se enforcou de vergonha.

O modelo acaba sendo mais forte do que os homens e não faltaram aqueles que deram a vida para chamar atenção para este desvio , queimados , trancafiados , amaldiçoados , viam o erro , gritaram , sofreram , mas foram calados , emudecidos pela força do Poder Institucional , este sim ,elevado de forma abençoada  pelo que assegurava aos poderosos, em detrimento dos mais necessitados .

Luxo , distância, ratificação da desigualdade social , julgamentos pré-conceituosos , manutenção de um lugar imaginário , mais pra tribunal e condenações do que indulgências , a Igreja parece penar a amargura da própria Lei Espiritual que ajudou a excluir , a Lei do Retorno, que nenhuma tradição espiritual respeitosa ousou tocar .

Sem o retorno , fica-se dependente de ameaças e de tribunais dos homens , iguais demais em suas fraquezas para poderem julgar uns aos outros , mesmo ameaças que procuram utilizar a invisibilidade que a morte traz , como lugar de castigos e dores , já não impressionam tanto , pois repete velhas fórmulas que o mundo já está por demais habituado .

O Mestre era pastor , e na parábola do Filho Pródigo , nos ensina o valor de trazer de volta os expratriados espirituais , os deserdados da sorte social , que diga-se ,responsabiliza a todos nós , ensinamentos profundos no campo das limitações do amor , desafios eternos e evolutivos , difíceis de entender e mais ainda praticar .

Ao incorporar um modelo de Estado a Igreja juntou dois senhores , Deus e Mamom , criando uma imagem híbrida da Divindade, que dessa forma parecia atender aos dois interesses , esquecendo que nossa evolução espiritual , não é e nem pode ser uma negociação , já que a morte vem chegando logo, quando menos se espera .

Responsável pelo Reino , que lembrando , está em Vós e não em palácios , conventos ou lugares materialmente estabelecidos como moradia do Divino ,  a Igreja enquanto pedagogia do Espírito , teria como ensinamento- mor o desprendimento , a catalização de novos modos subjetivos voltados para os estados d”alma , sincronias com as manifestações mais finas e sutis, lugares de maior requinte espiritual , onde a obediência é uma reverência ao reconhecimento do Supremo .

Nesse caso , nosso modo aqui é transitório , um laboratório de aperfeiçoamentos , herança acrescida da Grécia com sua prática das virtudes , só que tendo em conta o homem comum , os excluídos de atenção , os pobres de espírito , os que tem sede de justiça , aqueles que a Igreja primitiva acolhia com prazer e entusiasmo , pois eram fruto da ignorância de uma humanidade arrogante e interesseira .

Toda tradição do Espiríto sabe que O DEUS , O SEM –NOME, O ELE , mora no coração dos homens ,e só despertando-o , podemos iluminar a nós e ao mundo , de nossa escravidão à ignorância , nossa única paixão segundo Lacan , mas pra isso precisamos colocar o Absoluto em seu devido lugar , pra que o relativo seja nosso meio de luta e ultrapassagem , senão perdemos o rumo e a direção.

Desconfio que somos todos da Igreja aqui no Ocidente , nossa Casa Mater , nosso lugar de confissão e renovação , talvez por isso fomos optando de retomá-la pelo caminho mais singular , mais livre dessas repetições que sempre nos ensinam a mesma coisa , um caminho mais a Céu Aberto , o único lugar onde Deus é para todos , e o Cristo nos espera para trabalharmos juntos nessa magnânima tarefa de fazer brotar nesse planeta as sementes de seu Amor e dedicação .

Acredito que essa crise seja de renovação , o modo como a vida atualiza sua representação para recuperar seus fundamentos sagrados , e nos ensinar a razão esquecida de nossas origens, e consequentemente , re-oferecer a uma humanidade negligente o norte perdido de sua direção divina .

Viva a Igreja em seu labor , Viva os trabalhadores da Igreja , Viva os que conclamam a fé viva , que continuam contudo e apesar de tudo , a nutrir com seus esforços o pão verdadeiro que alimenta a alma além do corpo , a redenção que nos leva a única liberdade possível , a do Espiríto.

 

 

 

OS FILHOS DE DIONÍSIO


 
DIONISO OU DIONÍSIO -Deus do êxtase e do entusiasmo, levava com seu cortejo alegria e felicidade por toda a Grécia onde também era considerado protetor das belas artes.

Os filhos de Dionísio são intensos e detestam à castração . Diria que na espécie, são as criaturas que melhor refletem à divisão , ou seja , habitam intensamente o dois , lugar da nossa divisão e procuram o máximo de cada lado , embora a conexão , a ponte entre os dois, em geral , seja precária.

O dois reflete as polaridades ,e tanto um lado como o outro podem ser intensos , tanto o amor como o ódio , o que os torna passíveis de desequilíbrios e de parceria indesejada.

Onipotentes , vivem o culto de si e procuram adeptos , mesmo que neguem tal fraqueza , pois costumam dizer que não precisam , embora sejam sensíveis a qualquer manifestação contrária.

Enquanto os Apolíneos procuram à ordenação , os filhos de Dionísio vivem além de si mesmo , como se o Eu , ao mesmo tempo que é um culto, é também uma prisão domiciliar e a inquietação é quase sempre , quando não toma ares de agonia .

Intensos e momentâneos preferem o imediato , principalmente o gosto pelo prazer , lembrando que Dionísio que é grego , em Roma se tornou Baco , o Deus do vinho , e cujos festivais eram fantásticos , como hoje também celebramos outras bebidas .

O compasso regrado da vida é quase um tormento e a transgressão inevitável , pois a cadência que de certa forma regula o coletivo é considerada lenta demais , além de se ter em conta a exaltação egocêntrica , que é sua marca fundamental .

Quando talentosos , e costumam ser  , fazem toda diferença ,pois são eles que produzem o caos necessário às mudanças , já que possuem a natureza dos mutantes e a rotina é a parte ruim do sonho .

Avessos às regras e normas , logo sentem dificuldades pra se adaptarem , pois não percebem inteligência nos enquadres e logo se propõem a provar tamanha incompetência nessa lógica , já que visualizam caminhos particulares por onde se chega mais rápido.

Óbvio é, que cobram alto preço relacional , pois ao mesmo tempo que são dependentes , em função de uma independência de afirmação , emocionalmente parecem regredidos , talvez por rupturas materna precoce ou fixações mal-resolvidas.

Se prestam facilmente ao diagnóstico de bi-polaridade , pois vivem uma instabilidade que afetam os humores , criando por vezes uma insuportabilidade com quem convive , que diga-se,  sem paciência e tolerância, fica difícil.

Incompreendidos pelo mundo , o atacam , principalmente no que consideram seus defeitos e tornam-se críticos ásperos que somado à inteligência que possuem, se tornam formadores de opinião , criadores de sistemas filosóficos ,de ideologias religiosas ou políticas.

São criaturas que costumam dividir a história do mundo em duas partes , a saber : Antes e depois deles , e onde chegam querem logo fazer à diferença , o que pode ser muito bom ou muito ruim , dependendo do que a situação demande, já que estimulam rivalidades feias.

Como tem dificuldades de enquadre , a questão com autoridade vem para o primeiro plano , e por serem sensíveis também controlam, e não é raro se sentirem ofendidos , caso em que , por serem especiais , filhos do Deus da excitação , produzem uma dramaturgia amplificada de sofrimento e ressentimento .

Desmerecem os outros com facilidade , pois trazem certa superioridade embutida nos gestos e nas palavras , e ou são reconhecidos em suas lideranças e amados pelos adeptos ou são odiados e jurados de vingança .

Valentes, contam com o apoio da própria vida para efetuar mudanças , pois tem uma contabilidade singular e temem perder oportunidades , procuram um modo mais expansivo de viver , de amar , parecendo viver dentro do próprio sonho , que é da onde vem , e sempre procurando um modo de alterar a realidade .

A realidade em seu modo factual, não é bem vinda, pois sempre lembra os preços a serem pagos por tudo , e é lamentável não pode se viver um ato do sonho por falta de dinheiro , por exemplo . Muitas falcatruas aí estão , embora por outro lado , a busca de não se intimidar perante as possíveis sanções , é um dos belos atos da coragem humana.

“Exagerado”, diz um deles , “Jamais renunciar ao desejo”  grita o outro , expressando claramente que viver precisa ser um ato não-convencional , uma resistência contra o sequestro idelógico da cultura , um clamor de liberdade individual .

Aliás, a característica que mais se sobressai  é que sofrem da bi-polaridade, mas por sofrerem de exacerbação egocêntrica, pouco se rendem ao mundo dos outros , já que a idéia é de levar o seu mundo particular à categoria do universal , razão pela qual são fazedores hábeis da cabeça alheia .

Sofrem os limites da forma , um tipo de sofrimento não reconhecido pela Psiquiatria ainda , pois é um sofrimento dos que não cabem em si, e consequentemente estão sempre além , como se corressem atrás de si mesmo a todo tempo e não percebessem.

Buscam o bom, já que nem sempre apreciam o correto como suporte de vida , para usar as palavras de Nilton Bonder , o rabino , sendo a questão, que por muitas vezes impulsivos carecem das disciplinas necessárias ao vôo , o que faz com que muitas propostas e projetos , comecem rápido e acabem da mesma forma.

Acabam estabelecendo ritmos acelerados e sofrendo de tédio e monotonia , dois estados d`alma que fazem estragos invisíveis por não pertencerem aos quadros manifestos do psiquismo . É como se a carência de si se estabelecesse na forma de ausências , mas a projeção como forma de defesa aponta para algum objeto ou pessoa , numa tentativa de salvar a vida com seus conteúdos.

 A consequência disso pode ser um apelo grande de aceitação ou facilitar uma tipo de recusa relacional , que muitos consideram como transtorno do narcisismo , onde a pessoa sofre pela fantasia de não –inclusão , ou induzi-la a um ensimesmamento , um fechamento onde ela então se torna o agente da exclusão , ou seja, não entra ninguém.

De outro modo convém observar que os filhos de Dionísio são os que fazem à diferença , são os que frequentam à loucura e tiram dela o que tem de melhor , tanto sua poesia como sua arte , e principalmente suas vanguardas , pois são os que recusam o pijama da acomodação , miséria da criatividade , ou fracasso de qualquer pretensão maior.

No amor cultivam a intensidade , a excitabilidade das paixões ao invés das moderações convencionais , e por viverem e sofrerem dessa forma, buscam tirar o máximo que podem de cada situação antes que se torne um lugar –comum , fantasia genial expressa na” Insustentável leveza do Ser” de Milan Kundera .

Penso que briga-se com os modos estabelecidos , como se procurassem uma outra vida , talvez de outra forma , mas não se sabe como nem onde , mas com certeza que os endereços catalogados servem apenas de passagem, que é como em geral , se sentem .

Exilados de um planeta distante , vieram parar na Terra e aqui estão , ora a contra-gosto seu refrão maior, ora como oportunistas mesmo , que mesmo não gostando ou criticando tudo não prescindem do que lhes é oferecido e que pouco agradecem .

Sofrem pelo exílio , mas pouco reconhecem , o que lhes colocam pouco a favor , ou seja , um tipo do contra que alimenta a inteligência e cria rebanhos , como se nossas insatisfações não passassem pelo velho adágio de que “ a vida muda quando mudamos nós”.

Trasgressos como o próprio Dionisío são adeptos da desobediência e do esforço para fidelidade normótica , alguns porém , discernem a desobediência respeitosa , enquanto outros se perdem na transgressão sem alma , aquela que nada propõe a não ser desobedecer .

Mas finalizando é com quem mais me identifico , pois vem o valor de desobedecer e transgredir como uma condição do próprio viver , a vida não como uma cartilha a ser seguida , mas como uma tensão do que está oculto e precisa de quem o escute ,e nisso é o gozo de Dionísio , o aquém ou além da ordem , o gozo que só um bom vinho pode oferecer .

Há ou não inveja do pênis?