4.9.11

QUAL É O TOM?


Ainda em nossa reflexão pelos modos da subjetividade , este mundo tão incrível de onde partem todas as glórias e todas as injúrias , lugar onde se busca marcar o que se quer e onde se sofre do que não quer, chegamos ao início da conversa , ou seja , como na música é preciso buscar o tom .

Em " As palavras e a boca " aqui mesmo no blog tratamos desse momento crucial onde as palavras ao sairem fazem destino e implicam o falante de diversas formas , mas hoje tratamos do tom , é, esse tom imprescindível que compassa a melodia e torna possível a escuta , a escuta que recebe e qualifica ou a que deprecia , lugar de atritos e antagonismos que trazem consigo o ódio , o medo e a culpa por um lado e por outro a admiração , o sentido de descoberta e a gratidão da companhia .

O tom é o a mais , é o que não está de pronto , tem que ser descoberto , não existe apriori, pertence ao campo da intuição e do amor , pois é ele que irá decidir o depois, ao mesmo tempo que decide o que irá acontecer já .

Podemos e talvez devessemos sempre buscar o tom em tudo , o tom da manhã , da noite , o tom da transa, da comida a saborear , o tom de si e do outro , o tom que indique a sinceridade da palavra e não mate a conversa , o tom da hora de falar e também de escutar,  enfim , o tom que acerta no alvo sem machucar , sem ofender , o tom da franqueza amorosa .

É como se admitíssemos que o universo tendo sua musicalidade ,nos caberia a cada situação descobrir o tom , sendo esse o lugar onde a fluência se torna possível , ou seja, a música segue , nos convocando a outras descobertas .

Caso não seja assim, é como se o disco estivesse arranhado e ou com sulcos que fazem tudo se repetir de forma muito desagradável, um tipo de reverberação mental onde se volta ao de sempre  mas no contra-fluxo , isto é ,perdeu-se o tom , daí pra lá só desarranjos .

Como somos seres do verbo , isso então fica mais onipresente se inserindo constantemente em nossa forma de falar uns com outros , nos permitindo visualizar que nossas palavras expressam o tom de nossos estados d`alma, revelando o que de oculto tentamos esconder , em geral , antagonismos não reconhecidos ou pouco admitidos , que nos fazem desafinar , apesar de nossas boas intenções.

Se encontrarmos o tom , as palavras soarão diferente e seremos escutados com mais acuidade , permitindo que o sincero não seja deselegante , e fazendo da expressão um momento de revelação , algo inusitado , confessional , e que toca no fundo , pois invoca ressonâncias que penetram e estimulam o respeito na recepção.

Palavras demais e repetitivas , reverberativas,são uma questão de quem quer ganhar , expressão de onde cada um de nós se sente ou se sentiu lesado , onde o toca-disco está com alguma falha estrutural , e que faz com que cada situação se torne um embate para auto-afirmação.

É isso que nos dificulta achar o tom, pois ao invés de sintonizá-lo primeiro, procuramos impô-lo às  situações de forma onipotente, partindo da suposição que ele é quem define o como deve ser , o modo como nossas razões procuram se antecipar na busca de seu reconhecimento.

Obviamente,convém lembrar que todos sofremos dos mesmos males e das mesmas afirmações , pois nos conhecemos em nosso convívio milenar e sabemos o arsenal que temos,com armas variadas que vão do sutil ao estúpido . Logo a cada situação de convívio tudo retorna , desde estratégias para ganhar até fracassos magoados , derrotas que grudam e prometem vinganças .

Achar o tom é um trabalho de cura , um desgrude emocional de si mesmo para uma passagem de nível , um lugar melhor onde minimizemos as disputas , onde reconheçamos o que nos pertence e torne possível devolver o que não é nosso. Um tipo de triagem que nos remonta aos modos emocionais da família com suas exigências e idealizações e que nos trazem encargos que incorporamos e nunca conseguimos dizer não.

Quando o trabalho de diferenciação se faz possível é quando o não saí das entranhas do ressentimento e se torna um lugar plausível , um lugar reconhecido e legitimado , onde reconheço o direito de recusar o que não me convém .

Se faço isso , e em geral, depois de muito sofrer pra se livrar de dívidas e culpas, no que o código de rigidez interna se torna mais flexível , posso buscar dizer sem ofender , primeiros ensaios no campo do amor que promove a autenticidade , como escultura de uma singularidade recuperada .

Da mesma forma o outro se movimenta , pois seu lugar também muda , pois o vejo como alguém que não sou eu , uma vida própria , um estilo próprio que não pode se sustentar como objeto de minhas projeções autoritárias , me liberto libertando o outro de mim , refazendo fantasias primárias de que sou o centro não copernicano do universo .

Osho , o Mestre rebelde,ensina que uma pausa é um intervalo entre duas notas , um des-lugar para novas revelações , uma amplificação da recepção onde o não-limitado pode comparecer e novas melodias podem surgir .

Talvez descubrir qual é o tom , requeira uma pausa , um modo consciente de respiração , onde o que está grudado,mesmo que incipientemente , precisa afrouxar , uma redução da gana , um tipo de solvente para as reverberações obssessivas , onde a obssessão única é dar razão a si mesmo e querer que o outro confirme.

Um intervalo pode ser uma oração profunda , um apêlo superior para desconstrução de velhas razões rancorosas , uma redução de tamanho pela humildade flexível , uma versatilidade onde o resultado,seja qual for , não é uma mordida irreparável no meu ser , não é uma ofensa que não possa ser revertida em compaixão .

Sabemos que tudo nos ofende dependendo da ocasião , é como se em algum nível de nós mesmos, feridas atávicas e doídas comparecem e nos sentimos tão maltratados , tão incompreendidos que sequer nos damos conta que essa é uma condição comum .

Não há o "Outro" dizia Lacan ," é impossível" , e corroborado por seu discípulo Didier Anzieu que escrevia : " o Outro não dá não é porque não quer , é porque não pode, já que não tem".

Óbvio, que para nós quando não recebemos o amor pretendido , esse encontro marcado pelas nossas expectativas , nos frustramos e ficamos raivosos , nossa primeira atuação é o ataque sem grandes considerações, fomos sacaneados de forma injusta , à guerra para reparação.

No entanto, é também nossa prisão, o que não nos deixa dormir , o que escurece o dia, o que vai direto para os nervos, o que faz sucumbir o humor , é enfim , o que precisamos aprender a falar e para isso , na medida em que queremos nos libertar , não tem jeito , temos que saber, qual é o tom mesmo?






21.8.11

A BURRICE RELACIONAL I



"A burrice é uma cicatriz" (Adorno-Horkheimer)

" O ato repressor cria uma espécie de cicatriz - burrice. Quem é repreendido e reprimido , repete o último gesto que assistiu antes da repressão . Toda vez que é posto para pensar , ou que é acionado de alguma maneira para agir , ele repete o gesto de violência que o emburreceu. Ele empaca na gesticulação estereotipada. Assim, o burro , nesse caso, não é violento por ser ignorante,mas é violento por conter a cicatriz da burrice." (Guiraldelli Jr in ""A dialética do Iluminismo")

Sem contraposição a Goleman " A inteligência emocional " , nem a Gardner com sua teoria das "Inteligências múltiplas", gostaria de recortar um tema do cotidiano , bem onipresente e campo de muitos desentendimentos e sofrimentos diversos, ou seja , a burrice relacional.

Se a epígrafe é correta , logo o burro além de " empacar ", sofre de recorrência , pois volta ao mesmo lugar , toda vez que desafiado a pensar ou a agir , no sentido de senhor de si , retoma ao lugar de escravo , ou seja , o que não esquece e não perdoa , pois tem uma dívida impagável que o atormenta e por isso , não pode ser livre , a não ser para lembrar .

Mas lembrar o que ?

O gesto que o emburreceu . Como?

Há aí, um entrelaçar entre o que emburrece e o que é emburrecido , pois se não se pode pensar, menos ainda falar , pois só se fala para viver e ser feliz, o resto são mímicas , um jogo especular de mágoas e lesões de reconhecimento , em que a burrice é aquela de manter a única opção possível , ou seja , não ter opções.

O burro empaca em sua falta de opções e em seu estreitamento negativo , pois tem razão que ninguém vê , só ele . Essa é sua arma mortal , fazer desconhecer suas razões ou dogmatizá-las de tal forma , que ao mesmo tempo que é um incompreendido, é também autor de um texto que escapa às palavras , e consequentemente à fala .

Quem fala se desdiz , quem não fala tem sempre razão intocável , lugar que ninguém sabe aonde é , logo , não se chega lá . A burrice, nesse caso, não pode prescindir de seu esconderijo, lugar de suas inúmeras razões inomináveis , arma poderosa , pois se mata sem dizer o porque, jogo perverso que faz do outro, alguém que não entende ... o que jamais foi dito.

Não se questiona aí o absurdo do paradoxo , pois para o burro ele não existe , blindagem demais para reconhecer o valor do limite.

Não se escolhe as palavras, nem o momento , nem a ternura que as tornaria melhor recebidas , pois no fundo tem medo de ser compreendido e ter que vir a luz do dia mostrar seu rosto, que não vê faz muito.

Ser burro é também ser bruto , pois a brutalidade é a intimidação que tenta negar o que precisa ser dito , mata-se, mas não se confessa.

Pois senão vejamos :

O que se quer?

Amor e prestígio , duas demandas poderosas de qualquer ego humano .

Como se faz?

Escolhe-se alguém, ou se é escolhido por alguém ,que deixará de ser alguém e se tornará um foco , um foco constante de apêlos variados , pedidos de amor e sexo , de importância , de lugar exclusivo , de companhia que fará um recorte no mundo, com ela(e), o mundo é outro , justo porque é um outro .

A partir daí uma inter-penetração irá tecer o convívio , um estranha vivência de se deixar ir e de ficar , um pêndulo, que nesse lá e cá , expressa o desafio do ganho que nos obriga a se arriscar e o medo danado de perder e sofrer , a doce vertigem de que não há garantias .

Mas é verdade também, que a partir daí , este outro que passa a nos fazer parte , também desafia nossas habilidades de cativar , de atrair , enfim, de se valer a pena , eis um desafio que uma vez iniciado segue até o fim , pois no mundo dos investimentos diz um autor " o inconsciente é capitalista ", como a ressaltar que por mais que não queiramos " não há lugar assegurado" .

É como assumissemos a tarefa de nos fazer interessantes , uma qualidade da atração e da intensidade , que nos mantém o valor enquanto uma aposta que vale a pena, um esforço de aprimoramento constante que esculpe nosso mundo de dentro , à começar por nossos modos pelo lado de fora.

A fala por exemplo , o mal da boca , aquelas palavras sem consequências , a ignorância deliberada dos efeitos , fala-se e pronto , talvez algo que dito em outra hora, ou de outro modo provocaria menos estragos .

O cuidado com o não-ofender , a não-violência em níveis sutis , o ter em conta que da mesma forma o outro sente e reage , o aprender que nem tudo é tão grave assim , e que deixar pra lá , em muitas ocasiões não é vergonha nem derrota, pois não se trata de uma disputa ou de uma arena .

É incrível que ao mudar nossos modos , mudamos também a forma de ver as coisas , como se aos poucos tirassemos delas a severidade , a acidez crítica que contamina tudo , e ao mesmo tempo ganhamos em sinceridade não-ofensiva , a expressão que consagra nosso ser, o poder dizer sem matar , a palavra que celebra a vida e chama o profundo com ternura e delicadeza.

Todo analista sabe que as projeções são imperiosas e cheias de razões particulares, e que enquanto isso não quebra , a pessoa não é tocada a nível de uma reversão , um modo de reconhecimento do que lhe cabe , do que é seu e só seu , única maneira de começar a sair dessas pequenas e custosas prisões emocionais que nos infernizam a vida.

Quando um casal, por exemplo, começa a perceber o convívio , não mais como um conjunto de projeções autorizadas sómente pela neurose de cada um, mas como um modo desafiador de aprender e de se curar , começa a surgir ,o que em geral ,começa a faltar nessa ocasião, ou seja , a gratidão pelo presença companheira , o valor do lado-a-lado , que o tempo ensina aos que conseguem afrouxar o cinto de suas onipotências.

Se por um lado ninguém é de ninguém , mais uma razão para nos agradecermos ,pois sustentamos um pertencimento por amor e só , reiterando assim que estamos aonde estamos porque assim queremos , e não como vítimas do que não foi possível .

A burrice relacional começa quando esses preceitos tão nobres ,e não se vive sem nobreza, começam a serem tratados como óbvios , crime grave que arrolará muitos processos desagradáveis e sentenças serão aplicadas , ou como culpa ou como castigo , lugar onde os fracassos, ao invés de ensinarem se tornam desgraças, cujas dores nos farão chorar , um prognóstico sinistro quanto a nossa capacidade de amar de verdade e onde o orgulho foi péssimo professor .



A BURRICE RELACIONAL II


A figuração do burro enquanto algo retrógrado , algo que empaca , como caracterização da falta de inteligência , é um tipo de licença que não faz jus ao animal, que diga-se , é inteligente .A questão é que mediante algum perigo ou reminicência o danado empaca que não anda de jeito nenhum.

Para o observador não há perigo algum , para o burro sim , que por sua vez não cede de maneira alguma , em geral , causando irritações em seus donos, que sabem que bater não adianta . Com isso qualquer ato de menor prestígio ou considerado de pequeno alcance é considerado " burro ", o antônimo de inteligência , do brilho , do fulgor ,da assimilação rápida, enfim , um mal-dizer que se tornou uma arma de depreciação .

Mas em nosso caso consideraremos um detalhe interessante , nessa situação do burro, ou seja , é que o burro não passa pelo mesmo lugar que algo aconteceu e o impressionou , como se revivesse o que passou de forma tão atual que é como se estivesse acontecendo agora. É difícil convencê-lo que a situação é outra e já passou , pra ele por um estranho condicionamento, o resultado será sempre o mesmo.

Nada mudou , pois prisioneiro do tempo, não enxerga o que já não é o mesmo ,seu sentido lhe trás uma ameaça , cujo perigo está mais dentro do que fora , uma cisma que acabou lhe consagrando , como símbolo da burrrice .

O que seria então uma burrice relacional?

Começaremos então pela palavra consciência , ou seja , sua dupla vertente :

A primeira pela ciência ,a expressão do desejo de conhecer , a construção do saber , uma modalidade de cognição fundamental que ilumina a vida , corta a ignorância e permite aquisições importantes na transformação da vida .

A outra é o com : o estar-com, o exercício do convívio como produção de consciência, o outro como amor e como ódio , este esbarrão constante que me serve como aconchego e ao mesmo tempo como repulsa , essa intimidade e invasão perene , o eterno desafio da habilidade para se com-viver.

Daí a ver que o convívio é aonde a chama da consciência acende ou apaga não é difícil , difícil é aceitar que na raiz dessa convivência a vida aprimora seus modos , uma ascese do grotesco ao sublime , na qual todos nós, querendo ou não estamos submetidos .

Relação é uma denúncia constante do que é bruto e do que se aprimora , do que se pede e do que se oferece , um eterno jogo de reconhecimento , onde cada ato se inscreve numa significação amorosa para ser celebrado ou frustrado , o que nos cura ou nos fere , uma estranha sensibilidade que parece nos tornar débeis e dependentes.

Ora, mas a virtude do amor é o poder de mostrar aonde somos frágeis e sensíveis , uma senha da espécie que poderia servir como alerta, pois a dor do reconhecimento é comum, e que partindo daí , deveríamos ter em conta que ao mesmo tempo que sofremos , fazemos sofrer .

Nesse ponto algo se impõe , a saber :

Que somos criaturas do verbo e que o verbo é o início , e que o início era o verbo .

Isso nos ensina que o verbo é o que dá partida , ou seja, tanto inicia como parte .

Ao dar a partida chama pra junto ou afasta , exclue , um tipo fica pra lá, que tem o poder mortal de ofender e abrir feridas.

O tempo todo informamos uns aos outros que somos sensíveis ao trato e que no trato, muitos protocolos do convívio existem , já que se referem aos modos primários , aquela película de sensibilidade que subjaz ao ato humano e lhe confere o que o poder de afetar.

Como desde sempre nascemos no campo do Outro , inscritos no desejo que nos trouxe ou que nos recusou , não temos como forçar emancipações ou independências que busquem renegar essa ordem humana , ao risco de graves distúrbios esquizóides e psicopatológicos.

Dessa forma então , se tudo começa no verbo e se somos sujeitos-objetos do trato, então porque não prestamos uma atenção mais específica a esses dois ítens tão fundamentais?

Por exemplo , a palavra uma vez dita , não tem jeito , já é , como se diz.

Logo , seria interessante :

Observar o momento de dizê-la , e o modo como é pronunciada , já que o outro é sensível às intenções nem sempre explícitas que contém.

A palavra será tão mais íntegra e respeitável , quanto menos acusativa seja , já que acusações de certa forma , sempre trazem algum nível projetivo não reconhecido em quem fala.

Pra isso é necessário que possamos ir além dos 5 minutos iniciais , como dito no artigo anterior, o nível reflexo onde as ofensas encontram as dores primárias ainda em estado bruto, pois blindadas , em geral, pelo orgulho , não permitem fácil acesso à consciência a não ser pelas projeções , onde o que não reconheço em mim aparece como acusação ao outro .

A ponderação , ajuda o compasso do tempo e ao modo de falar , embora , seja importante também identificar o quanto as intenções falsificam as justificativas , já que o que se diz num nível , não se justifica no outro .É como se a palavra apontasse pra um lugar e a expressão facial ou gestual não corroborasse o endereço .

Esse fenômeno dissociativo que a teoria da comunicação trouxe para o estudo das familias e que tem sido de grande valia no estudo clínico em geral , pois , é a negação do que nos escapa, e que retorna como tensão aumentada , impossiv el de ser contida numa conversa , por exemplo .

É mais fácil brigar do que conversar , diz um autor . Casais se separam melhor quando estão bem , neuroses conjugais são vícios reiterativos , o que ameaça e não se cumpre , diz outro estudioso.

Mas tudo é relativo a capacidade de conter sem agir , um tipo de exercício quase yogue , um suportar à energia que ofende sem ofender , uma troca desigual que só o amor referenda , uma alternativa , onde a opção é buscar abrangência onde tudo se estreitou , um oferecer algo maior a si mesmo , evitando-se assim o sinistro emocional que se segue de imediato à ofensa.

Quando uma pessoa tem lesões primárias graves , talvez isso seja ainda mais difícil , mas parece ser esse o caminho de nossa cura , senão , nossa alternativa é repetir , e repetir sem poder elaborar , ou seja , sofremos de forma incompreendida sem aprender nada , razão obscura de nossa revolta e de nosso confinamento incandescente no fogo do ódio que nos subjuga.

Não é atoa que Lacan , já se referia ao amor e ao ódio , como amódio , apontando o quanto sofremos de ambos , quase sempre no mesmo lugar .

Talvez devessemos aprender o momento de se calar e esperar , o momento mais oportuno de falar , buscando com isso algo que ultrapasse , que não fique no jogo pequeno de quem tem razão , algo que se imponha por sua maioridade , por sua clareza , por sua maior dignidade .

Me parece um exercício tão profundo quanto raso , mas um exercício onipresente , uma busca de um ponto acima , uma elegância um pouco acima da grosseria , uma inteligência um pouco além de uma burrice que estanca em si mesma , um amor a mais do que a espada , uma grandeza mais atraente do que minímos auto-referentes, que obliteram o outro por nos imputar uma dor especular de grande custo narcísico , principalmente ali onde Narciso empacou no fascínio de sua imagem estanque.









7.8.11

OS CINCO , DEZ, QUINZE PRIMEIROS MINUTOS DE MIM MESMO


(REFLEXÕES SOBRE A CONTRARIEDADE)

Coisa incrível é se observar . Não aquela observação defunta , obssessiva , que nos incrimina pelos pecados que fez de Adão, homem e Eva, mulher . Digo aquela observação mais afim de surpresa do que de certeza, a desconfiança positiva de que há em nós , muitos.

Descobri, por exemplo, que somos constituídos de níveis e que em cada nível a vida se decide de uma forma diferente, de tal forma , que se esperarmos um pouco que seja , algo muda . Essa idéia já é antiga , como " conte até dez" antes de agir , lembrando que algo muda enquanto contamos , algo se faz ou desfaz .

Em cada situação somo testados nessas variações de níveis ,e um mesmo assunto que num nível é aterrador ,em outro pode ser engraçado, como depois de um susto , segue-se as gargalhadas .

No primeiro nível temos uma camada reflexa , uma ordem simétrica e pouco flexível , a ordem do toma lá , dá cá ou bateu levou ,ou olho por olho, dente por dente, que deu origem a famosa Lei de Talião .

Nesse nível a auto-referência é exacerbada , um substrato rígido e cheio de emocionalidade reativa , um modo de figuração catártica que é justificada como " se eu não colocar pra fora,  morro ". Aqui tudo é perigoso e pode explodir a qualquer momento , basta tocar num limiar em que se toma algo como ofensivo e pronto .......os dados estão lançados.

Aí, muitas palavras se arvoram e magoam , muitos relações se contraem e por vezes se destroem, muitos ditos se registram e chegam aos nervos da memória , lugar onde esquecer, só com perdão .

O que acontece aí é digno de se estudar , não consta nos livros , mas é uma batalha ferrenha , esse momento inicial onde a contrariedade nos mordeu , é uma condensação tão espetacular do primitivo , do animalesco , das absurdidades , dos pequenos assassinatos na fantasia , dos pescocinhos que a gente aperta , dos cabelos que se arrancam, enfim , um arsenal tão próprio e tão atávico , que em poucos minutos estamos exaustos de tanto atacar.

O curioso é que não passa de pronto , apesar de toda ação bélica , o treco volta e já de novo estamos pensando , amaldiçoando , dizendo todas as formas de impropérios ( pra não falar outra coisa), tudo no plano mental, que a esta altura já virou um ringue, em que só nós batemos .

A impressão que temos destes 5 minutos iniciais é que não passam e tiram até o sono , pois é o lugar onde nos sentimos lesados de forma não merecida , embora não tenhamos examinado nada das razões do outro .

Nesse momento não interessa as razões de quem quer que seja , e se alguém insiste em nos contar , pronto, mais um para mirar e puuuuuuuum atirar , pois já que estamos em guerra não custa mais um .

Esse estado é um horror , pois além de nos atormentar, temos dúvida sobre as razões que afirmamos ter , ou mesmo, se nossa reação não está sendo um pouco excessiva para ocasião, um exagero que nos amplifica e ao mesmo tempo nos prende , pois podemos ter reações tão brutas e intensas , que o estrago também pode ser muito.

Tudo tem que ser proporcional ao grau como fomos atingidos , um misto de dor e ódio nos afeta e nos aprisiona , como se quizessemos vingança e ao mesmo tempo, lamentamos ser tão vulneráveis.

Nunca sabemos ao certo quanto dura esses 5 minutos , até que num certo limiar impreciso , algo começa a mudar e o relógio , vai prosseguindo para o próximos 5 minutos.

O que acontece nessa sequência também é espetácular , pois é como algo começasse a amolecer , mesmo que por dentro , já que por fora o orgulho não deixa mostrar de pronto.

Começa aos poucos um misto de culpa , meio ao longe, que vai se aproximando devagar e a estabelecer uma certa idéia de que pode não ter sido bem assim . Que coisa dificil , pois, depois de tanta certeza retubante e assertivas inegociáveis é como se recuássemos e ficassemos mais modestos e com chance de estarmos errados ,com a difícil tarefa de reconhecer o erro e pedirmos desculpas por tamanha hipérbole emocional .

Cruz credo , o que se vê aí é a expressão do quanto é difícil a humildade sincera, de olhando nos olhos pedirmos o perdão , pois por um lado a culpa nos acusa e de outro o orgulho continua nos fustigando , tal como leão ferido , cheio de dor mas pronto para o ataque.

A famosa divisão entre o anjinho que pede para desculpar e diminue a importância do acontecido , e o diabinho que nos manda ficar firmes no orgulho e justifica nossos ataques, lembrando o que passou como prejuízo.

Chega a ser engraçado o catálogo de expressões desse momento , gestos que vão desde " aí foi mal ... hem " uma frase rápida que não diz o que , ou um tapinha meio sem vergonha , meio mudo ou superficial demais para o que aconteceu , e sempre fico com a impressão que se fomos olhar de perto, podemos descobrir que já estamos fazendo muito em pedir desculpas ,então , não me venha com detalhes.

Mas algo mudou , pois recuamos e houve uma flexibilização da retórica de mão única que vigia até então. O outro volta a existir , descobrimos que ele não é tão demônio assim, e inclusive , por muitas vezes já nos ajudou muito , reflexão essa, nem sempre feita de boa-vontade , mas trazida pelo inconsciente numa forma de retaliação que a luz faz ao escuro , quando se fecha em ingratidão .

É uma situação típica por exemplo de casal , que se ataca até o máximo e depois recuam , tentando devolver o valor que foi tirado indevidamente , um jogo de reaproximação todo ritualizado , que vai desde da descontração do rosto até os agrados , que mesmo não sendo ditos, servem como meia paga ao que se ofendeu.

É uma jantinha aqui , um presentinho ali , um súbito interesse por detalhes a que nunca se prestou atenção , uma saída a um lugar diferente , enfim , uma série de compensações que visam recolocar no lugar, o que foi violado.

Esses 10 minutos , também não sabemos quanto tempo dura , embora fique a impressão que não há uma superação de todo ,e tudo pode voltar de repente , é preciso cuidado , aquela constatação de que tudo estava voltando a ficar bem e .... pronto , que merda ! tudo de novo.

Os 5 minutos finais que não acabam nunca , já entram em outra esfera , pois se trata de uma reflexão do que tem de mim em mim ? O que em mim é tão provocativo , às vezes sádico , às vezes masoquista , um gosto pervertido pela instabilidade ou brigas , uma renegação da paz enquanto sujeição , enquanto entrega que ninguém parece merecer.

Uma sequência do relógio que nos insere, enquanto, responsáveis pelo que vivemos , o denunciar da vítima que há em nós e também do algoz severo , pronto a castigar , em formas estúpidas ou por hostilidades silenciosas que se eternizam em mágoas pegajosas, que ignoram à passagem do tempo , sente-se como se fosse ontem, o ocorrido.

Mas nosso horror parece estar aí , ou seja, descobrir-se como um sujeito cujo desafio é assumir seu desejo e seu preço , o ver que a vida não nos deve, e reinterpretá-la é uma condição para sair do prejuízo.

Parece que só podemos ser feliz quando tudo nos for restituído , embora não saibamos exatamente o que , a ruptura narcísica que nos arremesa para o desconhecido , e nos denuncia em nossas exigências e controles viciados, o Outro que não me deixa ser , como diz Lacan , fala do neurótico cujo gozo é gozar de não-gozar.

Se houver, como diz Helling, uma Lei da compensação , então , é como para ter de volta, precisamos restituir o que foi tirado , e nesse caso o valor do outro , o que por sua vez também subtrai o nosso. É como devolver algo , para recuperar o que é nosso .

Penso que isso funciona como um círculo que se retroalimenta , em que , os 5 minutos finais voltam a cada etapa à se reinserir sobre os 5 iniciais , o como as curas num nível,tornam o reçomeço mais elástico , mais flexível e talvez não durem tanto. Isso nos alivia muito desses estados sinistros , que se por uma lado revela tudo de autoritário que há em nós , por outro é um tormento que sabota a vida em várias ocasiões , estragos que poderiam ser evitados, se a mordida não fosse levada tão pra dentro .

Mas temos dores sinistras, não visíveis , recorrentes, que fazem com que por um estranho processo, sempre caiamos no mesmo lugar , que já conhecemos e que parece nos conhecer desde há muito, uma ressonância cujas extensões nos fecham , roubam-nos as palavras, transfigura-nos às feições e escurece nossa alma.

Ao examinarmos mais de perto, parece que há feridas antigas em tecidos primários, cujas artérias emocionais irrigam velhos rancores , lesões profundas e atávicas onde um inimigo se estabeleceu e parece morar ali ,e está, sempre pronto a nos cutucar e ofender.

Nossa cura primordial depende disso , o acesso a um lugar aonde a consciência só vai a contra-gosto , ou porque não quer ou não pode , por isso é sempre atingida na contra-mão , o que faz parecer que os 5 minutos iniciais são sempre uma afronta ,algo que não aconteceria se não fossemos provocados.

Mas o velho retorno indica ao contrário , ou seja, sofremos de nós mesmos , a esperança esforçada e desejada , de que um dia saibamos retribuir às ofensas , senão com um sorriso , pelo menos com alguma emancipação que não estanque tanto, o fluxo do amor e da vida.

Sem dúvida, nesse dia, iremos nos agradecer muito o esforço, pois será nossa carta de alforria dos grilhões, que por nos mal-dizer , também nos invoca tudo que parece mal-dito nos outros.

Viva nós , viva o ajuste que buscamos fazer em nossos relógios até o tempo ser livre , como nós gostaríamos de ser.

De bom grado os comentáios


14.7.11

OS ENCALHADOS



A imagem do vivo que encalha é impressionante , uma angústia do que foi interrompido , um movimento que sabe-se lá porque, empacou e nos desperta o desejo imediato de recomeçá-lo ou recolocar através de algum ato nobre à condição que possibilite retomá-lo .

Uma baleia , um golfinho , imagens comuns que nos frequentam têm um poder aglutinador espetacular , surge gente de todo lugar pra ajudar , um esforço comum pra que a criatura recupere seus movimentos e volte pro seu habitat , dando a nós o sentido de recuperação do fluxo, algo como a vida continua.

Uma alegria e um alívio que nem sabemos explicar exatamente , como que em algum nível do inconsciente nos identificássemos com cada etapa do processo , desde de seu sucumbir provisório, caso seja, até a liberação dos gestos , o vigor do estilo , a beleza das nadadeiras indo com disposição em direção ao mar .

É como se estivéssemos indo e soubéssemos aonde chegar e de repente , pronto , encalha-se, nem pra lá nem pra cá , um misto de impotência e aflição , uma imposição por falta de posição , que nos submete ao estranho , o que não foi convidado, e nos rouba o movimento, trazendo a angústia da incerteza , a imprecisão de nosso destino.

Encalha-se em qualquer praia , ou seja, na do amor , no dinheiro , nos propósitos , nos sonhos, enfim, aonde se quer chegar corre-se o risco de encalhar.

Mas se por um lado há o encalhe , por outro há o encalhado , à condição e a criatura , um misto alternado de limites e desafios , uma imprevisibilidade dos resultados, um interjogo onde busca-se remover o que impede e por outro sonha-se com a soltura do que estancou.

A questão maior é quando numa visada mais ampla nos damos conta que os encalhados são muitos , gente que nadou com esforço , gente que sonhou com o prometido , gente que quer pertencer , gente que quer amar , que quer casar , que quer trabalhar, gente que quer o seu lugar, gente que quer ser gente .

Num livro recém lançado sobre Bombaim , a cidade mais populosa do mundo, o autor mostra a revolta de uma juventude traída em seus ideais , que depois de receber toda educação formal com vistas ao mercado descobre que não há emprego pra todos , corroborando a tese de Jeremy Rifkin sobre uma sociedade sem empregos.

Por outro lado Boman em seus diversos livros sobre a modernidade líquida traduz de forma sensível,todas variações no campo do amor , principalmente, quando se trata das implicações que o amor suscita nos protagonistas quando se trata de se comprometer , o que trás a idéia de algo perene . Se não podemos descartá-lo, é melhor não se comprometer , um mecanismo que tem deixado na praia dos encalhes um monte de sonhos de casamento , um imenso desejo de pertencer à ordem de reprodução da vida.

Chora-se e angustia-se muito com a amarga impressão que o tempo passa e nada acontece de forma mais profunda , a vida presa histericamente no raso , a falta de identidade da dor que espera o acontecer e as ofertas esteréis que buscam disfarçá-la , sofre-se sem poder dizer porque , já que dores da alma são invisíveis.

E são invisíveis não porque não tenham nome, não , não é isso , e sim porque hoje é vergonhoso chorar pela alma , o lugar onde as permanências vivem e reinvidicam a dimensão do profundo,pois uma vez passado o pacto das histerias coletivas, busca-se o que é singular , o modo como as realizações fazem a vida valer a pena .

Mas diz uma cliente “ pra que falar de sentimentos , se isso pode ser uma arma contra você ?” , e isso tem se tornado um lugar tão comum num mundo violento e cheio de distâncias , que embora os sentimentos sejam o alimento de qualquer vínculo , foram relegados a uma categoria menor, inclusive, na Psicanálise.

Não há propostas no amor que possam prescindir do que se sente, o modo não elaborado e espontâneo que fazem que o convívio seja um lugar de espantos e descobertas mútuas , um alegrar-se juntos , a inocência que mesmo relegada , é a única forma que nos permite não fazer dele,do convívio, uma grande paranóia.

Não temos planejamentos sociais que nos de o alcance do que virá , gerações que chegam, renovam , pois trazem o novo , os ímpetos e o imenso desejo de aprender e conquistar, um sangue novo , o entusiasmo juvenil a ser trabalhado e esculpido em seus próprios termos, a renovação da própria vida.

Não, insistimos em ser velhos e viscosos , o osso é nosso e pronto . Típico raciocínio debilitado, pois ao perdermos o espiríto comunitário, deixamos de ver o futuro em quem nos sucede , a visão tosca e burra dos que não querem morrer em nada.

“O poder não se passa , toma-se” dizia Foulcalt, indicando que tudo nos fará guerrear , pois não se vive sem poder . Passar o poder para quem se prepara sempre foi o modo das sabedorias antigas , um ritual sábio e cheio de amor , pois os que recebiam se comprometiam a usá-lo em prol da comunidade , sua gente , sua tradição seu povo querido .

E sabia-se a hora de fazê-lo , pois tudo amadurece e não convém perder o tempo , senão estraga,algo como a fabricação do vinho , tempo da colheita , sumo propício a próxima etapa.

O que fazemos hoje? Um tipo” Deus dará” que só faz nos atormentar , um falange de gente encalhada em todos os níveis da vida , um povo orfão de oportunidades e de propósitos que tem custado alto aos governos e as políticas públicas , pois parados, custam muito mais,e uma enormidade de corações sedentos , buscando acasalamentos para serem fecundados e engravidados de amor sincero.

A vida é amor e trabalho dizia Freud , dois pilares imprecindíveis da dignidade da criatura humana, e manter essas condições, é possibilitar que a vida ofereça seu sentido maior, sua ordem de grandeza ,que se refaz a cada passo conquistado. É como se a cada avanço , novos desafios se apresentassem, nos dando o gosto pelas conquistas , “Eu sou minhas conquistas” dizia um amigo querido . Mas quando os desafios não apresentam suas relevâncias , e se pasteurizam ou se tornam desesperos , uma ameaça começa pairar , ou seja, ou paralizamos ou se atiramos de qualquer jeito, a figuração bipolar que marca o psiquismo moderno.

Queremos ser feliz , sem essa ficção ontológica, começamos a não saber o pra que, se não trabalhamos , se não amamos, o sentimento ontológico de mutilação começa a nos corroer , uma estranha carência de si e do outro , a falta do gosto de ser importante para alguma coisa que seja.

Deprimimos, o valor próprio é barateado como auto-estima de livro de auto-ajuda, sofremos da acidez de precisar e não conseguir pedir , uma tristeza profunda que nos abate a alma, como se nossos sonhos primordiais de realização, ficassem tão distantes e pálidos que temos medo de confessá-los.

Trabalhamos para construir e nos construímos pelo trabalho dizia Marx , e “uma vida sem amor é uma vida morta” ensinava Osho , ora uma visão que não tenha isto em conta é obsoleta e engendra um tipo de violência niilista, a violência do nada , do coisa nenhuma , o pertencer a inconsistência , uma falta de crédito no que se quer , um esvair-se do que se acredita.

Todo poder é uma direção para luz ou para sombra , um gesto que tem custado caro e muito arrependimentos, quando chega à consciência do que se poderia fazer para que tudo fosse maior e mais bonito, e se ficou preso num nível menor , o que não foi bom nem pra si, nem para os outros.

Os encalhados fazem apêlo e têm força , pedem chances e oportunidades para se incluírem, participarem e realizarem , denunciam um tipo de perversão coletiva , um sistema com critérios obsoletos com conceitos ultrapassados , que busca manter seu modo estabelecido , às custas dos que querem e precisam chegar.

A questão dos imigrantes , a xenofobia sacial , as supremacias étnicas , tem trazido tanta violência e tantas perdas , com dores tão indescritíveis , inclusive os genocídios , que talvez já estamos imersos num tipo de loucura assassina e auto-destrutiva , cujas medicações só estejam num tempo futuro da consciência .

É preciso abrir e oferecer com justiça e com amor , pois só assim teremos argumentos para contrapor a ordem sintomática, que tem produzindo sujeitos que tangenciam os vínculos sociais, por não se sentirem comprometidos com o cinismo que se tornou uma epidemia , a vida subjugada ao modo de desempenho , uma fábrica de artistas , cuja arte maior é mentir como se fosse verdade , a máscara como se fosse identidade.

O poder , em geral, tende a ser anacrônico e repetitivo, uma rede elaborada de acomodações e prestígios particulares , e se for protagonizado por gente coisinha fica crônico, e só produz atrasos,a condição para ignorância apaixonante , o sintoma como deslocamento da verdade,       a cegueira que nos permite tornar indiferente o que é maior.




















2.7.11

O PRIMEIRO FILHO

Filho
> “é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como
> amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos
> para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
>  Isso mesmo!
>  Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é
> se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar
> agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
>  Perder? Como?
>  Não é nosso, recordam-se?
>  Foi apenas um empréstimo!"
>
>                                                  José Saramago



Em geral , após passar algum tempo na ante-sala , tão providencial ao sentir e o conhecer, como aquele período em que o acasalamento mostra os sims e os nãos de cada um , e ao mesmo tempo usufrui-se de uma liberdade sui generis, pois agora a casa é nossa, a vida é nossa , sem mamãe e papai e vamos curtir que a hora também é nossa , vem o desejo de ter filho.
Aqui seguimos a rota usual , sabendo que outras rotas existem e todas abençoadas , onde o primeiro filho chega sem ter esse compasso ou esse consentimento gradual , pois descobre-se que se está grávida e pronto , o filho primeiro e o acasalamento depois.
Há primeiros filhos que são programados , outros não e de uma forma ou de outra segue-se a vida, e daí muitos casais se formam ou não .
As dinâmicas históricas não vem bem ao caso , já que cada situação é singular e levando-se em conta a natureza dos tempos modernos , diríamos que as modalidades de recepção são amplas e variadas , e a idéia de reprodução hoje, não obedece aos padrões regulares estabelecidos e como tudo nos confronta com aberturas que nos obrigam à buscar outros modos de concepção.
O casal chegado à um têrmo relacional ou a um tempo de nova inclusão decide então ter um filho, o primeiro , o que inaugura o núcleo familiar , o herdeiro , aquele que uma vez aqui, instaura o pertencimento num nível diferente , pois por princípio, filho é a própria figuração do para sempre.
É, sem que conscientemente vejamos assim , nossa inserção no grande mistério da vida , nossa "entrance" na ordem de reprodução , que tantas alegrias trarão e sofrimentos também,nossa iniciação nos níveis profundos , o elo inquebrável de vidas que se espelham e que terão que se diferenciar , um certo destino comum que muitos irão bem dizer ou amaldiçoar de acôrdo com seus alcances e limitações.
O casal, oferece então à vida, e não só biologicamente , mas um espaço a ser ocupado por alguém, que uma vez chegado nada mais será o mesmo, uma inclusão de prazo indeterminado.
O útero , este orgão espiritual abençoado ,a casa de todos nós, se prepara então para o grande processo alquímico de transformação , impelido pelo grande desejo da vida em se perpetuar e se aprimorar junto com todos seus seres , abre seus elásticos, se aquece para fornecer o calor tão necessário aos metabolismos incontáveis, que num sistema de trocas e estimulações mútuas consagram o substrato físico da beleza cósmica da Criação .
A matéria sabe de cór suas etapas , do embrião ao recém-nascido , uma bela cadência e encaixes tão impressionantes que não há como não se curvar à inteligência superior e cuidadosa , tão precisa nos detalhes e tão delicada na arte  biológica , que ao assistir à formação dos que chegam , nos regojizamos num tipo de prece profunda e de gratidão , um reconhecimento de nossa sujeição ao Absoluto .
É incrível observar como ao se reproduzir , além de todo espetáculo extraordinário que nenhuma ação humana parece capaz , somos convocados em níveis comoventes a relacionar que a mesma ordem que coordena suas fases e nos oferece o bebê como sua parte mais externa e como um belíssimo presente , é a mesma que nos construiu e nos trouxe, para sermos o que somos hoje.
Amparados pela força magnética do desejo dos pais , amparo amoroso a qualque processo biológico , nutriente fundamental que uma cultura materialista tem dificuldade de perceber,nascemos desde sempre no desejo da mãe , segundo a Psicanálise , desejo propulsor de recepção e de imantação calorosa , matriz de uma recepção que segundo alguns ,irá nos marcar para sempre. 
Há quem afirme que somos uma expressão ao nascimento, ao como fomos concebidos no desejo e celebrados no chegar , o entusiasmo da festa de chegada , o sentir em planos ainda não resolvidos conceitualmente , que somos importantes para alguém , que todo esforço feito para vir, valeu a pena.
Amor , ódio ou indiferença ,e embora não queiramos, é assim, nem todo filho nasce com festa e nem todo filho é fruto de amor . Pertencem à legião de criaturas que acrescidos de outros fatores serão refratários à ordenação social e às políticas de inclusão não poderão ser apenas mandatos de boas intenções.
 O casal então prepara-se para o grande fenômeno , cujo símbolo é a paciência de quem vai aprender a esperar , como diz Osho " a gravidez é o símbolo da paciência" ,e sem dúvida , uma paciência grávida , cheia de alteridade , um rosto imaginado , um encontro sentido energéticamente , mas um corpo por vir , uma forma encarnada que conjugará o sentido do dois no um.
Pai e mãe , uma dupla , uma união cheia de projetos e dúvidas , um aprender juntos , um pouco a cada dia , que começa no nome até devaneios particulares de como será o amanhã, será saudável? bonito? feio? enfim, interrogações ditas e não ditas , mas perfeitamente humanas , nosso posicionamento perante o que não podemos antecipar.
Já muitas coisas costumam acontecer durante essa espera e que funcionam como ajustes para o casal grávido , muda o corpo da mulher , alterações metabólicas podem ser bem sentidas ou não , provocando desejos e vômitos , sensibilidades se afinam ,enfim, um teste que promove exercícios conjugais , e vai revelando os modos de cada um .
O casal se conhece e se desconhece , se reapresentam um ao outro , pois até então o cenário era um , agora mudou, há o terceiro , arquétipo do ciúme , da possessividade , da exclusão e também da entrega , do ir além de si , uma profunda contribuição à ordem humana.
Ao nascer o bebê já encontra seus pais em outro nível , a mãe principalmente , pois após 9 meses muito já se ambientou e muita intimidade foi construída , desde a ultra-sonografia até os chutes e movimentos que emocionam, por se ter a certeza de que há alguém especial ali , tão esperado e desejado .
O casal já não é mais o mesmo , avançou e começam a ter uma noção mais intensa de que se precisam , pois a tarefa assumida é profunda e árdua , prazerosa e desgastante , revezamentos são bem vindos e se sabem perante alguém que veio para ficar e quer viver.
Acho indescritível esse segmento do tempo na vida do casal , muitas coisas que ali acontecem podem se sedimentar e vivificar muito as disposições para o viver juntos, mas podem também mostrar o quão difícil tudo poderá se tornar.
A princípio toda criatura humana é filho da mãe, é ela é que é, toda disponível arranja forças sabe-se lá aonde, em geral para lidar com um filho que pede tradução quase sempre , uma gramática que vai descobrindo aos poucos , uma sinalética a dois , onde o pai fica fora esperando ou para entrar ou pra sair rápido, à inclusão negociada que exaspera as mulheres.
O filho,esse primogênito , o herdeiro que recebe todos os motes e a virgindade dos pais, é o centro , tudo é engraçadinho , ah! as marcas que ficarão como lembranças e possíveis exigências posteriores, um lugar perdido e sempre reinvidicado , sua majestade , o primeiro.
Mas também é verdade que o primeiro é o desbravador , o que encontra aflições e medos a flor da pele , porque só se relaxa depois , em geral,no terceiro. É também chamado ao lugar do  exemplo, quando nascem os outros, e não raramente pode ser convocado a se tornar adulto precoce , o que oferece à infância como dispensa do trabalho dos pais .
Logo após a vinda dos irmãos , é o que será um tanto esquecido , ocupará um lugar do meio- sem –graça , será olhado pelos estudos , pela boa conduta , mas não mais pela graça , patrimônio que será passado ao caçula , aquele que saberá apelar para sua minoridade quando lhe convier.
A essa altura os pais já são completamente outros , felizes ou arrependidos , juntos ou separados, lá estão eles com sua troupe , a tarefa cósmica de educar , a escuta particular de quem é cada um, seu jeito , seu estilo, e o aprender o exercício de amar diferenciando à singularidade, a abertura da generosidade do coração para o que é ímpar em cada um.
Amor investido , nem sempre reconhecido, sombreado pelas dúvidas de quem tem o outro como responsabilidade, questões de dívidas e culpas onipresentes , mas uma convicção especial que com tudo e apesar de tudo , valeu a pena , pois também pode se ver o quanto se amadureceu , e o quanto sem isso,corre-se o risco de algo ficar mutilado na realização.
Lamentamos não ter mais o espírito da comunidade que nos ensinava a festejar coletivamente o nascimento de seus descendentes , pois eram parte do todo , e representavam toda tradição daquela comunidade . Cabia recebê-los e bem , seriam bem vindos para honrar o patrimônio comum e assumirem perante o futuro os valores consagrados daquela sabedoria ancestral.
Alguém muito importante nasceu , e isso importa a todos nós , pois o modo como cada um saiba ou não disso , decide parte de nosso destino comunitário. Se alguém nasce e não recebe importância, sente-se descomprometido e sem laços vinculativos , um fosso no encadeamento das pontes sociais.
Nascer é um ato profundo como morrer, nossa tarefa cósmica de amor, ajudar um ser a se construir, um substrato para lidar com todas as variações da vida , aquele mesmo filho que um dia esteve ali, bem ali dependente e solícito, vai se transformando de forma espetacular , rumo à emancipação , enfrentando o curso de seu destino e se tornando um protagonista da ordem humana , e é justo aí , que celebramos nossos investimentos.
Tudo que se quer é o Bem , mães e pais lutam por isso , que seus filhos devolvam o que receberam, qualificando os investimentos e se tornando um “ Homem de Bem”, uma pessoa digna, cheia de erros e disposta a acertar , alguém que hoje não precisa ser “doutor”, mas que não viva de lesar os outros .
Talvez, devessemos lembrar a muitos, que o que fazem hoje não foi o que aprenderam de seus pais, principalmente enganar o povo em benefício próprio.
PARABÉNS AOS PAIS E MÃES QUE TIVERAM AMOR E CORAGEM PARA COLOCAR FILHOS NESSE MUNDO , AONDE SE DIZ, EM MAIS ALTO TOM FILOSÓFICO, QUE “DEUS ESTÁ MORTO”.





19.6.11

O FEIJÃO COM ARROZ : UM CASO DE AMOR

Crônica de uma dupla bem-sucedida

"A elite cultural distanciou-se do resto de nós pelo gosto artístico seletivo e por critérios estritamente definidos-em clara oposição ao nosso gosto sem discernimento e caracterizado por flagrante oposição de critérios. Foi essa oposição que sustentou a divisão entre a "alta cultura" e a" baixa cultura" (popular ou de massas ) Pierre Bourdieu citado Boman em " 44 cartas do mundo líquido moderno".
Eis uma reflexão sobre como os símbolos da baixa cultura ( feijão com arroz) promovem uma militância subversiva e alça às mesas nobres , num tipo de socialismo generoso e com armas do requinte e do paladar.

O FEIJÃO COM ARROZ :
Na verdade não é uma mistura , não , de forma alguma .É dessas combinatórias onde a vida resolve se juntar e mostrar que dá certo,uma assertiva da atração .
Em geral , o feijão por baixo e o arroz por cima , sem dúvida mais elegante do que o feijão esparramado por cima , meio lambuzando o cenário .
O arroz sendo branco realça bem a superfície enquanto o feijão dá um tipo de vinil irregular ao fundo , ao mesmo tempo que assanha velhas reminiscências transgeracional e diga-se , tendo como senha do tempo, especialmente o tempêro .
O tempêro , a velha magia que sempre moveu o mundo, talvez porque em contraste com o de sempre, chamava à diferença e o aguçamento dos sentidos,o prazer oral , para muitos o único prazer dos Deuses , o prazer por excelência , já que começamos por ele e nunca mais saímos.
Ao serem colocados no prato garantem o substantivo , garantia do básico como alicerce , como se a arquitetura dos detalhes , só pudesse ter seu realce no depois , o requinte do a mais , sempre bem vindo , mas um tipo de agregado mais superficial , que abre a brecha para uma nova combinação.
Os agregados , saladas, proteínas como carnes em geral , as massas , ao mesmo tempo que representam uma identidade histórica , sofrem um tipo de sujeição particular quando há o feijão com arroz , que compassam o fundo , o gosto primário, onde o Brasil é terra.
Saboreia-se a terra de uma forma única , derivações do coito brasilis, onde o dois é a consagração da soma, pois , a idéia de ambos , eleva a um terceiro que só a boca entende , pois eis ali a passagem consolidada do líquido para o sólido , uma entrance na magia familiar.
Compete-se pelo melhor feijão , aquele que de fato é o falo , aquele que faz falar ," ah! que delícia" , a plenitude do preto em geral , aonde o branco numa inversão dos pré-conceitos faz a figuração coadjuvante , mas primordial , uma submissão consentida e humilde dos que servem para que outros brilhem.
O arroz é assim , embora tenha sua magia própria e um cardápio de requintes , aqui em nosso caso , é aquele que se empresta para ser consumado , o servo nem sempre citado , mas indispensável , a noiva deflorada a cada prato , onde os méritos são reconhecidos não pela sua oferta , mas pela performance do noivo.
Mas a combinação , que não é uma mistura , como parece a primeira vista , produz um encanto que passa a a ter com a fome uma relação diferente pois chega antes , ou seja, se constitue num tipo de figuração onde a fome é induzida apenas como acesso ao gozo.
Se come sem se comer , um ato sem determinação sólida , uma liçença virtual que o imaginário permite e concede a quem merece , e o feijão com arroz é assim , o um com outro, uma alteridade emancipada , um coito silencioso e com cheiro doméstico de família.
O feijão serve como marca emblemática de talento inesquecível , pois, saber-fazer feijão com tempêro e cheiroso , ah! leva o título campeão , e se inscreve no livro das façanhas culinárias.
Ah ! este é bom ! mas não é igual ao da minha mãe , ou da minha vó, ou da empregada, ou seja lá quem merecer o título , mas será esse feijão campeão que se estabelecerá como medida para os demais , num tipo diploma permanente e ao mesmo tempo de possíveis saudades acalentadas com recordações de cuidados e carinhos .
Lembro-me por exemplo , e esta parece ser uma questão para os fazedores de feijão , que o louro em folha de repente aparecia , como um tipo de intruso , bem vindo para uns, não para outros.Depois veio o em pó , o louro em pó, que alguns é uma heresia ,e também os têmperos industrializados que equalizaram a cozinha moderna com suas próprias fórmulas genéricas , já sem a alma dos segredos que sempre marcaram a arte culinária.
Essas mudanças aparentementes úteis , acompanham a transformação do tempo considerado hoje do ponto de vista prático , ou seja,não há tempo a perder , come-se o prático e dispensa-se as liturgias e ritualistícas das dedicações , uma perda que os restaurantes tentam aproveitar cobrando alto o preço do resgaste .
Os chamados acompanhamentos também entram numa certa relação de afinidades populares , e no nosso caso , por exemplo, o bife com batatas fritas , uma outra dobradinha muito apreciada que compõe um quarteto extremamente apreciado por muitos.
Feijão com arroz e bife com batatas fritas, minha nossa , aprende-se lá na infância e confirma-se o conceito de fixação , tão cara a Psicanálise , um prato duplamente cheio , tanto para os psi , como cheio para o desejo de que não acabe , que o prato esteja cheio mesmo.
O arremate final também é espetacular , pois guarda-se aquele pedaço final do bife com algumas batatas, caso de morte caso alguém chegue perto , é o fragmento final , guardado como símbolo do que falta para a completude , a satisfação do uno , a dimensão mítica de que não se precisa de mais nada , a experiência de satisfação revivida momentaneamente , o retorno do seio pleno.
Por outro lado não há comida que não passe pela energia dos que fazem , e mesmo em restaurantes observa-se o zelo de quem faz , pois parece que o alimento tem uma dimensão que só abre para além dele mesmo quando recebe algo do coração do feitor.
Está em jogo o alimentar, enquanto um gesto materno , um feminino cuidador , uma reverência solene que nos sugere em muitas ocasiões comer calados , como se a boca naquele momento fosse tomada de uma recepção única e concentrada , onde as palavras se recolhem para apreciar , um tipo de coro grego que sublinha o mais importante.
O jabá com girimun , também é uma outra dupla famosa , embora menos cotada, mas de grande prestígio , a carne seca com abóbora , uma combinação também de beleza , pois os secos se combinam com úmidos, assim como os queijos se combinam com goiabadas, numa conjugação que colorem à neutralidade da saliva e testificam que o desejo também é fruto do olhar.
Essas composições harmoniosas também nos levam aqueles lugares onde podemos sonhar com encaixes , suposições relacionais que quando se juntam tornam ainda melhor o depois, talvez mostrando que esse junto têm seus méritos aonde acrescentam e se destacam como unidade assimétrica.
E embora sejam básico e por muitas vezes sinônimo de povão , essas dobradinhas figuram o imaginário alimentício como despojamento , como simplicidade , como delícias, onde as classes sociais se encontram , talvez preconizando uma possibilidade dos cardápios, além do dinheiro, serem também uma mesa comum.
O feijão é o feijão , bem como o arroz , mas juntos destacam um momento que sózinhos não poderiam , e ao proporcionarem tamanho prazer se tornam inesquecíveis , um apêlo da boca quando se sente só.
Valeu.
Homenagem ao meu amigo Dr Wilson Soares Câmara, bom gourmet e apreciador de feijão com macarrão.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Há ou não inveja do pênis?